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quinta-feira, 29 de março de 2018

O último parecer


          Depois dos estimados Victor Gaspar e José Alberto Pereira Coelho (o imparável Zé Beto), outro amigo me deixou cada vez mais só a olhar para a tristeza política actual; morreu o meu amigo e mestre João Calvão da Silva.
            Sem saber bem como prestar homenagem a uma figura muito mais relevante do que eu, preferi dar-vos uma série de “polaroides” da minha convivência com o Professor Doutor Calvão da Silva.
            Foto 1: corria o ano de 1992 e Paulo Pereira Coelho chama-me para me apresentar o candidato à liderança distrital do partido, liderava eu a JSD. Retenho um diálogo muito cordial e, algo que viria a ser constante, uma preocupação do Professor pela parte académica, perguntando como iam os estudos (viria a ser seu aluno nas cadeiras de Direito Processual Civil e Direito das Empresas).
            Foto 2: já na faculdade, faço uma colagem de fotografias. Lembro-me de estar à conversa com os colegas, quando para meu espanto e gáudio daqueles o Prof. Calvão me agarra pelo braço, dizendo “vamos fazer política”, algo a que se seguiram várias voltas pelos Gerais. Esta prática viria, respeituosa e bem-humoradamente, a ser designada por Nuno Freitas de “passeio peripatético à Calvão da Silva” (alusão ao método pedagógico da escola filosófica grega).
            O outro momento “escolar” teve a ver com uma oral de Processo Civil. Tratava-se de uma melhoria de nota e a ela fui “intimado” pelo zelo do Professor. No início da mesma e no seu decurso, mais uma prova da integridade e do empenho académico de meu Mestre, pedindo que a oral tivesse assistência, para afastar suspeitas de conluio laranja. Correu bem…
            Foto 3: se me não atraiçoa a memória, foi em 1993 que o meu léxico e a minha investigação seriam avaliados e impulsionados pelo Professor, num jantar partidário, em Poiares. O primeiro momento apareceu quando me contava a mim e ao Nuno Freitas que, noutra ocasião recente, fizera um “discurso trans-partidário”. Tudo isto ficaria sem registo não fora o facto de o Professor nos ter perguntado: “sabem o que quer dizer trans?”… A partir daí, perdi a conta às vezes em que o maçávamos chamando-lhe “trans-Professor” e perguntando pelos “trans-discursos”, algo que Calvão da Silva “encaixava” com britânico (ou coimbrão) “fair-play”… No mesmo jantar, uma frase do Professor sobre a relação dos media com a política, fez com que lhe dissesse que me tinha dado uma ideia. Anos mais tarde, tal daria uma tese de mestrado e um livro.
            Foto 4: por esses anos recordo uma miscelânea de momentos marcantes como o orgulho com que, na imposição de insígnias, sublinhou a sua mãe que das origens comuns saíra um professor de Coimbra, o encontro em Budapeste e o convite para ver o seu Benfica (aguardo visita policial), e a pergunta, em 95, sobre de devia contratar o “Bicho” (trata-se de Iran Costa e do seu sucesso do momento, tendo o meu conselho sido o de aceitar, resultando num êxito nos comícios de Coimbra e da Figueira da Foz).
            Foto 5: contudo, o momento mais marcante terá sido a frase que me revelou antes de a pronunciar numa Assembleia Distrital; “há ideiais do comunismo que permanecem válidos”. Calvão da Silva era um social-democrata de mão cheia.
            Este formato não visa caricaturar; quer, isso sim, demonstrar que João Calvão da Silva me marcou como mestre, como líder e como amigo. Esse será o parecer que sempre guardarei comigo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Cortejo dos condenados

Anda o nosso País a festejar o Carnaval (aqui no Brasil nem vos conto…) e tento perceber que imagem colhe alguém que o mira de fora.

Verdade seja dita, apesar de ser inquestionável e inegociável o meu patriotismo, fico com a sensação de que a história se vai repetindo, como se todo o ano estivéssemos condenados a manter-nos à tona de água, sem sair de um cortejo com mais toques de marcha de condenados do que de euforia carnavalesca.

Senão vejamos: a novela em torno da apresentação da declaração de rendimentos de António Domingues prolonga-se indefinidamente, chegando já ao correio electrónico e às mensagens telefónicas. Que não se iluda o leitor! Considero essencial o apuramento da verdade sobre o que disse o Ministro das Finanças e quem mais interessar ouvir, dada a importância da Caixa Geral de Depósitos e, mais do que isso, do valor ínsito da verdade. Porém, parece pouco para ser o assunto do dia de uma Nação velha de mais de oitocentos anos.

Em registo idêntico classifico a não divulgação da fuga de capitais para paraísos fiscais. É grave? Gravíssimo! Mas e o que temos para além disso? Offshores e Paulo Núncio são o novo capítulo dos manuais de História de Portugal, daqui a trinta anos? Oxalá que não…

Morbidamente divertido acaba por ser o facto de os partidos (vê-se bem no PSD) ainda não terem associado o nível rasteiro do quotidiano político à dificuldade de recrutar gente de nomeada para concorrer às autarquias (isto a mais de alguns dos actuais dirigentes locais e distritais terem ando divertidíssimos a decepar cabeças pensantes e, logo, pouco dadas a obediências acríticas).

Quem tenha uma carreira de sucesso e a liberdade de pensamento como pedra de toque do seu existir dificilmente quererá trocar a sua realização pessoal por salários que já pouco têm de principesco e sujeitar-se a gerir escândalos, sem a real sensação de que podemos dar saltos de qualidade.

Apesar de tudo, guardo boa dose de expectativa para o embate entre Manuel Machado e Jaime Ramos, sendo que este último me parece ser umas das excepções às dificuldades de recrutamento laranja que mencionei. Espero, todavia, que o debate fuja à banalidade e ao ajuste de contas. Li por estas páginas que o Presidente-recandidato resolveu problemas graves com o Convento de São Francisco, o que se torna num convite à oposição para recuperar o tema da Ponte Rainha Isabel… Creio que Coimbra precisa de ideias e não de contabilidade política.

Vendo ao longe, fica a ideia de que parecemos condenados a pagar a conta do leiteiro, da luz e da mercearia e a ver se os trocos do fim do mês chegam para ir à praia. Com franqueza, parece pouco para quem fez, como dizem, a primeira globalização…

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Estimado Paulo Sérgio…


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          Oxalá, na altura em que receba esta missiva aberta, já se tenha acometido de um surto epidémico de bom senso e dado às de Vila Diogo…

Não tenho, todavia, qualquer esperança de que assim seja, vendo a resistência coriácea com que se mantém aferrado ao banco, após lograr o triunfal pecúlio de uma vitória em dezassete encontros.

Em bom rigor havia que assacar responsabilidades a quem o contratou e o mantém. Li uma citação divulgada por um amigo, que creio ser eloquente; a saber; “ ‘depois de ponderarmos todas as variáveis sobre o que pode ser melhor para a Académica dar a volta a este momento menos bom, hoje falámos com o todo o grupo e entendemos que as soluções estão dentro de casa. Queremos fazê-lo, os jogadores estão conscientes disso e o treinador quer fazê-lo. É com esta equipa e com este grupo que vamos até ao fim’, disse o dirigente. - Luís Godinho à LUSA (fonte: Maisfutebol)”.

Ora bem… Para resguardar a boa relação pessoal que mantenho com o seu superior hierárquico (apesar de sempre me ter situado quase nos antípodas da sua visão desportiva e social sobre a Académica), escrevo-lhe a si, “mister”, embora me apoie nas lapidares e quase alienadas palavras ditas.

De que o Sr. Paulo Sérgio quer “fazê-lo” (assumindo que falemos, com uma pinga de realismo que ainda sobeje, da manutenção), sinceramente, não tenho dúvida. Porém, a questão é, isso sim: ainda pode fazê-lo?

Não me atrevo a questionar a sua competência profissional (bem basta a alarvidade de Manuel Damásio para com Manuel José), mas, como adepto, afirmo que tenho seríssimas dúvidas de que consiga inverter a espiral descendente em que a Académica entrou, por muito que o demérito alheio possa, no final das contas, assegurar o objectivo mínimo almejável. Sem que seja necessário comparar currículos, por vezes, a simples troca de timoneiro evita o naufrágio.

E mesmo que não seja pela sua saída que os resultados aparecem, creio que quem tem as rédeas do poder deve tentar de tudo para salvar a honra do convento, sacrificando a abadessa, na impossibilidade de trocar todas as freiras que, em bom rigor, deixam a desejar na sua grande maioria…

Como não vamos por aí (acabam de fazer uma profissão de fé sobre o seu trabalho), não seria digno assumir que talvez não consiga cortar o nó górdio? Ou será fundado o rumor de que o problema tem a ver com a impagável indemnização? Nesse caso, permita-me dizer-lhe, salvo o devido respeito, que o dinheiro não é tudo, mormente quando estão em jogo a história de uma instituição e a sua própria reputação
 profissional.

Poderá dizer que a equipa não é a que queria ou que outros se afundarão ainda mais do que nós, mas, por favor, não me preocupe ainda mais, repetindo que estamos perto do desejável…

Como lhe disse no início, não era a si que deveria dirigir-me, mas se puder fazer o obséquio de, citando-o de cor, “pegar na mala”, creio que ainda poderá deixar (essa) grata recordação.

sábado, 28 de setembro de 2013

Câmara, mesa e roupa lavada



Em semana de eleições autárquicas é duplo o meu martírio: não posso votar (estando a viver fora de Portugal) e não posso lançar chamas sobre muito do que tenho lido e visto… Quem se deu ao trabalho de me ler aos tempos em que outra cor governava o município de Coimbra, saberá o muito que eu tinha a dizer sobre um putativo regresso…

Cônscio, porém, das minhas limitações presentes ao nível da opinião política, dei comigo a pensar no que queria para a minha eterna cidade.

Desde logo, emprego qualificado. Um dos grilhões que sempre carreguei – eu e tantos outros da minha geração – foi ter que sair de Coimbra para encontrar um emprego adequado a qualificações superiores ou, por vezes, um emprego em termos puros e simples. Não sendo professor ou médico (e mesmo aqui adivinho já dificuldades crescentes), não resta outra alternativa a um indefectível da Lusa Atenas que não a de respeitar o padrão algo subdesenvolvido de um País que torna a sua capital no único pólo real de emprego.

Depois – já o disse várias vezes – creio que os elos de efectiva e afectiva ligação entre os motores que ainda funcionam há muito foram levadas pela corrente de um rio de indiferença e ensimesmamento. Tenho para mim que se a Universidade e a Câmara falassem mais amiúde e mais informalmente, muitas ideias brilhantes poderiam ser aproveitadas para encontrar uma diferença que torne Coimbra apetecível não apenas como centro de saber académico (a lembrar um pouco a Academia do Sporting que, antes do actual presidente, formava grandes valores para outros clubes), de saúde de excelência ou de património único, mas também como destino de investimentos reprodutivos, já que tem recursos altamente preparados, centralidade e acessibilidade e, diga-se, muita qualidade de vida para quem dela possa usufruir, quedando-se à beira Mondego. Acresce que envolvendo na equação, ainda que em fase ulterior, a A.A.C./O.A.F. se acrescentaria, a mais de um elemento de auto-estima, um poderoso meio de promoção da Cidade.

Entendo, sobretudo e em suma, que importa recuperar para a política uma elite e um pensamento ideológico que já lhe deram credenciais no país de outros anos. Falando do PSD (a realidade que conheço), lembro-me de ainda jovem não perder pitada das discussões travadas nas assembleias concelhias e distritais, tal o gabarito da maioria dos oradores e tal o requintado jaez da quase totalidade das intervenções. Sem qualquer desprimor para os dirigentes de tempos recentes, Coimbra só dará cartas no plano nacional (seja no PSD, no PS ou na política em geral) se apostar na riqueza do pensamento e no carisma de quem o expressa.

É também disto que se fará o próximo acto eleitoral.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Estilo Emanuelino

Há estilos que ficam para a História e outros que ficam para uma história. Neste último caso, receio que possa vir a englobar-se o técnico da Briosa, Pedro Emanuel.
Aqui chegados, duas notas prévias, tentando desmontar a priori igual número de tentativas de desvalorização de opiniões como a que vou expressar: por um lado, aceito que é mais fácil ser “treinador de bancada” do que conduzir uma equipa. Todavia, se a análise amadora estivesse proibida ou fosse ilegítima, os estádios estariam (ainda mais) vazios. Acresce que a essência de qualquer democracia é, precisamente, evitar o governo da elite que tudo julga saber e que governa autoritariamente.
O segundo óbice que viso precludir é o mesmo que nunca aceitei na política: geralmente, diz quem defende o status quo que os críticos “fazem o jogo dos adversários”. Nada mais demagógico! É bem possível que quem critique se identifique incondicionalmente com a instituição cujo rumo questiona.
Feito o interlúdio para aplacar mentes mais pequenas (se as houver, bem entendido) entro na ideia que ora me ocupa: creio que o consulado de Pedro Emanuel se encontra esgotado. Digo-o não porque não se trate de um profissional sério e competente (é-o, indubitavelmente), mas porque me parece que a equipa tem jogado aquém das possibilidades do lote de jogadores que a compõe, porque me parece que em várias situações de jogo tem faltado a criatividade no banco para inverter o rumo dos acontecimentos, e porque talvez se tenha instalado um clima de habituação que se é benigno para o espírito coimbrão que devemos defender, parece maligno na capacidade de ganhar nova alma para escapar a lugares na tabela de que deveríamos estar a milhas…
Não entro em linha de conta com a valia dos jogadores, pois apoio a lógica de contenção salarial (o que não impediria, per se, a contratação de profissionais com outras características), e visto que, se o fizesse, estaria a dizer que o treinador teria caucionado más escolhas, o que, por ora, não interessa. Aliás, mais surpreende a performance academista se pensarmos que temos um dos melhores guarda-redes e um dos melhores pontas-de-lança do campeonato.
Em suma, creio que já na gloriosa época passada a prestação titubeante foi iludida pela vitória na Taça de Portugal e pela qualificação para a Liga Europa, como o foi no início da presente temporada pela muito digna participação neste torneio. Todavia, espero que a teimosia da Direcção em não “remodelar”, pelo menos, o treinador não saia cara.
Contudo, que ninguém se engane: torcerei até ao fim pela manutenção e apoiarei sempre a Académica, mesmo que o pior suceda, para além de continuar a dizer que tomara a Briosa que o actual Presidente a possa dirigir por muitos mais anos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Alvar

Sou daqueles que acha que há certo tipo de pessoas que, por serem de tão baixa igualha, não merecem qualquer espécie de menção. Um pouco a ideia de que há defuntos tão ruins que não merecem que com eles se gaste mais cera…

O leitor perceberá que me refiro ao treinador do Benfica, Jorge Jesus, para o qual abri uma excepção à regra supra mencionada, de tão alarve que é a criatura.

Antes porém de o fazer, duas notas preliminares: não confundo a instituição Sport Lisboa e Benfica com um ou outro energúmeno que a sirva.

Em segundo lugar, cumpre reconhecer que, no jogo de domingo, a Académica terá jogado um futebol pouco apelativo. Contudo, pego por aqui para escrever a tinta carregada o meu espanto, pois muitos dos que dizem que a Briosa estacionou um autocarro na Luz são os mesmo que acharam Alex Ferguson genial por ter jogadores deitados à frente da bola no jogo em Madrid, na semana passada, e que disseram que Mourinho era um mestre da táctica pela teia defensiva que esquissou quando, há alguns anos, o Inter de Milão dinamitou o ataque do Barcelona, no Nou Camp. E mesmo no caso dos que não apreciaram os mentores destes “estacionamentos de pesados de passageiros”, importa perguntar se queriam que a Académica desafiasse o poderoso SLB desta época, para sair de “blusa cheia” e com uma palmadinha nas costas dos jogadores por terem sido tão bons rapazes?!...

Jogou-se o que se pôde e, eu que não aprecio particularmente Pedro Emanuel, reconheço a inteligente preparação do jogo, olhando a jogadores proporcionados por uma gestão que já mereceu citação de exemplo de “fair-play financeiro” pela UEFA. Estou certo que com o passivo pantagruélico autorizado ao SLB a capacidade de luta seria maior, mas seria menor o orgulho do meu coração “negro”.

Dito isto, vem a prosa à guisa de Édinho (Briosa) ter dito que o ruminante indivíduo que conduz o SLB afirmara que a Briosa não “joga um c……” e que teria que descer de divisão.

Poderíamos encurtar razões, citando o eloquente prof. Manuel Machado: "um vintém é um vintém, um cretino é um cretino".

Porém, a boçalidade de J. Jesus merece mais comentário por ver um idiota que não consegue articular uma frase em português a falar da Associação Académica de Coimbra. Os termos em que o faz sublinham, aliás e fazendo fé no jogador da Briosa, os modos bestiais deste simulacro de cidadão.

Depois vem a questão ética. Um sujeito que, há não muito tempo, dizia que ordenara aos seus jogadores que não atirassem a bola para fora do relvado quando houvesse um adversário tombado e que “o fair-play é uma treta” (não falando sequer na ofensa que a todos faz com as suas idas ao cabeleireiro) não pode pôr em causa a deontologia de um adversário, apenas porque defendeu aguerridamente um nulo que só foi quebrado por um genial árbitro que discerniu qual dos jogadores se agarrava com mais força.

Em suma, há uma divisão à qual só o SLB vai descer: a da imbecilidade, enquanto por lá estiver Jorge Jesus.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A dinâmica temporal tem destas coisas



Esta imagem das antigas piscinas municipais de Coimbra circula pelo facebook há algumas semanas, somando milhares de likes e centenasde partilhas, tornando-se num verdadeiro caso de sucesso na rede de Zuckerberg.

Aquela zona da cidade sofreu profundas alterações no âmbito da participação no Euro 2004. Presentemente, lá convive o Dolce Vitta com uma zona residencial, estando mais abaixo o novo estádio municipal, que nos endividou por gerações.

Felizmente, os dirigentes políticos da altura tiveram a visão e a inteligência em não cometer o erro de deslocalizar o estádio para a periferia, como fizeram outras cidades, encontrando-se agora a braços com os financiamentos bancários a pagar por um lado, e com a necessidade de alimentar os “elefantes brancos” por outro. Estádios com “rodinhas” ainda não foram engendrados, por isso, esta era das tais decisões onde era imperativo acertar. Não podiam falhar.

Mas a estratégia de rentabilização da zona envolvente também merece realce. Valorizou-se o lazer, promoveu-se a formação e a prática do exercício físico, com boas taxas de ocupação. Foram facultadas novas oportunidades de negócio, constituindo uma ação socio-cultural relevante e atrativa.

Mais importante ainda, deu uma caráter hedonista ao desporto na cidade. Não são distantes os tempos em que para se fazer desporto era preciso pertencer ou estar federado num clube. Presentemente, e particularmente devido ao esforço feitos pelas câmaras municipais (com a comparticipação de fundos comunitários, é certo), a prática do desporto, em várias modalidades, simplesmente pelo lazer ou pelo bem-estar físico tornou-se uma possibilidade ao alcance de todos, em vários municípios.

Mas voltando às antigas piscinas municipais que a fotografia ilustra.

Era muito forte a ligação entre a cidade e aquele espaço, quiçá esteja aí a explicação do “sucesso facebookiano”.

Até há cerca de uma década atrás, altura em que foram demolidas, a cidade toda por lá passou! Julgo não exagerar se disser que meia urbe terá aprendido a nadar naquelas piscinas.

Mas não foi só o aprender a nadar. Ali aconteceram amizades e “paixonetas” de verão. Motivou gazetas à escola para ir dar umas braçadas na piscina olímpica. Foram muitas e para muitos as “tardadas” ao sol e à conversa nas “míticas” bancadas, ou na relva do outro lado. Foram gastos muitos escudos em gelados no bar, ou na “ficha” que nos era dada sempre que guardávamos a roupa nos balneários.

Aquelas piscinas escondiam muita juventude desbravada, daí a nostalgia evidenciada não me surpreender.

Porventura terei ficado surpreendido com alguns comentários à fotografia, especialmente aqueles que aportaram a qualidade do caminho entretanto tomado pela cidade neste domínio.

O caminho, esse, estará ligado à dinâmica temporal, que tem destas coisas.

Mas a saudade será porventura mais acentuada ainda porque há época, tínhamos apenas as antigas piscinas municipais e uma piscina coberta em Celas, com uma capacidade limitada para as necessidades de uma cidade como Coimbra.

De lá para cá houve um caminho que foi trilhado. Atualmente, ao nível de infraestruturas cobertas: continuamos com a piscina de Celas, mas passámos também a ter os Complexos: Olímpico (COP), Rui Abreu (RA) e Luís Lopes daConceição (LLC).

Quanto a piscinas descobertas, construiu-se a da margem esquerda do Mondego. Mas também a do Parque de Campismo e da Quinta de S. Jerónimo, todas espaços públicos de acesso geral.

A nostalgia será natural e confesso ser mais um que a partilha.

Agora, acompanhado o percurso feito nestes últimos 12 anos,queria fazer uma pergunta muito simples ao caro leitor: Ainda quer as antigas piscinas de volta?

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Glória em saldo

Tive o privilégio de assistir aos dois jogos entre a Académica e o Atlético de Madrid. Assim, com alguma ginástica financeira e guardando férias para o efeito, cá fui de África à Pátria, com a certeza de que iria presenciar momentos únicos de uma devoção de anos e com a sensação de que poderia ser em letra grande que se escreveriam mais umas páginas de uma gloriosa e briosa História recente.

Se em Madrid “estava bonita a festa, pá” (adaptando a canção do enorme Chico Buarque) e a prestação foi digna, já em Coimbra a coisa adquiriu contornos épicos. Efectivamente, os poucos espanhóis que foram ao Estádio Vicente Calderón viram uma equipa com um orçamento centenas de vezes menor mostrar que a beleza da competição desportiva está não apenas no potencial de cada atleta, mas na capacidade de superação que o grupo encontra, mormente quando enquadrado por uma instituição que transmite uma maneira peculiar de estar no desporto e na vida, designadamente através dos seus adeptos (destaque para a imensa e intensa Mancha Negra) e dirigentes.

Em Coimbra, este sortilégio ganhou foro de prova concludente; a incansável claque (e mais “meia dúzia” de adeptos individuais) transcendeu-se e a equipa jogou o que sabia e o que não sabia, derrotando nada mais nada menos que o detentor da Liga Europa. Alguém na Europa de Futebol (tirando os academistas) imaginaria uma noite assim? E nem vale, como cortesmente reconheceu o treinador adversário, brandir a carta da falta de cinco titulares (que, aliás, foram poupados em todos desafios europeus anteriores, sobretudo no caso de Falcão); esse é um problema do Atlético, que percebeu que a camisola em si não mete medo a ninguém…

O “senão” de tudo isto é vermos uma Cidade cheia de tradição que não sabe honrar uma das poucas instituições que ainda lhe dá projecção nacional. A assistência ao jogo em casa foi miserável, vergonhosa e mesmo acintosa para os atletas que, repito, foram extraordinários.

Ponhamos, porém, as coisas en su sitio: têm as pessoas de Coimbra obrigação de ir ao futebol? Obviamente, não. Valeria, todavia, a pena que não se reunissem, quase todos os dias, a pedir mais e a criticar o que é feito. É básica a lição de Cícero sobre a necessidade de envolvimento cívico para os que desejem influenciar positivamente uma colectividade. E note-se que, perante esta omissão, se torna legítimo concluir que a esmagadora maioria da Cidade e da Região “está-se nas tintas” para o escalão em que milita a equipa ou para o grau de fidelidade académica observado.

Chega a parte em que pode ser brandido o elemento da carência económica das pessoas, o que, em muitos casos, será sério e respeitável. Contudo, a deserção é muito anterior à crise, relembrando eu que há bilhetes de época mais baratos do que a assinatura de um mês da SportTv, desculpa comum para muitos que ficam a ver o Benfica ou o Real Madrid…

Voltaremos ao tema…

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma cidade que se quer única

Penso, em concreto, na Cultura, área em que não basta confiar no repouso que oferece a sombra de glórias passadas. 
Bem sei que ao abordar a temática não nos devemos cingir a grandes eventos, grandes assistências, artistas mediáticos, exposições de artes consagradas ou a peças teatrais aclamadas. Cultura não se limita a isso. 
Porém, o exercício que vos proponho implica centrarmo-nos na cultura mediática, aquela que atrai multidões, preenche páginas de jornais e aparece nos noticiários. Aquela que, para muitos, é a que recebe o que de melhor se faz em cada uma das áreas. 
O que será preciso para ter essa cultura? Vontade política? Seguramente. Investimento público? Naturalmente. Investimento privado? Convém. Mas não chega. É preciso ter capacidade instalada, designadamente estruturas físicas capazes de competir nesse segmento de mercado. 
E nesse domínio, o das infraestruturas culturais com dimensão para acolher eventos internacionais, há uma desigualdade tremenda em Portugal, que se reflete na distribuição de subsídios e consequentemente na oferta cultural. Sentemo-nos à mesa do Orçamento de Estado (via Fundo de Fomento Cultural) e verificamos uma centralização em Lisboa e no Porto dos apoios concedidos à atividade cultural. 
Para efeitos de enquadramento do leitor, em 2011 a Coleção Berardo recebeu 2.670M€; a Casa da Música 2.308.M€; o Centro Cultural de Belém 7.520M€; Serralves 2.384.M€. A estas, acrescentemos Orquestras, Associações, Teatros, Institutos e outras Fundações e percebemos uma realidade muito díspar. 
Não tenhamos ilusões. Coimbra, apesar de cidade que sempre se assumiu como um centro cultural de referência não tem capacidade para competir com Lisboa e Porto nestes segmentos, porque não tem a tal capacidade instalada que acima vos falei. 
Em Coimbra sempre houve carência de um lugar de excelência para a realização de grandes eventos, que ajude a combater a centralização da oferta, aproveitando assim as potencialidades oferecidas pela região, um espaço que possa disputar públicos. 
Por isso é que a obra que está a erguer-se em Santa Clara, o Convento de S. Francisco, é de mérito indiscutível para a cidade. 
Será um Centro Cultural que dará a possibilidade de acolher grandes eventos, espetáculos de teatro, ópera, orquestra, arte moderna, entre outros. Mas será também um Centro de Congressos (que poderá utilizar a matéria prima dos Hospitais ou da Universidade de Coimbra), com um auditório com capacidade para potenciar essa área do Turismo, o de Convenções. 
Apesar deste ser um estádio de fraco desenvolvimento resultado da crise económica que vivemos, Coimbra sairá a ganhar. E claro, quem gosta de Cultura agradece.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Desejos de Natal e certezas de Ano Novo

É comum, nesta altura, as revistas e os jornais trazerem reportagens de Natal e desejos e previsões de Ano Novo. Globalizado que estou, não fugirei à regra, no mês em que passam dezasseis anos desde que o Beiras cometeu o erro de publicar um artigo meu pela primeira vez…

Sem distinção entre desejos e verdades, cá vai disto: desde logo, nem preciso de copo de cristal (quanto mais da bola…) para antever uma vitória de Cavaco Silva à primeira volta (se calhar até bastava meia volta). Não só se reconhece o perfil de estadista, como se recomenda o economista para visar as ideias luminosas do Primeiro-Ministro (seja ele Sócrates ou Passos Coelho, ou mesmo qualquer outro). Acresce que Alegre tem feito uma campanha triste… Triste pelo tom agressivo, triste pela colagem ao Bloco de Esquerda, triste pelo desânimo das hostes. Resta a expectativa de ver os bodes expiatórios que o Poeta de Águeda arranjará na noite de 23 de Janeiro.

Outra coisa que é certinha é que 2011 será a doer e nem PS nem PSD (caso avance a moção de censura) terão grande margem para repor o que perderão os funcionários públicos. Tenho para mim, como é (bom e mau) hábito dos portugueses, que lá nos acomodaremos com a ideia de vivermos pior e de sermos, cada vez mais, os últimos da Europa (mesmo atrás de países que viveram décadas de ditadura comunista). Se assim não fosse, já haveria distúrbios públicos como há sempre que chega a mostarda ao nariz dos franceses, ingleses ou alemães. Por vezes, fico sem saber se somos cívicos ou mansos…

Na “Terrinha” (a minha Coimbra), fica para ver se o PS ainda existe. Com a saída de Carlos Encarnação e a entrada de Barbosa de Melo, independentemente dos méritos deste último, abre-se uma janela de oportunidade para os socialistas lançarem um candidato carismático para a presidência da Câmara Municipal. É sabido que sai uma personalidade forte e conhecida e que entra alguém com um perfil público menos exuberante e com menor reconhecimento por parte do eleitorado (louva-se a inteligência e a generosidade de Encarnação ao sair agora, por esta mesma razão), mas também não se ignora que maior divisão do que a que existe no PS de Coimbra só mesmo a que separa as duas Coreias.

Ainda por Coimbra, vamos ver no que dá a insólita situação em que se viu a nossa Académica. Depois de um início imperial, “dois vezes cinco são dez” e ficámos sem o Jorge Costa. Sendo os motivos pessoais, nada a dizer; caso contrário seria, a meu ver, um erro de palmatória, pois a Briosa vinha fazendo bons jogos e mesmo em Braga viu-se força e harmonia ofensivas, até que a coisa se tornou desastrosa. Resta esperar que a escolha dos dirigentes em funções seja inspirada pelos bons motivos e não por alguma voz que veja a Académica como qualquer outro clube (infelizmente, embora quase inexistentes, sempre há uma ou outra voz que pensa mais em lucros do que em identidade e resultados). A esse respeito o academismo do Presidente é uma garantia a que dou valor, mormente agora que o caminho para o Jamor (ou, pelo menos, para as meias-finais da Taça) parece bem possível.

Resta-me desejar a todos festas felizes e um 2011 com a coragem necessária para as agruras vindouras, já que este vosso amigo só voltará em finais de Janeiro, depois de enfrentar o Inverno siberiano (o original…).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

As ruínas de Coimbra

Se eu já achava que Coimbra entrara numa era de penumbra cultural – porque à minha cidade não basta um programa cultural, devendo, isso sim, ter “O” programa cultural devido a uma capital do saber – a novela em torno dos achados arqueológicos do Convento de S. Domingos vem a atestar que, das direcções regionais à lucidez da gestão patrimonial, tudo se esvai da nossa Cidade, numa sangria que me faz ter pena de não ter sido suficientemente competente para fazer a via sacra das ascensão partidária local ou de ter relevo quantitativo (leia-se, feitio de cacique) para condicionar as escolhas internas do PSD; outro galo cantaria…

Como o que me resta é a pena, cá vai a opinião de alguém que procura entender a leviandade com que o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar) e a Direcção Regional da Cultura do Centro (dada a pilhagem ao estatuto de Coimbra, é de crer que este organismo ainda esteja cá por mero esquecimento) autorizam a prossecução da construção de um parque de estacionamento que arrasará, para sempre, os vestígios de um centro cultural de excelência, datado do século XIII.

Dizem-nos que se desconhece o estado de conservação, que está a oito metros de profundidade e que, por isso mesmo, há riscos na escavação.

Ora, vamos por partes: em primeiro lugar, deve saber-se que não sou um inimigo do progresso. Creio que não pode sacralizar-se qualquer calhau, obstando ao desenvolvimento de uma terra. Não obstante, também leio que não tratamos propriamente de uma casa de cantoneiros da extinta JAE, mas sim de um relevante edifício dominicano.

Depois, cumpre saber se não resta mesmo outro lugar para o parque de estacionamento… Será que não há, ainda que um pouco menos central (ou seja, afastado da Avenida Fernão de Magalhães), terreno que possa compensar a ala do betão?!

E se há risco na exploração arqueológica do achado – que creio não poder considerar-se irrelevante também pelo facto de ainda não estar suficientemente estudado – por que não conservá-lo intacto até que os meios tecnológicos permitam outra perscrutação?

O problema é que, depois de lá estar o dito parque, a memória será não a da História, mas sim a dos responsáveis por mais um acto de acriticismo cultural e de óbvia ganância.

Da parte da Câmara Municipal, não duvidando das boas intenções (desde logo, combatendo o flagelo da falta de estacionamento), pergunto apenas se não poderá ser feito algo mais…

O Convento é da Idade Média e esta decisão não parece mais “iluminada” do que isso… Dá pena ver Coimbra assim…

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

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"Aqui fazem-se milagres no metal - Serralharia do Convento" - Coimbra, junto ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Balada da Despedida

Fui sempre, sou e morrerei como sendo alguém de Coimbra.

Adoro a cidade onde nasci e morei, ininterrupta e diariamente, até aos meus 30 anos e onde ainda passo os fins de semana (excepto os bocados dos ditos em que sigo a Briosa) e os dias de semana ou as férias que posso.

Aliás, este meio lamento passa a lamento inteiro em relação às estratégias que sucessivos executivos centrais e camarários não tiveram para que a Cidade fosse não só um pólo de saber (mérito quase exclusivo da Universidade e das nossas excelentes escolas do ensino básico e secundário), mas também um dínamo empresarial que gerasse emprego para fixar os seus e captar criatividade de outras paragens. Quase nada se fez nesta área e até a Universidade, asfixiada pela avareza do ministério e pelo conservadorismo da instituição, foi empalidecendo no contexto universitário geral, embora não perdendo a liderança qualitativa de que sempre desfrutou e que é reconhecida internacionalmente.

No fim-de-semana passado resolvi passear por alguns dos locais que fazem parte da minha idiossincrasia coimbrã… Todavia, fiquei com a ideia de que, também nos detalhes, a Coimbra que adoro anda tristonha.

A começar pelo altar gastronómico onde voltei a pôr as papilas gustativas em ascese que, fruto da emergência das cadeias de fast-food, de propostas visualmente mais modernas e da crise económica, não tem já o esplendor de outrora, apesar do serviço esmerado e do alvo de deglutição bem demarcado.

Saído do comedouro, passeio pelo que sempre chamei de Parque da Cidade (Parque Doutor Manuel Braga) e vejo folhas sem conta a pedirem cama mais confortável do que o inevitável enleio com os pés dos transeuntes.

Depois, anima-se-me o espírito ao pensar que vou estrear-me na travessia pedonal do Mondego (décadas depois da última vez que o fio de água do nosso Basófias – falo do original; ou seja, o rio – o permitiu pelo leito), pela Ponte Pedro e Inês. Aí chegado, dói-me a alma ao ver vidro estalado, lâmpadas em falta e outras sem revestimento. Sei que a culpa é dos selvagens que vandalizam a nossa querida Lusa Atenas, mas também estou bem cônscio de que há que repor imediatamente, pois o desleixo convida a mais vandalismo.

Na outra margem, aplaude-se a estética da vedação a jusante (a que fica do lado da Ponte de Santa Clara) da Praça da Canção ou queimódromo, como lhe chamam na gíria académica, mas abomina-se aquela que fica a montante (para o lado da Ponte Rainha Santa Isabel), feita de uma chapa horrível que estraga o bem conseguido arranjo arquitectónico da área envolvente.

À volta, embora possa compreender-se a opção pelos materiais sintéticos, desgosto-me com o mau estado de conservação do enorme urso que faz as delícias de miúdos e graúdos…

Falta um pouco de maquilhagem à nossa velha e querida Coimbra…

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O fim da História

Se há coisa de que sempre me gabei foi de ser da cidade onde se fala português de primeira água. Todavia, já desde os meus tempos iniciais na política que perguntava (em conjunto com o Nuno Freitas) por que é que, já que decidira ser uma cidade de serviços, Coimbra não se apostava na excelência dos mesmo, quase como um ex-líbris transversal.
Pois bem, o meu receio ancestral chegou ao zénite quando, numa loja da cidade, perguntaram a quem me ladeava: "Alves leva acento onde"?...