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sábado, 7 de maio de 2011

Entrevistas, mulheres e suspensórios


Eu sou muito curioso...se um dia se sentarem ao meu lado num avião vão enlouquer. Quem o diz é Larry King, o jornalista norte-americano que aterrou esta quarta-feira nas Conferências do Estoril '11.

Autor de 50 mil entrevistas, Larry King afirma nunca ter preparado as suas perguntas. Pelo menos desde o tempo em que, estava Larry a trabalhar num restaurante da Flórida, e entrevistava os clientes de improviso.

Graças ao estatuto de que goza, pode ignorar a epígrafe da conferência, O futuro da democracia face aos desafios globais, optando por falar sobre a sua experiência de vida. Durante uma hora partilhou com a plateia alguns momentos mais interessantes da sua carreira e do que resta de 25 anos de Larry King Live. Hoje, lamenta não estar no ar, ao assistir às contendas do mundo árabe, à catástrofe do Japão, ou ao assassinato de Bin Laden. -

Mário Crespo, o anfitrião, também falou de si e do estado das coisas por cá. Referenciou mesmo as alegadas pressões do governo sobre o seu noticiário, difundindo, em tempo de campanha, a doméstica asfixia democrática. Larry respondeu: consta-me que é difícil ser jornalista em Portugal.

Ainda assim, o jornalista a quem Arnold Shwazneger atribuiu uma efeméride (o Larry King Day, na Califórnia), disse ter sido muito bem recebido e que era um orgulho estar numa conferência destas. Declarações do senhor 50 mil entrevistas, no momento mais mediático das Conferências do Estoril '11.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Só se perdem as que caem no chão

Lia-se ontem, no sítio da BBC e no Público, que Blair teria dito que colaboraria na invasão do Iraque, ainda que tivesse sabido que o país não tinha armas de destruição maciça, o que motivou reacções de condenação desde o chefe da procuradoria britânica à data da invasão, ao inspector chefe da O.N.U., nessa altura, Hans Blix, e mesmo ao antigo advogado de Saddam Hussein.

O jornal The Guardian (citado pelo seu homólogo português) compara a falta de fundamentação da decisão do antigo Primeiro-Ministro com a os crimes imputados aos dirigentes jugoslavos, que motivaram a acção militar nos Balcãs; ou seja, também Blair teria sido parte numa acção criminosa (embora o jornal não proponha, evidentemente, uma acção da N.A.T.O. ou de qualquer coligação internacional no Reino Unido).

Ora bem, resistindo à tentação de apontar o dedo, é preciso que se diga que Blair não afirmou que sabia da inexistência da parafernália bélica iraquina; o que sublinhou, como aliás fez em resposta a uma pergunta que lhe dirigi, nas Conferências do Estoril, foi que, dados os ganhos registados (por exemplo, a realização de eleições democráticas), teria apoiado a invasão, embora com argumentos diversos sobre a natureza da ameaça. Na pior das hipóteses; Blair será culpado de ter exacerbado a ameaça, sendo que parece estar a "criar um clima" para as audições a que será sujeito, numa comissão de inquérito.

Como também disse no evento do Estoril, a cuja organização tive a honra de presidir, a primeira coisa que nos interpela é a disparidade de critérios, mormento em lugares onde não há petróleo: Darfur (Sudão), Somália e, durante muitos anos e com o ouro negro divido entre indonésios e australianos, Timor-Leste.

Depois, há que pensar se, confrontados com a hipótese de não existirem (como veio a saber-se) a.d.m., se todos (e, no caso, os britânicos) apoiariamos (os que o fizeram, como eu) a invasão ou se o fariamos com o mesmo fervor. No meu caso, vou pela segunda via; creio que poderia escutar os argumentos, mas não colocaria a mesma prioridade na intervenção (o que fiz, entre outras ocasiões, num debate com a Deputada do Bloco de Esquerda, Ana Drago), desde logo porque me ocorreriam, já na altura, dúvidas sobre a estranha discrição dos vizinhos iranianos.

Mais grave ainda, fica para a história a total ausência de um plano para o pós-guerra, algo que, aí sim , deve pesar sobre George W. Bush e Tony Blair, em primeira instância.

O que entendo, em conclusão, é que a um pequeno país como Portugal não restará muito mais do que ir, com espírito crítico, mostrando solidariedade para com os nossos aliados, pois dela beneficiámos e poderemos vir a necessitar no futuro. Todavia, fica o aviso para que sejamos menos crentes, em futuras refregas...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Globalização ma non troppo

Ainda ao redor das Conferências do Estoril, para mim, permanece no meu espírito uma pergunta para as quais apenas obtive resposta parcial (designadamente, da parte de Tony Blair, a quem tive a oportunidade de a fazer directamente): na nova ordem ou desordem mundial, são os conceitos políticos globalizáveis? Estamos condenados a optar por um qualquer fundamentalismo ou pelo relativismo?

Vem isto, desde logo, a propósito da própria democracia, enquanto regime político. É exportável? Subsistiria um país com a dimensão e cultura da China a uma ocidentalização política? Em sentido contrário parece abonar a história contemporânea da Rússia, que depois do desmando da era Ieltsin – que retirou o Partido Comunista da sua posição de trave-mestra do sistema político – veio o período actual em que a “rédea curta” de Putin parece representar a tentativa de controlo do sistema político e do mercado russos e o combate a eventuais tendências centrífugas. Claro que em favor da bandeira democrática existe sempre a vibrante democracia indiana, mas um novo balde de água fria podia vir da “varanda do lado”, já que o Paquistão testa a “oportunidade” da escolha popular e dos direitos cívicos a cada atentado sofrido e em cada bala disparada contra os taliban.

Normalmente, uma resposta baseada meramente nos princípios seria afirmativa a este propósito. Todavia e como sabemos, muitas vezes são os próprios candidatos a “importador” que rejeitam “aventuras” democráticas, já que os interesses dos dominadores, não raras vezes, convivem mal com veleidades opinativas.

Surgem depois dois conceitos de ainda mais delicada filigrana: o conceito de ingerência humanitária, algo que a NATO invocou no Kosovo (mesmo ao arrepio da soberania sérvia), e a legítima defesa preventiva, que escorou a desastrada intervenção ordenada por George W. Bush no Iraque (e que chegou a convencer muita gente, de Durão Barroso e Aznar a este vosso criado…).

Nos dias que correm, há vozes que nos interpelam, dizendo que o Iraque, apesar dos grosseiros atropelos aos direitos humanos (sim, porque de democracia nem se falava) perpetrados por Saddam Hussein, estava mais estável e, com isso, mais calma estava a região… Um homem de princípios – como Blair – terá que responder que, em todo o caso e com o passar do tempo, as pessoas podem escolher e têm liberdade para determinar a sua vida e o rumo do país, sendo isso um ganho que justifica os sacrifícios relativos à intervenção militar e os custos presentes e inerentes à estabilização.

A principal pergunta sem resposta, isso sim, é a razão pela qual tudo isso acontece em alguns pontos do Globo e não noutros, como o Sudão e o Zimbabué. A mesma pergunta, aliás, que deve ter ocorrido aos timorenses, durante mais de vinte anos…

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Mundo aqui tão perto

Volto ao vosso contacto depois de ter tido a fortuna de participar na equipa que organizou as Conferências do Estoril, que de 7 a 9 de Maio, procuraram trazer “a globalização de regresso a casa”, querendo com isto significar que, depois de termos dado novos mundos ao mundo e ante a crise que vivemos (que não é só económica, insisto no que venho escrevendo), estamos em condições de usar as nossas especificidades culturais e geográficas para procurar encontrar a saída para esta época de mal-estar.

Contrariando alguns rótulos que procuraram colar acriticamente à classe política, o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, António Capucho, e o seu Vice-Presidente, Carlos Carreiras, não só pretenderam, ao lançar o projecto em colaboração com o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, afirmar em Portugal um pólo de reflexão de excelência que, a médio prazo, se torne uma referência internacional, como interiorizaram o essencial da preservação das diversas identidades ante o turbilhão padronizador da globalização, ao aprovarem como tema da primeira edição “Desafios Globais, Respostas Locais”.

Acresce a isto a percepção do espaço que se abre a quem, num mundo sem perspectiva (quando muito podemos desejar algo, num raciocínio prospectivo), busque um modelo pós-Fórum Económico Mundial (vulgo, Davos), que a situação actual interpela impiedosamente nos seus contornos tecnocráticos e economicistas (sempre entendi que andávamos a tratar as pessoas como números, tendo mesmo afirmado essa ideia, por exemplo, em congressos do PSD); isto, claro está, se aceitarmos que o Fórum Económico e Social (vulgo, Porto Alegre) jamais passou de uma carta reivindicativa de inspiração libertária. Por tudo isto me parece ainda de aplaudir a abordagem conceptual de colocar o Estoril entre Davos e Porto Alegre em termos não apenas geográficos (algo que é evidente e inexorável…), mas também em matéria de concepção ideológica, de ideal social…

Durante 3 dias, num momento que creio relevante para a auto-estima dos cascalenses, em particular, e dos portugueses, em geral, personalidades dos mais diversos quadrantes ideológicos, religiosos e geográficos (destaco Tony Blair, Fernando Henrique Cardoso, Mary Robinson, José Maria Aznar, Joseph Stiglitz, Yegor Gaidar, entre muitos outros, sem esquecer a actriz Daryl Hannah que, sendo uma activista do desenvolvimento sustentável – quiçá por inspiração dos seus tempos de sereia, no filme “Splash” – foi desafiada a explicar o papel que Hollywood pode ter nesse combate) confrontaram ideias e permitiram afinar raciocínios sobre um mundo que desejamos multilateral, mas que é multipolar ao mesmo tempo; sobre a maneira como as empresas transnacionais colocam a sua autoridade económica acima de muitos centros de decisão política; sobre o modo como exaurimos os recursos do Planeta e como colocamos em xeque o futuro e sobre o futuro das identidades e dos valores, num Mundo globalizado.
Foi, em suma, um privilégio, ficando a esperança de que a decisão seja a de manter viva uma chama que ainda pode iluminar caminhos importantes.

sábado, 9 de maio de 2009

Lodo, SAD nas Conferências do Estoril II


[Diogo, João Morgado e Prof. Aranda da Silva]




[Dulce e Maria João, ao intervalo]



[ João Pedro e o Abade de Priscos]


[Gonçalo num frente-a-frente com o osso duro de roer (leia-se: Prof. Tariq Ramadan)]



[Gonçalo vs. Sir Tony Blair]

Uma Nota sobre Manuel Aranda da Silva

Manuel Aranda da Silva é um homem com um percurso notável que por si só justificaria a minha admiração. Depois ter desempenhado funções como ministro do comércio no governo de Moçambique (nos anos 80), ingressou numa carreira nas Nações Unidas onde leva já um longo percurso associado à coordenação da ajuda humanitária em Angola, na Somália e no Sudão e ao Programa Alimentar Mundial. Ainda assim, teve uma atitude para comigo que dificilmente esquecerei e que me faz nutrir por ele uma admiração ainda maior.

Durante o painel de sexta-feira à tarde, relacionado com os recursos energéticos, tive a oportunidade de questionar os intervenientes (entre eles Manuel Aranda da Silva), sobre o facto de as populações dos países exportadores de petróleo não beneficiarem da riqueza gerada por esta "matéria-prima", o que associei aos elevados níveis de corrupção que persistem nestes países, ao mesmo tempo que coloquei em causa a actuação dos países ocidentais face a este problema (impera na maioria das vezes o pragmatismo em detrimento da preocupação com o bem-estar destas sociedades).

Em resposta à minha questão Aranda da Silva alertou-me para não associar de forma tão linear a corrupção aos países em desenvolvimento (PED), e para a responsabilidade dos países desenvolvidos neste fenómeno. Apesar de não ignorar que os países ocidentais são em grande parte responsáveis por esta situação e simultâneamente os que mais beneficiam dela, admito que a forma como coloquei a questão deixou transparecer alguma insensibilidade relativamente a este ponto, que de algum modo é inerente a qualquer ocidental.

No final da conferência Aranda da Silva teve a gentileza de vir falar comigo, dizer-me que tinha compreendido a intenção da minha questão, mas que considerava que deveria ficar clara a quota parte de responsabilidade dos países ocidentais neste problema e o erro implícito que subsiste na associação generalizada da corrupção aos PED. Conseguiu surpreender-me ainda mais quando, com uma sinceridade da qual não consigo duvidar, referiu que saiu do governo moçambicano com pouco mais de 150 euros no bolso, numa situação bastante diferente de muitos dos seus colegas. Percebe-se porque é que Mocambique constitui hoje em dia um exemplo de governação em África, o exemplo deste homem perdurou.

Despediu-se deixando a promessa de escrever um livro sobre a temática, expondo claramente as ligações obscuras entre empresas, governantes e instituições ocidentais e a corrupção em África. Espero ansiosamente pela possibilidade de o ler.

Provavelmente não reencontrarei este notável senhor, de qualquer forma demonstro deste modo o meu profundo agradecimento pela amabilidade e o exemplo.

Aznar numa [ou duas!] frases


João Morgado: «Sou um filho cansado da Globalização.»

Diogo: «A Globalização é algo que não volta atrás.»

Dulce: «A arte de governar não consiste em dizer frequentemente "Sim", antes em saber dizer tranquilamente "Não".»

«A Globalização tem um saldo mais positivo que negativo. E isso convida-nos a aprofundar este fenómeno.»

«Acredito na aliança dos civilizados, a que repeita as regras, a tolerância, o Estado de Direito, que não utiliza terrorismo, que não coloca bombas nas torres gémeas ou em Madrid, que compartilha valores de tolerância.»