sábado, 9 de maio de 2009

Uma Nota sobre Manuel Aranda da Silva

Manuel Aranda da Silva é um homem com um percurso notável que por si só justificaria a minha admiração. Depois ter desempenhado funções como ministro do comércio no governo de Moçambique (nos anos 80), ingressou numa carreira nas Nações Unidas onde leva já um longo percurso associado à coordenação da ajuda humanitária em Angola, na Somália e no Sudão e ao Programa Alimentar Mundial. Ainda assim, teve uma atitude para comigo que dificilmente esquecerei e que me faz nutrir por ele uma admiração ainda maior.

Durante o painel de sexta-feira à tarde, relacionado com os recursos energéticos, tive a oportunidade de questionar os intervenientes (entre eles Manuel Aranda da Silva), sobre o facto de as populações dos países exportadores de petróleo não beneficiarem da riqueza gerada por esta "matéria-prima", o que associei aos elevados níveis de corrupção que persistem nestes países, ao mesmo tempo que coloquei em causa a actuação dos países ocidentais face a este problema (impera na maioria das vezes o pragmatismo em detrimento da preocupação com o bem-estar destas sociedades).

Em resposta à minha questão Aranda da Silva alertou-me para não associar de forma tão linear a corrupção aos países em desenvolvimento (PED), e para a responsabilidade dos países desenvolvidos neste fenómeno. Apesar de não ignorar que os países ocidentais são em grande parte responsáveis por esta situação e simultâneamente os que mais beneficiam dela, admito que a forma como coloquei a questão deixou transparecer alguma insensibilidade relativamente a este ponto, que de algum modo é inerente a qualquer ocidental.

No final da conferência Aranda da Silva teve a gentileza de vir falar comigo, dizer-me que tinha compreendido a intenção da minha questão, mas que considerava que deveria ficar clara a quota parte de responsabilidade dos países ocidentais neste problema e o erro implícito que subsiste na associação generalizada da corrupção aos PED. Conseguiu surpreender-me ainda mais quando, com uma sinceridade da qual não consigo duvidar, referiu que saiu do governo moçambicano com pouco mais de 150 euros no bolso, numa situação bastante diferente de muitos dos seus colegas. Percebe-se porque é que Mocambique constitui hoje em dia um exemplo de governação em África, o exemplo deste homem perdurou.

Despediu-se deixando a promessa de escrever um livro sobre a temática, expondo claramente as ligações obscuras entre empresas, governantes e instituições ocidentais e a corrupção em África. Espero ansiosamente pela possibilidade de o ler.

Provavelmente não reencontrarei este notável senhor, de qualquer forma demonstro deste modo o meu profundo agradecimento pela amabilidade e o exemplo.

2 comentários:

freitaspereira disse...

A corrupção definida como abuso do poder publico existiu sempre em África.

Actualmente, o vento do liberalismo económico amplificou o mal. Certas elites explicam que a corrupção é a versão africana da solidariedade.

Mas quando se toma conhecimento dos volumes dos “desvios” públicos, verifica-se que a corrupção aprofunda o abismo entre os ricos e os pobres.

O capitalismo selvagem produz uma corrupção africana que comporta duas imagens : a dimensão ( as fortunas dos ditadores africanos são imensas) e a evasão ( estas mesmas fortunas repousam nos bancos suíços ).

Um fatalismo instalou-se nas populações africanas, segundo o qual a corrupção não pode ser vencida pois que ela faz parte da cultura.
O marabout ou feiticeiro continua a exigir o pequeno “presente” antes de resolver o problema! O feiticeiro hoje é o funcionário !

Os países ocidentais são os maiores culpados do atraso no desenvolvimento africano, porque são os “fornecedores” de prebendas sob formas diversas, incluindo ajudas oficiais institucionais, europeias e mundiais , ao mesmo tempo que sabem muito bem que uma parte destas somas colossais voltam para a Europa e são depositadas nos bancos europeus e fora da Europa.

A acção da justiça francesa, muito recente, pondo em cause as dezenas de imóveis de luxo adquiridas na capital francesa por três ditadores africanos com o dinheiro dos povos respectivos, é o primeiro passo para um controlo mais estrito do emprego das ajudas dos países ocidentais, pelos ditadores , em proveito das famílias e dos amigos.

Só que, esta é uma acção da justiça francesa, independente do Estado, mas não se nota nenhuma cooperação nem entusiasmo da parte do governo para levar esta acção até ao fim.
Os interesses das multinacionais estando ligados aos governos, não creio que existam muitas “chances” de sucesso nesta acção.

André Miguel disse...

Concordo em absoluto com o comentador freitaspereira. Só acrescento que convém ao mundo ocidental e aos governantes africanos uma África pobre, para que as exigências da boa governação não sejam demasiado elevadas e a torneira da ajuda humanitária não se feche, ao mesmo tempo que continua a sangria de recursos naturais.