quinta-feira, 13 de maio de 2010

Robin sem bosques

O Conselho Nacional do PSD decidiu, ontem, apoiar a continuação da solidariedade do grémio laranja com o Governo, no sentido continuar a atacar os graves sintomas da crise que se abateu sobre a zona Euro e, em concreto, sobre Portugal.

A decisão parece avisada, como avisada e segura tem sido a liderança de Pedro Passos Coelho. Deste modo se consegue preservar o necessário patriotismo, passando a mensagem adequada aos nossos pares da União Europeia e, sobretudo, aos especuladores que procuram vampirizar os países mais frágeis (continuo pasmado com a importância que dão às mesmas agências de rating que, há não muito tempo, davam boa notação às empresas que vieram a estar no epicentro de uma crise global sem precedentes…). No entanto, com as bolsas a continuarem em queda, veremos se não morremos da cura...

Ao mesmo tempo, Passos Coelho preserva o PS no Governo, numa altura em que ninguém ganha popularidade por governar; em linguagem corrente, o líder do PSD deixa o Primeiro-ministro acumular desgaste, sendo obrigado a protagonizar medidas impopulares que somarão os seus efeitos nefastos aos que já vinham de quatro anos precedentes como inquilino de S. Bento.

Ademais, ao propor a redução do vencimento dos políticos e dos gestores públicos, creio que o PSD esteve bem na forma, mas mal na extensão. Bem na forma, porque é um sinal de moralização, mostrando que há quem tenha um exemplo a dar (já não era sem tempo…). Mal na extensão porque reduzir os vencimentos em menos de 3% seria irrisório para a Economia, quase imperceptível para os “lesados” e, por isso mesmo, desproporcional em relação ao que sentiria o português “comum” com o aumento de impostos que se adivinha; quem já pouco tem de sobra sentirá um impacto muito superior. Bem vistas as coisas, os 5% a que se chegou parecem mais adequados.

Entendo, todavia, que algo mais deve fazer-se. Desde logo, já que, agora e finalmente, os políticos querem fixar um padrão ético de conduta, haveria que explicar, em linguagem que todos entendam, o que está a passar-se (as razões e as consequências da crise) e qual o resultados dos sacrifícios que se pedem.

Depois, cumpre que haja conta, peso e medida. Ao falar-se em cortes no décimo terceiro mês (que, para já, parecem arredados), cumpre não esquecer que, mesmo para a classe média, mais do que uma cornucópia de esbanjamento, o subsídio em causa serve para pagar apólices de seguros e outras contas “extra” que o vencimento já não comporta.

Persistir em onerar os mesmos de sempre, tornará demagógica qualquer proclamação de justiça social; será omeleta sem ovos ou Robin sem bosques, pedindo a bolsa a céu aberto e sem alguém que disso beneficie.

Em suma, em tempo de agruras, valha à Nação o título benfiquista e a visita Papal para que se não fale tanto do que aí vem…

domingo, 2 de maio de 2010

Polémica à antiga portuguesa (sem comentários)

"Que imensa tristeza nos provoca a leitura das Quase Memórias do Dr. António de Almeida Santos (Volumes I-II, Lisboa, 2006), onde se critica a II República por não ter aceite o processo das independências coloniais. Um advogado de superior craveira põe-se a historiar o passado sem atributos para o fazer, e o resultado fica bem à vista. São lugares-comuns e juízos sem prova, até com o desplante de rebaixar um mestre da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, ousando revelar conversas privadas e o «diz-se» de versões deturpadas. Como é fraco o talento histórico de um abalizado causídico que, em vez de se quedar para sempre em Moçambique, onde lhe estaria reservada a presidência da nova República, voltou à metrópole com os proventos amealhados numa conspiração consentida. E que hoje recolhe as frustrações de quem não soube fazer uma carreira política nesta metrópole onde praticamente ninguém deu pelo seu regresso."


Serrão, Joaquim Veríssimo, in "História de Portugal ", vol. XVIII ["A Governação de Salazar: Grandeza e Declínio (1960 - 1968)"], pág. 9, Lisboa, Babel (Verbo), 2010. Itálicos no original.

sábado, 1 de maio de 2010

Xeque ao "Rei do Roque"

Religiosamente, assisti ao concerto de apresentação de "Retropolitana", o novo disco dos GNR, ontem, em Sintra.

Para quem encheu Alvalade e as Antas, a noite de ontem deve ser parte de um enigma que consiste em conjugar o bom trabalho que Reininho e os seus continuam a fazer e as plateias por esgotar. Não menos estranho é, aliás, o facto de o álbum ainda não ter editora...

Seja como for, sou dos que estarão sempre prontos a ouvir a versão melódica das letras de um dos mais brilhantes poetas contemporâneos portugueses.

Das oito músicas novas escutadas (serão doze), além do já conhecido "Rei do Roque", ficaram no ouvido "Baixa/Chicago", "Clube dos Encalhados", "Tatoo" e "Burro em Pé".

O resto foi matar saudades de grandes sucessos como "Dunas", "Tirana", "USA", "Morte ao Sol" (já diria o Engenheiro Sócrates...), entre muitos outros, num total de 21 músicas e bastante inspiração de Rui Reininho.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A pouco e pouco

Acabo de ver a declaração conjunta de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho, em São Bento, a propósito da crise provocada pela descida do rating de Portugal, efectuada por uma dessas absurdas e vampiras empresas de notação financeira (a Standard and Poor's) - como se não fossem estes palhaços os responsáveis pelos belíssimos ratings que tinham algumas das empresas que estiveram na génese da crise mundial que ainda vivemos...

Voltando ao tema, se do primeiro digo que acredito estar a fazer o melhor que sabe, ao segundo louvo a responsabilidade, a serenidade, o sentido de Estado e a seguríssima caminhada para o cargo de Primeiro-Ministro (como Durão Barroso outrora, poderá dizer que "só não sabe é quando"). Esta ida a São Bento poderá ter sido também uma daquelas visitas das imobiliárias, para tirar as medidas ao "apartamento".

Fica por perceber é se vão ou não tomar-se as medidas drásticas de que carecemos; e não falo de cortes no décimo terceiro mês (como já ouvi), mas sim de algumas obras que, não deixando de ser necessárias, terão que esperar.

Oxalá Passos Coelho consiga persuadir Sócrates a faze-lo, mas para isso terá que dar-lhe margem para recuar com honra.

domingo, 25 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O vestido de Gama

[ainda a propósito da novela Inês de Medeiros]

«Inês de Medeiros foi eleita para o Parlamento pelo círculo de Lisboa. Mas com a família a viver em Paris, surgiu a questão sacramental: quem paga as viagens semanais da deputada?

A resposta evidente seria: a própria. Inês discordou. E Jaime Gama, munido com um apropriado parecer 'jurídico', concorda. Os portugueses que paguem, disse Gama. Mas avisou: o caso não abre precedentes. O despacho presidencial é como certos vestidos de alfaiate: peça única para uma cliente só. Se amanhã um deputado eleito por Lisboa instalar a família nas Caraíbas, não há borlas para ninguém. Injusto.

Resta acrescentar que o Conselho de Administração da Assembleia aprovou o despacho com votos favoráveis do PS e contra do PSD e do Bloco. O PCP não apareceu (há burgueses e burgueses). E o CDS ficou-se pelo grotesco: absteve-se. E Inês? Inês devia aproveitar o seu estatuto singular para dar a volta ao mundo, saltitando de capital em capital. E com os portugueses alegremente a pagar. O país pode caminhar para o abismo, mas é importante que, no meio da desgraça, haja alguém que se divirta.»

por João Pereira Coutinho, aqui

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Depois admirem-se...

Há um tema que me prende às malhas da dúvida, de algum tempo a esta parte.

Tudo começa com a leitura dos jornais do fim-de-semana e com a recuperação de um assunto que me é caro: o perigo de se desgastar o já puído prestígio da classe política. Noticiava um semanário que o Primeiro-Ministro, José Sócrates fora ilibado pela investigação do caso Freeport. Até aqui, nada mais do que a verificação da sapiência ínsita no princípio da inocência das pessoas até ao trânsito em julgado de sentença condenatória…

Contudo, fica por discernir qual a compensação que poderá obter o principal visado, tendo em conta que a imagem pública é um dos maiores trunfos de qualquer político contemporâneo, e que a de Sócrates foi o bombo da festa, durante todo este processo (no qual se preferiu sorver avidamente o voyeurismo informativo da TVI)? E o mesmo se diga em relação ao caso dos submarinos, que ainda agora está nos seus alvores.

Ao mesmo tempo que saúdo a decisão de Pedro Passos Coelho de não explorar o lado “barraqueiro” da política, preocupa-me, indiferentemente dos visados, o ataque a referências de conduta social (sim, os políticos…), por muito que os próprios actores se “ponham a jeito” para estes problemas que a cupidez dos media não perdoa, explorando os factos com a venda de exemplares ou a conquista de audiências (e, logo, de publicidade) como alvo.

Embora num plano diferente, é o mesmo estilo de navegação social anárquica que se induz ao abrir portas como as do “divórcio na hora” (denominação nossa) ou a da consagração festiva do casamento homossexual. Ao esbater o cariz fundacional da família enquanto pilar de referências da sociedade, o que se consegue é o desamparo e a vulnerabilidade do indivíduo em si mesmo, somando a isso a queda “em dominó” de tudo o que, hoje, temos por razoável.

Senão, vejamos: quem há umas décadas falasse em casamento homossexual seria tido por louco ou agitador. Hoje é tido por moderno e sofisticado. Até aqui, tudo bem, já que apenas me aborrece a teimosia taxonómica ou onomástica.

Porém, só por ingenuidade pode entender-se que as coisas ficam por aqui e que se não reivindicará com igual pundonor a adopção. E nem aqui eu coloco uma marca apocalíptica… O que pergunto é de coisas que, hoje, ainda temos por reserva de ética viremos a abdicar, sob a capa da modernidade… O que será “natural”, daqui a uns anos?

Tudo isto tem a ver com a perda de referências, com a contestação mediaticamente estimulada à noção de autoridade e com a perda dos conceitos de certo e de errado… Depois admirem-se…

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Espelho meu, espelho meu...

... haverá alguém mais bem paga para passear que eu?

Uma viagem por semana e ajudas de custo, à custa do contribuinte. É no que dá a snobeira da deputada Inês de Medeiros. A novela em que é personagem principal chega hoje ao fim, com a aprovação, pelo Conselho de Administração da Assembleia da República, de um parecer favorável ao subsídio das viagens semanais. Atentas as lacunas no regimento da AR, é certo que não havia outra saída. Mas não deixa de ser condenável que alguém se candidate pelo círculo eleitoral de Lisboa, declare residir em Lisboa (freguesia de Stª Catarina) e, para os demais efeitos, se dê como residente na Cidade Luz. Para que raio serve então o círculo da Europa?Adicionar vídeo

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Os doze passos de Coelho - parte II

Volto ao tema dos doze passos/trabalhos de Pedro Passos Coelho, já depois do congresso da sua consagração, que, a meu ver, mostrou já sinais bem positivos, designadamente naqueles que baptizei como 5º e 6º passos: o novo líder laranja soube constituir uma equipa equilibrada e rejuvenescida e foi conciliatório.

No meu modesto modo de ver, falta ainda:

7º Definir claramente prioridades políticas que passem por tornar a nação portuguesa instruída, culta e, logo, qualificada. Tal consegue-se com uma afinação de prioridades na Educação, com o fim da sub-orçamentação do ensino superior, com um investimento permanente na Ciência e, sobretudo, com uma aposta muito mais relevante na Cultura e na definição da sua essencialidade para a completa formação dos seres humanos.

8º - Programar com cuidado a aplicação do modelo de Estado defendido. Se é certo que o Estado Providência, que a tudo e a todos procura acudir, está relativamente esgotado, a mudança brusca para um paradigma liberal pode ser desastrosa. Digo-o não apenas por entender que é preciso um relevante lapso de tempo para vencer o costume assistencialista de cuja obrigatoriedade se convenceram as pessoas singulares e colectivas, mas também porque falta ao povo português a cultura cívica que é sine qua non para essa mudança.

9º - Cumpre, de uma vez por todas, estudar o sistema político e tomar decisões. Por exemplo: é ou não conveniente um sistema eleitoral que combine as vertentes maioritárias com as proporcionais (círculos uninominais com uma lista nacional, por outras palavras)? É que se, por um lado, a representatividade era o fito do pós-25 de Abril, por outro lado, a governabilidade (típica dos sistemas maioritários) já foi alcançada por três vezes, sem alterar o sistema. Acrescem os perigos de se entronizarem campeões do populismo, ainda que a possibilidade de responsabilizar os eleitos seja atractiva em teoria.

10º - Passos Coelho deve procurar recuperar a ideia de políticos que dêem exemplos de boas práticas. Prestigiar a política é essencial para desenvolver o País com o envolvimento de todos. O conselho de escrutínio de nomeações que propôs em sede de futura revisão constitucional parece uma boa ideia.

11º - Se as eleições presidenciais parecem ganhas, estancar o recuo autárquico do PSD é urgente, pois esse sempre foi o tabuleiro que proporcionou ao partido a sua mais fidedigna forma de contacto com os eleitores.

12º - Creio, por fim, que Passos Coelho deve almejar a maioria absoluta, não apenas em face do desgaste do Governo actual, mas sobretudo porque as mudanças que propõe dificilmente terão vencimento se o PSD, com ou sem o CDS, não tiver maioria. Ademais, esse é o remédio para a crónica instabilidade política e mediática de Portugal.

domingo, 18 de abril de 2010

Vê-se bem

Expliquem lá isso melhor...

Recebi esta semana na minha caixa de correio postal uma carta do Diário de Coimbra no mínimo invulgar, para não dizer outra coisa.

Para fazer o devido enquadramento, abaixo transcrevo os dois primeiros parágrafos:

“ O Diário de Coimbra tem vindo, de algum tempo a esta parte, a oferecer-lhe, sem qualquer custo, para si, a edição diária do nosso jornal.

Infelizmente, devido ao aumento das matérias-primas e à diminuição da comparticipação estatal em termos de porte-pago, é-nos de todo impossível continuar com esta oferta por mais tempo.”

Permitam-me que realce a minha estupefacção sobre a simpática missiva! É que não faço ideia do que é que para ali escreveram e gostaria que me informassem quais as edições com que me presentearam?

Sinceramente, receio ter cometido uma indelicadeza. Pois como nunca as recebi, também nunca pude agradecer a oferta.

sábado, 17 de abril de 2010

i: fim à vista


O jornal que ainda nem perfez um ano de vida parece ter o fim à vista. Em Maio de 2009 o "jornal i" surpreendeu no seio da imprensa nacional, num formato inovador e bastante apelativo. Goste-se mais, ou menos, dos conteúdos, certo é que foi até considerado o "jornal europeu do ano". Mas se até a imprensa com raízes já fixadas enfrenta a crise e a supremacia da informação em rede, não seria previsível este desfecho? À data da sua comercialização, eu mesma, por aqui havia vaticinado o futuro da publicação. Nem um anos depois, a "fraquissíma capacidade de gerar receitas" conduziu a uma espécie de ultimato ao director Martim Avillez Figueiredo que, por sua vez, se sentiu «defraudado» com as limitações ora impostas e decidiu-se pela demissão. Agora é esperar para ver se o projecto está mesmo condenado à morte ou se há fé que sustente este empecilho do Grupo Lena.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A infância está em vias de extinção


Não dá para acreditar, mas uma famosa cadeia irlandesa, a Primark, lembrou-se de lançar uma linha de bikinis com enchimento na zona do peito, dirigida a... crianças de 7 anos! Felizmente houve gente sensata que deu por isso e denunciou às autoridades, o que acabou por determinar a suspensão da comercialização de tais peças.

Mas se é de exigir o sentido de responsabilidade das empresas quanto a estas matérias, que dizer da responsabilidade dos pais? A pequena da foto acima, de seu nome, Suri, filha de Katie Holmes e Tom Cruise, apresenta-se frequentemente nestes trajes. Tem 3 anos e orgulha-se de ter um guarda roupa avaliado em dois milhões de euros. Não só é ridículo como, dada a fama dos progenitores, dá um péssimo exemplo de uma vivência prematura, extemporânea e artificial de uma miúda que é suposto viver como uma criança e não um como um adulto. Eu cá, muito temo os efeitos que estes comportamentos possam vir a ter nas crianças, hoje já votadas a prescindir da infância.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Embuste à escala global, by George W.


No fim do filme perguntamos como foi possível o Mundo ter ido atrás da mentira de Bush, com a suposta existência de armas de destruição maciça no Iraque?
Fica o consolo de sabermos que, mesmo com os erros inerentes, uma democracia é sempre melhor que uma ditadura ou qualquer movimento terrorista. Além de que a abstenção não honra a nossa história.
Convém também não esquecer que ali vivia (e ainda permanece) o horror do terrorismo e o cinismo do radicalismo islâmico.

By the way, o filme é muito bom.