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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Descartáveis

Notícias do dia de escrita (na quinta-feira passada): duplicou o número de casais com ambos os cônjuges desempregados (creio que em relação ao ano transacto) e a DECO tem mais de cinco mil processos de pessoas que não conseguem pagar as suas dívidas.

Se somarmos isto ao chorrilho de notícias anteriores (e, aposto, ulteriores) sobre impostos, sobretaxas, falências, aumento do custo da Saúde e da Educação e pragas afins, fica a noção de falta de futuro…

Sendo o ser humano uma criatura que precisa de objectivos e que se norteia pelo estímulo de uma vida melhor, confesso-me desorientado no que a mim diz respeito e assustado pelo que toca aos que hoje são jovens.

Faz-me especial impressão as notícias de que o Estado tem “x” trabalhadores a mais ou que o sector industrial “y” vai dispensar “n” trabalhadores… E, dito isto, eis-nos chegados ao tema: não me entra na cabeça a noção de seres humanos descartáveis!

Passando o exagero mórbido, fica a sensação de que, com as cartas de despedimento, mais valia darem um revólver ou uma corda já com o laço feito para que os visados deixassem de ocupar um lugar no Mundo que, agora, parece indevido.

Com o recuo permanente da actividade económica e com a crescente e inexorável substituição de seres humanos por máquinas (por exemplo, pude constatar, recentemente, que as auto-estradas francesas, se bem vi, não têm já qualquer portageiro) torna-se premente pensar o que fazer a legiões de pessoas a quem, em termos práticos, estamos a dizer que já não prestam para nada, que não servem para o que quer que seja.

Que futuro tem um desempregado de quarenta e muitos ou cinquenta anos? Que lugar reservamos para pessoas sem habilitações específicas? Que dizemos a jovens que mandamos estudar e a quem, depois de altamente qualificados, dizemos que não estamos bem a ver que utilidade possam vir a ter?

A trama torna-se tétrica se a isto juntarmos o seguinte paradoxo: é normal que as pessoas não achem bem trazer crianças ao mundo, neste contexto; porém, se o não fizerem mais se arruína o já debilitado Estado Social, que carece de muita gente activa para sustentar os que, merecidamente, chegaram à idade de repousar ou os que ficam doentes ou perdem o emprego. Em relação aos primeiros ainda poderíamos especular sobre a injustiça do caminho contemporâneo que não apenas os priva de fatias consideráveis da sua pensão, como aponta para que se torne regra morrer a trabalhar, perdendo-se o justíssimo período de fruição a que costumamos chamar reforma.

Não sei mesmo o que pensar de civilizações que dizem a grande parte dos seus que estão a ocupar espaço. E vem-me à cabeça o filme “Soylent Green” (protagonizado por Charlton Heston), no qual as pessoas são incentivadas a morrer mais cedo (uma espécie de eutanásia sem doença), vindo a saber-se, mais tarde, que o propósito era reconverter os seus cadáveres no único alimento que o comum cidadão podia adquirir… Folgo com o facto de (ainda) ser ficção.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ditadura do bota abaixo

Deixem-me ser do contra, num País em que só é bem aceite quem é contra este governo, contra a troika e contra a Alemanha da Sra. Merkel.
 
Com este início, já todos perceberam que não vou alinhar na crítica fácil, populista, seguidista e bem vista pelos principais comentadores, políticos e interesses na comunicação social. Esta atitude generalizada da parte de quem deveria ter um sentido crítico mais apurado, mais refinado e mais evoluído, tem-me deixado desiludido e discrente relativamente a certas personalidades da nossa vida política, que deveriam ter um sentido patriótico muito mais apurado e consolidado.
 
De repente consensualizou-se na vida política Portuguesa, a noção de que dizer mal, atacar e destruir, é politicamente correcto e mais grave ainda, esta classe de derrotistas está convencida de que o futuro lhes dará razão. E se não der?
 
Não sei se sou uma ilha em Portugal, mas há uns anos no ambito das funções que ocupo e a proposito de um exercicio sobre quadrantes cerebrais, o meu perfil encaixou em algo entre Germânico e o Latino, no fundo concluia o exercício que eu era racional, factual, quantitativo e algo criativo. Muitos acharão que é impossivel conciliar na mesma pessoa, atributos como racionalidade e criatividade, mas se imaginarmos um quadrado dividido em quatro partes e em que cada um dos cantos tem atributos e se no final desse exercício, ficarmos situados entre quadrantes é sinal de que temos atributos de um e de outro quadrante.
 
Tudo isto para dizer que sou racional e lido melhor com factos do que com meras intenções ou suposições e por isso, custa-me ouvir todos os dias na comunicação social, que há um caminho alternativo, só identificável e perceptível pelos iluminados e que só o governo é que não vê qual é. Pior ainda, é esta elite de iluminados, influenciar negativa e erradamente um franja da população, criativa, preguisosa e laxista, que acha que o estado social é uma obra divina, imutável, sustentável e eterna.
 
Estamos pois perante factos incontornáveis tais como, um País praticamente falido, com uma dívida insustentável, um desemprego alarmante, um enorme desiquilíbrio nas contas públicas e ausência do único factor que poderia inverter todo este descalabro, o crescimento económico.
 
Ora, não é preciso ser muito inteligente para perceber que o crescimento económico não se decreta, não se compra e prior ainda, não pode ser um mero processo de intenções. Muitos recordar-se-ão, que José Socrates ganhou umas eleições aumentando os funcionários públicos em 2,9%, quando o País crescia 0,5% e ainda prometendo a criação de 150.000 empregos. Pois é, quem pensava que injectando dinheiro dos nossos impostos e outro tanto emprestado pelos nossos actuais credores seria a solução, enganou-se e mais grave ainda, enganou o Povo Português, que hoje tem que devolver os aumentos fictícios que recebeu, mais os investimentos e negociatas ao longo destes anos e tudo isto, acrescido de juros.
 
Qual é então o caminho? É aqui que divirjo da maioria dos políticos e comentadores reputadados, quando digo que não há um caminho alternativo. Contudo, creio que simultaneamente e noutro palco, devemos pressionar a UE e os nossos parcerios internacionais a disponibilizar fundos europeus do tipo, QREN, PRODER, FEDER, etc..., insentando nesta fase, ou durante um determinado periodo, o Estado Português da comparticipação Nacional. Estes fundos deveriam ter finalidades muito específicas, abrangendo sectores em que somos deficitários, reconstruindo outros com vista à exportação e se possivel e ao mesmo tempo, proibindo a utilização destes fundos para à construção de auto-estradas, aeroportos e pontes, porque a tentação é grande. Esta no fundo, seria a grande medida para implusionar o crescimento económico e a criação de emprego.
 
Contudo, esta medida não chega, faltam muitas outras relacionadas com, a melhoria da justiça, com a eliminação da burocracia e do desperdício ao nível do Estado central e Autarquias.
 
Finalmente, o tema quente deste outono, “que funções queremos que o Estado Português assegure aos seus cidadãos”.
 
Novamente e tendo por base alguma objectividade, acredito que deveremos em primeiro lugar, atingir um consenso nacional quanto ao montante máximo que os nossos impostos suportam e que devem ser alocados a estas funções e só a depois definir quais as áreas ou funções que o Estado presta e em que os Portugueses estão mais disponíveis a abdicar. Neste aspecto não há volta a dar e falamos sempre do custo da saúde, educação, prestações sociais, segurança interna e externa, democracia parlamentar, instituições, etc...
 
Sem querer passar um cheque em branco e acreditando que o corte mínimo indispensável para atingirmos o equilibrio nas contas públicas, é de 4.000 milhões de euros, então sem demoras, sem demagogia e sem complexos, devemos iniciar esta caminhada longa e penosa, evitando assim rupturas muito mais dolorosas e forçadas, como aquela a que que fomos obrigados há um ano e meio, que culminou com a assinatura do famoso memorando de entendimento.
 
O risco de nada fazer ou de fingir que se faz não fixando objectivos, é o pior erro, o pior caminho e a hipoteca definitiva do nosso futuro.
 
Convenhamos que os aumentos de impostos a que já fomos sujeitos, aliados aos cortes já efecuados na despesa e aos que se avizinham, são o ingrediente ideal para a instalação da ditadura do bota abaixo, pois no fim não haverá ninguém que consiga passar incólume desta situação e o egoismo imperará sobre o interesse Nacional. A prova disso, é que enquanto os cortes nos salários se limitaram à função pública, comentadores, políticos e outros grupos de interesse, foram doseando as suas críticas, mas quando estes cortes se tornaram mais abrangentes, pedindo a cada um de nós um sacrifício adicional, aí instalou-se definitivamente a ditadura do bota abaixo.