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terça-feira, 2 de março de 2010

Entre a política e o teatro está uma cidade pequena*


A Cidade, exibida durante o mês passado, no palco lisboeta do São Luiz, é uma peça baseada em textos de Aristófanes (Os Acarnenses, Lisíastra, Paz, Pluto, As Mulheres no Parlamento, As Nuvens, entre outros). A criação é do Teatro da Cornucópia, uma companhia para a intelligentsia. A sinopse descreve o espectáculo como uma proposta crítica de abordagem da democracia ateniense e dos seus vícios, sugerindo que são esses os mesmos vícios que minam a política dos nossos dias.

Sucede que não foi preciso assistir a uma hora de espectáculo para percebermos que estávamos diante de uma peça que assenta numa trapalhada de sequências narrativas, que algumas boas interpretações não chegam para salvar. 

Fica aqui o nosso registo...

São ao todo cerca de quatro horas de duração, cuja primeira parte procura ter Lisíastra como ponto alto. No texto que conta a história das mulheres que se entregam à abstinência sexual como forma de exigir a paz com Esparta, centraliza-se a cena num Exército que sofre com a impertinência dos seus impulsos sexuais, numa caracterização bacoca, com diálogos brejeiros e sem piada. E nisto vão quase duas horas.

Chega Nuno Lopes. Nesta peça, a sua participação, longe de ser um atestado da sua versatilidade, é sofrível. Talvez a sua inclusão nesta peça procure uma aproximação ao grande público, como quando Nuno Lopes fazia rábulas junto de Herman José, há uma década atrás. Infelizmente atribuíram-lhe o guião errado. Quase pelo mesmo caminho vai a desperdiçada Maria Rueff.

Quem sabe se em alusão às quotas, segue-se a adaptação de As Mulheres no Parlamento, onde se sugere que o seu talento para o debate não é o mesmo do que para os ofícios do lar. As cenas seguem uma via sinuosa até à cidade igualitária, em que mulheres feias terão o mesmo acesso à alcova que as mais bonitas.

E eis que, perto do fim, Luís Miguel Cintra não sabe da mulher e aparece na rua. Aflito que está, resolve encostar-se a uma casa e aliviar-se. Em dificuldades por causa de uma pêra, não sabe onde, depois de comer novamente, irá «voltar a pôr a merda toda». A sequência ditaria a entrada em cena das moscas, mas serão os pássaros, que papagaiam como os tribunos nos hemiciclos, que nos oferecem mais uns minutos agonia, à espera do fim.

A tirada final de Luís Miguel Cintra, num monólogo de estilo pedagógico sobre a Democracia é uma carta fora deste baralho, e por isso um dos trechos candidatos a salvamento da exibição, juntamente com o episódio de Pluto...

Mais haveria a dizer, mas por ora fica o pedido a Fernando Mendes (o do Preço Certo) que, caso venha a ler estas singelas palavras, conte connosco no seu próximo espectáculo. Os dele não recebem subsídio público e têm muito mais nível do que isto.

* com a colaboração de Dulce Alves e Gonçalo Capitão
[fotografia de Cristina Reis]

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Boa escolha

Para quem ainda tenha dúvidas sobre a delícia que é ver Diogo Infante representar, ir ver o "Rei Édipo" ao Teatro Nacional D. Maria II é uma boa ocasião para as dissipar.

Com encenação de Jorge Silva Melo e com as participações de Lia Gama e Virgílio Castelo, entre outros, assistimos ao desenrolar da tragédia de Sófocles, que daria origem à denominação do "complexo" homónimo.

A opção pelo cenário e pelos figurinos contemporâneo não choca, já que, a mais do dito problema psicológico, muitos oráculos e muitas fontes de poder ainda se pautam pela descrição do velho texto...

Um pequeno contratempo (que creio que será corrigido em futuras representações) foi a actuação do personagem que trouxe a notícia da morte da Rainha Jocasta (mãe e mulher de Édipo); trôpego e pouco emotivo, recomendam-se mais ensaios e melhores presenças em tão distinto palco.

Quanto ao mais, vale a pena conhecer ou rever o episódio da Esfinge, para que o enquadramento com os dizeres do Infante Rei seja total.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Momentos afortunados

No último sábado, tive a felicidade de assistir, no Teatro Nacional de São João, ao monólogo "O Ano do Pensamento Mágico" interpretado pela imensa Eunice Muñoz e encenado por Diogo Infante.

A mais do interesse do assunto, a rendição ao talento da maior actriz portuguesa é incondicional!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Tento na língua!

Abençoado País que nos dá motivos para tantas pilhérias...

Tendo o Inatel organizado uma excursão de idosos ao Teatro São Luiz para mais uma representação de "O Que Se Leva Desta Vida", a plateia sentiu-se chocada com a linguagem dos actores e sabotou a continuação da peça.

Desde recomendações para o plantio de batatas ao estabelecimento de uma relação de causa-efeito entre os termos usados e o consumo de estupefacientes, de tudo aquela gente conseguiu articular, como poderá ver.
Ficam no ar algumas questões mais sérias, todavia:
  • Terá havido cuidado por parte de quem, no Inatel, escolheu este programa?
  • É legítimo interromper uma manifestação artística, quando, ao que se sabe, os teatros portugueses ainda não são cadeias e qualquer um pode sair, a todo o tempo?

Fora isto, creio que assistimos a uma das relações possíveis entre os agentes culturais e o mercado. Fizera o Estado mais uso deste tipo de sondagens e mais bem aplicados seriam os apoios públicos para a cultura (embora, evidentemente, haja que consagrar alguma verba para a cultura experimental e para as primeiras obras)...

Estando eu a caminho do dito São Luiz para ver o espectáculo de Manuel João Vieira, resta-me esperar que a plateia de hoje saiba ao que vai!...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Esta noite recomenda-se

Esta noite improvisa-se, do italiano (e Nobel da Literatura) Luiggi Pirandello, é a mais recente peça dos Artistas Unidos, em cena no Teatro Nacional D. Maria II. Uma excelente equipa de actores, dirigida por Jorge Silva Melo – salientem-se, entre outros, Lia Gama e Sílvia Filipe - interpreta uma peça que narra outra peça, quase crónica de costumes, a retratar tão bem as situações de sonho, aspiração, desengano... Uma peça assinada por um autor que se dedicou a reflectir sobre a relação entre o público e o teatro, e mostra aqui o palco sem limites e, sobretudo, como um lugar de desiquilíbrio. Certamente como em muitas das nossas situações de vida.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Não quero eu outra coisa...

Estreou ontem, no Casino do Estoril, a reposição da peça de teatro "Queres fazer amor comigo?", com interpretações de Ana Videira, Cátia Ribeiro, Jenny Romero, Rita Frazão e Rita Palma.

É uma comédia urbana sobre mulheres em várias fases da vida, com os vários matizes da condição feminina e em diversos contextos pessoais e profissionais.

Boa representação e textos com inteligência. Diz quem sabe que é melhor que a encenação anterior. Cá por mim, gostei da minha primeira vez...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Sonhos não se comem só no Natal


Há dias felizes!

Ir ao Teatro Naciona D. Maria II ver "Um Conto Americano - The Water Engine" de David Mamet assegura-o.

Boa representação (entre outros com Eurico Lopes e Lourdes Norberto), muito boa banda sonora e soberba cenografia, numa peça passada na América do iniício do século XX, mas com um tema actual: a dependência dos combustíveis fósseis.

Um jovem inventor, concretizando um sonho, cria um motor a hidrogénio/água e a indústria não aprecia a veleidade. O resto?!... Vá (mas vá mesmo) ao teatro até dia 13 de Julho!