segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Continente Devastado

Dei um salto a Paris há dias. Três horas de TGV, é fácil! Mais uma vez, talvez porque o inverno precoce em França aperta, constatei um maior numero de pessoas à porta do albergue de Aubervilliers. E mais uma vez, constatei o numero crescente de homens, mulheres e crianças africanas na bicha.
 
Em tempos que já lá vão, andei pela África, em missão comercial. Na Portuguesa e na África do Sul. E na Rodésia! A África é um continente que me fascinou. Nunca o poderei mais esquecer. Mas hoje, sangra-me o coração perante o espectáculo desta terra tão rica e tão miserável.
 
Porque é que as metrópoles europeias estão cheias de africanos, com o olhar perdido, sorriso contrito, desamparados , mendigando pobremente, vendendo à escapada, trabalhando duramente, vassoura na mão, pá em punho, remexendo o contentor do lixo por trás do restaurante? Que desespero incomensurável conseguiu expulsar estes seres admiráveis fora da pátria soalheira - que eles tanto apreciam e empurrá-los assim para os caminhos do exílio plenos de perigos, para acabar tristemente sob a ponte Mirabeau, na grande Place, por trás do Partenon, à volta do Coliseu de Roma, em Picadilly Circus e face ao Reijks Museum? Porquê?
 
O êxodo arriscado começou há alguns anos no Senegal, na Costa do Marfim, na RD do Congo, no Burkina, no Quénia, na Somália, no Mali ou no Ruanda, pouco importa; foi sempre lá que começou, lá onde a vida estava ameaçada, e depois, por montes e vales, a pé, em camioneta, de comboio ou de barco, a longa caravana dos deserdados pôs-se em marcha, deixando pelo caminho o seu tributo de estropiados, de famintos, de extenuados, de mortos vivos, no grande deserto escaldante, nos caminhos do mato mal afamado, no oceano furioso até Ceuta a insolente, Tripoli a decadente, Alexandria a enigmática ou Tunis a trágica.. Aqui, os últimos escapados destes caminhos de sofrimento vão ver-se oferecer, (como noutros tempos os Portugueses na passagem dos Pirenéus !), a alto preço, por um passador bandido ,de completar a travessia do continente da fome - para um outro, onde a fome também existe.
 
Sim, porque é que tantos emigrantes africanos afrontam o deserto, o oceano e o mar, os guarda-costas e os passadores assassinos, para migrar para esta Europa miragem!
 
Simplesmente, porque nos países africanos de miséria, onde as companhias mineiras pilham o minério precioso e caro, e que estas não deixam quase nada aos que os enriquecem, os filhos da África, depois de terem trabalhado por quase nada em minas do inferno, se ali não morreram, preferem sucumbir à miragem do norte, afim de ganhar alguns cobres para enviar à família ( como os Portugueses outrora).
 
Os exemplos são legião. Mas existe um, mais recente, que é simbólico: O "Coltan", (metal raro, indispensável para a fabricação dos telefones celulares e de televisores) é extraído dos poços de minas artesanais na Republica do Congo , no Kivu, mais exactamente ( 80% das reservas mundiais), após o que, é imediatamente expropriado e exportado para as fábricas de transformação da Europa, América e sobretudo da Ásia.
 
A transformação industrial do minério cria o valor e a mais valia, donde os capitalistas retiram os benefícios industriais e mercantis, e o Estado os seus impostos e as suas taxas. Basta saber que o quilo de Coltan se vende a 500$ no mercado! Mas a extracção do Coltan rende pouco : entre 10 e 50$ por semana, para um mineiro da morte; o que é o quadruplo do salário dum congolês "médio"! Um mineiro extraindo em média 1 quilo de Coltan por dia, 7 dias da semana, recebe um salário semanal médio de 35$, em contrapartida de 7 quilosx500 $ = 3 500 para o valor da mercadoria. Não podemos dizer que a África recebe a justa parte da riqueza que se lhe rouba!
 
Cessemos, portanto, de distribuir a caridade aos africanos. Cessemos de lhes emprestar dinheiro para se endividarem para a eternidade e deixemo-los beneficiar das riquezas continentais e assim eles serão prósperos! Não acham ? Mas talvez não!, evidentemente! E porquê ? Porque tudo depende de qual classe social se apropria estas riquezas privadas ou colectivas.
 
Mas saibamos que cada quilo de Coltan, custa a vida de dois menores africanos nas minas do Kivu, mortos nos desmoronamentos das minas artesanais sem segurança nenhuma.
 
Mortos para que Apple, Nikon, Sony, Nokya, Ericsson e tantos outros monopólios ocidentais possam continuar a oferecer dividendos chorudos aos seus accionistas! Merci!
 
Uma vintena de aviões carregados de minério descolam todos os dias para o Ruanda (que recolhe à passagem 250 milhões de dólares pela venda do Coltan) . Que importa as crianças raptadas à saída da escola para ir trabalhar nas minas da morte! Toda a gente o sabe, mas ninguém diz nada, nem mesmo as Nações Unidas!
 
Há uns meses atrás, foi na África do Sul onde 34 mineiros, enfim libertados do Apartheid, foram assassinados pela policia sul-africana por causa de greve mineira, visando um salário de 400 euros por mês!
 
A África foi sempre, desde o dia em que Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, um fornecedor de matérias primas. No início, a matéria prima foram os escravos, valendo menos que o peso em cereais, depois a madeira exótica preciosa, depois os produtos alimentares, espoliados nas plantações expropriadas aos autóctones contando por menos que nada neste mercado. Hoje, assistimos à espoliação dos minérios raros, das pedras preciosas e do petróleo, das quais os povos locais não retiram nenhum benefício.
 
Não resta praticamente nada para a sobrevivência destes países. Assim, em vez de se deixarem morrer os Africanos seguem a pista das suas riquezas, roubadas, até ao norte do Mediterrâneo. Eu vi-os na bicha para ir comer a sopa no albergue de Aubervilliers, no Paris Ville Lumière!
 
Freitas Pereira

1 comentário:

Faty Laouini disse...

Um impressionante post, acerca de uma realidade que me toca e comove. Muito, muito bom.
(Sou capaz de retirar uma passagem ou outra para põr no meu AEfetivamente. Posso? Com as devidas indicações do autor, claro.)