quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Rio, Rio, Rio [Rio para não chorar]

Eu até fiquei momentaneamente feliz quando o comissário (brasileiro, por sinal) anunciou em pleno vôo que o Rio foi a cidade eleita para acolher os Jogos Olímpicos de 2016. As outras concorrentes eram de peso (Tóquio, Madrid e Chicago) mas ainda assim o país-irmão levou a melhor, conseguindo que aquele gigantesco evento desportivo se estreasse na América do Sul e, pela primeira vez, num país de língua portuguesa.

E depois, depois lembrei-me que a Cidade Maravilhosa não é assim tão maravilhosa. Há favelas que florescem como cogumelos, criminalidade a rodos, miséria recôndita, prostituição a la carte, corrupção infiltrada por tudo quanto é sítio. E por muito que o BOPE actue, amuralhem as favelas e se abra caça a tudo e todos, não vejo que assim, do pé para a mão, seja possível tornar a cidade carioca num lugar mais visitável.

Por muito que soe a redutor, parece-me que o Brasil e seus governantes deviam ter outra espécie de prioridades. Estimam-se gastos de milhões em torno de um só evento desportivo (cuja pertinência e grandeza jamais poria em causa), mas que me parece despropositado num país que tem enormes carências, nas quais se devia concentrar toda a atenção, empenho, e claro, todos os reais.

Tenho para mim que os Olímpicos nestas circunstâncias só enchem olho a locais e forasteiros, são mais do mesmo para entreter as massas e tudo quanto se venha a fazer naquela cidade não é mais do que varrer o pó para debaixo do tapete.

3 comentários:

Gonçalo Capitão disse...

Como sabes, muitas vezes, estes projectos são usados para recuperar a zona ou cidade onde ocorrem.

Exemplo disso é a Expo, em Lisboa. Pode ser que as Olimpíadas sirvam para atacar grande parte dos problemas do Rio de Janeiro.

Dulce Alves disse...

Gonçalo,
na Europa essa receita funciona, mas na América Latina não é a construção desmesurada de infra-estruturas que possam acolher aqueles eventos que vai resolver os problemas que ali subsistem...
E para termos uma pequena noção do risco que é levar os Olímpicos ao Rio, basta ler num qualquer jornal o que aconteceu na zona Norte da cidade, no fim de semana passado...

freitaspereira disse...

Claro que quando se escolhe a estratégia repressiva, desde há dezenas de anos, para um problema que já vem do 19° século, agravada pelo tráfego da droga , verdadeiro combustível da criminalidade galopante nas principais cidades do Brasil, o resultado está à vista : as populações das favelas parecem rejeitar a presença policial e o Estado.

O espectáculo terrível destes últimos dias, não encontrará uma solução radical para o problema, criado ao longo da historia, dum mundo paralelo – o das favelas – à porta das cidades.

Porque o problema não é só do Rio, e das sua 600 favelas, Caro Gonçalo,

As favelas são o resultado duma política e dum modo de desenvolvimento violentamente impregnado de desigualdades escandalosas, racistas, criadores de expropriações maciças e continuas dos trabalhadores do campo e de êxodo para as cidades.

De migrações, de miséria e duma extrema pobreza, de todos os excluídos dum sistema económico injusto, que beneficia uma minoria extremamente rica.

Em vez dos Jogos Olímpicos, que vão custar uma fortuna, teria sido melhor que esse dinheiro fosse utilizado numa nova política de emprego, de repartição das riquezas, de escolarização real, que poderia ajudar a esquecer o facto que o Brasil, que é felicitado todos os dias pelo seu desenvolvimento económico ,que lhe deu acesso ao G20, é ao mesmo tempo desastre social e a fractura social e racial mais evidentes da América Latina. Sim, porque o Brasil é rico.

E não é a solução do governador do Estado do Rio, Sérgio Cabral Filho, de construir um muro para separar as favelas do resto da cidade, que vai resolver o problema.









Claro que quando se escolhe a estratégia repressiva, desde há dezenas de anos, para um problema que já vem do 19° século, agravada pelo tráfego da droga , verdadeiro combustível da criminalidade galopante nas principais cidades do Brasil, o resultado está à vista : as populações das favelas parecem rejeitar a presença policial e o Estado.

O espectáculo terrível destes últimos dias, não encontrará uma solução radical para o problema, criado ao longo da historia, dum mundo paralelo – o das favelas – à porta das cidades.

Porque o problema não é só do Rio. As favelas são o resultado duma política e dum modo de desenvolvimento violentamente impregnado de desigualdades escandalosas, racistas, criadores de expropriações maciças e continuas dos trabalhadores do campo e de êxodo para as cidades,
De migrações, de miséria e duma extrema pobreza, de todos os excluídos dum sistema económico injusto.

Em vez dos Jogos Olímpicos, que vão custar uma fortuna, teria sido melhor que esse dinheiro fosse utilizado numa nova política de emprego, de repartição das riquezas, de escolarização real, que poderia ajudar a esquecer o facto que o Brasil, que é felicitado todos os dias pelo seu desenvolvimento económico ,que lhe deu acesso ao G20, é ao mesmo tempo desastre social e a fractura social e racial mais evidentes da América Latina. Sim, porque o Brasil é rico.

E não é a solução do governador do Estado do Rio, Sérgio Cabral Filho, de construir um muro para separar as favelas do resto da cidade, que vai resolver o problema.











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