quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O não admirável mundo novo

Com maior ou menor ar de frete, tenho procurado acompanhar a campanha eleitoral e os tempos que antecederam… Entre TGV, espanhóis, remodelações totais-que-afinal-são-parciais do Governo e luta de classes, tem sido mais do mesmo.

Todavia, sinais há de que o modo de fazer campanha mudou e de que os políticos, ao invés de inventarem modelos a seguir, preferem sujeitar-se à imagem de descrédito que as pessoas têm da classe política, procurando caminhos para serem os “menos detestados da turma”…

O primeiro desses exemplos vem do anunciado e continuado crescimento da votação no Bloco de Esquerda. Trata-se de um partido que tem no oportunismo o seu cimento programático: detecta-se o problema do momento, dá-se-lhe um banho ideológico de esquerda e toca de pôr em causa a seriedade de todos os demais partidos, sem alguma vez oferecer um modelo consistente de governação; aliás, nas fileiras do BE existe a certeza de que uma ida para o Governo poderá ser o fim do bluff, seja porque se vêem forçados ao aburguesamento (descontentando os revolucionários e os anarquistas), seja porque o seu radicalismo torna a sobrevivência de uma coligação insustentável (alertando os eleitores moderados para a inutilidade do voto no BE).

No fundo, o que está em causa é um voto de protesto, que se explica pelo facto de não vivermos tempos fáceis e de o Bloco dar forma política aos desabafos que todos temos no quotidiano. Advirto, no entanto, para o preço do voto na extrema-esquerda: o facto de não servirem para qualquer governo responsável e a circunstância de poderem vir a estabilizar bem acima dos 15% podem acarretar uma ingovernabilidade duradoura do sistema político português.

A segunda nota de mudança das campanhas é dada pelo corrupio de líderes partidários (seguindo-se os dois principais concorrentes à autarquia lisboeta) ao programa da SIC “Gato Fedorento esmiúça os sufrágios”, que teve a sua primeira edição na segunda-feira, entrevistando José Sócrates e liderando, desde logo, as audiências com mais de um milhão e trezentos mil espectadores.No dia seguinte, Manuela Ferreira Leite terá rondado os dois milhões de almas atentas!...

A meu ver, tal fenómeno – a ida de políticos de primeira linha a programas de entretenimento – serve para aferir da força dos media e da indústria de conteúdos, iniciando um percurso que já tem anos nos E.U.A. e que obriga a que, por lá, qualquer candidato ou figura pública que se preze seja obrigado a passar pelas mãos de Oprah Winfrey, Jay Leno ou Jon Stewart. Ao mesmo passo, representa também um recuo do poder político… Certo é que descontrai, mas não deixa de se tratar de "brincar com coisas sérias".

A última nota de mudança é, a meu ver, dada pelo modo de campanha de Manuela Ferreira Leite: apresentar um programa e um discurso sem promessas concretas e afirmar que apenas fará o que puder representa uma capitulação perante a vox populi na sua condenação dos políticos e o fim do dever de apresentação de um caminho a seguir, quando já há muito se deixara de falar do ponto de chegada (o ideal social). No entanto, pode ser que dê resultado…

1 comentário:

Ricardo Cândido disse...

Muy bien, Mymen...

Acrescentaria apenas que "quem espalha a magia" é o meu homónimo e não os líderes políticos. Esses apenas fazem o favor de demonstrar que até têm sentido de humor. Todavia, o registo não deixa de ser engraçado.