sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Os novos doutores

Ao ler a última edição do “Expresso”, fica-se-me parva a alma…

Leio um artigo sobre Educação e, entre outras pérolas, vejo que um aluno do 6º ano (se me não falham as contas, do 2º ano do ciclo preparatório, no meu tempo) passou de ano com nota negativa a oito das nove disciplinas que tinha (isso mesmo: 8 negativas em 9 cadeiras)!!!...

Segundo os sábios que, com teorias de pouco resultado prático, ganham a vida no Ministério da 5 de Outubro, a ideia (expressa pelo dito “Expresso”) é evitar o abandono escolar antes de cumprida a escolaridade obrigatória e, além disso, conceder aos alunos o mínimo de competências para terem uma profissão. Parece que, segundo o mesmo semanário, citando elementos do conselho executivo da escola de Odivelas, o aluno aguardava, pese embora sem garantia, o ingresso num Curso de Educação-Formação (um curso técnico).

Não subestimando este último dado, queimam-se-me os neurónios perante alguns problemas que a minha burrice não me permite resolver; a saber: garantir o mínimo de competências?! Para um aluno que reprova a cerca de 89% das disciplinas?! Quem garante que mudá-lo de ano sem ter entendido peva do que tentaram ensinar-lhe vai fazer dele um cidadão competente para o que quer que seja?!

Depois, pergunto: que ideia é essa de que um mau aluno do ensino “clássico” vai interessar-se por aprender num curso técnico?! A menos que haja a convicção de que o ensino técnico é bom para retirar os menos “capazes” da escola dos meninos inteligentes… Não me espantava, já que foi essa esperteza saloia e esse novo-riquismo que fizeram com que ganhássemos a mania dos “doutores e engenheiros”, destruíssemos a nossa malha social de quadros técnicos qualificados (fechando o ensino técnico institucionalizado) e nos tornássemos num dos mais atrasados países europeus!

Como se tal não bastasse, o prevaricador-mor gaba-se da façanha; Valter Lemos, Secretário de Estado da Educação, declarou àquele jornal que “temos a pior taxa de repetência e de abandono escolar da OCDE”. Ou seja, segundo este iluminado da política nacional, o que importa é maquilhar a estatística europeia, já que não demonstra (missão impossível, digo eu) que as suas medidas qualifiquem melhor os nossos estudantes!...

Que há uma certa propensão da equipa ministrial para a farsa com os números já se sabia; o que nos faltava era uma confissão!...

Mas não me entenda mal o amigo leitor: não sou a favor de que se abandonem os jovens com menor aproveitamento. Porém, no que também não alinho é na passagem para europeu ver ou na assunção dos cursos técnicos ou profissionalizantes como refugo, antes defendendo que a sua opção seja, cada vez mais, a escolha primeira de muitos jovens.

O problema da cosmética do Ministério é que formamos gente que sabe cada vez menos (qualidade do saber) de cada vez mais (informação disponível) e daí sairão, entre outros, os futuros professores e os novos governantes.

Pobre País o nosso que chumba o seu próprio futuro!

2 comentários:

Dulce Alves disse...

Desde que a Ministra teve a lata (sim, lata) de afirmar que os alunos “não devem chumbar porque com isso desaprendem”, já nada me espanta. Parece-me bem que tendo em conta o relato do Expresso, essa ideia brilhante vingou nas escolas portuguesas.
E já nem há qualquer pudor em reconhecer que se tratam de estratégias que só servem para ajudar a projectar o país para os patamares cimeiros dos rankings…

E depois, quão utópica me parece essa pretensão de transformar maus alunos em bons profissionais, empurrando-os para os CEF/CET. É que até podem especializar-se com sucesso numa profissão mas faltar-lhes-á sempre a formação-base em áreas que não se podem dispensar do quotidiano: português, matemática, etc.

Subscrevendo um cronista da nossa praça: "caminhamos para o abismo da ignorância”.

Rosa Moreto disse...

Subscrevo Dulce, aliás, eu que o diga que convivo com estes alunos despreocupados e estes cursos tão mal estruturados de perto. E já me preparo para enfrentar mais um ano lectivo a ouvir alunos dizerem que não precisam da escola para nada, mas continuam nos cursos porque sabem que não chumbam e lá ficam com o 9º ano. Já falei sobre isto no LODO e de facto continuo a pensar que, por melhor que seja a intenção, estes cursos quase só servem para as estatísticas (digo quase porque ha uma minoria interessada e empenhada). Lá vou continuando na esperança de melhores ventos e de um melhor ensino em Portugal. Vamos lá ver se percebem de uma vez por todas que formar alunos sem lhes dar a formação mínima necessária é tudo menos formar.