sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Puxão de Orelhas

Diz o povo que “quem diz a verdade não merece castigo”, mas essa lógica parece não se aplicar no seio do grupo parlamentar social-democrata: o jovem deputado André Almeida, em declarações ao Jornal de Notícias, classificou de “excelentes” as condições de trabalho dos eleitos no Parlamento e disse ter-se mostrado surpreendido com o ordenado auferido pelos deputados*, pelo que resolveu doar 10% daquele vencimento a instituições do seu distrito.
Só que tal ingenuidade e benevolência não caiu nas boas graças de muitos dos seus pares. E vai daí, o deputado foi instado a reconhecer que teriam sido declarações irreflectidas e... nada mais, nada menos, que a pedir desculpa por ter dito... ... a verdade.

* 3708€ é o vencimento base ao qual se somam despesas de representação e abonos de transporte.

6 comentários:

Sara Barbot Roquette disse...

André Almeida, voto em ti!

João Pedro Cruz disse...

com o meu, já são 2 votos!

Luis Cirilo disse...

Já fui deputado,já não sou mas mesmo assim não alinho nos coros fáceis contra os nossos parlamentares.
Os deputados ganham razoavelmente,vencimento e ajudas de custo,mas estão longe de ganhar bem.
Porque para aqueles que o são com seriedade(a maioria)a função tambem acarreta despesas elevadas.
Deslocações,estadias,refeições,despesas de telemóvel,etc.
Com uma agravante: nos circulos eleitorais,á excepção de Lisboa obviamente,enfrentam grandes dificuldades para exercerem cabalmente a função.
Sem instalações,sem meios de comunicação,tem de suportar do seu bolso todas essas despesas e outras se de facto quiserem trabalhar perto dos seus eleitores.
Dir-me-ão que ninguém é obrigado a ser deputado.
É verdade.
Mas se só pudesse ser deputado quem tivesse fortuna pessoal creio que sociológicamente o país estaria muito mal representado.
Não sei o que levou o deputado em caus a afazer essas afirmações.
Talvez o dinheiro lhe sobre,talvez alguma ingenuidade,não sei.
Sei é que para um deputado que leve a função a sério o vencimento não é nada de especial.
Para alguns dos outros se calhar até é demais.
Mas aí já entra a consciência de cada um !

Carmona disse...

Concordo plenamente com o Dr. Luis Cirilo. Sendo de um Distrito do Interior acompanho regularmente as visitas do único deputado eleito pelo PSD que regularmente, e conforme deveria ser, faz das segundas-feiras dias de visita ao círculo pelo qual foi eleito, agendando encontros com Associações de empresários e comerciantes, visitas às instituições de ensino, resposta às inúmeras solicitações de autarcas, entre outras actividades.
A isso acrescenta-se a enorme fadiga resultante de segundas que entram às vezes pela terça dentro que obrigam o deputado em questão a pernoitar no distrito para logo pelas 6h00m rumar a Lisboa.

Se calhar, pensando bem, por vezes a política abre outras janelas onde as remunerações são bem mais atraentes.

No entanto se o problema é dinheiro a mais o deputado em causa bem que podia doar mais uns 10% à JSD, da qual é representante, ou mesmo ao PSD, que também me parecia de facto obra de caridade nos tempos que correm

Dulce Alves disse...

Como se pode deduzir pelo que escrevo, não questiono a justeza do vencimento dos nossos deputados, nem condeno as condições de trabalho de que usufruem.
Questiono, isso sim, a atitude dos que forçaram o jovem deputado a pedir desculpas pelo que dissera. Não me pareceram indignas ou ofensivas as suas palavras e tal episódio só me leva a crer que os deputados laranja preocupam-se demasiado com questões acessórias ao invés de se focarem no que é essencial.

Gonçalo Capitão disse...

Tema interessante, Dulce. Tentarei deixar umas notas pessoais:

1 - O vencimento não é mau, mas anda desligado do mérito. Ou seja, é possível que um "jerico" ou baldas receba o mesmo que o melhor. Contudo, não creio que haja alternativa (a não ser quando se fazem as listas), dada a natureza do cargo.

2 - Talvez por ser pouco mais do que um serviço cívico prestado com condescendência (o CV - http://www.parlamento.pt/deputados/Deputado.aspx?ID=2108 - indica que não deve passar dificuldades) o André possa dizer isso. Com esse ordenado já não contratas um quadro superior de valia mediana, numa boa empresa...

3 - Parece-me de um populismo dizer que o ordenado é bom e dar 10%. Se queria fazer beneficiência e não auto-promoção, dava sem anunciar.

4 - Gostaria mais de ouvir falar no André por posições substantivas e corajosas.

5 - Desta vez, dá-se o benefício da dúvida, já que outros mais maduros se costumam deslumbrar de forma bem mais ridícula!