sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A Apologia de Sócrates*

Prelúdio:
Confesso que por ocasião dos três anos de governação socrática, muita vontade tive de opinar por estas paragens sobre tal data. Contudo, julguei que aqui pelo Lodo haveria quem, melhor que eu, o viesse a fazer. Mas não se chegando ninguém à frente, voilá:

Não há dúvida de que Sócrates comemorou em grande estes três anos no poder. Na segunda-feira, a aguardada entrevista confirmou e convenceu que o Sr. Engenheiro tem um rumo. E como diria alguém que me é próximo: “Quem sabe para onde vai, já chegou”. Reconheça-se, aquela entrevista foi a verdadeira glorificação de Sócrates. Claro que, coisas tão evidentes como a sua altivez e presunção acabaram por nos passar ao lado.

Tal como passaram ao lado temas a que um primeiro ministro sério não devia fugir. Caso do desemprego (só se falou de emprego, de 90 mil postos de trabalho criados (?!!!), de emprego, dos 150 mil empregos que vamos atingir, e ainda de emprego..!).
Quanto à Saúde o PM pouco adiantou e no respeitante à Economia ignorou o sobreendividamento dos portugueses, as crises internacionais (como se a elas fossemos imunes), a inflação... e por aí fora.
Mas dos problemas morais que se lhe assomaram quando teve que subir os impostos, isso sim, falou-se. Já quanto aos reais problemas dos portugueses, nada.
E porque não do tema que marcara aquele dia – as cheias? Tão preocupado com o progresso tecnológico, com os tais 3%, com os simplex’s e demais artifícios, mas... e depois? Depois chove e pufff! o caos chega à cidade e, imagine-se, chega a matar. Mas que raio isso interessa?... Somos um país desenvolvido, brada-se ao crescimento, mesmo que teimemos em não resolver problemas comparáveis aos do terceiro mundo.

Apesar de tudo isso, Sócrates tinha a lição toda estudada e saiu-se bem. Pode não ter sido aluno brilhante, mas na segunda-feira lá estava ele, engalanado, sorriso número 44, os números na ponta da língua e os argumentos do costume com os floreados do costume. Pronto, assim se convence uma nação.

Com a ajudinha (inegável) dos dois jornalistas encarregues de comandar o barco, quem acabou por se revelar comandante foi o PM. Aos outros dois coube lustrar a embarcação: seguiram o alinhamento definido sem acrescentar uma vírgula que fosse, subalternizaram-se como não se lhes esperava, desfazendo-se em desculpas pelo incómodo das perguntinhas, cheios de renhónhó (isto escreve-se? adiante...) e afins.
Só faltava um Don Perignon para brindar no final.

Num contexto assim, diga-se, até o Sr. Emplastro (sim, esse...) nos convencia enquanto líder desta nação.

Chego à conclusão que, ao fim ao cabo, neste país tudo se resume a uma questão de maquilhagem. Aliás, maquilhagem em três passos simplex é o método socrático: apesar do esforço e da retórica do Sr. Engenheiro, o país mantém-se feio, envelhecido, cinzentão e votado a um triste fado. Mas Sócrates vende um paraíso a emergir, uma nação a caminhar rumo a um risonho futuro, um país de oportunidades, de choques, simplex’s e afins. Que é isto senão maquilhagem? ...

* espero bem que o outro Sócrates não se ofenda por usar tal epígrafe...

1 comentário:

João Pedro Cruz disse...

Dulce,
100% contigo!!!
Ainda acrescento o seguinte:
A falta de capacidade dos jornalistas em colocar perguntas vitais para o chefe máximo do governo, caiu no ridículo no final da entrevista com a seguinte interrogação: “assinou projectos que não eram da sua autoria?!?!?”…