terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Nação falida...

Face ao título que escolhi e dada a independência do Kosovo, aparentemente, a resposta é: não, uma nação não vai à falência.

Todavia, em breves linhas, retomo o que tenho visto sobre Portugal e que, a meu ver e como mero sinal de protesto, motivou a eleição do Doutor Salazar como o maior de entre os “Grandes Portugueses”: a política contemporânea tem sido incapaz de resolver as angústias do povo português, que se afoga em dívidas e vê que até o milagre prometido pela moeda única só serviu para passarem a pedir-nos cem ou cento e vinte escudos por um café, a título de exemplo… Mais do que qualquer assomo serôdio de salazarismo, disse-o então, este é um primeiro e manso grito de revolta.

No seguimento de um mal-estar que se vem manifestando, para já, à boa maneira portuguesa – ou seja, com algum encolher de ombros e o aumento das anedotas sobre nós próprios – surgem as palavras do Presidente do Observatório de Segurança, General Garcia Leandro, que foca, precisamente, o esgotamento do nosso espectro partidário com aspirações governativas e o risco de implosão ou explosão social.

E o que fizeram os sucedâneos de elite que se apoderaram de gordas fatias de PS e PSD? O mesmo de sempre: assobiaram para o lado e continuaram a repartir migalhas de poder, de influência e sabe Deus de que mais, sem que os seus líderes, que tenho por insuspeitos, possam por ordem na lama sub-ética em que vamos tentando discernir causas, perdida a visão estratégica do País como um todo com futuro.

E enquanto decorre o festim, fecham serviços, depreciam-se as forças armadas e de segurança e sufocam-se famílias com juros, sem que se ouça um discurso pedagógico sobre consumismo, excepto algumas palavras sempre avisadas do Presidente Cavaco Silva.

Na passada, algo que é quase um golpe de misericórdia na nossa já postergada auto-estima, um relatório da Comissão Europeia afirma que Portugal está no topo da lista de países europeus com maior efectividade ou risco de pobreza infantil, apenas suplantado neste tétrico campeonato pela Polónia (assim como na qualificação para o EURO 2008…).

A lista de factores explicativos, essa, é de lembrar o esplendor de um país do terceiro mundo; fala-se de precariedade do emprego, baixos salários, baixas qualificações e abandono escolar, famílias desestruturadas ou mal dimensionadas (o clássico exemplo de que há sempre espaço para mais uma criança, sem pensar que as exigências de hoje são bem superiores às do tempo do “pé descalço” e uma sopa) e carências alimentares, o que quer dizer que, em 2008, há crianças portuguesas, futuros cidadãos activos de Portugal, que passam fome, apenas comendo o que lhes dão nas escolas ou instituições sociais.

E bem pode o Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, que me parece sério, dizer que aumentou as prestações sociais e o apoio às famílias que, penso eu, continuam a faltar políticos com dimensão senatorial para “guiarem” o povo, através de opiniões credíveis, e o estabelecimento de prioridades. Por que é que eu tenho que ver o meu país como a Somália da Europa e, ao mesmo tempo, ouvir falar de milhões em submarinos, casinos e para-cretinos? Por que diabo tenho que pensar para conseguir contabilizar as indemnizações dos ex-gestores do BCP? Qual a razão pela qual há reuniões e comissões de Deputados sobre off-shores e curricula de políticos, sem que se veja uma cimeira séria e mediática sobre crianças que passam fome? E não andaremos a passar alunos (no ensino regular e nas “Novas Oportunidades”) só para enganar estatísticas europeias, mantendo as causas estruturais do nosso atraso?

Estas e outras perguntas quase retóricas agravam aquela sensação de que isto já só lá vai com uma “cadeira pela cabeça abaixo” dos nossos políticos...

3 comentários:

Jones disse...

Gonçalo mais uma vez um grande Post.. parabéns...
o que me parece é que por muita vontade que um politico recém eleito para um cargo, tenha vai acabar por "esbarrar" mais cedo ou mais tarde num mar de obstáculos, obstáculo esse que ele também se tornará para novos políticos com a mesma vontade inicial..é cliché mas a politica está viciada, não são os problemas sociais que ninguém "vê"...
É a promiscuidade autarquias/empresas
Deporto/politica
E mais um sem fim de problemas que todos conhecemos e reconhecemos neste nosso Portugal...
Jones

freitaspereira disse...

Grande « post » Amigo Gonçalo !

Grande sensibilidade e revolta muito sentida.

E tem muita razão. Vinte anos de crise . Sobre um monte de riqueza. Em frente da qual, através das racionalizações, despedimentos colectivos, destruição das conquistas sociais, as medidas tomadas pelos mandatários públicos que são os governantes, foram todas no mesmo sentido: empobrecimento e extensão da miséria.
Numa sociedade que não é capaz de oferecer outro modelo que o do consumismo, como muito bem escreveu, de outra esperança que não seja o acesso aos bens efémeros. Vinte anos de crise no termo dos quais o balanço da Europa é desastroso: cinco milhões de pessoas sem abrigo, dos quais 65% não têm trinta anos. Milhões de pessoas endividadas . Consumo a crédito e precariedade do emprego alimentam este flagelo.

Dinheiro publico mal utilizado, consumismo erigido em religião ao mesmo tempo em que os governos em coro aconselham a austeridade, mas nem todos pagam a crise : em dez anos os fundos próprios dos bancos multiplicaram-se por cinco, em detrimento do direito dos cidadãos de viverem uma vida decente, em detrimento de cada um na sua aspiração à felicidade. Isolados, que sejam indivíduos ou associações, não existe poder que chegue, para enfrentar a màquina-capital, necrofago : há quem morra como um cão na rua. A foto do seu “post “é terrível de verdade cruel.

Gonçalo Capitão disse...

Meus Amigos:

Obrigado por unirem a vossa voz à minha.

A questão, Jones, é mesmo saber como resolver o dilema "o que me parece é que por muita vontade que um politico recém eleito para um cargo, tenha vai acabar por 'esbarrar' mais cedo ou mais tarde num mar de obstáculos, obstáculo esse que ele também se tornará para novos políticos com a mesma vontade inicial"...

Pode sempre dizer-se que não, desde que se tenha o cuidado de não fazer da política sustento exclusivo.