terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Coze Ovo e Serve-a

Definitivamente, creio que os europeus não aprendem… Nem a I nem a II Guerra Mundiais parecem ter feito da saúde mental um must do Velho Continente.

Bem sei que já bati nesta tecla (estou "repetitivo", como diria Dulce Alves...), mas entendo que não é excessivo, nesta altura, voltar à carga, embora com notas prévias: não tenho nada contra a Albânia, em si, não recebo avença da Sérvia e muito menos sofro de islamofobia (abomino os fundamentalistas islâmicos, como abomino todos os fanáticos de qualquer religião ou ideologia política; abro uma excepção benigna: a Briosa!).

Como bem perceberam, estou a falar na provável declaração de independência pelo Kosovo, com base no (desastroso) plano do enviado especial da ONU, Martti Ahtisaari, que alguns países europeus e os EUA se preparam para aplaudir…

Assim à primeira vista, surgem-me apenas alguns “problemazinhos” que convido os apoiantes da causa kosovar a esclarecer e os leitores, em geral, a pensar.

Em primeiro lugar, saberão os artistas que desenharam o próximo mapa da Europa que, sem que seja um mal em si, estão a plantar mais um estandarte muçulmano na explosiva região balcânica… Como disse, esse facto, em si mesmo, não representa mal algum, a não ser que a miséria, a ignorância, a desordem interna e o jugo de máfias estimulem a emergência de fundamentalismo, como em tantas regiões pobres do globo. Mesmo a velha e orgulhosa Albânia é um “pagode” que só visto…

Com o que passo ao segundo dilema: tudo indica que, a não ser com tráficos sortidos, o território será economicamente inviável. Paga quem? Para sempre?!

Em terceiro lugar, penso que pode confirmar-se que existem informações muito precisas (conhecidas pelos governos ocidentais) sobre o curriculum vitae dos putativos dirigentes políticos da eventual república. A ser verdade, o que se vai sabendo (até) em Portugal dava cadeia… Por lá, parece que dá lugares de Estado…

Depois, a provocação clássica: gostava de perder Guimarães, se uma comunidade estrangeira se tornasse maioritária por lá?! Pois relembro que os sérvios olham para o Kosovo como um marco inegociável da sua nacionalidade.

Como quinto óbice, o desafio é pensarmos no precedente aberto e na quantidade de boa gente que vai querer o mesmo, com maior ou menor probabilidade de êxito e com mais ou menos razoabilidade, a começar pelo próprio Kosovo, onde me pergunto qual a legitimidade para não conceder a independência aos territórios maioritariamente sérvios, a norte do rio Ibar. Acresce que os países vizinhos, de seu nome Macedónia e Bósnia e Herzegovina, têm minorias albanesas que podem sentir a inspiração dos vizinhos.

Mas há mais: já que alguns o farão também para desafiar a geopolítica da Rússia, creio que pouca surpresa haverá se, um dia destes, a rapaziada de Moscovo apoiar a secessão da Abecásia (da Geórgia) e da Transnístria (da Moldávia) que, em bom rigor, já se governam a si mesmas, com predominância dos russos e ucranianos (ao menos no segundo caso, é a meias). E como resolver a vocação independentista do enclave arménio de Nagorno-Karabakh (no Azerbeijão)? E, fora de portas, como pensarão os génios da ONU o problema da Somalilândia, na sempre “animada” Somália? Pois, é… Não está fácil… Mas, enquanto isso, vamos asneando por perto.

Por fim, neste capítulo do efeito de carambola vêm-me ao pensamento Espanha (País Basco, para não falar, por exemplo, da Catalunha), Grécia, Chipre (e que interessante será ver a reacção da parte turca), Turquia (o Curdistão deve adorar o Kosovo), Estados Bálticos (atenção às minorias russas), Bélgica (cada vez mais flamengos e valões se distanciam), França (não vá Pristina animar a boa gente da Córsega), Tchetchéchia, e por aí fora, numa sequência de peças (como afirmei, umas com mais objectividade do que outras) de um dominó que pode acabar por cair para fora da mesa da política europeia.

Confesso que acho bonito o apoio filosófico à autodeterminação, mas tenho para mim que outro seria o empenho “ético” do Ocidente, se a aviação da NATO não tivesse escaqueirado Belgrado…
Por outro lado, como as acções, regara geral, despertam reacções, a primeira volta das eleições presidenciais foi ganha pelo candidato nacionalista e pró-russo (leia-se, anti-UE e adversário do actual Presidente Tadic), Tomislav Nikolic.
Sei ainda que era mais popular defender o contrário, mas não busco o título de “Miss Simpatia da Geopolítica”.

4 comentários:

lmsl1967 disse...

Boas Gonçalo

Se fosse narcisista diria que este texto é uma provocação a minha pessoa e que estás com saudades de uma discussão.

Mas obviamente que concordo com o que aqui escreves, No pequeno quadrado do tamano do Distrito de Portalegre, onde nada funciona e onde o crime organizado dos clãns se confunde com o estado, onde antigos terroristas, "A Serpente", temido por ambos os lados consegue colocar uma posse de estadiste e sentar-se ao lado das pretenças elítes mundiais.

Deixa-me aqui acrescentar a Voivodina, uma manta de retalho de nacionalidades, linguas.

Deixa-me acrescentar o Vale do Presevo e do Tetovo, maiorias Albanesas na FYROM e na Sérvia.

Alguém questionava num destes dias, qual das duas se encaixa mais:
- existe uma minoria Sérvia no Kosovo ou uma minoria Albanesa na Sérvia?

Continuamos por defeito a usar o termo de estado-nação, como se ambos fossem coincidentes.

Volto à carga mais tarde.

Um abraço

Miguel Sousa

Gonçalo Capitão disse...

Meu Caro

Folgo em ver-te em boa forma. Não tendo sido uma provocação, ainda bem que te interessei para voltares a este teu espaço!

Deste assunto sabes muito mais do que eu, pelo que aguardo ansioso por mais desenvolvimentos!


Abraço

lmsl1967 disse...

Olá Gonçalo

Sabes que tenho um pouco de receio de falar publicamente sobre este assunto e sobre o médio-oriente.

Efectivamente pouco mais há a dizer sobre o que escreves mas vamos então por pontos:

1- A interpretação histórica é extremamente difícil de se fazer. Se por um lado apregoam os Albaneses ser descendentes dos Ilírios que ocuparam aquelas terras ainda antes de Alexandre o Grande, alegam os Sérvios que foram as migrações Eslavas que ao enfraquecerem o Império Bizantino deram origem à Dinastia Nemajic.
Na celebre batalha de Kosovo Polje, os Albaneses combateram ao lado dos Eslavos contra o Império Otomano. Versões existem que o Sultão Murat teria sido morto por um Albanes.
Certo é que de 1389 (Batalha de Kosovo Polje)a 1912 (1ª Guerra do Balcãs) aquele território pertenceu ao Império Otomano.
Se grande parte dos Albaneses fou islamizado, os eslavos sempre resistiram e mantiveram a sua ortodoxia que deriva de cisma nos fins do Sec XI. Durante i Império Otomano viceram com o estatuto de Diminitude (pese embora este tenha abrandado a partir de meio do Sec XIX).

2- A indepêndencia coordenada do Kosovo é uma certeza, e não há volta a dar.
Porquê? Porque sim.

3- Problemas que dai podem advir:
- Os 3 concelhos a norte do rio Ibar;
- A República Sprka, a tentativa de renegociação do Acordo de Dayton, que por certo a Rep Sprka não irá aceitar, por eles era já amanhã que se separavam de algo com que nunca se identificaram;
- As fronteiras do Kosovo nem sempre foram estas, dai o problema de Mitrovica a norte, Vale do Tetovo e do Presevo a Sul. Vamos ver se com a tentativa separatista de Mitrovica, se o Tetovo e o Presevo não tentam juntar-se ao Kosovo;
- A Voivodina, de forma simples podem ver aqui:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Voivodina
complicado, diria eu.

3- Os restantes movimentos separatistas já tu aqui falas-te, mas por certo ainda se arranjam mais uns, lembro-me agora dos tigres tamil, mas com algum esforço arranjam-se bem mais.

4- Viabilidade: Como afirmas-te, quase nenhuma a não ser por subsidicultura intensiva da UE.
- A estrutura viária, ferroviária e energética tem ûma orientação e consequente dependência da mãe sérvia;
- No que à energia diz respeito, é quase completa a dependência da sérvia;
- A KEK (a EDdp + REN do sítio) não tem receitas para pagar a energia que produz e importa quanto mais apostar na modernização, inovação e extenção da rede.

- Afinal o sistema económico assentava no falido estado social jugoslavo, tudo era gratis, e quando assim não era, era de borla. Com o nível de desemprego substancialmente elevado, preços de produtos originais ao preço europeu e vencimento médios de 150 euros, como é que se consegue obrigar alguém a pagar? Existem assim 3 tipos de facturação, os que não pagam, os que pagam pouco e os que pagam pelos outros todos. O problema é que a distribuição por estes critérios tem por vezes um teor étnico;
- Perguntas tu: então porque é que não se corta aos não pagadores? Pois, se mesmo assim já é um problema pois ela já é pouca e quando ele vem falta a agua, quando a cortam em determinado sítio parecem logo os tugas a montar gambiarras e a fazer ligações directas. E quem corta são uns pobres fiscais que em determinados sitos nem se atrevem não vão cortar a um primo em sexto grau de alguém de um clã: não vale decerto o esforço.

5- Impostos. Pois, só mesmo algo de inovador, que tal criar a forma de colocar o estado a cobrar impostos de consumo sobre a contrafacção. Ou sobre o contrabando.
Relógios, malas, camisolas, blusões, DVDs, Jogos de PS2, PS2 chipadas, tudo perfeitinho a imitar marcas famosas. E nem vale a pena esconder, só em frente ao quartel da KFOR existem meia duzia de centros comerciais que faziam inveja a centros comerciais do interior, e pejados da melhor contrafação que se encontra no mercado.

6- Acabar com isto para além de se mover uma guerra sem quartel ao crime organizado, é acabar com a pouca fonte de receita, empregos que podem de alguma forma ajudar a sobreviver aquele povo.

Já vai longo, o resto fica para outras nupcias

Um abraço

Miguel Sousa

Gonçalo Capitão disse...

Resta-me agradecer o contributo valioso que deste, caro Amigo.

By the way, soube em Tirana, no museu, que o herói local, que andou a tareia com os otomanos (George Kastrioti Skenderbeu, conhecido por Skanderbeg), no século XV, foi biografado por essas alturas (um pouco mais tarde, creio) por um português!!! Há um retrato dele (Scanderberg) num dos museus de Atenas.

E houve um príncipe sérvio (Stefan Dušan), no século anterior, que anexou grande parte da Albânia, excepto Durrës, que eu também visitei.