quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Amigalhaços

Nos últimos dias, Rússia e Venezuela ocuparam muito do espaço mediático, mercê, respectivamente, das eleições legislativas e de um referendo constitucional.

Em ambos os casos, a meu ver, se afirma a necessidade das escolas de ciência política que acrescentam à perspectiva algo estaticista do direito constitucional (que analisa em abstracto o funcionamento do sistema) a dinâmica funcional; ou seja, explica “como é que as coisas realmente se passam”. Neste capítulo e para os temas em causa, o último número do “Courrier Internacional” representa uma soberba iniciação.

Creio que o mais interessante, como tem feito a generalidade das publicações, por ora, é mesmo identificar linhas de junção entre um país euro-asiático e outro latino-americano que, à partida, nada teriam a uni-los, não fora a famigerada globalização e, sobretudo, o poder uniformizador da televisão, dentro de portas.

E começamos por aqui, pois em Caracas e em Moscovo os media “alternativos” ou já fecharam ou têm que andar na linha. Acresce que as televisões fiéis aos regimes difundem o país que os respectivos chefes de Estado acreditam que deve existir, já que, regra geral, “se vi na TV é porque existe”, diria o telespectador comum… Ou seja, o virtual – seja a Venezuela socialista e impoluta, seja a Rússia novamente poderosa – faz-se real, ora nas longas prédicas de Chaves no “Alô Presidente”, ora nos atractivos spots de campanha de Putin.

E é estribados neste potente meio de comunicação de massas que ambos ensaiam um simulacro de democracia directa, com toques de anti-elitismo, interno e externo. No primeiro caso, atacam-se as corruptas classes altas que foram incapazes de redistribuir a riqueza, seja na URSS, na era Ieltsin ou na miserável sociedade venezuelana. No segundo plano, questiona-se a supremacia norte-americana, denunciando tratados de controlo de tropas convencionais ou recolocando bombardeiros estratégicos no ar ou ainda acusando a oposição de servir Washington, no caso neo-czarista, ou mesmo chamando “diabo” a George W. Bush, como fez o tenente-coronel Hugo Chavez Frias, na ONU.

Na passada, nem é mau pensar em estender a influência à Bolívia ou a Cuba e apoiar separatismos na Geórgia ou na Moldávia.

Em ambos os casos fica a mensagem de que o líder providencial zelará pelo povo, ainda que, com o aplauso de muita gente, a troca seja a de dinheiro e emprego por liberdade; algo que, dada a carestia e face aos excessos liberais, até parece bom de pagar, tal qual como nos anúncios do crédito por telefone…

Mas não é disso que fala a legislação anti-terrorista dos EUA?!… E não é um regime de concentração de informação e decisão que se esboça com o PS, actualmente, em Portugal? E não foram as directas e a escolha dos candidatos pelas bases bandeiras do novo PSD?!... (em todos os casos, salvas as devidas distâncias, claro)

Ah! Não esqueçamos que, obviamente, os corruptos (ali a Norte, oligarcas russos, acolá a Sul, empresários ou militares golpistas) serão perseguidos a bem do povo. Já Collor de Melo prometera caçar Marajás, no Brasil, e viu-se que era farinha do mesmo saco. Berlusconi vinha para libertar a sociedade do Estado e está em apuros para a se libertar a si próprio… Que é como quem diz: “onde é que eu já vi este filme”?...

E a metodologia – já que ideologia é coisa em desuso - também não exigiria dois manuais distintos. Na Rússia recuperam-se para o Estado todas as concessões (energia incluída) que Boris Ieltsin desbaratou para se manter no poder e usa-se o petróleo (aposta efémera, como perceberão os desgraçados russos e os enganados venezuelanos, daqui a uns anos) para fazer alguma justiça social, sempre com a eternização do líder (que deslocará o centro de gravidade do poder da presidência para o governo) em linha de horizonte.

Na Venezuela a mesma receita, mas com falta de humildade… Chavez achou-se incontestável e, ao invés do sagaz Putin, perdeu a consulta popular (de salientar que ambos procuraram a legitimação democrática, ao menos no plano formal) a que se sujeitou. Não duvido que tenha apoio popular maioritário, mas a liberdade é muito mais cara aos seres humanos do que julgou (propunha, entre outras coisas, a recandidatura sem limite, a possibilidade de nacionalizar tudo e mais umas botas e o quase final da autonomia dos municípios – onde a oposição ainda “canta”).

Permanece a dúvida de saber se a democracia é exportável, portanto…

4 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

A minha pergunta a este caso é simples:
Não estarao estes dois paises a posicionar-se para fazer frente aos EUA?
A venezuela no petróleo e a Russia em termos militares.
É o que me parece.........

freitaspereira disse...

Sem esquecer que a política da energia, e particularmente a do petróleo, pode justificar una relação especial entre Chavez e Putine, não creio que se possa realmente comparar a trajectória das duas “revoluções” e ainda menos os dois homens.
Putine, um homem extremamente inteligente, calmo e reflectido, tem todas características dos especialistas dos serviços secretos.
Pertenceu a uma elite, que duma certa maneira ele continua a perpetuar como classe dominante.
A ‘glasnost’, a perestroïka, o multipartismo, o desmantelamento da URSS e a privatização da economia ele viveu tudo isso do interior.
A miragem da transição para a economia de mercado, que deu muita satisfação aos neoliberais ocidentais na década de 90, Putine acompanhou a primeira febre e foi ele que lhe aplicou os primeiros calmantes no momento oportuno.
A privatização do tempo de Eltsine transformou-se em “desvio” dos recursos em matérias primas e industrias por alguns chefes da oligarquia , a quem Putine fará pagar mais tarde um preço elevado : Khodorkovski et Berezovski, um foi para a Sibéria e o outro para o exílio.
Ao mesmo tempo que Putine centraliza de novo, sob a proeminência do Estado ,tudo o que as oligarquias tinham privatisado para proveito próprio, (com a ajuda e a compreensão de alguns ocidentais !), a economia Russa continua a sua integração passo a passo na economia mundial, o que equivale a um capitalismo sem capitalistas.
Curiosamente, é um antigo Chanceler dum país capitalista, Gerhard Schröder, que ele nomeou à cabeça da Gazprom, o que prova bem da capacidade de evolução de Putine.

Quanto à política estrangeira, apreciei devidamente que ele tivesse mandado passear Nicolas Sarkozy, quando este foi a Moscovo “vender” um novo plano de sanções contra o Irão, como se fosse vital de bombardear este pais imediatamente, sem dar tempo ao tempo. A ultima reacção de Bush após o relatório dos expertos Americanos sobre a situação real de plano nuclear iraniano, considerando que finalmente a situação não é assim tão perigosa e urgente como parecia, deu razão a Putine.


Claro que Chavez é uma outra personalidade. Ele não é oriundo duma classe dominante ; em Atenas,; no tempo de Socrate, ele nem teria tido direito de voto! E portanto ele pertence à maioria étnica do pais.

Militar, procura convencer com muitos discursos, ao contrario de Putine que fala pouco. Chavez tem o handicape de todos os homens de côr da América Latina. A classe dominante a quem ele retirou o poder ‘democraticamente’, tem aliados poderosos no estrangeiro. Exemplos abundam nesse continente, que provam que a evolução sempre se fez e continua a fazer-se pela violência. Este ultimo referendo coloca-o no campo dos democratas pela forma como reagiu.

Respeita todas as liberdades? Seria um caso para discutir. O que é aborrecido nas línguas latinas, como na língua Grega, é que não temos como em Inglês duas possibilidades de falar da liberdade – “freedom” e “”liberty”. ! Para o caso da Venezuela, seria pratico!

Como Putine, também ele recuperou para o Estado a riqueza nacional : o petróleo. Como Putine, também ele tem procurado utilizar esta carta para a política exterior. Mas falta-lhe a diplomacia e a inteligência de Putine.

Chavez talvez não tivesse ainda abandonado o sonho de fazer a revolução Bolivariana. E se não o conseguir, ninguém lhe poderá retirar o mérito de tentar fazer algo para aqueles que desde sempre não tiveram nada.

Dulce Alves disse...

Esclarecedora exposição sobre as pretensões e presunções dos dois políticos e respectivos países, Gonçalo.

No último fim de semana, ambos foram a ‘jogo’: um teve direito a 2nd round, o outro ‘levou’ com a “vitoria de mierda” – como a denominou – do “Não”, que já foi oportunamente debatida aqui no Lodo, na sequência do post do João Pedro Cruz.

Mas atente-se a Chavéz, que não se deixando abater com a sua primeira derrota eleitoral, já prometeu voltar a referendar a reforma da Constituição...
Parece que nem o param... nem o calam!

Gonçalo Capitão disse...

Francisco: também digo!...

Freitas Pereira: claro que as diferenças que realça são óbvias e concordo com a sua análise a 99%. Apenas tentei ver linhas comuns como o uso dos media, o anti-americanismo e o centralismo do Estado. Seria bom que o chamado "mundo livre" pensasse nos excessos neo-liberais e nas reacções que são vão vendo mundo fora; para isso, creio que Venezuela e Rússia servem primorosamente.

Dulce
É uma vergonha se Chavez o fizer. É o árbitro a dizer que o jogo só acaba quando a equipa da casa estiver a ganhar.