domingo, 29 de abril de 2007

E nós a vê-los passar...

Andei que tempos a pensar que personagem histórica me fazia lembrar o desempenho mais recente do dr. Marques Mendes, e eis que o adorável Wile E. Coyote da Warner me fornece a matéria prima: é alguém com quem simpatizamos, que persegue com denodo alguém que parece ser sempre mais lesto e cujas iniciativas, algumas das quais academicamente interessantes, dão, quase invariavelmente, asneira.
Vem isto a propósito de um texto da Dulce, no qual aceita como boa a atitude de Marques Mendes sobre as habilitações literárias de José Sócrates. Eu discordo, por duas razões: a primeira tem a ver com o facto de, depois dos necessários comentários iniciais, a polémica ter servido para distraír o País dos problemas cruciais. A segunda prende-se com a ideia que sempre tive de que alegações sobre o carácter alheio são último recurso e exigem provas, o que Marques Mendes não produziu.
Encadeando isto com o último debate parlamentar, sublinho que acho digna do Coiote a proeza de, com o Primeiro-Ministro sujeito a essa e outras contrariedades e com o CDS ainda em cacos, o Presidente do PSD ter conseguido ser novamente "espancado".
Pegando no caso das habilitações de Sócrates, o mínimo a fazer era não cair na armadilha do Bip-Bip do PS e ter-lhe dito na cara o que dissera nos jornais. Continuaria a discordar, mas aproveitava-se-lhe a coragem e a coerência.
Por fim, verifiquei que se consuma o fecho da tenaz composta por dois mestres do mediatismo: Sócrates e Portas. Para quem acha que o cinzentismo do século XX ainda cola no seguinte...
De uma ou de outra a caloira do "Lodo" tem razão: há que meter a casa da oposição em obras.

4 comentários:

Sara Brito disse...

A minha opinião também se espelha nesta postagem. Fizemos figura de "quem não tem mais nada em que pegar" e, isso sim, é que não é verdade. Aliás, já não sei bem onde, referi já o caso das comparticipações para a 3ª idade nos óculos e próteses dentárias. "Lança-se a escada" a um dos sectores mais vulneráveis, os velhinhos, dá-se-lhes algo, o povo cala, a oposição anda às voltas com um currículo e o certo é que ninguém questionou os "MAS" que a medida continha e contém...
Quanto ao CDS tiro o chapéu a Portas (tem de ser). O partido a morrer de tão cinzento com Ribeiro e Castro a não sair da "linha CDS" que, como todos sabemos (menos o próprio), já não pega. Portas pega no mote "partido sexy", aparece de cabelo penteadinho, camisa aberta sem gravata e blazer "da moda" e... pois é, nunca se ouviu falar tanto do PP como agora e entretanto o sinal de alerta é dado aos que estão, também eles, a não sair da linha: ao PSD.
É urgente dar uma reviravolta senão... já sabem o "the end" não já?

Dulce Alves disse...

Gonçalo,

só agora tive oportunidade de vir aqui replicar... se mo permitires, é claro... ;)

Talvez não tenha sido tão clara quanto o desejável no meu texto...

Reitero a ideia de que me pareceu oportuna a manifestação e preocupação de Marques Mendes aquando da polémica "Sócrates, Independente e afins".
Considero que esta polémica, pese embora a dimensão quase sobrenatural que acabou por tomar, é também uma matéria crucial ao país.
Matéria que devia ter sido efectivamente 'resolvida' (seja lá o que for que este termo abarque...).
Certo é que não devia ser 'resolvida' nem na comunicação social, nem na blogosfera, nem nas conferências de imprensa e tampouco com pseudo-entrevistas no canal público...
Mas sim, tal e qual 'exigiu' Marques Mendes, com a exigível investigação a todo o processo "Socrático".
Era um dever do nosso PM sujeitar-se a isto e uma prova de lealdade para com os portugueses que o elegeram e nele depositaram um voto de confiança.

Mas confusões 'Socráticas' à parte, o que eu verdadeiramente lamento é que esta pertinência, tenacidade e acutilância de Mendes só aflore quando se trata de encostar à parede o seu 'adversário'...

A postura exigente e zelosa, desejável a um líder da Oposição, deveria de ser o modus operandi de Marques Mendes a todo o tempo...

Daí que considere que se as obras não avançarem com urgência... a casa vai mesmo a baixo!

Marta disse...

Dulce, concordo contigo. Também acho que a acutilância do presidente do PSD não foi muito sentida, a não ser aquando das declarações relativas ao curriulum de Sócrates. E essas, a meu ver exigíveis, vieram fora de tempo, já que a opinião pública se tinha manifestado quase suficientemente.

O "habitat" natural de Marques Mendes é o Parlamento, é lá que gostava de o ver, mas sem a responsabilidade e ponderação exageradas de um cargo de líder da oposição, que lhe têm vindo a pesar muito nos ombros e que fazem do PSD a oposição dormente.

Um grande amigo uma vez contou-me esta história:

era uma vez um guarda-nocturno, que era o mais competente guarda-nocturno da sua empresa (diligente, amável, atento, pontual, cumpridor, corajoso), por essa razão foi promovido a chefe dos guarda-nocturnos e fez um mau serviço à empresa (não era capaz de resolver conflitos, não era organizado, nem impunha o respeito dos outros guardas).

Moral da história: as qualidades que se exigem de um líder são completamente diferentes das que se exigem de um guarda-nocturno.

Gonçalo Capitão disse...

Dulce

Explicaste-te muy bien...

O problema é que temos uma pequena divergência: creio que Marques Mendes não devia ter sido tão veemente ao falar do "carácter" do PM, porque é algo cuja falha nunca poderá provar.

Acresce que não se combate uma eventual falha ética com tratamento de carroceiro.

Quanto ao resto - dever ser mais contundente no resto - 100% ao teu lado (nasceu o "dulcismo"!!!) ;)

Marta:

Dito de outro modo, creio que quem nasceu para médio ofensivo não joga bem como nº10.
Confesso que dei o benefício da dúvida, mas o problema é que, em Portugal, há pouca humildade e pouca auto-crítica.

Sara
Voltamos à mesma se conhecesse os critérios de escolha e o substracto de muito do staff político (partidos, Parlamento, etc...) veria que não como ter debates e posições sempre bem escorados.