quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fugas e Rupturas

Penso que ninguém no seu perfeito juízo questionará, no mundo democrático, as liberdades de informação e de expressão.

Acresce que ambas sempre foram servidas por processos tradicionais, mas também por investigações ocultas, violações de privacidade e outros meios mais “alternativos” (cujo limite da tolerância reside em alguns programas de TV, jornais e blogues que apenas servem para a coscuvilhice, a intriga e o postergar da reputação das pessoas). Mesmo assim, a democracia sempre acomodou eventuais excessos em homenagem ao bem maior: saber a verdade.

É por isso que alguns jornalistas de investigação receberam prémios internacionais (com destaque para o Pulitzer) e que sucessivos “piratas” da Internet (vulgo hackers) foram sendo olhados com condescendência – desde 1983, por exemplo, ano em que as salas de cinema enchiam para ver “War Games”, filme em que o protagonista, embora com fins lúdicos, invadia um computador militar, quase desencadeando uma guerra nuclear.

Aliás, compreendendo o ganho de ter cidadãos informados, já muito antes, Thomas Jefferson, Presidente dos EUA, declarara preferir imprensa sem governo a governo sem imprensa, se a questão se pusesse.

Vem este arrazoado a propósito do sensacional burburinho causado pelo sítio dedicado à publicação de fugas de informação, WikiLeaks. De facto, os governos ocidentais, mormente o norte-americano, têm vindo a procurar reagir a divulgações de informações confidenciais, que dizem pôr em perigo a segurança nacional e a dos seus aliados.

A meu ver, é bem possível que os governos tenham razão. Qualquer liberdade sem dever é libertinagem. Neste caso, será de pensar se não há um ponto em que a liberdade de informar deva ceder ante necessidades de segurança colectiva.

Muito mais importante: admitindo que ainda não chegámos ao paraíso dos Louçãs deste mundo (entenda-se, a anarquia), quem deve julgar os limites? Jornais, televisões e blogues ou instituições constitucionalmente consagradas e democraticamente e também judicialmente sindicáveis?

Importa, depois, olhar a natureza daquilo que se revela: uma coisa é maledicência ouvida na política ou escândalos sexuais (pode meter nojo, mas não mata), outra é informação sensível sobre instalações vitais em vários países (algo que o WikiLeaks revelou).

Mas não sejamos ingénuos: o que está em jogo não é a luta dos “maus” americanos & aliados contra os pobres cruzados da verdade do WikiLeaks, nem tampouco uma genuína luta pelo tal “saber a verdade”! Estamos perante libertários (libertinos, diria eu) que acham que apoucar a civilização ocidental os torna intelectuais, como prova a decisão do Bloco de Esquerda de alojar aquele sítio virtual. Como se viessem a ter liberdade para tamanha estupidez em qualquer outro regime, acaso destruíssem este… É Natal; perdoemos-lhes a ingenuidade…

3 comentários:

sandra disse...

Brilhante !!! É sempre tão bom ler o que escreves... obrigado pela partilha dos teus conhecimentos e da tua escrita!! Bj. Sandra

Joaquim disse...

Caro Amigo

Aproveito a oportunidade para o saudar. Com o prazer habitual venho comentar o tema do “Lodo” : “Wikileaks”.
Num mundo ideal, o meu amigo teria razão naquilo que escreve. Só que, o mundo está longe de ser ideal. Aonde deveria haver transparência, como Obama prometeu antes de ser eleito, eu só vejo “manobras” ou mesmo mentiras dos Estados .
Que pensar desta promessa de candidatura quando se sabe que Obama se prepara a assinar um decreto para julgar Assange num tribunal americano, desprezando, se necessário, o problema do “Habeas Corpus”
Quando se lê na “National Rewiew” John Goldberg : “ Mas porque é que Assange não foi estrangulado no quarto do hotel uns anos atrás ? “, e Sarah Palin que diz que “Assange tem sangue nas mãos” e que é preciso apanhà-lo”!
Que a Interpol, agindo em nome do Tribunal Internacional da Haia o procura e que a Suécia o procura também, por “crime sexual”, isto é,não utilização do preservativo e de ter esquecido de telefonar à dama no dia seguinte ! Risível ! A razão é outra.

O que é ainda mais risível, é que os milhares de telegramas diplomáticos publicados não são novidade e que toda a gente sabe por esse mundo fora, que em todas as capitais do mundo, existe uma embaixada US que abriga a CIA, que tem uma tarefa conhecida que é a de “recuperar”, por todos os meios, informações sobre a vida local, e também tudo o que diz respeito aos outros diplomatas , mesmo dos países amigos ! A CIA procura tudo, mesmo nos contentores do lixo! Este é o trabalho deles.

Porque, francamente, quem ficou admirado de descobrir que o rei da Arábia Saudita deseja ver o Irão varrido do mapa da região do Médio Oriente, que os USA utilizam os diplomatas como espiões, como outros outros países, que há corrupção no Afeganistão, e que há corrupção na Rússia ? Por acaso não há corrupção na França e noutros países conhecidos ?

Quem ignora que os diplomatas, para avançar na carreira, enviam informações que agradam às orelhas dos superiores da Casa Branca, do Departamento do Estado, do Congresso e das pessoas mais influentes da administração. E fazem-no com tanto zelo que por vezes nem utilizam um mínimo de análise que lhes teria evitado, por exemplo, de enviar da embaixada US de Moscovo relatórios sobre o poderoso Império do Mal , a União Soviética, que pensavam que iam invadir a Europa Ocidental (!), enquanto na realidade esta naufragava já ,

Na versão actual, o diplomata US, fingindo admirar o decotado da 'charmante' adida cultural francesa, só pensam na melhor maneira de escamotear informações sobre o cartão de crédito, as palavras chave das mensagens e-mail e o n° da carta de “Frequent Traveller” do diplomata ! Risível, tudo isso !

Quem ignora, que desde sempre, os USA interferem na política interior dos países do mundo inteiro, incluindo os países amigos e neutros como a Suécia e a Suíça ?

Quem ignora que os estudantes iranianos que invadiram a embaixada US em Teerão, em 1979, descobriram nos arquivos operações secretas que não diziam respeito só ao Irão, mas também a Israel, Turquia, Arábia Saudita, Koweit , Paquistão, Iraque e Afeganistão !

Quem ignora que Sarkozi é um pretensioso, autoritário e manipulador dos factos , e que Berlusconni é um Pinocchio ?

Em conclusão, pena foi que “Wikileaks” não existisse do tempo de Bush e Blair! Teríamos evitado milhares de mortos iraquianos, americanos e ingleses se a verdade dos relatórios da CIA fossem conhecidos dos povos do mundo inteiro! Não teriam perdido tempo a procurar as WMD que não existiam ! A tal transparência que falta desde sempre!


Um abraço.

Freitas Pereira

Defreitas disse...

A reacção, hoje, da Bank of América, às futuras revelações de Wikileaks , sobre « um grande banco americano », que B. Of América interpretou rapidamente como sendo ela, demonstra que a transparência é mais que nunca necessária. Eles receiam a transparência porque cometeram fraude!

A responsabilidade dos bancos nas crises económicas conjunturais não tem nenhuma duvida: eles transferiram alegremente sobre outros os riscos que eles tinham vocação a gerir, incitaram os “traders”, com os sistemas perniciosos de remunerações, a correr riscos enormes ...

Ao atribuir à finança de mercado o poder de criar o seu próprio universo de regras suposto ser compatível com o da sociedade, o sistema bancário libertou-se do dever de legalidade.

Em suma, não foi Wikileaks que ultrapassou a linha !