quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Marxistas à força

Sei que é um tema recorrente das minhas prosas, mas não consigo escapar a esta época de mal-estar.

Olho para o mundo empresarial português – que, para efeitos desta reflexão, não dista muito do ambiente planetário ocidental, genericamente falando – e vejo que, embora transvestido ou maquilhado com pós de modernidade (sejam as actividades lúdicas de reforço da coesão das equipas, as avaliações inter pares ou os jantares evocativos de presença semi-voluntária; no fundo actividades que mantêm vivas as chamadas empresas de eventos), o essencial não muda – altura para um parêntesis, no sentido de dizer que não me refiro a nenhuma empresa em concreto, seja explicita ou implicitamente.

Efectivamente, constato que, pagando melhor ou pior (é assustador ver o pouco que, em média, recebemos, quando vamos, por exemplo, à Alemanha ou aos EUA), o essencial é que se produza, mantendo os funcionários – hoje, eufemísticamente chamados de colaboradores – encafuados nas empresas (de preferência e cada vez mais nas sedes), durante nove ou mais horas por dia e sujeitos a prédicas sobre eficiência (seja lá o que isso for, quando aplicado a seres humanos) e contenção de custos (algo que sabemos manter a salvo a difusa categoria de “gestor”).

Prescindindo de analisar a questão sob a óptica (simplista, a meu ver) da apropriação das mais-valias, o que me apoquenta enormemente é a perda de espaço para algo que não se subsume na nomenclatura usual de colaborador, assessor, director ou afins; falo do ser humano, em toda a vastidão do conceito.

Que tempo sobra hoje para “saborear” a família, mormente quando se sai tarde e/ou se demora horas em filas de trânsito? Que formação pode dar-se a crianças exaustas e com quem se quer partilhar algum tempo sem contornos espartanos? Alarmam-se as almas com decréscimo da taxa de natalidade, sem curar de saber que, para além dos mais óbvios dos “porquês” (a penúria e o egoísmo), existe na mente dos casais um “para quê?”, enquanto interpelação sobre o estado do Mundo para o qual se conceberiam novos seres humanos.

O mesmo em relação ao lazer: que tempo útil e que vitalidade sobram durante 5 dias por semana? Mesmo nos dias supostamente consignados ao repouso há muito quem trabalhe e outro tanto que apenas pode entreter-se a recuperar energias dentro de quatro paredes…

Perde-se o espaço da imprevisibilidade e criatividade inerentes ao “existir”, conduzindo para o materialismo consumista a catarse da frustração quotidiana... Surgem as novas doenças derivadas do stress (coisa incógnita há não muitas gerações) e cercam-nos hordas de novos diabéticos e obesos…

E desta vez não chegará o dia do levantamento geral (não mais o cruzador Aurora disparará o seu canhão), pois seguimos aparvalhados e mansos em frente à televisão e dentro dos saldos.

Depois de mandarmos os marxistas para a forca, tornam-nos marxistas à força. Nada aprendemos…