quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Na tola

Quase tão comuns como as mensagens que, via telemóvel e sem personalização, se enviam nesta quadra, são as reflexões sobre o Natal e as contra-análises sobre os excessos da sociedade hodierna.

Vendo bem a coisa, não há muito mais que possamos acrescentar. Podemos, isso sim, cortar o nó górdio que irá influenciar o tom do que dizemos: devemos decidir se partimos da ideia de pessimismo antropológico – o ser humano é egoísta de nascença, socializando-se por necessidade – ou da bondade intrínseca de cada um – posto o que atribuiremos à sociedade a chave das perversões em que todos concordamos (eu tendo para a primeira parte).

E este é o ponto para procurarmos resolver o que há para ser resolvido; se todos concordam que há maleitas – quando a própria mensagem da Igreja Católica se baseia em apelos, é porque estamos longe da perfeição – por que diabo não as combatemos, antes tendo a sensação de que estamos cada vez mais desumanos?

Vejamos: por que consumimos desenfreadamente (interrogação que não é nova, aqui no Lodo, como se pode exemplificar)? Por que singram esses abutres do crédito instantâneo? Todos deveríamos saber que muito do que compramos não é necessário; a velha TV ainda funciona, mas aí vem o LCD. O telemóvel faz chamadas, fotografa e envia mensagens, mas o que saiu ontem tem mais mega-qualquer-coisa na câmera. Temos sempre que cozinhar, mas a panela (ou, para sermos finos, “robot de cozinha”) “Bimby” é necessária, apesar dos dois salários mínimos ou mais que me dizem custar…

E qual a razão pela qual estamos tão encantados? Adormecimento intelectual pelo “mundo TV” e pela publicidade? Em parte… Ausência de pedagogos na política? De certezinha…

Mas andemos um pouco mais pela “selva”: creio que todos sentem que, nas grandes empresas, instituições, escritórios e afins, mais do que cooperarmos, competimos em nome de um ideal de “carreira” que ninguém consegue medir ou definir com proficiência ética. E porquê?! Não é melhor o retorno quando, sem pé atrás, aprendemos uns com os outros e repartimos agruras e sucessos? Sim, mas vejo poucos casos de gente que procure estimular a desejável aliança entre o mercado livre e uma moral prática exigida para que possamos respeitar todo o ser humano que connosco se cruza na vida profissional ou no simples trato comercial quotidiano (falo, a contrario, do caso dos que procuram ganhar tudo num dia, enganando)…

E depois há sempre a muito debatida agressividade social. Desde ultrapassagens pela direita e colagens ao veículo da frente ao sujeito que argumenta que fumar á mesa é um direito que lhe assiste, por muito que saiba que (também) prejudica a saúde alheia, a mais de importunar que não aprecie o cheiro de cigarros, multiplicam-se os exemplos de mal-estar, que nem todas as leis ou todas as campanhas institucionais poderão resolver, enquanto cada um de nós se não convencer de que também é com o nosso metro quadrado que se constrói uma nação com civismo…

E o que fazemos, por cá? Começando onde tudo deveria ter o seu início, vemos tipos cinzentos extraordinariamente vaidosos por terem sido eleitos para um cargo que, mesmo ocupado durante duas décadas, por vezes, nunca é visto como lugar de serviço e de postura exemplar. E quem lidera, por vezes, prefere atiçar os “doberman”a proteger os senadores que, ainda assim, tiveram vida e têm valores, ou aguçar o apetite de jovens tubarões que bajulam quem atira a peça de carne – é assim na política como nas empresas, muitas vezes…

E nós, isoladamente?! Muitos aliviam a consciência contribuindo para o Banco Alimentar ou dando uns trocos para o Darfur, sem pensar que, por muito louváveis que sejam os minutos desses dois dias, sobram 363 dias para olhar para o efeito de estufa, para o reorientar dos gastos supérfluos para Educação, Cultura e outros fins interessantes e para, sobretudo, olharmos para o próximo como sujeito e não como objecto.
Eis o que podia ser um Natal. Mas não é…

3 comentários:

freitaspereira disse...

Reflexões muito justas, em forma de balanço do ano, mesmo se o Amigo Gonçalo escreveu em cinco minutos o que levou algumas dezenas de anos para lá chegar. Sim, porque a experiência é uma lanterna pendurada nas costas que ilumina o caminho percorrido, não é assim ?
E o que é talvez mais trágico é que não importa qual cidadão poderia escrever o mesmo em não importa qual pais do mundo actual, pelo menos naqueles onde já não se luta pelo essencial mas sim pelo supérfluo.

Isto é o absurdo de um mundo que não se pode comparar a nenhum outro porque este não existe. O que quer dizer que existe hoje um absurdo absoluto.

Mas creio bem, Caro Amigo, que os seus sentimentos, que neste aspecto são iguais aos meus, pertencem já ao passado, embora este pensamento seja do futuro, mas encontrando dificilmente lugar no presente.

Em Portugal, como “elsewhere”, o verdadeiro progresso democrático não deve consistir em baixar a elite ao nível das massas, mas sim de elevar estas ao nível da elite. Mas para o momento, como muito bem escreve, a sociedade de consumo vale mais que todas as filosofias.

E eu que sempre apreciei Saint Exupèry, digo há algum tempo para cá, que ele se enganou quando escreveu :” A verdade de amanhã alimenta-se do erro de ontem”. Não creio que a humanidade aprenda.

Enfim, como em todas as lágrimas há sempre uma esperança que se mantém, vamos lá desejar um Bom Ano Novo ao patrão do “Lodo”, a todos os seus colaboradores e a todos os que nos lêem.

Freitas Pereira

Dulce Alves disse...

Retrato soturno, mas muito realístico, da selva em que (sobre)vivemos.
Ouso dizer que a selvajaria agrava-se nesta quadra natalícia – quanto mais se apregoa valores ditos cristãos, mais longe está a sociedade de àqueles corresponder.
Quanto ao civismo, considero-o fulcral à grandeza de uma nação. Mas nós, portugueses, teimamos em achar que as necessidade de mudanças e melhorias do país se limitam à Economia e, ademais, são coisa que não nos respeita. Temos por isso o péssimo hábito de fazer os senhores do poder de “bode expiatório”, depois de lhes relegar a árdua tarefa de endireitar o país.
É certo que lhes assistem poderes e deveres que não estão ao alcance do cidadão comum, mas esta nossa atitude laxista em nada nos abona.
Se já não vamos a tempo de rectificar o Natal, resta esperar que as resoluções de ano novo tenham em conta estas matérias...

Adriana disse...

Palavras sábias no fim do ano que se aproxima. Com este texto consegue-se reflectir sobre a realidade de todos os dias mas nem todos querem abrir os olhos para a ver.

Não cito Saint Exupèry como o amigo Freitas Pereira mas cito Eça de Queiros: "Não há ideia mais consoladora do que esta - que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que, agora, se esconde são moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim."
- in "Contos"

Bom ano de 2008 a todos!
Dri