quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

The LODO Files: Ainda há lodo no Cais… do Sodré

(uma reportagem de Diogo Nogueira Gaspar, Gonçalo Capitão e João Morgado)

A noite prometia… Teria início uma série de reportagens de alto risco – e, por que não, de alto coturno – do Lodo.

O destino era um clássico da decadência lisboeta: o mítico Cais do Sodré que, em tempos idos, apaziguara as ânsias dos marinheiros e, mais recentemente, continuara a animar os transeuntes, fosse na aromatização das fossas nasais, fosse por proporcionar “amor” a preço de saldo (pelo menos, assim rezam os relatos e o deixa adivinhar um mero relance).

A exigência da empreitada pedia reforço estomacal, o que foi acautelado com o Corpo de Intervenção do Lodo razoavelmente amesendado, num restaurante de rodízio ao Chiado. Enquanto a picanha tombava ensanguentada e indefesa nos pratos dos comensais, as mentes divagavam por outra espécie de rodízio, sem sangue, mas, para os apreciadores, com suor…

O mito a afrontar era a noite do Cais do Sodré. Pensando no alívio dos marinheiros de outrora, a comitiva saciava a fome de comer com carnes bem mais inertes, embora, mercê da decadência daquele ancoradouro de muitas pulsões sexuais, se adivinhasse que a tarifa fosse idêntica.

A visita onde tantos haviam regurgitado era preparada com o afinco de quem a mais não se dispunha do que a uma eructação de aplauso gastronómico. O mesmo aplauso que merecia um circunstante que decidira jantar sem tirar os óculos de sol, mas que compensava o facto de não nos permitir contemplar o seu olhar, franqueando-nos o acesso à cor das sua meias, tal a maneira como escancarava as mandíbulas à medida que molares, caninos e incisivos estraçalhavam a presa que jazia em seu prato.

Porém, as reflexões de hesitação eram, sucessivamente, esbofeteadas por mais uma fatia de picanha ou uma coxinha de frango, e lá se desvaneceram perenemente até ao desembarque nesse ancoradouro de opróbrio…

Como isto da sonoridade também acrescenta melodia à vida, começámos pela Rua Nova do Carvalho, bem longe portanto do (carvalho) mais velho… A animação era esfusiante e contagiante, como se podia constatar pela forma denodada como uma profissional liberal dormitava, encostada a uma caixa de electricidade. Principiávamos, ali, a questionar a genuinidade da propaganda da EDP sobre as energias renováveis, tal a baixa potência da mofada prestadora de cuidados intensivos.

Contudo, cedo mudaria a maré e prestes seria reconhecido o nosso estatuto de guerreiros da noite, nada mais nada menos, quando o porteiro do Viking, reputada casa da especialidade, nos dirige um temerário “Faxavor, Senhores… Podem dar um olhinho, se agradar”. Certos de que cada um dá de si o que quiser, pareceu-nos de pôr o convite em banho-maria; banho, aliás, que fazia falta a cerca de 110% dos que, a mais dos nossos seres, por ali cirandavam.

De ego cheio pela nossa entrada triunfal, o nosso valente Diogo embarcou nas expressões sinfónicas e decidiu que “damos todas as nossas ideias e depois… compila-se”!... Receosos de abordar a última parte da sugestão, os demais circunstantes vogavam ao sabor da dúvida que reinava sobre os destinatários da quermesse de ideias… Nós?... As simpáticas senhoras de barriga encostada ao balcão?... Confesso que sonhei ver o Diogo a encetar um debate filosófico com uma “tataraneta” ao quadrado de Maria Madalena…

Havia, não obstante, que superar o choque e cruzar novos mares! À falta de melhor, atravessámos a rua, mesmo a tempo de ouvir o final de conversa de um visivelmente satisfeito cliente como um curadora de sotaque adocicadamente transatlântico… Concomitantemente, o porteiro (o imenso Jaime) do não menos nórdico “Copenhaga” sufragava o alegre desmontar da tenda (salvo seja) com um assaz parlamentar “muito bem”!

Mesmo ao lado do templo do prazer, uma loja, pudicamente encerrada àquela hora, exibia na montra, entre outras coisas, estátuas de santos!!! Assim como que a convidar ao arrependimento, depois da luxúria. Eis um bom exemplo da boa complementaridade gerada pela economia de mercado.

Contudo, estava na altura de entrar, mesmo sem fatos anti-sépticos!... O espectáculo cumpriu a contento. Bem amesendados procurávamos o sol que ditava o uso de óculos escuros por um cidadão que exibia os seus dotes de dançarino, na evocativa maison dinamarquesa. Não foi, porém, preciso muito até que nos apercebêssemos de que deveria tratar-se de uma publicidade a uma qualquer marca de cachorros quentes, já que o nosso desabotoado companheiro de copo e de cruz não tardou a ser guarnecido em cada uma das suas fachadas por duas anafadas prestadoras de serviços.

Entre o balcão e as mesas, mais três deusas da genuflexão barata mostravam como não apenas a Ponte sobrevivera aos tempos do Senhor Professor e que estavam bem melhor connosco (salvo seja) do que no lar da Misericórdia.

Todavia, a curiosidade científica do nosso corpo expedicionário clamava por novos achados e chegava a altura de “descolar” (pelo menos, era esse o nosso receio) as retaguardas dos estafados assentos.

À porta continuava a jorrar a cornucópia de acontecimentos: o porteiro voltava com um exótico transportador de um chapéu de coco, arfando depois de uma aparente e gorada perseguição digna de deixar nas covas Sonny e Crockett e de os fazer estrelas de uma próxima sequela de Miami Vice. Vem o mistério a desvendar-se por via de prova testemunhal dos próprios; sucede que ”agora quem paga é ali a Maria”!... Mas como uma desgraça nunca vem só, “fodem-me os CD todos”! – confesso que nunca me tinha ocorrido, inclusive dada a exiguidade do furo, mas parece que, interpretada a coisa a letra, a crise já gerou novos rivais para as nossas colegas de circunstância…

Nisto, um táxi carregado de turistas – olimpicamente ludibriados por alguém que não deve ter comissão nas bôites com nomes de animais, que amparam os cavalheiros nas noites solitárias da nossa Capital – despeja os ditos a nossos pés, mesmo a tempo de ouvirmos o imenso Jaime “escarrar” um profundo “comme on, my friends”! Seguros de que Jaime não ficava sozinho, continuámos a caçada.

Era mesmo o momento azado para pegar o Viking pelos cornos! No balcão era servido, ao tempo da nossa entrada, um fetiche: uma das hospedeiras da noite era massajada por outra, sem descarrilar, já que o comboio haveria de alargar-se a um circunstante que passou a massajar a generosa massagista, supra mencionada. Quem disse que o bem não atrai o bem?!

Sucede que a terceira carruagem da composição não era versada em itinerários, já que haveria de confundir as origens escandinavas do nosso abrigo com os saloons do Texas, ao pôr, categoricamente, o pé em cima do balcão.

Quereria marcar terreno em relação ao atleta que se aproximaria com uma camisola do Sporting?! Outros campeonatos para o outrora glorioso leão, bem se viu… No entanto, vitória é vitória e o jovem lá se agarrou a outra taça que estava em exposição… Dito de outra maneira, a massajada saiu da sua posição de locomotiva e decidiu atrelar-se à bochecha do leonino circunstante, quiçá em busca de uma palmada numa qualquer outra bochecha…

Tudo isto e muito mais entre “Mal acostumado” de Júlio Iglesias e “Big in Japan” dos Alphaville, perante um repetido encolher de ombros do careca de serviço, numa mesa das redondezas.

Enquanto a Sport Tv passava a Copa Libertadores, uma generosa senhora “daquelas” aborda-nos com um simpático e turístico “querem ir?”. Ficou por perceber a má cara que revelou perante a nossa recusa… Por que diabo haveríamos de ir àquela hora para a América Latina?! Ou pensaria ela que a Copa Libertadores decorria em Sacavém?! De todo o modo, o autocarro devia ser grande, porque perguntou aos três se “queríamos ir”!...

O despeito era tal, porém, que não levantou ferros sem nos perguntar se éramos “namorados”… Ao som da voz de Freddie Mercury a pergunta podia ser dúbia, mas viria Tina Turner lembrar-lhe quem era “The Best”! Não ofende quem quer, parecia quer dizer “Miss Hot Legs”.

Seguramente enviada pela ONU como força de interposição ainda chegaria Eva que arrasaria a pequena pista, libertando-se dos exíguos paramentos e comprovando com a sua progressiva ausência o tiro certeiro de Sir Isaac Newton sobre a lei da gravidade… O trabalho que deve dar recolher todas aquelas formas de volta a um posicionamento razoável… Anestesiava-nos “Cocaine” de Eric Clapton...

E entre as mesas, numa homenagem ainda em vida, um cidadão submerso em larga camada etílica simulava passos à maneira de Michael Jackson, dividindo o olhar entre a televisão e o chão, imune à volúpia da sereia que se agitava a seu lado. A mesma imunidade que devotaria, aliás à reentrada da stripper, mesmo que ela parecesse sufragar as palavras dos Kiss e lhe insinuasse um clássico “I was made for loving you”.

Era chegada a hora de levantar arraiais – a melhor coisa para se levantar, por ali… - pois a certeza científica estava adquirida: quando a vida parecer mal encaminhada, vá ao Cais, pois verá que pode sempre piorar!

Nota: pensámos em voltar ao Cais, para fazer umas fotografias condignas. Porém, concluímos que estas raridades tiradas com um telemóvel oculto fazem outra justiça à noite que por lá passámos.

4 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

gostei do que li

Muito interessante.

Venham mais foto reportagens desta,

Talvez quando o Benfica for campeao

Dulce Alves disse...

Já o disse aos 3 repórteres, mas agora torno público: GENIAL!!!
:)

Jornalismo de coragem, o vosso! Digno de Pulitzer! :D

E ao estilo anúncio da Galp: "Queremos mais, queremos mais, queremos mais, queremos muitoooo mais!"

Diogo Nogueira Gaspar disse...

Se ficamos dependentes do Benfica ou não, como diz o Francisco, não sei, mas acho conveniente que a Assembleia-Geral da Lodo, SAD aprove mais “saídas de campo” e que lá em Columbia ponderem a dica da Dulce sobre o Pulitzer! Quanto ao Cais poderemos vir a fazer um regresso para efeitos comparativos. Espero que esteja tudo bem conservado, que o exercício das profissões liberais se mantenha em volta de caixas da EDP (ou não fosse o seu slogan "Sinta a nossa energia") e que os estabelecimentos de nível continuem a ostentar a mesma designação irónica. Viking, Copenhaga, Oslo? Nós que até costumávamos associar o que é nórdico a coisas asseadas… Ainda por cima a oferta “comercial” vai muito além de uma só proveniência geográfica (África, Ásia, América do Sul, etc.). A "Lisboa profunda" cabe mesmo na Rua Nova do Carvalho, ”bem longe portanto do (carvalho) mais velho" :D

Jorge Ramiro disse...

Uma crônica excelente. Eu gosto de sair e ouvir bandas de rock. Sempre vou a ums restaurantes em alphaville onde eu tocam bandas de rock, eles têm bons shows.