sábado, 25 de abril de 2009

De Cláudio a Nero, melodiosamente

Assinante incurável que sou das temporadas líricas do São Carlos, tive no passado dia 21 um momento de excepcional conteúdo lúdico.

Com composição de George Friedrich Händel e libreto de Vincenzo Grimani, Agrippina mistura história e ficção com os deliciosos sons do período barroco (aquele cravo...). As vozes estiveram, também elas e na opinião de um apreciador sem pretensões de ser perito, à altura.

Desta vez, houve um extra de destacar, a provar que os portugueses podem fazer Cultura de qualidade sem serem incompreensíveis ou grosseiros: "O Velório de Cláudio ou A Representação Bufa de Personagens Históricas”, uma encomenda do TNSC ao compositor Nuno Côrte-Real, com libreto de José Luis Peixoto, na melhor tradição da ópera bufa, pese embora com a "originalidade" de se tratar de um intermezzo colocado no ínicio do espectáculo por razões técnicas.

Perdoo, assim, ao Director Artístico do São Carlos, Christoph Dammann, o mau gosto de ter voltado a chamar Karoline Gruber para encenar "Salome" (a ópera anterior), depois da horrível experiência de "Das Märchen" de Emmanuel Nunes, sobre a qual tenho a dizer exactamente o contrário do que disse da obra de Nuno Côrte-Real, que era agresiva e incompreensível.

O que já não esqueço é a crítica de Jorge Calado no "Expresso"... O crítico mais teria a ganhar em fazer jus ao apelido e meter a viola ao saco. Se o vómito tivesse tradução ortográfica satisfatória, seria isso que Calado faria, tal a maneira como asperge bílis sobre a apresentação em causa. Sendo que a opinião é livre, a arrogância, a intolerância e até a grosseria com que escreve é a razão pela qual certas formas de manifestação cultural se encontram longe da democratização. Querendo dar nas vistas e justificar o espaço no semanário, Calado escreve como se cada espectador tivesse que ser um melómano. Lamentável...

1 comentário:

Dulce Alves disse...

Parece-me que o critério usado pelos críticos de ópera não diverge muito do usado pelos críticos de cinema, qualquer coisa como "quanto mais o povo gosta, menos presta".
Também li a crítica no suplemento do Expresso e achei de um exagero e de uma crueldade para com a direcção artística, artistas e todos aqueles que com certeza deram o seu melhor para levar a palco esta obra. Eu cá, gostei muito e estou-me nas tintas para os pormenores irrisórios que só um expert avista. Num todo, o espectáculo merece um grande aplauso e mesmo que detectasse falhas, merecer-me-ia pelo menos uma certa consideração...