quarta-feira, 4 de junho de 2008

Espremendo os resultados

Sem esconder que apoiei Pedro Passos Coelho, não considero incompatível regozijar-me com a vitória de Manuela Ferreira Leite, sem que com isso espere indulgências ou qualquer lugar para mim, para um filho (que não tenho, ao que sei) ou afilhado (desculpa, Luís…).

Antes de mais, seria idiota pôr em causa a folha de serviços da Presidente eleita, a sua dedicação ao País e ao partido ou sequer a clareza e o mérito da sua vitória. Chega de mau perder e de autofagia no PSD!... Não há desculpa para, a um ano e pouco de eleições, haver birras de meninos mais ou menos guerreiros ou de outros que tenham medo de não arrajar lugar nos comboios eleitorais.

Depois, fica a curiosidade de falarmos da primeira mulher a liderar um partido nacional, sem que para isso tenha necessitado de quotas!... À atenção de todas as senhoras que, em vez de apostarem no mérito da participação, se reúnem em jantares à espera da boleia da Lei (da qual duvido, por muito boas que sejam as premissas). Acresce que poderemos vir a ter, pela primeira vez, uma senhora eleita para o cargo de Primeiro-Ministro, já que a eng.ª Maria de Lurdes Pintassilgo foi-o por convite presidencial (sem que isso belisque o seu mérito, diga-se).

Mas, curiosidades de almanaque e beijocas no querubim recém-nascido (o neto) parte, manda a acutilância política que se pergunte se vamos ter mais da política e das soluções clássicas que nos governam desde o 25 de Abril. Se o hirto sentido de Estado de Sá Carneiro, Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite (enquanto ministra) foram cruciais para nos consolidar como pátria, fica a saber a pouco quando nos perguntamos como emocionar e motivar a Nação para um esforço de desenvolvimento que depende muito mais das pessoas e da cultura cívica que dos Estados que, por esse mundo, encontram na globalização e no mercado absoluto os limites de caducidade. Dito de outra forma, entendo que a malta não come "Brent" nem respira "consolidação das contas públicas", como tenho dito.

O truque pode estar em associar à sabedoria, credibilidade e austeridade da nova líder quadros com provas profissionais e cívicas que respeitem processos éticos, mas inovem nas soluções substantivas, devolvendo ao partido e a Portugal a noção de um ideal social, de um sonho, de um paradigma novo de desenvolvimento e de amparo social. No fundo, fazer com que nos emocionemos não apenas quando 23 valentes rapazes vão para um torneio do pontapé na bola (no mesmo sentido, cfr. Drª Dulce Alves).

Do que estou certo é de que há que cerrar fileiras na concepção de uma alternativa credível ao actual Governo, causando-me urticária as análises que tenho ouvido e que dizem que Ferreira Leite não venceu, porque os votos de Passos Coelho e Santana Lopes, se somados, são mais. Ou isto mudou muito ou, que eu saiba, quem vence ainda é quem fica em primeiro lugar, não havendo coligações em eleições uninominais. Mas se calhar sou eu que já esqueci a ciência política em que me encartaram como mestre…

Para Pedro Passos Coelho fica a certeza de uma campanha fresca de ideias, sedutora de postura e aliciante para uma sequela. Entendo que o tempo que queda por diante poderia ser aproveitado para saltar as baias da máquina de votos que teve que montar (nunca desprezando esse capital), para separar “a boa da má moeda” (como se diz no Palácio de Belém, a nova Meca da liderança laranja) e para, humildemente, analisar as críticas construtivas que foram feitas, designadamente quanto à consistência das opiniões e das medidas propostas e respectiva carga persuasiva. Por mim, sinto-me contente com o voto que dei a Pedro Passos Coelho, de quem espero leal cooperação para com a liderança, pelo menos, até ao fim dos embates eleitorais de 2009, o que não choca com o desiderato anunciado de concorrer, democratica e frontalmente, ao conselho nacional com uma lista, como me parece ter assumido.

Quanto a Pedro Santana Lopes, lá cantava o “menino guerreiro” que “um homem também chora”… Após tantos e tão surpreendentes renascimentos, já só me resta aguardar ansiosamente onde é que o James Bond do PSD vai fazer o próximo “filme”, pois se a derrota de 2005 não lhe deu sugestão para harakiri, não será o terceiro lugar no PSD que o leva a cortar os pulsos da militância. Reconhecido o mérito de um dos mais curiosos curricula da política lusa, apenas resta lamentar a forma como não soube “combater” (como costuma dizer), designadamente quando se referiu à inexperiência e às derrotas (Câmara da Amadora e PSD de Lisboa) de Passos Coelho. Algo que ainda espanta mais dito pelo mesmo cidadão que, no Congresso de Viseu (que o opôs a Durão Barroso e Marques Mendes), disse a Durão (após a graça falhada deste sobre Zandinga e Gabriel Alves): “olha, Zé Manel: nunca se deve pisar quem perde! É uma lição que te fica para a vida”… Ao Zé Manel até pode ter aproveitado a lição, já a Santana…

De uma ou de outra forma, se ainda percebo o PSD, o que o carisma de Ferreira Leite não conseguir fazer, caberá à esperança de um lugar nas listas de 2009: ajudar a acalmar muitos dos tribunos de ocasião que dominam a atoarda social-democrata e que, regra geral, apenas esperam o seu quinhão de notoriedade.
Oxalá também haja espaço para pensar política a sério!...
Nota: edição revista e aumentada de um texto publicado no "31 da Armada".

1 comentário:

Dulce Alves disse...

Gonçalo,
então no post abaixo criticas aqueles que invocam o "Dr(a)." por tudo e por nada e faze-lo aqui, logo comigo que vim do "politécnico"??!! ;)

Adiante. A vitória de MFL também a mim não me amarga, ainda que considere que a sua campanha ficou muito aquém do que lhe seria de esperar...
Notável é o facto de ter sido a primeira mulher a chegar à liderança de um partido, como bem dizes - sem QUOTAS. Confesso que enquanto mulher e militante desagrada-me muito ver que dentro do nosso partido há quem considere que essa via de alcançar um lugar ao sol é a ideal ..! Encostam-se à parede, marcam presença num jantar ou outro e esperam tranquilamente pelos combates de 2009, ansiando chegar à linha da frente à boleia da lei do PS...
Quanto ao PSD, tal como com o futebol: haja fé! (Porque capacidade e vontade não faltam, com certeza...)