domingo, 3 de fevereiro de 2008

Entre a fantasia e a realidade


Consta que no país mais carnavalesco - Brasil - a época de folia está este ano menos colorida. Veste-se de preto e está cada vez mais perto da realidade violenta que prolifera pelo país. É que os disfarces que esgotaram nas lojas da especialidade foram as fardas do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), inspiradas no filme que faz furor pelo país irmão - "Tropa de Elite".
Trata-se de um thriller que relata o quotidiano de uma equipa de militares altamente treinados para intervir nas zonas de grande risco das favelas do Rio de Janeiro, tendo já sido considerada a melhor equipa de combate urbano do mundo.
A película marcou indelevelmente o cinema brasileiro em 2007 (até por questões de pirataria) e outras indústrias parecem ter aproveitado a onda de sucesso do filme para lucrar neste Carnaval.
Com efeito, a roupa preta com a estampa de uma caveira atravessada por um punhal e armas é hoje o símbolo da febre que atinge o Brasil: o de polícia (policial) do BOPE. O estilo militar está a invadir as ruas e crianças e adultos encarnam as personagens-herói do filme, entoando o grito de guerra que aquele difundiu: «Tropa de Elite osso duro de roer! Pega um, pega geral, também vai pegar você!»
Ademais, sendo que os disfarces mais vendidos foram os destinados a crianças dos 2 aos 14 anos, poder-se-á considerar que estamos perante apologia à violência?
O certo é que parece ser o fim das personagens infantis a marcarem presença no Carnaval do país irmão. O certo é que este ano o Brasil renegou a fantasia - por sinal, o móbil do Carnaval - tendo-se rendido à lúgrube realidade.

3 comentários:

Gonçalo Capitão disse...

Parte séria: creio que tens razão, mas apenas em parte. O que pode também querer dizer esta mudança é que para os mais novos o heroi já não é membro do gang, mas sim do lado da Lei e Ordem. Vejamos se aumentam as candidaturas à polícia de intervenção.

Parte muito séria: poderemos ver-te com uma fantasia como as da fotografia???

luis cirilo disse...

Nem a sério nem a brincar: será que nos nossos modestos "Carnavais" (quando comparados com a ,digamos,exuberância dos brasileiros...)ainda vamos ver como fantasia da moda as fardas da ASAE ?
Sei não seu Nacib...

Dulce Alves disse...

Gonçalo,

de facto, visto por essa perspectiva, a coisa soa menos mal.
Contudo, não deixa de ser estranho ver crianças a encarnar personagens da vida real que estão inevitavelmente ligados à violência urbana (e policial), ainda que - é certo - estejam aparentemente do lado dos "bons".

E digo "aparentemente" porque até aqui as coisas não são tão claras, uma vez que aquele corpo policial já viu os seus métodos serem condenados por organizações internacionais (como a Amnistia Internacional)e a sua incorruptibilidade não parece ser de todo inquestionável...

Quanto ao desafio: lamento, mas "jamais". Mas este 'jamais' não é como o da Luciana Abreu ou o do Mário Lino, garanto. ;)


Caro Luís,

parece que as suas previsões se confirmaram. A julgar pelo Carnaval de Ovar, a ASAE foi mote para muita paródia neste Carnaval. E não é para mais.