domingo, 28 de outubro de 2007

To Russia without love

Creio que estarei livre da acusação de ser um daqueles "ex-jotas" que, prescrita a vida na JSD, passa a renegar as origens. Servi a Juventude Social-Democrata com honra, passei por lá momentos de antologia e, ainda hoje, sempre que me pedem, continuo disponível para ajudar as suas diversas estruturas.
Como se não bastasse, creio ter um relacionamento político e pessoal cordato com o seu actual Presidente.
Contudo, sendo a JSD uma organização política do nosso PSD, creio que deve sujeitar-se ao crivo analítico dos seus companheiros, algo que, no meu caso, surge a propósito de uma notícia que li na edição on-line do "Sol" :
"Cimeira UE/Rússia
JSD cancela iniciativa Sem Liberdade, não há Verdade
A JSD cancelou a iniciativa agendada para sexta-feira que previa a colocação de uma faixa em frente ao Convento de Mafra, onde decorrerá a Cimeira UE/Rússia, denunciando a violação da liberdade de imprensa na Rússia
".
Ora bem, vamos por partes:
  1. A liberdade de imprensa é essencial e deve ser defendida. Andou bem a JSD, na ideia.
  2. A cimeira UE - Rússia era algo que tinha de correr bem para Portugal, independentemente de partidos e credos. Se fossem avante (salvo-seja) não sei se tinham feito boa figura (duvido).
  3. Putin tirou da cartola a proposta de um Instituto euro-russo para monitorizar os direitos humanos, pelo que a coisa teria ficado um pouco "no ar". Ou seja, nestas cimeiras convém não sair antes do filme acabar.
  4. Mediatismo é fundamental, mas não apenas pela espectaculaidade. Recomenda-se algo que caia no raio de acção da força política que organiza o protesto. JSD e Moscovo?! Não ganha direitos ou votos por cá e nem se ouve, lá.
  5. E por que não algo sobre a mesma liberdade em Angola, quando vier cá o Presidente reunir com a União Europeia? Continuo a discordar do ruído durante a Presidência portuguesa da UE, mas sempre podem influenciar mais e é uma realidade que dirá mais aos portugueses e aos seus partidos. Ou então analisar a situação na Venezuela que não é muito mais branda e onde vivem quase 500.000 portugueses...
  6. Depois, entendo que é preciso compreender a Rússia (como outros países que não obedecem à nossa bitola; China, Venezuela, etc...) à luz da sua história passada e presente, não caíndo na grosseira categorização norte-americana que, todavia, ainda se estriba no proselitismo wilsoniano (ou seja, na exportação dos valores americanos como uma missão da nação).

A respeito deste último ponto, convirá que se repitam duas ou três coisas que já passaram pelo "lodo": a Rússia nunca foi e, arrisco a dizer, jamais será uma democracia do tipo ocidental; creio até que passa, hoje, pelo seu estado mais democrático de sempre.

Nunca os czares, muito menos o regime comunista e, dado do delapidar do erário público, Ieltsin consagraram o que, por cá, chamamos de democracia.

Já Gorbachev abriu o regime. Todavia, ao tirar o partido do seu lugar de "trave-mestra" (para usar a expressão de Adriano Moreira) do sistema, fez desabar a vida russa a um ponto que, ainda nos dias que correm, muitos habitantes (muitos mesmo!) da ex-URSS sentem saudades do "nível de vida" que, apesar de tudo, tinham.

Vladimir Putin recupera o lado idiossincrático da alma russa, sendo o "pai" que olha pelos russos, defende o Estado, fora de fronteiras, e combate os "glutões", dentro de casa.

Como disse, à Rússia falta a cultura democrática, no sentido que lhe damos por cá, e sobram diferenças étnicas (dezenas) e potenciais focos de conflito intra-muros (idem), de que a Tchechénia é apenas a mais colorida ilustração.

Diria que a JSD e, já agora, os demais portugueses poderão esperar uma semi-democracia ocidentalmente "adocicada" e desejar que a Rússia se mantenha íntegra e virada para este lado do Globo (a "asiatização" russa é possibilidade recorrente), por razões de segurança e pela questão energética.

4 comentários:

Dulce Alves disse...

Gonçalo,


Afigura-se difícil comentar o presente post, porque é difícil não estar aqui de acordo contigo, ainda que seja conhecida a minha propensão para criticar a incipiente cultura democrática russa…

Ainda assim, parece-me muito oportuna a 'recomendação' à JSD, para que paute a sua acção pela lógica de defender causas que lhe respeitem ou, pelo menos, temáticas em que uma aquela estrutura possa vir a ter algum tipo de influência.
Ainda que, considere legítimo que uma estrutura partidário-juvenil se pronuncie sobre temas como a liberdade de imprensa, que não deixam (ou não deveriam deixar…) nenhum democrata indiferente. Contudo, tal como referes, não seria o lugar (temporal e espacial) mais adequado.

A meu ver, (e se bem te entendi seria isto que temias...) seria uma “faca de dois gumes”: se por um lado beneficiaria de uma enorme visibilidade, por outro a JSD estaria na Cimeira Portugal – Rússia, como a CGTP esteve para a Cimeira de Lisboa. E essa falta de sentido de oportunidade não (nos) ficaria lá muito bem…

Depois, ainda mais oportuno foi teres lembrado o caso de outros países que deveriam de merecer a nossa atenção no que respeita a idênticas matérias, como Angola ou Venezuela, que nos são bem mais ‘próximos’ e afectos.

Por fim, é facto inegável que “ a Rússia passa hoje pelo seu estado mais democrático”. Mas, Gonçalo, deverá isso ser motivo para nos acomodarmos e fingirmos que ‘já está tudo bem’?... Não será desejável (e legítimo) que continuem a soar vozes pelo Mundo fora alertando para a necessidade de continuar a trilhar o sinuoso caminho da liberdade?..

Gonçalo Capitão disse...

Dulce

A grande questão é: aceitas ou não que o sistema de relações internacionais obriga a algum cinismo, por muito que não abdiques da tua pauta ética? É que se não aceitares, jamais poderás sequer começar a falar com o Irão, Coreia do Norte e outros... E vai daí, resta o quê? A guerra?!

Depois, convido-te a responder a outra pergunta: tens a certeza de que a "nossa" democracia é exportável para todo o lado? Mesmo para países de dimensão continental, multiplicidade étnica e não "colonizados" historicamente por europeus ocidentais?

Dulce Alves disse...

Gonçalo,


A democracia está longe de ser uma batalha ganha, mas não vejo porque não possa ser um sistema exportável. Reconheço que, a sê-lo, deverá atender à realidade local: regime político até aí vigente, multiplicidades étnicas, culturais, religiosas, económicas, etc.
Implementar a democracia em povos sem qualquer tradição democrática e sem qualquer registo de evolução político-cultural é tarefa árdua e paulatina, mas não impossível – veja-se o caso do Japão.
Importante é que não se conceba Democracia de uma forma cristalizada, como um valor estritamente ocidental..!

Parece-me, pois, legítimo o esforço dos que almejam ver a Rússia (como bem referiste, uma nação transcontinental, o que aumenta o 'peso'...) como exemplo de eficaz transição, culminando numa democracia “a tempo inteiro” e não só quando “calha bem”. Até porque, de momento, já não se trata de uma transformação radical, mas tão-somente de proceder a melhoras nesta democracia “à moda Russa”.

E fazendo a ponte para a outra questão, não aceito totalmente que se faça guerra em nome da implementação da democracia, ainda que me pareça legítimo que o Ocidente (leia-se: EUA, UE, ONU,) tenha um papel fundamental nos processos de democratização.
Admito que sou uma eterna idealista, mas não consigo deixar de acreditar que um dia será possível pensar e falar em democracia global…

Gonçalo Capitão disse...

De facto, o Japão é um caso interessante.

E o Paquistão?! É democrático?! Tem eleições e tribunais independentes...

E a Turquia?! Parece que sim... Mas satisfaz-te o tratamento dos direitos humanos?

E a Venezuela, em que há eleições, mas pouca liberdade de imprensa e teremos a possibilidade de o Presidente se perpetuar?!

Acresce que esse poder "influenciar" os outros sem guerra levanta a questão do direito de ingerência humanitária, ao qual sou favorável, quando tutelado pela ONU (é o que se pode arranjar, por enquanto... Falo da ONU...), mas em relação ao qual tu "terás" de discordar...

Por fim, será dificil essa pedagogia, pois queremos outra Rússia aos sábados, domingos e feriados e a mesma nos dias de trabalho... Exemplo?! Os aliados (sobretudo os EUA) esfregaram as mãos quando o Kremlin aprovou tacitamente a invasão do Iraque.
Serviu (e bem, a meu ver) para combater o terrorismo tchecheno, com excessos que a Casa Branca (e Downing Street e, já agora, São Bento) fingiu não ver, porque dava jeito...