terça-feira, 15 de maio de 2007

Sensibilidade e Bom Senso

A relação entre um sentimento e o outro nem sempre é fácil.
Há acontecimentos que nos provocam sensações como tristeza, cólera, medo, desânimo e impotência. E quando esse cocktail de sentimentos nos inunda, torna-se complicado gerir o bom senso.

É o que me parece que acontece nos últimos tempos relativamente ao trágico acontecimento que marca a actualidade: uma má gestão do melindre que o “Caso Madeleine” suscitou, tem levado a uma insensatez por parte da sociedade civil, mas sobretudo por parte dos operadores judiciários e da comunicação social nacional e internacional.

Revolta-me o que aconteceu no passado dia 3 em Lagos, mas ainda me revolta mais o circo mediático que se criou à volta desta situação.

Inquieta-me esta histeria colectiva.

Incomodam-me os noticiários que dedicam interminavelmente horas a este caso, com directos dispensáveis, com revelações em nada surpreendentes e com entrevistas sórdidas nada conclusivas.

Revolta-me ainda esta espécie de ‘amnistia social’ que imuniza os pais da criança, quando estes são claramente os responsáveis pelo que aconteceu e deviam mesmo ser punidos pelo comportamento negligente que tiveram.

Lamento a não existência de um gabinete de comunicação da PJ que filtre o que deve passar e o que não deve passar para fora, atendendo sempre ao mui legítimo segredo de justiça.

Indigna-me a postura arrogante e ignorante dos que nos olham lá de fora como se fossemos um país terceiro mundista, ao mesmo tempo que fazem da nossa PJ bode expiatório.

Irrita-me o oportunismo mediático de algumas celebridades que fazem declarações que na prática são tão ocas quanto inúteis.

Temo a reacção dos pais que também passaram pelo mesmo mas que não viram os seus casos ser resolvidos nem com a mesma determinação, nem com os mesmos recursos, nem com os mesmos apoios.

Enfim, o “caso Madeleine” (não menosprezando a sua gravidade), acaba por servir também para fazer uma análise ao comportamento da sociedade.

Uma sociedade que perante problemáticas desta dimensão revela uma compaixão compreensível e uma solidariedade imensurável. Mas que tem, simultaneamente, comportamentos excessivos e insensatos ao lidar com estas questões.

É a tal relação difícil entre a inevitável sensibilidade e o desejável bom senso.

2 comentários:

Gonçalo Capitão disse...

Dulce,

Geralmente, louvo-te a frescura de ideais e a inteligência da escrita; hoje, gabo-te a coragem, especialmente quando te referes aos pais da menina.

Creio que até tens alguma razão, mas terá pesado a fama de segurança de que o nosso País goza. Ademais, embora se não deva proceder como eles, penso que está a pesar na opinião pública e nas autoridades o mais importante, que é a dor causada pelo desaparecimento de uma filha. Não vale a pena "bater no ceguinho" ou, como disse Santana Lopes, no Congresso de Viseu, "nunca se deve pisar quem perde". Sublinho, porém, que tens razão no que dizes, apenas acrescentando que o facto de deixares a carteira na esplanada (e no caso da Madeleine é mais grave) não dá título para que alguém a furte.

Quanto à Polícia Judiciária, mais uma vez entendo que acertas. O que mais me choca é a quantidade de fugas do "apito dourado" e afins, que tanto contrasta com o silêncio actual. Vamos acreditar que é para o bem da investigação e que a ausência de fugas será regra também nos casos de corrupção ("dream on, dreamer"...).

O essencial de tudo isto é mesmo o acto nojento de se raptarem crianças inocentes, o que atesta bem a podridão das sociedades actuais. O relativismo ético dá nisto, mas enquanto a esquerda propalar a "proibição de proíbir" estamos desgraçados...

Por fim, quanto à comunicação social, também penso que o que está em jogo é o aumento das vendas, via exploração da comoção generalizada. Todavia, vê o lado positivo: no passado já havia disto e era abafado (vide Ballet Rose), algo que os media actuais não consentem.

Ricardo Cândido disse...

Desculpem a intromissão mas gostaria apenas de acrescentar umas linhas…

Apesar de altamente mediático, este caso tem tido muito pouca informação digna de registo.
A escassez de informação aliada à necessidade de informar, faz com que os “opinion makers” enveredem pelo campo da especulação, o que não é nada bom para ninguém.