domingo, 22 de outubro de 2006

O SIM e o NAO...

Há uns anos atrás fomos confrontados com um referendo (aliás, dois), mas hoje dou atenção ao assunto de política nacional do momento.

Quando, foi feito o referendo ao aborto, não me deixaram votar. Apesar de ser cidadã portuguesa, maior, e com gozo pleno dos meus direitos, ainda não tinha cumprido os 6 meses sabáticos pós-recenseamento.
Apesar de vir de uma ala política que critica a interrupção voluntária da gravidez, a minha opinião pessoal não é coerente com as minhas escolhas políticas...
Nem sempre a política e a nossa consciência andam lado a lado... podia ser pior... sou simplesmente uma desalinhada!
Não posso dizer que conheço a "realidade" dos abortos clandestinos em portugal como a palma da minha mão... Mas consigo imaginar, consigo pensar nisso... Não é muito dificil!
Olho à minha volta e imagino a quantidade de mulheres que já fizeram uma interrupção voluntária da gravidez, de forma ilegal, nem sempre nas melhores condições. Quantas mulheres não terão ido a Espanha?!? Quantas mulheres não o fizeram em caves e garagens?! Quantas não terão ido parar ao hospital com lesões graves depois de um aborto?!?
Os abortos fazem-se na mesma: quer sejam de forma legal ou ilegal. Então porquê fechar os olhos, fingir que isso não existe?
Existe hoje, e vai existir sempre. Claro que os movimentos "pró-vida" viram sempre com a mesma demagogia da prevenção, da educação sexual... Está visto que isso não funciona.
Não acredito que nenhuma mulher faça um aborto de forma tranquila, que não fique marcada. E esse é o maior "castigo" que se lhe pode aplicar. Não há ameaças de pena de prisão que marquem mais do que o próprio aborto em si,
Lembro-me do dia em que o referendo teve lugar... Estava um dia de sol fantástico, as praias estavam cheias... Pleno verão.
As sondagens davam uma vitória inequívoca à despenalização. E sim, sabemos que a sociedade portuguesa é receptiva à despenalização. Contudo, houve uma minoria que não se deixou ficar a "trabalhar para o bronze". Que se levantou e foi às urnas e que marcou uma posição. Cidadãos cujo voto tem igual valor àqujeles que acharam que a vitória estava garantida. Cidadãos que merecem ser respeitados. Se quem era a favor, se desleixou, tem de arcar com as consequências.
Só entendo que o aborto deveria ser despenalizado por não ser uma questão política, por ser uma questão de consciência pessoal. Era o que mais faltava que o Estado pudesse escolher por mim, por exemplo, aquilo que como!
Se quem está no poder e na Assembleia da República, e quer ver esta questão alterada, deveria ter a coragem para fazê-lo por si só, em vez de atirar o ónus dessa decisão para os portugueses.
Porque apesar de ser a favor da despenalização do aborto e por ser a favor de que as mulheres tenham condições para realizar este tipo de intervenções, mas sobretudo, por ser contra os lobbies instalados de médicos/enfermeiros/parteiras que se aproveitam do estado de necessidade e pânico de uma pessoa - que deve estar desesperada - para lhe "sacar" umas centenas de euros...
Mas não posso deixar de respeitar os portugueses, cujo voto vale tanto como o dos outros portugueses (aqueles que ficaram ao sol), e que tiveram a coragem de expressar a sua vontade.

Estou num paradigma!

4 comentários:

Sara Brito disse...

Uma Sara aqui com uma opinião diferente :) Sim, admito que defendo as campanhas de prevenção e também aceito os argumentos expostos, aliás, eu não sou uma daquelas pessoas que defende a posição de forma ferrenha, não, só acho que na ponderação de todos os factores o meu voto irá para o não e, desta vez, até penso que ficarei na minoria. Tive a oportunidade de fazer um post no "meu habitueé" sobre o tema e defendo não só a consciencialização como a disponibilização de maiores meios porque já fui testemunha de pessoas que realmente vão fazer um aborto sem qualquer tipo de sensibilização. Pensam assim porque alguém lhes disse: foste estragar a tua vida! Não conseguirei num pequeno espaço expor todo o meu ideal mas a ideia será para mim esta: até penso que um dia deverá ser despenalizado mas agora... não é o momento mas "aqui entre nós", isto é só uma ideia pessoal :)

Rita de Matos Oliveira disse...

Complicada esta questão!!! Sara (a primeira :) porque é que quem defende a educação sexual e acrescento, a educação para os afectos, é demagogo?
Porque é que, se esta é uma questão de consciência, achas que deve ser o governo a tomar uma decisão sozinho?
Porque é que, se fazer um aborto é o "maior castigo" para as mulheres que a ele recorrem, és a favor do sim?

Coloco estas questões dentro do espírito de argumentação e troca saudável de ideias que é apanágio do lodo. Acho que vamos ter uma conversa interessante :p

Beijinhos para as duas Saras;)

Gonçalo Capitão disse...

Ladies:

Espero que isto não seja um post do tipo "girls only"... :)

De todo o modo, e antes de entrar mais detelhadamente no tema (ainda não me deu tola, desta vez), entendo que há argumentos de rejeitar, logo à partida.

Desde logo, o argumento da extrema-esquerda de que o aborto deve ser despenalizado em nome de um suposto direito da mulher a dispor do corpo (o costumeiro "aqui mando eu" tatuado na barriga pelas comissárias do PCP e do BE), a meu ver, não colhe. Seria de um profundo egoísmo e de uma imoral desresponsabilização entender que qualquer projecto de vida (ou seja, abarco mesmo os que não vêem vida desde a concepção) pode ser evitado pelo simples facto de uma das duas pessoas envolvidas invocar uma espécie de soberania geo-orgânica.
Ou seja, isso de planeamento e de assumir algumas consequências passaria a coisa do passado.

Do lado conservador, confesso que me exaspera a ideia de rotular os partisans do "sim" à despenalização (como este vosso criado) de "inimigos da vida".
A política repressiva teve décadas para provar a sua valia e apenas conduziu ao aumento da clandestinidade e do abandono (muitas vezes encapotado) de crianças.

Como em muitos outros domínios, a seu tempo, defenderei uma 3ª via.

Rui Miguel Ribeiro disse...

Permita-me que lhe aponte uma contradicção: se acha que o Estado não pode/não deve decidir numa questão de consciência, como pode defender que seja a AR a legislar sobre essa matéria?
Eu sou um acérrimo defensor do instituto do referendo e penso que uma matéria que já foi referendada deveria ficar off-limits para o Parlamento até haver novo referendo, respeitando um hiato considerável sobre o anterior.