quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Acabou-se o Papa doce

Quando a violência de muitos fundamentalistas se tornava sangrentamente monótona (tal era a falta de desculpas suculentas), eis que um discurso de Bento XVI é aproveitado para causa dos mais selvagens efeitos, que chegam já, alegadamente, ao assassinato de uma religiosa sexagenária, nesse santuário de moderação e tolerância que é a Somália.
Por cá, desde filmes como a “Última tentação de Cristo” (e outros mais ousados ainda) a caricaturas e anedotas, tudo pode dizer-se com a sanção máxima de ser rotulado de imbecil, desrespeitoso ou reles.

Em face disto – ou seja, desta cultura de tolerância e liberdade – bem podem chamar-me xenófobo os que entenderem como tal a minha ideia de que, de facto, a civilização ocidental está, neste aspecto, a anos-luz de muitos regimes e organizações islâmicas. Notem bem: não uso de uma sinédoque; não se trata de tomar a nuvem por Juno, mas tão só de usar termos comparativos médios.
E é por isso que, mesmo sem entrar nos significados mais recônditos do discurso papal na Universidade de Ratisbona (nem sequer me sinto habilitado, confesso), começo pela tese, em que acredito, de que, mesmo que o Papa tivesse proferido uma catilinária contra o Islão, na pior das hipóteses, isso legitimaria resposta em medida maior e recalcada, mas sempre no âmbito de protestos pacíficos.
Ora, provando que há regimes que terão como único momento digno de apontamento o dia em que forem derrubados, as reacções vão do Qatar ao Irão, onde o líder religioso supremo (falando mal e depressa, o chefe do impagável Ahmadinejad), ayatollah Ali Khamenei, aproveitou para misturar o citado discurso académico com as caricaturas de Maomé, publicadas na Dinamarca, assim incitando a mais ódio contra o Ocidente. A meu ver, tal instrumentalização só pode ter como fim em vista a justificação de regimes que, mesmo quando têm recursos naturais, preferem manter o povo de mão estendida e o menos “globalizado” possível.
Creio mesmo que a substância do discurso de Ratzinger não deveria suscitar grande apreensão: de facto, fé sem razão dá asneira (ligue a televisão…) e, efectivamente, há quadrantes do mundo muçulmano onde a fé tem sido manipulada para justificar a guerra, que tantos inocentes já ceifou, de Israel aos E.U.A., de Madrid a Londres, do Cairo a Bali, e por aí fora…
Acresce que, como escrevi anteriormente, o Islão (parte sonora dele, pelo menos) escolheu envolver-se num jihadismo redutor, que o arredou da cabeça do pelotão do progresso científico, onde foi líder, em séculos (muito) passados.
Poderia Bento XVI ter usado outra citação, que não a de Manuel II, imperador bizantino? Talvez, sobretudo se nos lembrarmos de que o Papa “não nasceu ontem” e de que está familiarizado com a sociedade mediatizada. Porém, se há coisa que temos de bom no Ocidente é o direito ao disparate, com as inerentes consequências em justa proporção, sendo que nem chego a achar que as palavras do Sumo Pontífice tenham sido disparatadas.
Quiçá pudesse ter chegado ao mesmo ponto sem acicatar gente, que bem se sabe que aproveita qualquer justificação para inflamar o ódio, como disse, com a utilização instrumental dos media, a dois níveis: por um lado, sem esforço, apoiando-se na impreparação de muitos jornalistas, já que não só o saber decai de densidade, na universidade de hoje, como os patrões da comunicação social, algumas vezes, preferem contratar barato, em vez de premiar e fidelizar o jornalismo de escola.
Por outro lado, com a noção de que a difusão da mensagem política/social/religiosa é, actualmente, global e instantânea, pelo que, não há volta a dar-lhe: há que medir bem o que se diz, mormente quando se está debaixo dos holofotes. Se até eu, confesso, na modéstia de alguns discursos que fui proferindo, ao longo de anos, percebi que era diferente o modo de expressão (não necessariamente a essência, sublinho) consoante houvesse ou não eco mediático do que havia para afirmar, que dizer de um experientíssimo Bento XVI ?…
Em suma e apesar disso, goste-se ou não de Bento XVI e dos seus discursos, está para vir quem me convença da adequação da fúria islâmica (onde ela se manifesta, já que há um Islão pacífico, que cumpre louvar, e de que é exemplo a comunidade portuguesa). No meio de tudo isto, um dado positivo: ao apelar à moderação das reacções muçulmanas, talvez a Comissão Europeia permita ter esperança de que a União tenha deixado de se envergonhar cada vez que se fala na herança judaico-cristã do projecto europeu. Tal assunção não significa que se enjeitem outras culturas, mas tão somente prestar homenagem a um legado decisivo para o que somos hoje. Wishful thinking?! Talvez…

5 comentários:

Rita de Matos Oliveira disse...

Provavelmente não te vou surpreender se disser que gostei de ouvir Bento XVI.
É verdade que não vale a pena incitar ódios, mas não nos devemos amputar no direito à liberdade de expressão. Isso tornar-nos-ia iguais a eles. Infelizmente cada vez mais me convenço que Huntington tem razão...

Luis Cirilo disse...

Confesso,de forma atrozmente reaccionária,que começo a nutrir uma simpatia (muitissimo) postecipada pelos cruzados !
De facto o radicalismo islâmico é a maior ameaça com que os paises civilizados (entenda-se as democracias) se defrontam.
E em muitos casos,como por exemplo a França, o virus já está bem dentro de portas.
Nessa matéria,como outro dia o Gonçalo escrevia no meu blog, as democracias não podem ajoelhar.
Não defendo violência pela violência mas entendo que os radicais tem de saber que a capacidade de retaliar os pode atingir sem limites nem fronteiras.
Temos o direito de nos defender,por mais que os Louça deste mundo queiram ...paz e amor.
Se gostam tanto do fundamentalismo,do extremismo,das burkhas e dos bombistas suicidas porque não vão viver para o Irão ou para a Siria e deixam,definitivamente,de nos chatear ?

Rui Miguel Ribeiro disse...

Excelente post. Concordo em absoluto com o que a rita oliveira disse e a minha gut reaction é a mesma do Luís. É evidente que a culpa não reside em Regensburg, mas em Qom, Rihad, Damasco, Islamabad, Alexandria, etc. Não devemos, porém, esquecer que este despautério islâmico surge e tem impacto porque é transmitido e blown out of proportion por todo o mundo. Quando os media forem (tentem ler isto sem se rirem) sérios, isentos e profissionais, não vão atrás de toda e qualquer manifestação que "cheire" a polémica ou a sangue; que sejam capazes de distinguir e analisar o que é notícia do que é instrumentalização para inglês ver.

Cunilingus disse...

Eu só gostava de saber uma coisa:
Quando matarem alguém devido a este problema criado, mais uma vez, pela comunicação social, onde vão julgar os jornalistas responsaveis?
Sinceramente sempre acreditei na justiça das cruzadas mas acho que a proxima deve ser contra a comunicação social...

Gonçalo Capitão disse...

Não indo tão longe, a última observação é muito pertinente.