segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Viagens na terra deles

A polémica em torno da demolição da casa onde Almeida Garrett habitou os últimos anos da sua vida tornou-se verdadeiramente estúpida.
Há que acertar alguns pontos:
  1. A casa tinha ou não interesse patrimonial, de um ponto de vista cultural e/ou arquitéctónico? Se tem, não se compreende como deixou a Câmara de Lisboa chegar a este ponto, sendo, na altura do licenciamento, presidida por um ex-titular da pasta da Cultura. Também espantará que, sendo assim, não houvesse quem, no Estado, exercesse o poder de expropriar por utilidade pública, tomando a posição da CML que, emitida a licença, disse não ter dinheiro para adquirir a casa.
  2. Havendo o tal interesse, e estando o edifício degradado ao ponto de fazer presumir um longo abandono, cumpriria perceber a razão de só agora ouvirmos falar dos movimentos cívicos que se opõem à demolição. Os media não davam espaço, enquanto o proprietário não se tornou Ministro (da Economia)? Até pode ser, mas importa perceber...
  3. A haver interesse cultural, e tendo nós em jogo um membro do Governo, eis um conflito de interesses que valia a pena ter resolvido, não se negando a legitimidade de Pinho proprietário para construir, mas também não olvidando a responsabilidade de Pinho governante para com o interesse público.
  4. Se a casa tinha escasso interesse, e embora a tutela fosse camarária, a Ministra da Cultura poderia intervir para o dizer, pondo ponto final na "novela".
  5. Caso contrário, deveria ter intervindo em sentido contrário, fazendo actuar os mecanismos adequados, sob pena de se acentuar (como se ainda fosse preciso...) o nosso terceiro mundismo cultural, em que o dinheiro do betão será sempre um universo, e o dinheiro para a Cultura um grão de poeira cósmica.

Estranham-se os silêncios e entranham-se as dúvidas. Ministro da Economia, Ministra da Cultura, Presidente da Câmara de Lisboa e ex-Presidente da edilidade deveriam, separadamente ou em conjunto, ter falado sobre o assunto, e não "deixar suceder", como é vulgar por cá...

1 comentário:

Vitor Manuel disse...

Pois são esses silêncios e duvidas que devemos questionar. Nunca sabemos a verdade, e muitas vezes os “acusados” não vêm a sua imagem limpa.