terça-feira, 6 de março de 2012

O Irão e a história por trás de «Uma Separação»


Ainda na ressaca dos Óscares, cumpre lançar um olhar sobre o vencedor na categoria de melhor filme estrangeiro. «Uma Separação», do iraniano Asghar Farhadi, levou a melhor sobre os outros nomeados, entre os quais o filme israelita «Footnote». E até por isso, na noite da consagração, a televisão estatal iraniana descreveu o feito como um triunfo nacional sobre o regime sionista. Mas não se ficou por aí e descreveu-o também como uma vitória sobre o Ocidente. Mesmo considerando que Israel possa integrar o mundo ocidental, não deixa de ser um bocadinho irónico se pensarem que foi a crítica ocidental que os premiou, que não se deixou levar por separações e não se coíbiu em distinguir um filme iraniano, pela primeira vez na história dos Óscares. 

Igualmente irónico é que a televisão estatal congratulava-se por um prémio atribuído a um filme cuja produção chegou a estar suspensa depois do seu realizador ter defendido publicamente outros cineastas iranianos que são perseguidos pelo Governo. Pelo menos seis deles foram presos em Setembro passado, entre os quais Jafar Panahi, um brilhante realizador que foi proibido de realizar filmes nos próximos vinte anos e que está a cumprir pena de prisão domiciliária até ao ano de 2016. Jafar Panahi é conhecido pelos filmes O Círculo (que foca a opressão das mulheres no Irão), Offside/Fora de Jogo (que dá conta da proibição das mulheres iranianas em marcar presença em eventos desportivos, como os jogos de futebol, e a forma como tentam contornar essa imposição) e, o mais recente, Isto não é um Filme, um documentário que dá conta da sua vida em prisão domiciliária e que Panahi conseguiu fazer chegar ao último Festival de Cannes, alegadamente no interior de um bolo ou de uma fatia de pão.

Voltando a Farhadi, para além de um pedido de desculpas oficial por ter defendido os seus pares, abdicou dos subsídios do governo ao cinema e financiou-se junto da banca, evitando um maior controlo por parte dos censores do Estado. Tendo em conta estas dificuldades que o realizador enfrentou, não deixa de ser curioso que agora o Irão se congratule e se faça valer do prémio que o seu filme arrecadou. Aliás, o país só apoiou o filme depois deste ter arrebatado um Globo de Ouro e ainda o Urso de Ouro do Festival de Berlim. 

A forma ágil e subtil como Farhadi explora, nas entrelinhas, as questões da sociedade iraniana que suscitam mais polémica, evitando no entanto discursos panfletários, acaba por ser uma táctica que leva a melhor. Aliás, nas suas palavras ao arrecadar o Óscar, Asghar Farhadi mostra como a subtileza por vezes é mais certeira que os discursos inflamados.   

"At this time, many Iranians all over the world are watching us and I imagine them to be very happy. They are happy not just because of an important award of a film or filmmaker, but because at the time when talk of war, intimidation, and aggression is exchanged between politicians, the name of their country Iran is spoken here through her glorious culture, a rich and ancient culture that has been hidden under the heavy dust of politics. I proudly offer this award to the people of my country, a people who respect all cultures and civilizations and despise hostility and resentment."

Fica a certeza de que com este prémio se deu um passo para que o Mundo ponha os olhos no cinema (e na realidade) do Irão e a esperança de que o Irão ponha os olhos no Mundo...

1 comentário:

Fátima Laouini disse...

Excelente. Adorei o texto. Viva o que o Irão também tem de bom:)