sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A GRÉCIA - RESPOSTA à TÂNIA MORAIS

Oh a Grécia, Cara Tânia!

País maravilhoso, onde fui varias vezes. Não fica muito longe da minha casa. Há duas maneiras de ver a Grécia: Sentado num café, ao Sol, admirando o mar à volta da ilha de Santorin ou Myconos, ou observando a azáfama da cidade imensa de Atenas, da Acrópole, e os pequenos comércios onde os Gregos procuram ganhar a vida, enquanto a uns quilómetros de lá, nos cais do Pireu, os ricos yachts dos nababos e outros menos ricos, mas não pobres, que não pagam impostos ao Estado! Assim é a Grécia, além da beleza do Parthenon!

A Grécia é uma democracia parlamentar. Impensável, pois, que alguém chegue ao poder sem ter sido eleito, ou não fosse a Grécia que inventou a democracia!

O problema é que a democracia na Grécia sofre das mesmas maleitas que noutros países que conhecemos bem. A democracia não é a mesma para os guardas mal remunerados das ruínas do cabo Sounion, e para as profissões liberais ou os ricos armadores, que conhecem melhor os caminhos que levam à Suíça que os do ministério das finanças onde se pagam os impostos.

Como noutras democracias, a vigarice da entrada na U.E, falsificando as contas do Estado (obrigado Goldman Sachs!) sem análise prévia do que isso comportava, foi orientada por um clã político, validada pela oposição, mantido pelo segundo e finalmente , talvez submetido a um referendo apôs as contorções de enguia do segundo.

Para chegar agora à conclusão que um governo de Uniao Nacional se impõe.

Enfim, se impõe, tudo é relativo a este nível na Grécia! A Grécia é uma mentalidade “mediterrânea”. Uma mistura confusa de comercialismo fenício, e de tribalismo hégirio. O dos “jeitinhos”, dos “pots-de-vin” debaixo da mesa, dos tráfegos diversos, dos bakchichs, e de tudo o que pode facilitar o comércio... Aliás, não creio que a nossa península ibérica tenha escapado ao contágio!

Enfim, creio que todas as camadas da sociedade estão contaminadas. O poderoso e rico rouba a grande escala. O pequeno, coitado, usa artimanhas para viver melhor, como pode. Mas este mundo dos biscatos seria, segundo alguns, o culpado da situação!

Agora que chegou a hora de pagar – parcialmente- a factura, todo este mundo quer fugir a isso! A imensa maioria não o poderá fazer senão exilar-se. Por isso vai continuar na miséria, nas reformas reduzidas, nos salários baixados ou deferidos, nas vantagens sociais agonizantes, nos serviços públicos em estado comatoso, na inflação histérica.

Aqueles que governavam antes e os que governam agora usam o mesmo discurso : é preciso fazer sacrifícios! Mas sabemos bem, que a casta de todos os quadrantes políticos, que levou a Grécia à agonia, não vai sofrer.

Serão os outros, aqueles que pagam a crise desde há muito, sofrendo as curas de austeridade sucessivas, que não podem aguentar mais, serão eles que vão pagar mais uma vez.

Como se fossem eles os culpados!

E alguns dirão que é melhor isso que a guerra civil, ou, pelo menos, a ditadura militar. A pulula passa melhor!

Evidentemente que esta crise põe a nu a verdadeira natureza do capitalismo. E neste pais que inventou a democracia, no momento em que a casta política no poder pensa “pedir” ao povo de se pronunciar democraticamente sobre o caminho a seguir, a minha opinião é que não é a necessidade de respeitar a ilusão democrática, mas sim a de ceder às exigências da casta económica dominante, que quer, mais uma vez, obrigar o povo a pagar os erros da governança. A saída eventual da EU e do Euro assusta-os! Saída aliás impossível!

Nada mais que a eventualidade do referendo já chegou para criar o pânico geral dos mercados e dos outros Chefes de Estado, o que prova a hipocrisia de um sistema que solicita a opinião do povo mas receia a resposta deste. A colusão dos financeiros e dos políticos é patente. O capitalismo financeiro é injusto e nocivo, porque pode destruir num dia o que levou séculos a construir: a democracia.

A Grécia, Cara Tânia, existe, pois, mas a maneira insultuosa para com o Povo Grego e o seu representante, dos dois gerentes da Europa, a França e a Alemanha, demonstra bem que a democracia, ela, é que não existe...

3 comentários:

Ricardo Cândido disse...

A Tânia tem aqui uma resposta esclarecedora.

Tania Sofia Morais disse...

Muito esclarecedora Ricardo =)

Concordo inteiramente com a interpretação cultural do Freitas Pereira, tenho apenas algumas dúvidas quanto a responsabilizar o sistema capitalista pelo que decorre neste Estado.

Mas lá está, há várias maneiras de o perspectivar. E nem todos associamos o capital à ganância, que a meu ver é o cerne da questão.

Defreitas disse...

Cara Tânia

Respeito, claro está, a sua opinião, mas se me permite vou esclarecer a minha posição .
A crise que atravessa hoje o mundo no seu conjunto não pode decentemente ser chamada “crise financeira”, porque ela vai muito mais longe.
Trata-se antes duma crise sistémica, isto é , uma crise que põe em causa o sistema no seu conjunto. Isto é o capitalismo. Porque o capitalismo não é um sistema permanente ou universal, mas uma ideologia, na qual se crê que a soma dos interesses individuais favorece o interesse geral. O que é falso: os números mostram-no, os factos provam-no. Enquanto que uns, a minoria, se serve faustosamente, os outros, a maioria, sofre , e alguns até nem têm o estrito necessário.
E isto porque esta ideologia só tem um objecto : o lucro. Este lucro é o resultado entre as receitas e as despesas ligadas a uma actividade, que para ser viável tem de apresentar uma mais valia, isto é, ser positiva. No limite da perda e do lucro encontra-se um ponto “zero”, a que se chama patamar de rentabilidade. Ora quanto mais se der àqueles que produzem , mais o patamar se afasta do objectivo de rentabilidade do capital.
A situação económica actual é inextricável , porque toda a gente começa a compreender que na economia “ dar a um significa retirar a outro”. Os cidadãos não têm confiança no sistema, nem nos seus agentes et têm razão, porque o sistema defende sempre a tal minoria que busca na actividade o lucro máximo .
Daí a distância crescente entre o que desejam os povos e o que propõem os dirigentes, e que é vão de esperar recuperar o crescimento para uns, o emprego para outros, e a rentabilidade para os que têm o poder no sistema.
Ao considerar o Homem somente como uma variável de ajustamento matemático e não como o objecto de todas as atenções da sociedade, esta ideologia cometeu um erro imperdoável, que vai muito mais longe que a razão humana.
No estado actual ,as populações dos países ricos parecem ter muito mais a perder na mudança do sistema, que na participação à sua perenidade.
A questão é de saber até quando poderão retardar a reacção dos que não têm nada a perder.