quarta-feira, 12 de outubro de 2011

SOU EUROPEU

Quando o tempo o permite, contemplo da minha casa o alvo manto de neve do teto da Europa, o Monte Branco, com os seus 4810 metros, recentemente certificados.
Se a brancura imaculada do símbolo europeu aparece resplandecente, tal não se pode dizer do facto europeu, que é mais um facto geográfico que um facto político ou económico.
As nuvens negras que se acumulam, cobrem largamente o espaço europeu e não sei,francamente ,se um vento salvador acabará por levantar-se para as varrer do horizonte.

Se as questões sociais e económicas são de preocupar, as problemáticas das mentalidades e por conseguinte dos valores que se estimam dever ser os de um cidadão europeu também são importantes. Interessa saber o que eles significam para o cidadão, interiormente e exteriormente, através do duplo prisma da sua vida e do espaço no qual ele evolui.
 Sobre o primeiro, é impossível poder pronunciar-se, mas em contrapartida, no que respeita o segundo, não se pode ignorar que a Europa está confrontada hoje a desafios cruciais.

A sua posição dominante e a sua capacidade de brilhar no resto do mundo, tanto cultural que sistémica, já não são o que eram. E é o que me preocupa quando constato a maneira como os seus pilotos negociam as viragens da historia.
De facto, os dois principais motores económicos da Europa mostram sinais de fatiga e têm, pelo menos, um funcionamento errático.
Quando tudo indica que é preciso acelerar a economia, investindo na produção, para reduzir o desemprego, eles preferem travar às quatro rodas, retirando mesmo algum carburante através das baixas de salários , dos impostos e taxas de toda a espécie , dirigindo a economia para a recessão. Como se cidadãos mais pobres pudessem comparticipar melhor à salvação da economia através de mais miséria.
 Na origem desta situação encontra-se a crise e a debandada do político, do Estado,   frente ao poder da finança desabrida. .
Sem duvida, a crise é um desastre estrondoso para o capitalismo e para a economia de mercado. O liberalismo desenfreado foi imposto a marchas forçadas.
Até aqui, o essencial das políticas europeias consistiu na promoção do libre échange e o seu corolário, a concorrência livre, em detrimento da solidariedade e dos serviços públicos.
Quanto ao programa social, continua a ser protelado.
Mais grave, o alargamento da União a 27 membros, sem nenhuma precaução, favorece mais ainda o dumping social ou fiscal (salários de miséria, impostos quase nulos para as sociedades, etc.), num panorama terrível de deslocações e de chantagem ao emprego.

A globalização deixa atrás dela um rasto de ruínas industriais, em todos os países ocidentais.
A destruição, ciente, das industrias tradicionais de base dos países sub industrializados, para abrir o “grande mercado”, levou à miséria milhões de cidadãos.
A assinatura do tratado de Lisboa e a sua ratificação pela via parlamentar na maioria dos Estados, contra a opinião das populações, elaborado em segredo e totalmente ilegível, tudo isso desencoraja mesmo os mais acérrimos partidários da ideia europeia.
Frau Merkel e Monsieur Sarkozy vão propor, segundo parece,  no próximo  G20 de Cannes,  as modificações que se impõem aos tratados europeus.
Esperemos que o campo livre que se viu oferecer o capitalismo, transformado no jogo da globalização galopante e do casino sem lei, seja varrido para sempre.

Freitas Pereira.  

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