quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Portugal liberal?!

Diz-se que o PSD precisa de se tornar um partido liberal ou, numa hipótese mais moderada, que o putativo vencedor da próxima eleição interna (Pedro Passos Coelho) poderá imprimir um cunho mais liberal às propostas políticas do PSD.

Desde logo, começo por sublinhar que me parece errado abandonar o espaço social-democrata (se quisermos, o centro e o centro-esquerda), por razões de ordem substantiva e de ordem táctica.

As primeiras têm a ver com o facto de eu entender que o Estado deve ter um papel regulador (o que faria de nós um partido reformista) ou mesmo proponente em certos domínios cruciais como sejam a segurança social, a saúde, a educação e a cultura. Mesmo nos E.U.A., onde o ideário é muitíssimo mais liberal, a grande batalha de Obama tem sido travada em redor da saúde e da necessidade de assegurar que o mercado não exclui da rede de cuidados médicos os mais desfavorecidos ou mesmo os remediados (um internamento de poucos dias pode bem custar milhares de dólares, além-mar).

O mesmo pode dizer-se na educação, área na qual se acentuaria cada vez mais o fosso entre as escolas de elite e as que serviriam para atribuir alegadas competências sob a forma de papel passado, caso optássemos pelo “Estado mínimo”. Isto, evidentemente, desistindo de imaginar o que seria uma cultura exclusivamente deixada ao sabor do lucro… Por certo, agradaríamos às massas, mas não cumpriríamos o desígnio último da política cultural que é, a meu ver, o de contribuir para o nosso desenvolvimento integral enquanto seres humanos e o de contribuir para o cimentar de patamares culturais e de uma identidade colectiva.

Já as objecções a que chamei tácticas ao abandono do centro político prendem-se com a concessão definitiva ao PS do espaço onde, em Portugal, se ganham eleições. Penso que o nosso eleitorado flutuante é de índole política moderada e aprecia reformas introduzidas com conta, peso e medida. Virar radicalmente à direita seria confinar a disputa eleitoral a um espaço mais pequeno e no qual o CDS-PP tem vindo a afirmar-se com a maestria de Paulo Portas. Pior ainda: se os populares souberem institucionalizar o seu ganho partidário é de temer que parte dos votos que “roubaram” ao PSD nas últimas eleições possam não voltar.

Com o que chegamos ao último ponto deste texto: não só este espaço ideológico já tem inquilino, como haveria que o definir. Ab initio, falamos de um modelo ideológico que pressupõe uma sociedade civil vibrante, que aceite as normas escritas e não escritas pela sua bondade intrínseca, com células intermédias (partidos, famílias, associações, clubes, igrejas e por aí fora) fortes e empreendedoras, com um sector empresarial que fuja da mendicidade junto do Estado e com um sector académico e sociedades de advogados que não vivam tanto de pareceres a grupos económicos de capitais públicos ou de consultorias e, sobretudo, substanciada por um povo que preze a sua independência individual, a sua liberdade, acima de uma qualquer cultura assistencial. Numa sociedade liberal o apoio público resume-se a uma rede de cuidados que configurem o mínimo de dignidade abaixo do qual se não deve deixar cair quem quer que seja.

Está o PSD preparado para isto? Mesmo que haja massa crítica suficiente (tenho reservas), teríamos que mudar de povo e de idiossincrasia.

3 comentários:

luis cirilo disse...

O PSD é social democrata.
Parágrafo.
Precisa é de um lider mobilizador e que "caia" bem no país,de um secretário geral que saiba organizar,de uma CPN que ajude o lider a pensar e definir o caminho e de distritais que trabalhem.
COnseguindo isso verás que a questão ideológica se resolve da melhor forma.
Agora se continuar neste coma induzido o risco é o de a questão ideológica se tornar irrelevante.
Por o PSD deixar de ser alternativa ao PS.
E passar a jogar no campeonato do CDS,BE e PCP a ver qual deles faz maioria com os socialistas.

Gonçalo Capitão disse...

Concordo integralmente.

freitaspereira disse...

A social democracia está condenada a navegar entre três políticas económicas:

O capitalismo anglo-saxão, obcecado pela finança, com o objectivo de rentabilidade e o herói empresàrio-acionista.

O capitalismo renano, obcecado pela industria, com o amor da técnica e do trabalho bem feito, e tendo por herói o engenheiro.

O capitalismo asiático,obcecado pelo serviço, com um objectivo : o cliente e por herói o comercial.

· Cada uma destas formas tem os seus derivados e as sua traduções na sociedade. Certos são qualificados de “comunista “sem que o capitalismo esteja fora da lei... Na China, por exemplo.

A Suécia, modelo renano, adaptou as suas empresas ao universo anglo-saxão, mas preservando o consenso social forte, um Estado muito redistribuidor (mas sem funcionários vitalícios !).

A França adoptou a forma renana do capitalismo mas difere da Alemanha pela predominância do seu Estado centralizado e da acção social forte através do combate sindical e a pressão dos partidos da esquerda .

O namoro da social democracia com o liberalismo , género Thatcher , leva a social democracia para o pântano fatal onde desaparecerá se não voltar à sua origem social e humana.

E a terceira via de Blair vimos onde ela foi parar : no liberalismo destruidor da economia!

A social democracia tem que se debruçar sobre a eterna questão da partilha da riqueza, que é o problema de todas as sociedades desde a origem dos homens.

E como é a questão essencial , o futuro da social democracia joga-se precisamente nesta questão.

Pena foi que a social democracia não tivesse aproveitado o fracasso do socialismo léninista e a queda do comunismo, para se impor no mundo, e que não tivesse medido a gravidade da globalização . Talvez por ter crido no progresso continuo do capitalismo.