quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Modernidade de esquerda

Daqui a não muito tempo, de certo como medida para nos “modernizar” (essa palavra mágica que tem servido para nos desnortear), o PS aprovará o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com ajuda do Bloco de Esquerda e do PCP.

Já dou de barato o facto de a situação actual aconselhar preferência a ideias que combatam o desemprego e minorem as sequelas económicas de uma crise que só não nos devastou mais pela nossa habilidade de nos safarmos dos maiores apuros. Reconheço, no entanto, que estas prioridades não tiram tempo à meia dúzia de deputados que vai debater o comummente chamado casamento gay.

O que continuo é sem perceber uma das maiores razões de indignação dos cultores da união em causa. Abespinham-se os seus defensores quando alguém (imagine-se…) argumenta que o casamento homossexual não é a inclinação natural da espécie humana. Por muito retórica que seja a questão, a verdade é que se a união com pessoas do mesmo género fosse coisa banal, era a própria subsistência da espécie que estava em causa; ou seja, se, por exemplo, os activistas do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda tivessem pais que, a seu tempo, escolhessem esta nova forma de “naturalidade”, era a sua própria viabilidade que estaria em xeque (em certos casos, permito-me acrescentar, a bem da Nação!). Porém, como disse, este é “apenas” um dilema conceptual.

Como já escrevi por aqui, o que está em causa, isso sim, é uma agenda ideológica que, minando as células intermédias da sociedade, concretiza um sonho de esquerda: isola o poder político na cúpula e as massas não agrupadas na base da pirâmide, assim permitindo a reprise social do projecto socialista, que ruiu pelo lado económico. Senão, vejamos: embora não anteveja uma conspiração global, o facto é que a agilização do divórcio, a despenalização da interrupção voluntária da gravidez e até a contestação de símbolos religiosos nas salas de aula – assuntos sobre os quais tenho posições diversas – servem um enfraquecimento de uma sociedade civil (como é usual dizer-se), que tem sido penhor de resistência contra as nossas imensas carências ao nível da classe política, desde os tempos pré-republicanos.

Acresce que a própria equiparação dos casais homossexuais em termos de direitos não obrigaria a falar em “casamento”, ideia que encerra a mais deliciosa contradição: a de pretender reconhecer a diferença pela consagração de um regime igual. A meu ver, tal finca-pé só prova o lado “politiqueiro” de alguns partidos com assento parlamentar.

Todavia, a situação existe e as pessoas que querem unir-se a outrem do mesmo sexo devem ter protecção jurídica. Pragmaticamente, há que tratar o tema a bem destes concidadãos, mas sem ofender uma maioria que entende, e bem, que “casamento” chancela um laço heterossexual.

Receio apenas pelo destino de tão acentuada erosão de convenções.

A ver vamos onde pára…

3 comentários:

Ricardo Cândido disse...

A igualdade de direitos por quem defende a diferença (como bem referes) não vai parar por aqui não.

Eu cá não tenho papas na língua nesta matéria. Assumo sem rodeios que os elementos dos casais homossexuais são tipos e tipas com comportamentos desviantes e insiro-me nessa maioria que defende que o "casamento chancela um laço heterossexual".

By the way, excelente texto Gonçalo.

Raul disse...

http://sociedadevigilante.blogspot.com/2009/11/em-cima-da-mesa-como-uma-das_01.html

Gonçalo Capitão disse...

Ricardo

Obrigado, Mamede!...


Raul
Estamos de acordo, ao que parece. As minorias querem estatuto de maioria, sem esforço para se integrarem.