quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Albânia que há em nós

Este é um filme que, baseado num conceito invulgar (o documentário e um enredo dentro do mesmo confundem-se), mostra o que de mais genuíno e básico há nas nossas terras do interior (no caso, no meu distrito de Coimbra).

Desde as desgarradas ao som de acordeão aos foguetes, das procissões à matança do porco/javali e dos grupos de baile aos amores de verão (com os emigrantes à mistura), há tudo o que lembra a minha meninice com algumas ligações familiares a Nelas, Carregal do Sal e Estoi (Algarve).

Porém, se formos pelo lado menos romântico, também ali está o mais instintivo e primário, o mais lamechas e conformado, o mais mandrião e invejoso do nosso ethos social; dito de outro modo: ali estão muitas das marcas do nosso atavismo nacional.

O que mais me divertiu, todavia, não foi nada disso!... Foi o comportamento das pessoas pseudo-"bem" de Lisboa que assistiam ao filme, numa superfície comercial junto da Praça de Espanha.

A forma como senti escárnio em alguns comentários e risos, deu-me pena de gente que tem de se endividar para ter tudo o que os outros têm e que se mata em filas de trânsito para dizer que "comprou" o que anunciam na TV. Lembrei-me dos cartões de crédito saturados e dos endividamentos excessivos de pessoas que vivem para uma imagem que ninguém preza, porque estereotipada.

Isto para já nem falar em matéria de educação que, apesar de alguma rudeza, é apanágio dos pequenos meios portugueses... Já na sala de cinema lisboeta o que os nossos "sofisticados" de opereta tinham para mostrar era a mais grosseira falta de cuidado, como podia sentir-se nos pontapés nas costas da cadeira, nas pipocas comidas à maneira de uma gárgula ou nas conversas com volume mais próprio de esplanada...

Tenho dito que temos muito para evoluir, mas, descontada a generalização que subjaz à caricatura que aqui faço, entre estagnar em Arganil e evoluir como muito habitante frustrado das grandes urbes, acho que se me despertam saudades do tintol e da bifana (e, já agora, das campanhas eleitorais das décadas de 80 e 90)...

3 comentários:

João Pedro Cruz disse...

Espero que os leitores assíduos deste blog não se deixem enganar pela imagem do cartaz do filme e pensem que o teu post é apenas um comentário cinematográfico... pois bem, este post diz muito mais do que isso e diz muito bem!!!

Dri disse...

Ao ler o teu post avivei imensas memorias. Sou tripeira, vivo e trabalho no Porto mas tenho a sorte de passar muitos fins-de-semana em Vila Real.A minha ligação à Vila Real nasceu em 1994 qnd os meus pais decidiram vir viver para Vila Real atras de uma melhor qualidade de vida. Sem duvida que o conseguiram: aqui o ar é mais puro, as pessoas sao mais puras, não ha transito mas tambem ha contras como uma semana cultural fraca e nao deixa de ser uma cidade de provincia mesmo com a universidade.
E muitas das situações retradas no post me lembraram as pessoas que vejo e ouço na rua. Avcredito que muitos politicos e mesmo muitos portugueses não conheçam esta realidade tao pura.

Dulce Alves disse...

Adriana, temo bem que na sua generalidade, os portugueses conheçam as realidades focadas pelo filme. Acontece que teimam em menosprezar e ignorar aquele Portugal ora festivo, ora melodramático, das zonas rurais. É que, tal como diz (e bem) o Gonçalo, é nesses locais que jaz o nosso ethos, é nesses locais que se encontram condensadas as nossas virtudes (humildade, hospitalidade, genuinidade...) mas também os nosso piores defeitos (laxismo, maledicência, cupidez... ) entre tantos outros traços característicos de um Portugal menos urbanizado mas não necessariamente menos civilizado. É que aqui pela capital e por tantas outras cidades portuguesas há quem se arrogue mais civilizado por viver na urbe mas esteja a anos-luz de o ser...

Também recomendo o filme, pese embora considere que podia ter dado um olhar ligeiramente menos tendencioso... E confesso que estranhei a ideia da realização em protagonizar muitas partes do filme - o que se por um lado é inovador, por outro acabou por resultar um pouquinho egocêntrico...