sexta-feira, 18 de abril de 2008

Vou, mas volto já

Volto à prosa extra-futebolística a propósito de mais um foguete do imenso foguetório em que se tornou o PSD.

Sobre a demissão de Luís Filipe Menezes, apetece-me falar de duas evidências: em primeiro lugar, entendo que talvez fosse o único caminho, dada a contestação permanente que lhe vem sendo movida.


Em segundo lugar, esta antecipação de eleições parece-me coisa dos velhos tempos de liceu ou das listas da JSD; até pode ser que nem dê nisso, mas esta de pedir a demissão, marcar eleições no prazo de 30 dias (não dá para quase nada), não negar a recandidatura e continuar on tour pelo partido lembra um truque para tirar coelhos da cartola (leia-se, adversários da penumbra).

As perguntas que deviam ser feitas têm a ver, creio eu, com outros pontos, já que o argumento de que há contravapor soa voz de falsete. Desde que me lembro que há turbulência interna no PSD e isso sempre pôde ser visto como um estímulo a liderar mais e melhor. Mesmo nos tempos do Professor Cavaco Silva (em que o unanimismo era visto, mesmo sem encomenda, como regra), Pedro Pinto fazia uma lista alternativa ao Conselho Nacional. Por seu turno, Durão Barroso sempre viveu com contestação, Santana Lopes sofreu "pontapés na incubadora" e Marques Mendes foi espalmado...

Acresce que me parece ilustrativo do estado da arte o facto de o grémio laranja ter passado dias incontáveis a debater o programa de Fernanda Câncio na RTP, em razão de uma eventual relação pessoal com o Primeiro-Ministro. Aqui chegados, detenho-me por algumas linhas para analisar uma das mais monumentais asneiras cometidas pelo PSD, nos últimos tempos e que surpreende em Agostinho Branquinho e Ribau Esteves (já no Vice-Presidente que embarcou na prosa não surpreende o mote, achando mesmo prestigiante saber que a falta de apreço é recíproca, como ainda recentemente, num jantar público e em modo vernáculo, fez questão de atestar); entendo que jamais deve fazer-se política invocando assuntos íntimos (sejam insinuações sobre "colo" ou estas), ainda para mais quando se trata de uma profissional com currículo. Jamais me ocorreria que um militante do PS questionasse algum(a) profissional de comunicação social por qualquer relação pessoal que tivesse com um destacado dirigente do PSD, por muito que aqui fosse jornalismo político e além (Fernanda Câncio), aparentemente, não. Posso estar a ser ingénuo?!... Talvez, mas insisto que havia mil e um temas que os portugueses apreciariam ver na agenda do PSD, antes deste...

Dirão alguns, por outro lado, que o dr. Menezes se rodeou mal. E fui eu que fiz a equipa?! Em um ou dois casos até posso achar que faltou arrojo, mas o mais apropriado é dizermos que, a seguir ao esmagamento de Marques Mendes, havia condições para tudo e mais umas botas.
E também digo - como disse no passado - que o ressurgimento de Pedro Santana Lopes, por muito que estivessem os dois carregadinhos de boas intenções, seria sempre foco de dispersão de atenções (este já foi o que Menezes queria ser, a mais de o primeiro deter a inestimável tribuna parlamentar) e assunto de partilha de espaço, já que o ex-Premier fizera as listas e tem a sua pleiâde de seguidores (uns melhores, outros piores e outros fraquinhos, como em todos os plantéis). Se pensarmos bem, entre voltas a Portugal e giros políticos, muita confusão se instalou e muitos desmentidos se produziram.
No meio de tudo isto, avanço três ideias "Kodak" (ou seja, para mais tarde recordar...):
  1. É difícil que os cálculos falhem, mas pode sair o tiro pela culatra, se a ideia era antecipar para ganhar de caras.
  2. Não acho que a medida vá acalmar o partido. A contestação, mais ou menos assumida, vai continuar e a sanha saneadora "à Mendes" sempre enlameou mais do que limpou.
  3. Menezes recandidatar-se-á.

4 comentários:

Dulce Alves disse...

Quanto ao "24 de Maio", a priori, poder-se-á dizer que a escolha de tão diminuto prazo teve em vista inviabilizar as alternativas... No entanto, é deveras curioso que aqueles a quem interessa o prazo estão sempre a postos para atacar, criticar, menosprezar, atiçar, indignar, etc etc... mas chegada a hora de provar que se está mais apto para governar que os demais...invocam a questão do tempo..!

Quanto à questão "Fernanda Câncio", estou inteiramente de acordo. Foi um erro crasso contestar tal escolha só porque consta que mantém um relacionamento com o PM. É vergonhoso que se persiga alguém em razão de um (hipotético) relacionamento pessoal. Não se percebe sequer qual a relevância da esfera pessoal da jornalista por apresentar um programa sobre bairros sociais...

De qualquer das formas, por muito insensatas que tenham sido essas declarações, "uma andorinha não faz a primavera", i.e., um erro de estratégia na passada semana não torna necessariamente errática toda uma liderança de seis meses.

JAbreu disse...

Caro Gonçalo,
Pelas Kodak vamos saboreando o que desenhámos e analisamos aonde chegámos.
Menezes ou muito me engano ou vai sair mal da foto.
Não sei se foi o menino guerreiro a sugerir-lhe a ideia, contudo, é muito santana esta demissão vitimizada.
Sempre achei que os mais velhos têm razão "diz-me com quem andas dir-te-ei quem és".

Paulo Vilaverde disse...

Alea iacta est

Seis meses volvidos sobre a sua eleição Luís Filipe Menezes demite-se... Diz que não se recandidata (espero que a esta hora ainda não tenha mudado, mais uma vez de opinião) e por entre um timido reconhecimento da sua responsabilidade vitimiza-se... Sem razão, diga-se. Esquece, por um lado o seu passado e a forma como agiu relativamente a todas as anteriores lideranças, e por outro lado esquece que foi dentro do seu núcleo de apoio que também surgiram criticas à situação do partido e da liderança (ou falta dela). Umas por omissão de presença nas reuniões e iniciativas na nacional, outras publicas, como é o caso das recentes declarações de Angelo Correia. Este último, destacado "conselheiro" do menezismo, ainda ontem na SIC noticias reafirmou a existencia de discordancias relativamente ao rumo do partido esmo que se tenha escudado (e bem) na lealdade que deve e tem para com o lider em cujas listas foi eleito. Julgo que é interna ao grupo de LFM a razão da demissão. As declarações recentes de destacados militantes do PSD são usadas apenas como falsa desculpa para esconder estas razões mais profundas e que reflectem o falhanço de um projecto "em prol de um alegado projecto político de aproximação às bases, se mostrou incoadunável com a pressão de fazer uma oposição credível ao governo socialista" sendo incapaz de geraruma linha de orientação, mobilizadora e menos isenta de populismos ou aproveitamentos políticos.

Quanto a vitórias, ao fim de seis meses conturbados, mas de oportunidades para mostrar o que valia, Luís Filipe Menezes, que em Outubro passado se mostrou uma alternativa face à liderança de Mendes não o será, certamente, em Maio - porquê tão cedo?

É altura de também o PSD, tal como César em 49 AC, atravessar o seu Rubicão e derrotar definitivamente os fantasmas de impotencia politica que o atormentam. Se frase "atravessar o Rubicão" passou a ser usada para referir-se a qualquer pessoa que tome uma decisão arriscada de maneira irrevogável, sem volta, creio que é muito justamente aplicavel à decisão que se impõe que o PSD tome nas proximas eleições para a escolha do líder a bem do País que precisa de uma oposição séria e credível que devolva a esperança ao portugueses... A sorte está lançada!

Gonçalo Capitão disse...

Belo texto, Paulo!

Afinal, Menezes não avança... Mas diz-se que tentaram muito...