segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

E tudo isto dará em quê, Caríssimo Freitas Pereira??? *

No seu programa de "récita" semanal, "Aló, Presidente" o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reagiu ao processo judicial da Exxon Mobil contra a petrolífera venezuela PDVSA, dizendo que "Si ustedes llegan de verdad a congelar los (fondos), si nos hacen daño, nosotros les vamos a hacer daño, porque no les vamos a mandar petróleo a los EE.UU. Anótelo Mr. Bush, Mr. Danger (en alusión al presidente estadounidense, George W. Bush)".

No mesmo programa e continuando a sua saga de expropriações e renegociações, Chávez dedicou-se ao leite e ameaçou a Parmalat e a Nestlé, acusando-as de açambarcar aquele, deixando as fábricas estatais sem "matéria prima": "Estamos frente a una conspiración económica y estamos obligados a actuar por la seguridad de la nación".

Tudo isto se diz num cenário em que o país de Bolívar, apesar de riquíssimo enfrenta uma crescente escassez de bens essenciais, que os produtores atribuem ao controlo estatal de preços, em vigor desde há 5 anos.

De tal maneira está a coisa, que a Petróleos de Venezuela já recebeu instruções para montar uma rede de distribuição de produtos, na sua maioria importados.
Claro que, como em Cuba, se culpam os EUA, tal como no Zimbabwe se culpa o Reino Unido, sem que, por um momento, se olhe para a forma como, sem poder culpar alguém, se desmoronou a aventura soviética. Culpar o inimigo externo é uma receita clássica.

Confesso que acompanho com muito interesse a "Revolução Bolivariana"...




* O respeitoso desafio é lançado a um ilustre português da diáspora, que muito nos honra com comentários (mormente em assuntos sociais e de política internacional) e cuja leitura recomento vivamente, por muito que alguns sejam ao invés do meu pensamento.

3 comentários:

freitaspereira disse...

Caro Amigo, permita que lhe agradeça “l’honneur” do desafio, embora eu saiba que será obra difícil com um “debater” como o patrão do “Lodo”!
Eu compreendo que Chavez atraia todas as atenções, porque o homem tem uma personalidade particular, incomparável na América Latina, e o seu percurso político também. Mas não o compararia com Fidel e muito menos com Mugabe. E a Venezuela também não é Cuba e o Zimbabwe ainda menos. E a época da Baia dos Porcos também passou. Os tempos são outros.

Chavez caudilho clássico, eloquente e com carisma ? Sem duvida. Mestre na arte da comunicação, quem duvida ?
Mas mesmo se ele se apoia na fidelidade das Forças Armadas como instrumento da implementação do programa político que é o seu, a Revolução Bolivariana, é sem duvida do povo que ele retira a sua legitimidade, um povo de pobres, essencialmente, e sobretudo de cidadãos a quem a oligarquia precedente da direita ,quando estava no poder, não tinha dado nem sequer a cidadania. Considerados de segunda zona, os mestiços e os índios, e muitos brancos dos “barrios” , não tinham acesso à democracia.
Nunca estes novos cidadãos tiveram tão frequentemente acesso aos boletins de voto que com Chavez!
Claro que Chavez criou um processo emocional com estas camadas da população, que se materializa nas manifestações de massa, organizados por um grande especialista.
E que aparentemente, não existe outra alternativa para o poder, sabendo qual é a opinião do povo sobre a classe elitista e corrompida do passado que permitiu a Chavez de chegar ao poder.
.Qual é utilização que Chavez fez e faz do poder assim adquirido nas urnas , amplamente confirmado três vezes ?
Utilizar as alavancas do Estado para implementar uma política social activa, as “missiones”, particularmente no campo educativo, no campo da saúde e no fornecimento dos produtos de primeira necessidade aos mais desfavorecidos, sem mencionar a reforma agraria, distribuindo a terra aos que a trabalham. Esta política resolve muitos problemas dramáticos, é verdade, mas também contribui à criação de uma economia que vive da renda do petróleo,(como quase todos os países que têm petróleo !) o que quer dizer que não se investe suficientemente nos outros sectores industriais e as estruturas permanecem frágeis. E digamos também que o povo acaba por se repousar nesta assistência que não pode durar eternamente. Aliás o Caro Gonçalo já tinha assinalado este ponto há uns meses atrás no Lodo.

Quanto ao sentimento anti-americano, ele é latente em todos os países da América Latina, devido às ingerências do passado, dos EUA ,cada vez que os interesses deles são contrariados.
Mas Chavez sabe bem que o tempo dos “putchs” também acabou, mesmo se os EUA ainda conseguem manifestar-se através das amizades com certas camadas sociais , como aquando do ultimo golpe furado em 2002.
O que é mais preocupante para os EUA é a tentativa de Chavez de elaborar uma política estrangeira agressiva, utilizando a riqueza do petróleo. Alianças com Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua, sob a forma de energia e dinheiro, e sobretudo preços de amigo para o petróleo.
Mas mesmo assim, mesmo a visita a Teerão não parece incomodar sobremaneira os EUA.
Estes países citados são antes de mais nada pragmáticos ( vejamos a reacção do Brasil)e sabem bem que estes discursos não vão muito longe.
De qualquer maneira, creio que as próximas eleições americanas serão a chave para o futuro de Chavez e da sua tentativa de expansão.
Se os Democratas ganharem, e que uma nova política em relação a Cuba for adoptada , o que eu creio, e os Americanos cessarem de diabolisar Chavez, os discursos serão diferentes e o anti-americanismo latente não poderá ser explorado assim tão facilmente.
E Chavez será bem obrigado de se virar enfim para uma política voltada para o futuro, para os tempos não muito longínquos em que os poços serão secos! E os Americanos participarão à festa dos investimentos!
Para o momento há pois que resistir às provocações que não cessarão até que Bush deixe a Casa Branca.
Cumprimentos

freitaspereira disse...

Pequeno apêndice ao comentário precedente, é preciso não esquecer que a companhia dos petróleo da Venezuela foi nacionalizada em 1970 pelo governo da direita e portanto não por Chavez. As dificuldades económicas começaram nessa data.
Por outro lado, 14% do petróleo consumido pelos EUA vem da Venezuela. Esta posição incitará os Americanos à prudência, porque não se podem permitir de perder mesmo momentaneamente um fornecedor deste nível.
Por esta razão as negociações continuarão!
A energia é o calcanhar de Aquiles dos EUA, e toda a política estrangeira americana está submetida a esta situação. A melhor prova é a guerra desencadeada contra o Iraque.

Segundo ponto sobre o qual sei que não estaremos de acordo: Cuba !
Há mais de sessenta anos que o problema cubano existe e todo sabemos que quando Fidel desceu da Sierra Madre com os seus guerrilheiros, Cuba era o bordel oficial dos Americanos, do qual Hemingway deixou descrições elucidativas, colhidas nos bares de La Havana, propriedade da Mafia Americana.
Tudo isto com a benevolência do Chefe de Estado Cubano, esse mais que corrompido ditador, Fulgência Baptista, que nem os Americanos nem nenhum pais da América Latina aceitou no solo deles. Vergonhosamente foi Portugal que o aceitou.
Este Fulgência que derrubou um governo que tinha concedido o direito de voto às mulheres, criado o dia de trabalho de 8 horas e nacionalizado a electricidade.
As nacionalizações que seguiram a tomada do poder de Fidel criaram a situação que levaram ao embargo actual e quase à guerra nuclear entre os USA e a União Soviética.
O triste episódio do desembarque da Baia dos Porcos organizado pela CIA, quase nas costas de Kennedy, conheceu o epilogo que se sabe.
Eu lamento que a situação económica criada pelo embargo americano tenha consolidado o poder ditatorial de Fidel, tanto mais que este antigo médico da burguesia de Cuba nem era comunista, no inicio. A necessidade de sobreviver lançou-o sim nos braços dos Russos.
Hoje é o povo Cubano que paga caro esta intransigência americana, condenada pela ONU, exacerbada pela poderosa colónia Cubana da Florida, esta mesma Florida que vota pelos irmãos Bush de maneira decisiva.
Se estivéssemos em 1868, data histórica para Cuba quando Carlos Manuel de Céspedes um rico proprietário Cubano anunciou a libertação dos seus escravos e clamou à revolta contra as autoridades Espanholas, o que deu como resultado a famosa guerra de 10 anos, o problema já estava resolvido.
Mas estamos no século XX e a estratégia global do império americano , que não reconhece a ONU e impõe a sua lei na América Latina ( embora declinante !)não permite de resolver o problema. Esperemos que em Novembro próximo as coisas possam evoluir.

freitaspereira disse...

Sem duvida seria melhor dizer que estamos no século XXI !