sábado, 8 de setembro de 2007

Videotas

Sempre evitei pronunciar-me sobre o triste desaparecimento de Madeleine McCann e continuarei a não o fazer. É um caso de polícia e, como tal, não me parece que possa especular-se com senso.
Há, todavia, dois aspectos que não posso deixar escapar, pois já assim actuara em 2002 (defesa da minha tese de mestrado) , 2004 (edição do livro a que aquela deu origem) e passim em diversas intervenções: falo da cultura mediática e da mediocridade intelectual que, à míngua de uma escola moderna e de uma classe política capaz de pedagogia (saindo de entre os eleitores, os políticos estão, de igual modo, em versão pop), se foram instalando.
A televisão é causa de adormecimento do pensamento (Sartori fala em "Homo Videns" e João de Almeida Santos do "Homo Zappiens") e a Internet fracciona-nos, podendo levar-nos, já que não há uma ética concebida à dimensão da pós-modernidade em que vivêmos, a ignorar problemas ou até a nutrir perversões.
Além disso, ao mesmo tempo que dão informação, causam sobre-informação (estima-se que uma edição de domingo do New York Times forneça mais informação do que a que estaria acessível a um homem culto do século XVIII, durante toda a sua vida*), levando-nos a, na impossibilidade de escolher o certo e o errado, vogar ao sabor de empresas que, além de informar, gostam de lucrar, nem que seja manipulando as emoções para o indulto, num dia, e para a condenação, no outro, fazendo com habitemos um mundo em que um sujeito que esteja debaixo dos holofotes se encontre perante a discricionaridade a que estavam submetidos os gladiadores de Roma, embora, agora, perante um "César mediatico".
Se mais provas fossem necessárias, bastou ver a triste figura que, ontem, dezenas de populares fizeram, apupando a mãe de Maddy, pelo simples facto de os media anunciarem que podia ser constituída arguida, como veio, aliás, a suceder com ambos os progenitores.
Independentemente do desfecho do caso, se sempre achei exageradas as manifestações de solidariedade nas missas, acho estúpida a vaia de ontem. Mostra a pobreza de espírito dos consumidores da nova (in)cultura mediática e prova a irresponsabilidade das empresas de comunicação social e dos políticos e a ineficácia, neste domínio, das universidades.
*Cito, com tradução nossa, não a Wikipédia :))) , mas sim Donald Wood ("Post-Intellectualism and the Decline of Democracy (The Future of Reason and Responsability in the Tweentieh Century)", Westport, Connecticut, Londres, Praeger Publishers, 1996).

3 comentários:

Filipe disse...

É difícil nesta altura emitir opinião sobre os desenvolvimentos deste caso, no entanto, concordo que foi lamentável a vaia de que fala.
Quanto ao mediatismo, esse foi solicitado pelo próprio casal no início das investigações, talvez agora estejam a pagar uma factura (não devida).
A terminar, espero que os nossos investigadores resolvam o caso rapidamente porque, caso contrário, os desenvolvimentos dos últimos dias podem arrasar a imagem não só da polícia portuguesa, mas também de Portugal...

Marta disse...

Este tipo de manifestações emotivas lembra rituais e cerimoniais de seitas pouco ou nada credíveis. Para mim, não passa de histerismo de massas, revelador da necessidade que o ser humano tem de estravazar, ao mesmo tempo que exibe "solidariedade".

Gonçalo Capitão disse...

Filipe

Efectivamente, eles usaram a arma e o tiro saíu pela culatra.
Antes deles, muitos políticos sofreram com o excesso de apetite mediático. Sem falar de Portugal, Collor de Melo é o mais fragoroso exemplo lusófono.


Marta

Concordando, saúdo um regresso a esta "casa", que tanto enriquece ;)