terça-feira, 14 de agosto de 2007

Em suma

Depois de muito me irritar, sumario uma visão o mais branda possível do que se passa na Cultura.
O episódio da ausência de membros do Governo, especialmente da Ministra da Cultura, nas comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga é apenas mais um, embora grotesco, episódio no percurso desta lamentável equipa ministerial.
E escusam os idiotas de serviço de vir dizer que o Governo se fez representar pelo Director Regional da Cultura. Salvo o devido respeito pela função e pelo titular, se existe protocolo é porque as funções e os eventos obedecem a uma escala de dignidade. O que poderia concluir-se – mas não creio que esta equipa tenha sequer arte para coisa tão subtil – é que Torga não é um autor benquisto pelo regime. Na verdade, creio que é mesmo terceiro-mundismo e arrogância própria de uma visão elitista que já nem o PS moderno (leia-se, ala Sócrates; os verdadeiros, porque agora devem ser todos…) perfilha.
Mas de falta de coerência ninguém pode acusar Isabel Pires de Lima, que tem feito o possível por, constantemente, juntar o pior das suas origens marxistas com a má aprendizagem da vida cultural nos regimes demo-liberais.
Pelo primeiro lado da frase, quero dizer que escolheu centralizar as decisões e afastar quem pode ganhar “vida própria”. Falo designadamente do cepticismo que tenho em relação à fusão da Companhia Nacional de Bailado com o Teatro Nacional de São Carlos na Opart, sobretudo porque, como é hábito, tal servirá para disfarçar misérias e não para criar um “império” de cultura.
Acresce que se sucedem as dispensas polémicas. Depois de Paolo Pinamonti (que voltou a colocar o São Carlos no devido lugar de destaque) foi Dalila Rodrigues, do Museu Nacional de Arte Antiga. E, no último caso, até entendo que quem discorda das linhas da tutela deverá renunciar, mas jamais aceito que se saneie alguém, a pouco tempo do fim da sua comissão de serviço e na sequência de uma opinião divergente. Os casos de Fernando Charrua (professor “corrido” da Direcção Regional de Educação do Norte, em virtude de uma anedota sobre Sócrates) e da ex-Directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho (demitida por, alegadamente, não ter sido lesta a retirar uma sátira ao Ministro da Saúde) deveriam ter sido marcas infelizes e isoladas, mas, pelos vistos, são tiques doutrinais.
Mais ainda, entendo que, dado o soberbo trabalho de Dalila Rodrigues no MNAA, deveria ter sido procurada uma solução diplomática que permitisse a sua continuidade. Todavia, com os preconceitos próprios da ideologia com que formatou o seu modo de pensar, Isabel Pires de Lima preferiu o “Gulag” (leia-se, o desterro) …
E, já que trouxe tantos “vícios de postura” do lado de lá da sua própria cortina de ferro, valeria a pena que também tivesse sido capaz de impor o fortíssimo investimento que a URSS fazia em cultura, embora nem sempre com os melhores propósitos…
Mas a coisa não melhora se virmos o seu desempenho mais encostado aos regimes capitalistas. Apesar de ter necessitado da intervenção do Primeiro-Ministro, andou bem a Ministra quando segurou entre nós a colecção Berardo, que é um acervo muito importante em matéria de arte contemporânea. Todavia, ao contrário do que faria um Governo que realmente apostasse no desenvolvimento intelectual das gerações futuras, varreu-se o problema para debaixo do tapete. Quero com isto dizer que, em vez de começar a amortizar o preço da colecção, adiou a decisão para daqui a dez anos e por um preço colossal, assim manietando um Executivo em que, aposto, já não será Ministra.
Acresce que, numa democracia como a nossa, o sector da Cultura terá sempre de lutar o dobro para ter um orçamento condigno: A irrelevância de Pires de Lima também se mostra nisto, estando eu em crer que passa por aqui a explicação para José Sócrates a manter no lugar: é quase inexistente, não desviando grandes recursos de projectos mais vistosos e que, tradicionalmente, PS e PSD preferem.
Pena é que tal cause danos de monta num país como Portugal, que tem na cultura a chave da subsistência da sua identidade.

1 comentário:

Ricardo Cândido disse...

Nunca colocando em causa a legitimidade da escolha de Guimarães, ainda tenho atravessado a história da Capital Europeia da Cultura.
Mas entre um município liderado por uma coligação de direita e um do PS, claro está que a escolha recai para os camaradas.