quinta-feira, 12 de abril de 2007

Sai Azar (VI) - O Espelho e o Espalho da Nação (Epílogo)

E chegamos ao fim da saga (“finalmente”, dirão alguns) sobre a vitória do Doutor Salazar em “Os Grandes Portugueses”, aproveitando eu para pedir desculpa aos colaboradores e leitores do "lodo" por ter ocupado tanto espaço. Confesso que, a propósito do concurso, não resisti a fazer o ponto de situação do meu pensamento sobre o Portugal de hoje (a culpa, porém, também foi de quem me desafiou).
Pegando na deixa do último texto, entendo que a mediocridade de muitos dos nossos políticos (algo que motivou um voto de protesto em Salazar) reproduz apenas, em edição revista e aumentada, a mesquinhez da nossa vivência enquanto povo.

Começando, comme il faut, pelo início, atribuo a vários excessos pós-revolucionários alguns dos males de que padecemos, embora não o faça de forma exclusiva. Diz-se que, ao tempo de Salazar, éramos um povo sem qualificações académicas e atrasado nos hábitos de sociais, mormente pela clausura a que o País se encontrava sujeito. Creio que é verdade.

Todavia, não deixo de afirmar que o 25 de Abril, com os excessos próprios dos períodos que se seguem a qualquer revolução, trouxe o erro de liquidar as elites, procurando, pela lamentável inspiração marxista que dominou muitos dos arautos dos novos tempos, instituir uma ordem em que fossemos todos iguais, no pior sentido do termo. Se é bom que o sejamos no plano dos direitos, liberdades e garantias, a verdade é que só por estupidez nos acharemos igualmente capacitados a desempenhar o mesmo papel na vida; nem num grupo de amigos, quanto mais num país…

Era a época dos saneamentos, das passagens administrativas nas universidades (estão tão caladinhos, muitos dos que se entretêm com a Universidade Independente…) e do Estado estilo “vaca leiteira” que, ainda hoje, dá de comer a muita gente, num paradigma que terá o seu corolário máximo na “tigela de ferro chinesa” (um emprego que vale para a vida e que sustenta uma família), sendo que mesmo essa já começou a “enferrujar”.

De caminho, com a perseguição às elites (as humilhações que sofreram, por exemplo, alguns professores da Universidade de Coimbra, se calhar, às mãos de muitos que, entretanto, se aburguesaram), destruíram-se referenciais de valores. Podemos discordar da pauta ética da vida cívica do Estado Novo, mas ainda havia gente com trato social elevado, inclusive entre as pessoas de baixa instrução e de magras posses. Ao invés, a lógica do “é proibido proibir” (a versão high tech desta atitude anarca é o Bloco de Esquerda) favoreceu o laxismo e a libertinagem, não sendo de espantar que se degradem até os mais banais padrões de cortesia e o próprio requinte na afectividade.

Contudo, baralhando e voltando a dar, há muitas explicações que devem buscar-se em tempos anteriores. Começo por algo que já li e com cuja essência concordo: gostamos muito de ser tutelados. Se, a um tempo, queremos ser livres para tudo e mais alguma coisa, não nos importamos de ter um “paizinho” que olhe por nós. Dito de outro modo, queremos que as coisas se vão fazendo, sem que tenhamos a maçada de fazermos a nossa parte na construção de uma sociedade melhor e mais próspera (assim, com empenho de cada um se explica, a meu ver, a vibrante vida cívica, entre outras nações, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha).

De um modo empírico, e num cenário indubitavelmente democrático, encontro paralelos nas maiorias absolutas de Cavaco Silva (1987 e 1991) e de José Sócrates (2005). Com as devidas distâncias entre eles, falamos de personalidades fortes e, concorde-se ou não com o rumo, de homens de reformas que preferem quebrar do que torcer, correndo, quando necessário, sozinhos e contra o vento. Sendo que os dois contrariaram a tendência do método de Hondt (que favorece mais a representatividade do que a governabilidade), parece-me que, nesses três momentos de aclamação sufragada, nos reencontrámos com a nossa idiossincrasia. Passámos procuração a cidadãos ilustres para que, mesmo a custo de alguma qualidade de vida (veja-se o caso actual), fizessem o que havia e há para fazer, sem que nos maçassem ou macem excessivamente com consultas frequentes.

A culpa é dos dois? Não.

Governaram mal? Até 1993, sei que não, no primeiro caso. Esperemos para ver, no segundo.

Vem mal ao mundo deste nosso gosto pelo “pau e cenoura”? Sim, pois poderíamos eleger os mesmos cidadãos, sendo mais informados e mais participativos.

No fundo creio que combinamos o pior do liberalismo continental europeu (a ideia de que somos mais espertos do que a Lei e de que a Ordem existe para se moldar) com a essência latina, que nos leva a esquecer a “conta da mercearia” sempre que há Sol, festa ou futebol…

Cumprimos com medo da punição! Se há mais receitas fiscais, tal não se deve a uma noção mais apurada do bem comum, mas sim à maior agressividade da administração fiscal. Se diminui a sinistralidade rodoviária, não podemos saudar o maior civismo dos condutores, mas sim aplaudir o endurecimento das contra-ordenações e penas. Se há menos mordomias associadas a certos lugares públicos, não podemos congratular o ascetismo dos titulares, mas sim felicitar a maior vigilância mediática (embora entenda que estejamos a cair no extremo oposto: o miserabilismo populista).

E sejamos francos, embora todos gostemos de ser portugueses e não tenhamos dúvidas (eu, pelo menos, não tenho) de que Portugal é melhor pátria que se pode ter, sabemos que, em conjunto, temos uma tentação para sermos mandriões, invejosos e corruptos.
Que longe estamos da cultura do mérito... Seja para uma consulta médica, para publicar um livro ou para obter um emprego, mesmo na iniciativa privada, conhece algum país desenvolvido onde dê mais jeito do cá “conhecer alguém”, no pior sentido da expressão?

Voltando a um dos textos anteriores, creio que a Educação e Cultura poderiam curar-nos dos nossos males, mas, com a sua degradação acentuada, não sei se estamos ainda em condições de começar por formar os curandeiros…

O pior é que, nestes domínios, temos pouco tempo, já que ninguém tem saudades do que nunca conheceu. Já noutros, a vitória de Salazar deixou-me a pensar…

4 comentários:

o vigilante disse...

Dr. Gonçalo Capitão

Sou um jovem de 23 anos, militante da jsd coimbra e desde há muito um seguidor deste seu espaço de intervenção.

Já há muito tempo que esperava por uma oportunidade de comentar um texto em que me identificasse por completo. Não tendo vivido nenhum desses tempo de ditadura e conhecendo apenas o que a história nos ensinou e as histórias que vou conhecendo, não posso estar mais de acordo consigo(embora ache que se escrevesse um pouco mais contra o comunismo, não ficasse mal), o regime têm coisas boas como coisas muito más, mas quando se ouvem pessoas que sofreram as mãos do antigo regime e que hoje pedem para que quem os fez sofrer volte, algo vai mal no Reino da Dinamarca como um conhecidissimo escritor uma vez disse!!!

Aquele que hoje desvalorizam ou sobrevalorizam a vitória do Dr. Salazar, deviam em minha opinião preocupar-se com o porque da sua vitória, aprofundando as razões e desenvolvendo acções que levem a uma real mais valia em termos sociais.

Este seu conjunto de post`s desenvolvem teorias interessante, que mais pessoas deviam acompanhar ou refutar, pois só assim conseguiremos chegar a uma conclusão sobre o assunto, ou quais os métodos que as gerações futuras de governantes devem ter, para credibilizar a política nacional.

Saudações

Gonçalo Capitão disse...

Caro Amigo

Resta-me agradecer a curiosidade, a atenção e a simpatia com que escreve.

Quanto ao comunismo - penso que se refere sobretudo às tentativas de o concretizar - ainda ando a tentar perceber bem o "esquema". Por exemplo, das 15 repúblicas da ex-URSS já visitei 10 e vi asneiras grandes, mas também coisas bem feitas.

Ou seja, voltamos ao seu (nosso) ponto: cada regime tem 2 faces.

Apenas sugiro que continue na "luta", pois o nosso partido, mormente em Coimbra, bem precisa de pessoas interessadas, inteligentes e sérias.

Uma nota "de autor": com ligeirissimas adaptações, e para fomentar o tal debate, comecei já a publicar estes textos no Diário As Beiras.

Um abraço.

Dulce Alves disse...

Estimado Gonçalo,

quem te ousou "desafiar", de nada se arrepende...
Ler e ter o imenso prazer de ler excelente e douta opinião como a tua... não é para todos!
Pelo que os colaboradores e os leitores do Lodo são verdadeiros privilegiados!
(Bem, agora também os leitores d'As Beiras, não é verdade? ;) )

freitaspereira disse...

Acho extremamente interessante a reacção deste leitor do blog , que lamenta que o autor do post não critique o comunismo da mesma maneira que ele descreveu o impacto de Salazar na vida dos Portugueses desde 1926.
A resposta do Sr. Gonçalo está também perfeitamente ajustada, na medida em que, se o conhecimento que se tem hoje da URSS, dos seus povos e dos seus dirigentes, pode ser analisada concretamente, porque pertencendo ao passado é bem conhecida, tal não acontece com a Rússia e do seu dirigente Putine, que sendo do presente só se podem avaliar em função das tendências actuais , que, elas, estão em permanente evolução.
Mas que, não tenhamos duvidas, terão um impacto essencial na Europa do futuro.

O comunismo foi uma ideologia importada do ocidente pelos Soviéticos, e se a sua aplicação na imensa URSS foi um fracasso , foi-o pela culpa dos homens que se encarregaram de lhe retirar o fundo humanista que essa ideologia pode conter.

A tirania estalinista e os crimes cometidos durante esta época foram os verdadeiros coveiros duma ideologia que constituía uma esperança para milhões de indivíduos em vários países do mundo.
Ao sair da longa era csarista, durante a qual os “servos” viviam na maior miséria, sem direitos e sem futuro, foi muito naturalmente que esta ideologia se implantou naquele imenso império.
Assim, parece-me, que criticar o comunismo por principio não é suficiente. Retirar aquela parte de sonho de fraternidade e de igualdade que alimentou os povos que viviam antes num sistema de governo retrogrado e desumano não seria conforme à verdade.

Mas sem duvida, quando o novo sistema , para conseguir implantar-se, retirou a liberdade aos homens, ele condenou-se. Porque a liberdade é essencial para que os homens possam desenvolver-se e fazer evoluir a sociedade adaptando-a ao mundo.

O problema de fundo do comunismo resta naquela incapacidade de criar riqueza, por falta de iniciativa individual, contraditório num sistema de economia planificado. Por isso mesmo, não pode distribuir muito a cada um. Os Bill Gates , criadores de riqueza, não são legião num tal sistema.
Mas as desigualdades serão menos profundas que noutros sistemas que conhecemos, exceptuando os privilégios que se são concedido os da “nomenclatura”e que desvirtuaram a ideologia.
As necessidades fundamentais do homem talvez tivessem sido melhor asseguradas , mormente no que diz respeito à educação, a saude, o emprego e o alojamento. Mas numa igualdade medíocre no que diz respeito ao alojamento e ao emprego.

Quem conhece um pouco o pais reconhecera facilmente que graças à educação e à cultura generalizada pelo sistema, os escritores são considerados como deuses, de Tolstoï a Pasternack, passando por Tchekhof, Dostoïevsky e Platonov e outros.
Dos motoristas de taxi, aos funcionários, toda a gente lê um livro. A literatura é sacralizada.
E que dizer da musica e da dança?
Para esquecer o presente? Talvez. O homem russo não sabe viver no presente. Ou vive na recordação do passado ou na esperança dum futuro radioso.

A sedução da educação e da cultura levou mesmo os Russos a imprimir livros e jornais na Sibéria, junto à fronteira chinesa, escritos foneticamente em chinês mas com caracteres em cirilico! Chinês “russificado” sem ideogramas para que todos compreendam!

Podemos e devemos, portanto, criticar os homens, mas sem condenar completamente a ideologia, que tem alguns aspectos fundamentais impregnados de humanismo

Da mesma maneira que não podemos condenar o Cristianismo, impregnado dos valores humanos que são o amor do próximo, a fraternidade, a justiça social, porque houve Papas sanguinários como os Borgias, ou teólogos cruéis como os que instituíram a santa inquisição, ou ainda chefes de igrejas assassinos como Henrique VIII de Inglaterra, que criou a igreja protestante de Inglaterra sobre os cadáveres das esposas sucessivas assassinadas.

Enfim e em conclusão, regressando a Salazar , (grande viagem!), a meu ver , além da perseguição policial, da liberdade oprimida, da tortura mesmo, e de todos os actos inerentes a uma ditadura, já debatidos, ainda não li nenhuma analise do efeito devastador do meio século de isolamento , que ao impedir a modernização de Portugal levou milhões de Portugueses ao abandono da terra natal, procurando noutros países aquilo que não conseguiam obter no seu pais.

Esta foi certamente a perda mais importante para a Nação, porque foram criar riqueza além fronteiras .
Hoje, quem viaja em Portugal, sente que se algo foi feito há uns anos para cá, em diversos sectores, ainda estamos longe do grosso da coluna europeia que procuramos não perder de vista, ofegantes, por vezes com uma ponta de desespero.