terça-feira, 3 de abril de 2007

Sai Azar (IV) - O Porquê da Coisa

E, não ignorando o dito fenómeno, tento buscar algumas das suas causas, começando pelas mais genéricas.

Antes, porém, confesso que acho alguma graça a quem o faz, desvalorizando a grandeza da amostra ao dizer que foram apenas 50.000 pessoas (números redondos) a votar no ditador, esquecendo-se de mencionar que as muy rigorosas sondagens convencionais têm amostragens, por vezes, cerca de 50 vezes menores (várias não chegam às mil entrevistas), com a agravante já mencionada de, sendo directas, a pergunta poder intimidar; é dos manuais, para quem estude sondagens, seja a pergunta sobre Salazar, aborto ou qualquer outro tema polémico e abrangido pelo “politicamente correcto”…

Voltando ao tema, entendo que não se trata de um surto de salazarismo. O corporativismo de Estado é um fenómeno datado e Salazar mais o é, por razões óbvias. Não me passa pela cabeça que 99,9% dos que votaram no cavalheiro de Santa Comba Dão pensem realmente que o podem trazer de volta ou sequer que saibam o mínimo olímpico sobre os ditames das políticas levadas a cabo no período histórico que vai de 1926 a 1974.

A contrario, diria que não vale a pena censurar os putativos apoiantes do Doutor Salazar, dizendo que muitos “só falam assim, porque não viveram naquele tempo”. Creio que não é preciso ter andado pelas estepes com Átila ou ter ido à escola com Mussolini para saber o que fizeram de mal; isto é, quem apoiou Salazar, independentemente das suas recônditas motivações, fê-lo, por certo, sabendo que, no Estado Novo, houve atropelos aos direitos humanos a par de realizações benéficas, por muito que não consiga detalhar qualquer um deles.

Destaco, em particular, uma estudante de Coimbra (ironia do destino, a Escola que formou Salazar e este vosso criado, salvas as devidas distâncias), cujo depoimento, que escutei num programa radiofónico do dia seguinte, era explícito: concordava com o resultado do concurso, entendia que o estudo da Eurosondagem visava branquear o mesmo, além de lamentar que Portugal fosse, hoje, gerido pela corrupção e pela cunha, que se fizessem fortunas na política e que se roubasse de uma forma que Salazar nunca permitiu, no seu tempo. Mais acrescentou que o problema não é do povo, já que o mesmo povo academicamente desqualificado projectou o Luxemburgo para altos padrões sociais, uma vez que a classe política local sabe dirigir; ou seja, queria a jovem coimbrã (pelo menos dos bancos da faculdade é-o) dizer que os políticos actuais não prestam.

Mas nem a política internacional lhe escapou, pois rematou com uma ilação sobre a hodierna subserviência a George W. Bush, por contraponto à recusa de António de Oliveira Salazar em vergar-se aos americanos.

Ora bem, retomando o fôlego, digo-vos que me vou escusar de comentar os pontos mais panfletários, concluindo que a nossa estudante está meia certa e meia errada. Fico-me pela primeira metade, concluindo-se sobre a outra pelo silêncio.

Entendo, desde logo, que diagnostica bem, embora não prescreva a terapêutica adequada, o mal do nosso povo: débil Educação e fraca Cultura.

Quanto à Educação, começamos a entrar num beco sem saída: à medida que se retiram os que ainda sabem ensinar, emerge uma nova geração de docentes (com excepções pela qualidade, claro) que já foi vítima da massificação selvagem do nosso ensino superior e da degenerescência ética do pós 25 de Abril, em que procurou contrariar-se o espartilho censório do regime deposto com uma lógica de “é proibido proibir” que, em muitos casos, transformou liberdade em libertinagem.

Culpas?! Se adiantar apurá-las, são do PSD e do PS que, em 30 anos, ainda não conseguiram impor uma metodologia de ensino exigente e de qualidade. No caso do PS, por preconceito ideológico da sua ala esquerda, a tendência é, bem ao invés, no sentido de um calamitoso facilitismo para não “traumatizar os meninos” e, algo que é comum ao PSD, para conseguir níveis de sucesso escolar que enganem os rankings da União Europeia (digo “enganem”, porque cada vez se sabe menos sobre tudo e mais alguma coisa…).

Já na Cultura o panorama não é melhor, aqui com menos culpas do PSD do que do PS e da esquerda, em geral, já que o primeiro partido, com o CDS, procurou, pelo menos, democratizar o acesso aos bens culturais.

O problema é que o nosso Orçamento de Estado, no capítulo cultural, é terceiro-mundista, nunca chegando a 1% (sim, disse bem: um por cento!) do total. E mais me preocupo quando, como sucedeu no último conselho nacional do PSD, um afamado deputado e conhecido santanista (ainda os há, é verdade…) disse, na sequência de uma intervenção do presidente do partido, que a Cultura não era um tema relevante. Ora, perante tamanha mostra de atavismo político, resta-me sublinhar que, no século XXI, em países como Portugal, só com uma fortíssima aposta na cultura poderemos preservar a nossa soberania.

Senão vejamos: as Forças Armadas e Policiais já não nos defendem em Vilar Formoso; hoje podemos ter militares e polícias a morrer pela nossa bandeira em Timor, no Afeganistão ou nos Balcãs. Acresce que a defesa da soberania é, para nós, integrada, já que não somos auto-suficientes (Espanha levaria horas a invadir-nos, se fosse o caso).

E mesmo o nosso tecido económico, como sabemos, está muito tomado por multinacionais estrangeiras, nem sendo preciso ir a qualquer parque industrial, já que qualquer centro comercial fala por si.

O que pode distinguir-nos, então, enquanto país pequeno e sem grandes recursos naturais, com excepção do mar? A mais da nossa idiossincrasia aventureira e criativa, recursos humanos muito qualificados e uma forte aposta no reforço da nossa identidade própria, que se consegue estimulando a conservação e invenção de cultura portuguesa.

E todo este sermão para quê? Para pedir que não se espantem, quando, à falta de tudo isto, os portugueses que, em 2007, se deram ao trabalho e ao encargo de participar no concurso votam em Salazar ora porque não estarão suficientemente formados e informados, ora porque entendem que estão mal servidos de políticos (algo que me parece certo, mas a que iremos mais adiante).

Para já, fico-me pela primeira parte da equação para sublinhar que acho delicioso que seja a esquerda a aspergir bílis sobre a ignorância dos que escolheram o político de Santa Comba Dão, quando é precisamente a esquerda – maxime a CGTP – o sector social mais reaccionário no que toca a mudanças na Educação. Seja o tema propinas, concursos de professores, disciplina dos alunos ou revisão curricular, o que se ouve do braço sindical do PCP é conservadorismo e nem uma só ideia nova.

E na Cultura, desgraçadamente, o cenário não é mais animador: responsabilidades assumidas no que concerne à direita, devo dizer-vos que a esquerda resume-se a propor aumentos acríticos, privilegiando o elitismo, já que pretende financiar peças com mais gente em palco do que na plateia e filmes para o realizador ver com amigos, em vez de procurar ver até que ponto é que as criações culturais pagas por todos estão realmente a aumentar o nível intelectual dos portugueses, em geral.

Resumindo e concluindo: se houvesse qualidade na Educação e na Cultura, provavelmente outro seria o “Grande Português”.

3 comentários:

Rita de Matos Oliveira disse...

"Maior cego é aquele que não quer ver" é a única coisa que me ocorre ao ler e ouvir as bárbaras tentativas de explicação deste resultado que pululam por essa comunicação social afora!

Eu votei no Sr. Salazar, não porque seja uma salazarista ferrenha, não porque não conheça o período da história de Portugal que a ele reporta, mas simplesmente porque me achei no direito de me revoltar!

Revoltar pelas mentiras, pelos abusos, pela corrupção, pela iliteracia, pela pobreza, pela fome.

Quem quer "ver", percebe o fundamento deste resultado.

Infelizmente, as pessoas a quem este resultado é dirigido não estão muito interessadas em aprofundar, quiçá serem elas os responsáveis por três décadas de desilusões...

Dulce Alves disse...

Gostei de ler estes capítulos que gentilmente aqui deixaste na tentativa (no meu caso superada!) de explicar este 'fenómeno' dos "Grandes Portugueses".

Confesso que, como é comum dizer..."uma imagem vale mil palavras", pelo que a primeira tentativa de explicação me pareceu mais que suficiente. ;)

Ainda assim, estas tuas palavras não foram em vão, pois ajudaram-me a digerir esta espécie de "eleição post-mortem" de Salazar e a concluir que não vale a pena deixar-nos levar pelos histerismos e fatalismos de alguns...

Mas o "resumindo e concluindo" foi brilhante: nem mais, Gonçalo. A "débil Educação e a fraca Cultura" são o cerne desta questão.
Não fossem elas e o povo português conheceria melhor os seus "grandes portugueses". E se assim fosse, saberia reconhecer a notabilidade de um estadista como foi o Marquês de Pombal ou louvaria a coragem e bondade de Aristides de Sousa Mendes.
Ou quiçá, distinguiria a genialidade de um Camões ou de um F.Pessoa...

Não posso terminar sem dizer que fiquei literalmente chocada com o teu relato do inculto (para não o denominar de outra coisa...)deputado que considera que a Cultura não é questão relevante.... :o

Gonçalo Capitão disse...

Rita:

Saúdo a coragem com que admitiste o teu voto e a razão. Eu confesso que fiz o mesmo para provocar e para que se lançasse o debate que a esquerda totalitária (da ala esquerda do PS em diante) sempre quis calar!

Dulce:

A novela vai até ao 6º capítulo, mas não tem pretensões científicas. É mais "eu e os meus botões".
Eu depois digo-te o nome do Deputado.

Rita e Dulce:

Vocês estragam-me com mimos ;)