terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Adiós Pinochet


Aos 91 anos, o ex ditador chileno faleceu no passado domingo (ironicamente no dia em que se celebram os Direitos Humanos) e é hoje cremado em Santiago do Chile.

Tal como em vida, a sua morte divide hoje os chilenos e muitos pelo mundo fora – uns festejam, outros choram.
No meu entender, não se celebra a morte de ninguém, muito menos por razões ideológicas. Ainda assim, é lamentável que Pinochet tenha morrido sem sentencias, apesar das numerosas acusações judiciais que sobre ele pendiam.
Dezassete anos de regime dictatorial e sanguinário não deviam de ficar impunes.

Fica o desejo de que a sua morte sirva, pelo menos, para alertar autoridades e governos de que urge uma justiça célere, particularmente quando se tratam de crimes que versam sobre direitos humanos.

16 comentários:

Gonçalo Capitão disse...

"Estafermo" !!! :)))

Estive para escrever sobre isto no fim de semana e estava a acabar um artigo que aborda o tema, para o jornal de Coimbra com que colaboro...

Bem... É o que dá "contratar" gente inteligente e informada. Porém, perdeste qualquer hipótese de alcançares o galardão de "funcionária do mês"!

P.S.: já comento o post.

alby disse...

O puto do velho foi esperto morreu antes de ser condenado, sena marada... Ao outro gajo que matou totil de gente lá para o Irão não vai tocar essa sorte só se o gajo se enforcar antes que o enforquem. Mas eu acho que estes gajos deviam ser punidos mesmo depois de mortos...Tá-se

Gonçalo Capitão disse...

Como em todos os consulados políticos, não houve só coisas más, nem só coisas boas.

Creio que nenhum regime político justifica uma só morte, mas, dado que as há, resta saber se as apreciamos todas da mesma maneira, sejam elas sob a forma de tiro ao alvo, no Tibete, genocídio, no Sudão, ou intervenção mal planeada, no Iraque.

Pinochet, provavelmente, evitou que o Chile fosse uma ditadura comunista com as consequências que podem ver-se em Cuba ou nas dificuldades que o Muro de Berlim destapou, quando caiu. O General com os seus “Chicago boys” (economistas formados nos ensinamentos de Milton Friedman) relançaram a economia do país e deixaram-no num patamar de desenvolvimento que, ainda hoje, faz dele a pérola da América Latina.

Acresce que foi por sua iniciativa, e mesmo dominando o poder militar (o que permitia resistir), que o seu lugar foi a jogo, tendo Augusto Pinochet respeitado a derrota. Claro que tratou da sua imunidade (só posta em causa por Baltasar Garzón, quando o “ex-ditador” foi a Inglaterra, por motivos de saúde), mas nas transições pactuadas o fenómeno está longe de ser inédito, como se provou em casos tão distintos como os de Suharto e Ieltsin.

Dito isto, fica a óbvia condenação pelos milhares de vidas ceifadas arbitrária ou organizadamente, como exemplificam a “Operação Condor” ou a “Caravana da Morte”, pelo que acho muito bem que lhe tenham sido negadas honras de Estado e o luto nacional.

De sublinhar também a serenidade da Presidente Michelle Bachelet, que evitou atiçar a fogueira que se esperava e que ocorreu nas ruas da capital chilena.

Contudo, não posso terminar este apontamento sem uma angústia existencial: por que é que, regra geral, Pinochet tem sido referido como o “ex-ditador” e Fidel Castro é mencionado como “o líder cubano” ou outro eufemismo do género? Se puxar pela memória, o leitor verá que raramente ouviu ou leu media que falassem do “ditador” cubano… Será por ser de esquerda?! Talvez, porque mortes também há, e a miséria é maior do que no Chile.

Freitas Pereira disse...

Caro Senhor Gonçalo


Permita que comente o seu "post" sobre Pinochet (mas por favor nao me chame 'estafermo' porque ele é longo ! ) que achei interessante. Interessante por duas razoes : O julgamento do assassino e do ditador (faltou só o do crápula) , e a comparação com Fidel Castro.
Antes de mais, uma efeméride : O grande amigo, o "Dear" Henri (Kissinger) não esteve presente em Santiago! Vergonha do cliente ? O único amigo estadista que enviou palavras de reconforto, foi a Dear Maguy Thatcher, ex- Primeiro Ministro dum pais democrático ! , que se disse " muito triste "da morte do ditador. Mas também é certo que ela lhe devia alguns importantes favores aquando da guerra das Malvinas ! Uma divida, claro !

O Senhor escreveu muito bem sobre os assassinatos organizados , sobre os comandos da morte, mas talvez seja interessante notar, que o ditador , que se fez sempre passar por um homem desinteressado e duma probidade sem falha, foi um crápula também. O Senado Americano confirmou bem as transferências fraudulentas de 4 a 6 milhões de dollars para o Banco Riggs nos USA.

O golpe de estado militar, encomendado e financiado pelos EUA, obra magistral do Dear Henri e da CIA, faz parte da política americana na América Latina. Habitual, portanto. Basta que um líder político chegue ao poder com um rotulo de esquerda ( eu não creio que o médico Allende fosse realmente marxista), para que em nome dos altos interesses dos EUA a maquina de destruição se ponha em movimento. Após uma intervenção americana, que a coligação eleita democraticamente vire à esquerda completamente é uma reacção fatal e quase obrigatória.

Os Americanos são mestres na conversão de homens razoáveis em inimigos viscerais. E também na conversão de homens já contaminados em piores ainda. Nunca pensei que Nasser fosse comunista ; mas ele nacionalizou o canal de Suez , e a França, a Inglaterra e Israel atacaram-no para o punir. Mas, mais uma vez em nome dos seus altos interesses , os EUA , desta vez com razão, mandaram parar a agressão! Claro que Nasser se voltou em seguida para os Russos!

Hoje, o Chile, graças ao cobre (3° produtor mundial) cujo preço foi multiplicado por 3, neste últimos anos, graças às compras da Índia e sobretudo da China, e graças a uma política económica vigorosa - redução do peso do Estado- e a uma política comercial inteligente - tratados comerciais com os EUA (é melhor assim!), Índia, China, Japão e U.E. (quando se é o 3° produtor mundial de cobre, isso abre as portas!), o Chile é a pérola da América Latina, o Senhor tem razão. Não sei se os "Chicago boys" e Milton Friedman teriam os mesmos resultados em Haiti ou no Salvador, mas enfim !

O governo actual já fez algumas acções interessantes : melhor assistência médica para o Povo e modificação da Constituição. Pinochet era senador até à morte, as Forças Armadas detinham três lugares de senadores nos nove que conta esta alta instituição. Isso acabou. Mas o Exército ainda é um poder de quem se pode recear uma reacção perigosa, como no resto da América latina.

A comparação com Fidel Castro, um antigo jurista, é impossível, porque se hoje os EUA cooperam com o Chile (Ah o cobre !) no que diz respeito a Cuba é o contrario. Um embargo feroz desde o dia em que Fidel pôs fora Fulgêncio Baptista, o homem de Washington, que só Portugal e a Espanha aceitaram hospedar! Os exilados de Cuba impedem o fim do embargo e o voto deles na Florida conta muito!
A Cuba de Hemingway, de Al Capone e da Mafia Americana, a Cuba lupanar da América, a Cuba grande casino , enquanto o Povo era analfabeto a 85%, essa era a Cuba de Baptista que Fidel eliminou. Mas outros antes dele tinham experimentado derrubar o Fulgêncio.

A América detinha 90% do nickel , 80% dos serviços públicos, 50% dos caminhos de ferro, a totalidade do açúcar, e o Reino Unido todo o petróleo.

Mais ainda, segundo a Constituição os EUA tinham o direito de intervir nos assuntos Cubanos a não importa qual momento (Lei Pratt !)

Quem lê a historia de Cuba sabe que quando San Martin desalojou, democraticamente o (já !) homem dos EUA , uma das primeiras decisões de San Marti, adorado pelos Cubanos, foi de dar o direito de voto às mulheres, estabelecer as 8 horas de trabalho diárias e a nacionalização da electricidade.
A América não tardou a faz-lo saltar ! Fulgêncio tomou o lugar. O parágrafo acima já disse o que era Cuba sob este ditador.

O embargo americano lançou Fidel nos braços dos Russos, que passou a depender deles para quase tudo. Khrouchtchev e Kennedy um dia jogaram ai o destino do mundo na famosa partida de cartas nuclear!

Hoje em Cuba não há mais analfabetos, ( 97,3% da população alfabetizada !) , assistência médica gratuita para todos, há muito, muito menos prostituição, mas não há liberdade.
E a política da Casa Branca em Washington vive à hora dos exilados de Cuba na Florida, pião importante para o voto Republicano neste Estado, o que quer dizer que só talvez depois da morte de Fidel poderá esperar-se uma mudança radical. Perhaps !

Em conclusao:- Fidel abateu uma ditadura corrompida, às ordens dos
EUA . Mas é um ditador, porque privou o seu Povo de liberdade.

Pinochet, às ordens dos EUA, massacrou um Povo e abateu um governo eleito democraticamente.

Resta a saber se Fidel receberà os ultimos sacramentos como Pinochet, do Arcebispo de La Havana no lugar do Arcebispo de Santiago !

Freitas Pereira disse...

Senhor Gonçalo:- desculpe só duas palavras mais a respeito da sua "angustia existencial"! Não sei se frequentamos a mesma escola militar, mas olhe que segundo aquilo que leio do Senhor, não me parece que seja do género a alimentar esse tipo de fraqueza ! Eu, se jamais o tive, perdi-o na tal escola da tropa!
O Senhor também me parece forte demais para sucumbir a esse sentimento.

Gonçalo Capitão disse...

Senhor Freitas Pereira

Mais uma vez, não posso deixar de agradecer, sem ironia alguma, as autênticas lições de política internacional com que enriquece o "lodo".

Porque não tenho predicados que me permitam uma "marcação homem-a-homem", sublinho apenas um ou dois pontos.

Se virmos bem, todas as ditaduras marxistas (permita-me a insistência na "taxinomia")apresentam uma elevadíssima taxa de escolarização, sendo que é essa, a meu ver, uma das vantagens competitivas da actual Rússia (descontado, enquanto tal e por decoro, o Polónio 210...).

Porém, será que a falta de liberdade no ensino e, logo, na aprendizagem é "paga" pelos números redondos?

Quanto ao embargo, sendo ele uma evidência, ainda não acredito (o "ainda" é uma cortesia) que explique tudo. Dito de outra maneira, entendo que outro modelo sócio-político contornaria o determinismo americano.

Já no que ao respeito do regime de Fulgêncio Baptista não me ouviu um só louvor. Tal não implica que não repudie a via de Castro e as suas consequências, com a agravante de pensar que uma ditadura não é melhor do que outra, independentemente da cor...

E que dizer dos recursos naturais?... Bem, se vamos pelo lado do interesse, é melhor nem falarmos do sistema de relações internacionais, já que o cinismo é uma constante. Exemplificando, que dizer do marxismo chinês, em cujo país a Rolls-Royce tem o seu 3º mercado e com expectativas de crescimento? São todos ricos?! Naaaaa...

Como me parece que gosta de um bom case-study, sugiro que acompanhemos com atenção a "Revolução Bolivariana" de Chavez. Confesso-me curioso.

Freitas Pereira disse...

Senhor Gonçalo:

Tem perfeitamente razão : a ditadura qualquer que ela seja deve-se combater. Não existe dignidade humana nesse regime.
E também é verdade que o ensino foi sempre uma arma bem utilizada na ditadura da esquerda, porque o ensino permite de veicular a teoria, não importa qual teoria.

Quanto às relações internacionais também tem razão : o cinismo é presente em quase todo o lado. Os interesses nacionais primam.

A China é um caso particular, porque finalmente ,os Chineses anunciaram a cor desde o inicio : " Two systems, one country " ! Isto é, vamos sacrificar milhões de indivíduos - os homens do campo - , e daremos a prioridade ao desenvolvimento industrial e urbano. Para obter resultados é preciso deixar a liberdade agir, e permitir a criação duma classe média inventiva , instruída e inteligente, capaz de absorver a tecnologia ocidental. That's it !

Uma juventude ávida de aprender e de subir na escala económica é um motor excepcional. E eles são milhões e milhões !

O Ocidente ainda só pagou uma parte ínfima da factura que nos será apresentada pela China nos próximos anos ! Quero dizer que ainda não sofremos o impacto mais forte da vaga de concorrência selvagem dos baixos salários e ausência de garantias sociais que destruem a nossa industria.

Vou pedir a sua indulgência para lhe contar uma historia pessoal vivida na China de Mao, na década de 70, em Pequim. Dirigia a instalação dum stand no antigo palácio da "Amizade Sino-Soviética" (!) onde apresentava a tecnologia duma multinacional europeia. O Comissário Político que era a iminência aterradora dessa organização entrevistou-me para saber de quantos técnicos eu precisava para instalar as maquinas no stand e fazê-las funcionar. Pedi 5 pessoas, mais um interprete. No dia seguinte pôs à minha disposição 25 técnicos e dois interpretes !

O trabalho que na minha firma levava dois dias a fazer, foi feito em 6 horas! Quando explicava , debruçado sobre uma mesa, os planos e esquemas da instalação, cada vez que olhava para cima via um circulo de cabeças à minha volta, que não perdiam uma palavra do que eu dizia e era traduzido.
Quando apoiei sobre o botão de marcha, tudo arrancou sem uma hesitação.

Os salários desses 25+2 Chineses correspondiam ao meu salário de 3 dias. O Senhor vai dizer que eu ganhava talvez demais !

Voltei lá varias vezes e ultimamente estive numa zona de grandes implantações estrangeiras, que como sabe exportam 75% das exportações Chinesas...para os nossos países !


Visitei uma zona industrial de pesquisa e desenvolvimento. Ela estendia-se de Guimarães a Vila do Conde. So para pesquisa, Senhor Gonçalo ! E hà muitas outras !
Quando tudo isto chegar ao rendimento maximo, das duas coisas uma: ou o Ocidente se transforma num deserto industrial onde so os serviços criarao empregos,( jà começa a ser o caso !) ou uma revoluçao social a larga escala se encarregarà de travar a tendência actual de destruiçao da nossa industria. Mas como ?

Para o momento, o exemplo do " i-pod" é a regra :- Apple inventa, a China fabrica, e Apple vende. Em 100 dollars de venda, 1 para o trabalhador, 10 para a China, o resto para Apple!

Na China isto é possível, porque é uma ditadura do proletariado (!) onde os três pilares do poder estão intactos ; -O Partido Comunista, o Exército Vermelho e a Policia secreta ! "Two systems, one Power"! Os Russos , os estúpidos, desintegraram tudo ao mesmo tempo! Assim se exprimem os Chineses!

Uma classe média de 100 milhões de indivíduos para uma população de 1.400 milhões ! Esta classe média é aquela que vemos a passear nas ruas de Paris , Londres e Roma!

Gonçalo Capitão disse...

O grande problema dos russos foi exactamente esse!

Tiraram o partido "do sítio" sem perceberem que era a trave-mestra do sistema.

Os chineses perceberam isso e muitíssimo mais.

Rui Miguel Ribeiro disse...

Gonçalo: Tens toda a razão - os Europeus têm duas bitolas para classificar os ditadores. E o Castro já se juntou ao Che no folclore das esquerdas "rebelde" e intelectual.
Sr. Freitas Pereira: Não sei o que me espanta mais: se o branqueamento que faz do falhanço rotundo do comunismo cubano, se os louvores à República Popular da China, os mesmos que negou ao Chile de Pinochet.
É como vê: todos têm direito à sua pitada de cinismo e de real politik nas RI. As preferências é que podem ser diferentes...

freitaspereira disse...

Senhir Rui Miguel Ribeiro: Não, não branqueei o regime castrista, porque o falhanço é patente. Aliás "falhanço" e "comunismo" 'go together' , Sir !

Eu quis apenas constatar que a Cuba de Fulgêncio reunia todos os ingredientes para uma revolução, devido ao abandono total do povo cubano na mais extrema miséria e à exploração das riquezas de Cuba pelos estrangeiros. E esta miséria identificava-se com as potências que exploravam estas riquezas.

O regime castrista trouxe alguns benefícios ao povo cubano - educação gratuita, assistência médica - mas o preço a pagar foi elevado, porque os países estrangeiros e particularmente os EUA , que foram os mais " lesados" pelas expropriações reagiram de maneira brutal. Aqui estou talvez de acordo com o Sr Gonçalo quando escreve " que se a recuperação das riquezas de Cuba pelo povo Cubano tivesse sido feita duma maneira diferente......" O embargo talvez não tivesse sido aplicado ?. Qual poderia ter sido o sistema que conciliaria os interesses americanos e ingleses e a independência de Cuba ?

Que tudo isso tenha custado a liberdade ao povo Cubano é certamente o que há de mais lamentável. E esta ditadura é inaceitável como as outras, porque aqui não pode haver preferências.

Cuba foi também, penso eu, uma vitima da guerra fria entre os dois blocos. Não sei se hoje o problema teria sido resolvido da mesma maneira.

Quanto ao Chile, trata-se realmente dum golpe de Estado de Pinochet contra um governo eleito democraticamente, no quadro dum pais dotado duma Constituição, que tinha já conhecido vários governos democráticos antes de Allende, e que decidiu a um certo momento da sua Historia, de escolher uma coligação de esquerda , para procurar o meio de recuperar a sua riqueza nacional - o cobre !. Onde está o erro ? Como em Cuba, no medo dos EUA de perder eventualmente uma fonte de matéria prima estratégica - o cobre ! E mais nada. Dai, o trabalhinho de Kissinger, da CIA e de Pinochet, culpados de mais de três mil assassinatos . Poder-se-a louvar esta gente ? So Maggie teve a coragem de o fazer, o que me entristeceu!

Embora não recuse o direito a ninguém de as ter, como é possível ter de tais preferências, Sr. Miguel Ribeiro ?

Os tempos mudaram, porque a Bolívia recuperou o seu petróleo e o seu gás ultimamente, e não houve golpe de estado...para o momento ! Se isto tivesse acontecido no tempo da descida da Sierra Madre talvez as coisas tivessem sido tão trágicas para a Bolívia como o foram para Cuba.

Quanto à China, não se trata de louvar o regime comunista mas de constatar que este pais é hoje uma potência económica, tecnológica e cientifica, capaz de enviar um homem no espaço, dotada da arma nuclear e povoada por 1.400 milhões de indivíduos.

Um pais onde se sucederam as visitas de Richard Nixon e Clinton, seguida da visita de Jiang Zemin aos EUA. Um pais que decidiu privatisar as empresas estatais, de proteger a empresa privada, e que promove a liberalização da economia a passo acelerado, e que promoveu a convertibilidade do yuan.

O preço a pagar foi aquele que escrevi no meu comentário precedente : o sacrifício de dezenas de milhões de Chineses das zonas rurais.
Uma ditadura ? Sem duvida. Mas a ditadura Chinesa teve o mérito de construir para o futuro (para nossa grande desgraça, talvez !) promovendo a educação, a urbanização e a modernização do pais ao mesmo tempo que ela ataca os défices orçamentais.

São estes factos que analisei porque os conheço. Ao ver a maneira como toda a Europa e os EUA se apressam a visitar a China e estabelecer acordos comerciais com este pais, parece-me que toda a gente compreendeu que esta é que é a " Real Politik ".

Aproveito a oportunidade para apresentar os meus votos de Bom Natal e feliz Ano Novo " urbi et orbi " !

Rui Miguel Ribeiro disse...

Sr. Freitas Pereira: A Bolívia não "recuperou" o seu gás natural: Seria mais próximo da verdade dizer que "roubou". Porque o que Evo Morales fez foi coagir investidores estrangeiros a mudarem os termos de contratos comerciais de forma radical. É claro que, quando a Bolívia precisar de novos investimentos e/ou de novas tecnologias, talvez fique a ver....os Andes. E aí o Señor Morales compreenda que, muitas vezes, what goes around, comes around.
China: Não são dezenas de milhões de Chineses, mas sim centenas. Estou convicto que o enriquecimento, o surgimento da classe média, a liberdade económica, mais tarde ou mais cedo "exigem" liberdade política. When and if that time comes, é que veremos se a transição foi assim tão bem feita...
Chile: Não sou adepto de Pinochet. Apenas reconheço que foi um dos poucos ditadores que deixou uma herança positiva, na medida em que a maioria deixam atrás de si um rasto de destruição e miséria. Lady Thatcher esteve bem, na medida em que demonstrou gratidão: como o Senhor disse e bem, o Chile apoiou o Reino Unido na Guerra das Falkland e quando ela estava em Downing Street, vivia-se a Guerra Fria que se sobrepunha a algumas considerações de ordem moral.

freitaspereira disse...

Senhor Rui Miguel Ribeiro:

BOLIVIA


Extremamente interessante o seu grito de defesa das multinacionais que operam na Bolívia. Acusar Morales de " roubar " o que pertence ao povo Boliviano é , pelo menos, exagerado senão injusto. Vejamos o que é a Bolívia : - 8 milhões de habitantes, na maioria indígenas (ayrama, quechua e guarani), 60% de pobres, dos quais 90% abaixo do limite de pobreza extrema. Metade da população vive nas zonas rurais, e vive com 1 boliviano por dia ($0,10) ! e vivia até aqui praticamente da coca, que a luta contra a droga obrigou , e bem , a destruir.

Mais pobre que a Bolívia só Haiti, na cauda!

Divida exterior de 5,5 biliões de $, ao reembolso da qual ela consagra 30% do seu PIB !

Vinte anos de governos néoliberais, que garantiram contratos de exploração às multinacionais de 18% de rentabilidade após impostos. Estas empresas (Repsol, British Energy, Panamerican Energy) são a comparar à companhia Francesa Suez, que obteve a distribuição da água potável e o tratamento das águas poluídas de La Paz, obtendo resultados ainda superiores, mas aumentando o preço da água de 600%, enquanto passou o salário dos seus quadros dirigentes, de 12500 a 65000 bolivianos por mês, i.e. 10.OOO $ ! Não me pergunte quantas casas de pobres viram a água cortada,em El Alto, porque não podiam pagar !

Quanto aos Bolivianos, a renda anual passou, em 25 anos, de 900$ para 925$, i.e. progressão económica igual a zero !

Por conseguinte, quando uma exploração das riquezas nacionais avantaja de maneira tão excessiva a classe empresarial e os capitais estrangeiros, algo deve ser feito .

Perante esta situação, recuperar , sim, recuperar as fontes de riqueza do pais, reorientando o modelo liberal afim de diminuir as fortes desigualdades sociais, parece-me normal. Tanto mais que Morales deve afrontar a dissidência da região de Santa Cruz, onde se encontram os principais jazigos de gás, e que não quer mexer nas multinacionais, mesmo se para isso for necessário impor a autonomia e mesmo a "federalisaçao" da província. Este perigo é latente. ( Recorda-se ? Como na zona kurda do Iraque)

A sua reacção a esta nacionalização, faz-me pensar à Michelin, que quando as plantações de hévea foram nacionalizadas pelo Vietname, protestou durante anos e nunca aceitou, apesar de ter explorado este pais durante quase um século ! Houve muita gente em França que afirmou que a guerra colonialista da Indochina nunca teria existido, se não houvesse este investimento da Michelin.

Cada vez que um pais nacionalizou as suas riquezas nacionais a reacção das multinacionais foi sempre violenta. Viu-se no Irão do Shah quando Mossadegh nacionalizou a Aramco, viu-se no Egipto quando Nasser nacionalizou o canal, e no Guatemala e noutros países da América Latina.

CHINA

Duas palavras mais sobre o seu comentário sobre a liberdade neste pais. Sem duvida o partido único, para o momento, é a regra. Mas vou-lhe confessar uma coisa:- A liberdade é coisa sagrada, mas não é sempre utilizada para o bem comum. Quando estava em Pequim, podia esquecer algumas moedas em cima da mesa do meu quarto, e quando regressava ao hotel, as moedas estavam no mesmo sitio. A empregada da limpeza tinha passado à volta das moedas para limpar o pó ! Mas não lhe mexia.

Quando passava pelo sul e vinha a Hong Kong passando pela ponte de Lowu, a primeira tabuleta ( haviam muitas ) que se via ao entrar no comboio inglês de Hong Kong era " Be aware pick pockets " ! Como em Paris ou não importa onde na Europa !

Estou intimamente convencido que não havia outra possibilidade de fazer arrancar este mastodonte de 1,4 bilião de seres humanos para a modernização, sem uma mão de ferro, que limita as liberdades individuais ,certo, impondo esforços gigantescos de que são vitimas algumas centenas ( tem razão ) de milhões de indivíduos, mas que deve permitir um dia de subir o nível de vida de todos .

Finalmente, prefiro este exemplo que o da Rússia, onde o fim do comunismo e a implantação da economia de mercado só permitiu ,até agora, a criação de grandes grupos industriais mafiosos, o que leva muitos Russos a começar a ter saudades do comunismo, o que é impensável.

Quanto à segurança individual, quando puder dar um salto a Moscovo ou Saint Petersburgo , verá a diferença em relação à China ! Eu não saio do Hotel à noite!

Gonçalo Capitão disse...

Amigo Freitas Pereira

Reconhecendo que o que se passou na Bolívia não era caminho, o meu cepticismo tem muito a ver com a proposta de Morales (leia-se, de Chavez por interposta marioneta): Creio, honestamente, que se já é dificil aproximar-se um País com seres humanos de qualquer via tributária do marxismo (o meu cepticismo é, ab initio, ontológico, como vê), mais o é com um lider voluntarista, mas que não tem estofo ou sequer entourage de craveira.

Quanto a São Petersburgo ou Moscovo, não sem em que hóteis fica (adivinho que sejam bons), mas asseguro que pode sair à noite e a pé! Digo-lho eu, que por quatro vezes por lá andei, nos últimos anos.

O que quero dizer é que a Rússia apesar de ter problemas, que analizaremos em breve, não é o Far-West (no caso Far-East) que pintam... Houve erros, mas o regime é mais aberto - apesar das sopinhas na Ucrânia e do sushi em Londres - do que o chinês. Voltaremos ao tema sooner than later.

freitaspereira disse...

Caro Senhor Gonçalo

Sim, creio que o meu hotel da Malaya Dmitrovka é bastante bom. Nunca tive problemas pessoalmente mas conheço quem os teve a altas horas da noite, é verdade. E senti por vezes o perigo...excepto no Metro. Em Paris até mesmo aqui!
Mas um dos meus colegas da multinacional que eu conheço bem, trabalha com protecção especial, porque outros houve que foram raptados, sobretudo quando se pertence a uma multinacional estrangeira.

O que eu lhe posso garantir é que não existe nenhum risco que isso possa acontecer na China.

Mas o Senhor também me pode dizer que o meu colega do Rio de Janeiro, que vive num apartamento em Ipanema, o imóvel onde vive é protegido por um guarda armado duma arma de guerra , de dia e de noite. E o Brasil não é uma ditadura .
A segurança nos tempos de hoje , infelizmente, é relativa em toda a parte. Em Detroit, o meu hotel Holyday Inn é protegido por uma cintura metálica e ai também é perigoso sair à noite nas ruas de Detroit. Enfim...

Quanto à Bolívia, o caso Morales é difícil de compreender se não se analisa o trauma causado pela privatização brutal das minas, decidida pelos governos liberais, que transformou alguns milhares de mineiros em cultivadores de coca, enquanto outros sem trabalho partiram ao assalto dos centros urbanos, onde criaram colectivos e sindicatos . São estes sindicatos de cultivadores e operários sem trabalho das cidades que vão criar o movimento donde sairá Morales.

Morales acrescentou a este movimento social organizado ( alguém, não sei quem, chamou-lhe " um arquipélago de movimentos sociais e sindicais " ) um sentimento de identidade colectiva INDÍGENA, uma espécie de afirmação nacional original, que se vai reconhecer nas lutas sociais e vai procurar reconciliar o socialismo e o homem.

O que pode constituir um problema no futuro é o facto que se o poder foi adquirido democraticamente , a base política desta vitoria emana duma analise do que ia mal na sociedade Boliviana, das opressões, etc, mas sem uma visão de futuro, uma estratégia, um programa. Este é também o erro que se comete frequentemente nas sociais democracias. Ganhar não chega ! Prometer só, paga-se ! O que é preciso é ousar e construir .

Mas foi a culpa do sistema liberal precedente de não ter previsto o sismo que a privatização das minas ia provocar. Quando se sabe as turbulências extremas que M.Thatcher provocou quando fechou as minas de carvão, num pais, o Reino Unido, que tinha uma capacidade economica de " encaixe" muito superior, e que constituiu o inicio da sua queda de popularidade ,pode melhor avaliar o que os Bolívianos sentiram no caso que os afectou.

Gonçalo Capitão disse...

Quanto aos raptos e afins, calculará que a qualidade em que se desloca não é a da maioria. Nesse caso, também acredito que a China seja bem mais segura (como era a Sérvia do Milosevic, perdoe-me a provocação respeitosa).

Com a sua imensa sabedoria contornou bem a questão boliviana... A agenda nacionalista e "descamisada" não é o único problema. O modelo de desenvolvimento e o controlo remoto externo levarão direitinho a "Nossa Senhora da Asneira".

A Bolívia não será o inferno que os EUA sempre causam, no entender de alguns (que não eu), mas funcionará, pelo menos, como um laboratório de ciência política da Venezuela. Com as devidas distâncias, será a Bielorrússia da Venezuela.

freitaspereira disse...

Sim, actualmente na Rússia o problema põe-se para aqueles que trabalham com e para as multinacionais, porque estas podem pagar !

Quanto ao resto não é uma questão de sabedoria, Senhor Gonçalo, mas de alguma experiência e sobretudo duma grande curiosidade dos problemas do mundo. Cada um tem a sua tendência político/filosófica própria que lhe permite de aceitar ou de se revoltar contra a submissão da democracia ao néo-liberalismo .

E o néo-liberalismo hoje não tem fronteiras .

Voltando à Bolivia, tem razao, a dependência do mundo exterior, do mercado como se diz, é importante; basta uma queda do preço das matérias primas para que o "laboratorio" se parta em mil bocados.

Gostaria de lhe assinalar um Festival muito interessante, se os seus afazeres lhe permitirem, que é o "Translatinas" que se passa em Bayonne e Biarritz no verao, onde a juventude latino-americana se reune em debates muito interessantes sobre os problemas deste continente. Assisti duas vezes (mesmo sem ser muito jovem!)e conto là voltar. De Coimbra chega-se là num dia!