quarta-feira, 15 de junho de 2022

A involução das espécies

 

            Depois de Charles ter teorizado as suas origens, outro Darwin, o Núñez, coloca as espécies no centro das nossas atenções, neste caso, como na generalidade do planeta (da guerra ao clima), no sentido da degradação ou da involução da espécie humana.

            Nada se leia aqui contra o moço que, pelo que vi e dizem, tem realmente jeito para o pontapé-na-bola.

            E, ainda antes da ordem do dia, “mea culpa”, com certeza. Sou dos que “consome” avidamente partidas de futebol, sendo que, até Fevereiro último (altura em que regressei ao País), como não existia a pouca vergonha lusa de distribuir os jogos por três empresas de televisão sem oferecer um pacote de desporto que as reúna (depois digam que somos mais desenvolvidos do que Brasil, Venezuela e África do Sul…), via quase tudo o que podia. Dito de outra maneira, com excepção destes meses desde que regressei, alimentei a cornucópia de dinheiro em que se converteu o futebol actual.

            Esse é o drama que vive, por exemplo, a Briosa: falta dinheiro e influência no Centro de Portugal. Essa também a razão pela qual, cada vez mais, será difícil uma vitória portuguesa na Liga dos Campeões; mesmo com o fracasso (temporário, adivinho) da criação da super liga europeia (num dos últimos assomos de romantismo tolerados aos adeptos), a tendência é multiplicar o número de jogos, aumentando as receitas e diminuindo a importância de um dia feliz dos adversários de menor dimensão (mais frequente na Taça dos Campeões, quando eram rondas eliminatórias), bem como restringir os ditos adversários a empresas da mesma dimensão (sim, empresas; não foi lapso).

            Dinheiro é tudo o que está em jogo para as fábricas de futebol e seus patrocinadores, conduzindo o desporto à exacerbação mediática e os dirigentes a declarações ridículas e poses histriónicas, entrando ainda pela casa adentro comentadores televisivos espumando e ostentando uma fúria quase símia que se torna tanto mais impressionante quando, conhecendo eu um ou dois, são profissionais com responsabilidades elevadas na “vida real” e passam a imagem de cidadãos cordatos.

            Tudo me soa a escalada e os mais recentes episódios de confrontos entre adeptos – seja ou não causa directa determinada partida de futebol – são o corolário lógico da orgia de dinheiro, obscuridade e desmando, continuando a manchar o desporto e a esperança de termos uma sociedade decente.

            Darwin – voltando ao princípio – é um jovem que segue um sonho e tem talento inequívoco, nada havendo a apontar-lhe. O que sim me despertou a atenção foi a coincidência dos nomes e o retrocesso que representa, num mundo repleto de carências e problemas de sustentabilidade, falarmos de 75 a 100 milhões de euros pelo contrato de uma só pessoa. O futebol já não é o desporto do povo; horas e dias das partidas, preços das assinaturas televisivas, dos bilhetes e das camisolas, e as decisões fulcrais são factores para CEOs, agentes e outra gente que não almoça ao nosso lado.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Escrita invisível com tinta laranja

                Chegado há pouco, confesso que estava curioso com o processo sucessório no PSD, depois do fragoroso fracasso do projecto de Rui Rio.

            Sobre o tema havia já lamentado o processo de trituração de talentos em que, há décadas, embarcou o partido, sendo muito difícil a mentes verdadeiramente livres contornarem as exigências de “chefes de blocos” que toleram com dificuldade individualidades sem prévia genuflexão.

            Claro que, como em tudo, há excepções quer do lado das personalidades bem-sucedidas quer do lado do “aparelho”, mas registo, no entanto, alguma rarefacção nas opções; onde antes havia fartura de opções de dimensão nacional e legiões de apoiantes conhecidos, hoje o leitor lutará arduamente para nomear meia-dúzia de rostos que ladeiem os protocandidatos.

            E neste ponto – a popularidade dos rostos perfilados – reside um aparente paradoxo: ao mesmo tempo que lamento a falta de personalidades conhecidas e reconhecidas na disputa (mormente se nos lembrarmos dos tempos do PSD até final da primeira década deste século), é de reconhecer que os que contornam minimamente a via-sacra e a vénia pedida pela máquina são, precisamente, os que logram ditar, com um mínimo de autonomia, o rumo a seguir.

            Aqui chegados, impõe-se uma ressalva: sem aparelho partidário não há - nem nunca teria havido – individualidades. O que discuto é a ideia (oxalá esteja errado) de que os órgãos de circunscrição foram expandindo competências, promovendo o distanciamento de muitos valores da sociedade portuguesa indisponíveis para trocar carreiras de êxito por cadernos de encargos que acrescem à necessária dedicação à participação cívica.

            Mas falemos então do processo em curso: até agora, leio que há um candidato a quem se promete um passeio olímpico e vários outros que podem assegurar um espaço para batalhas futuras. Sendo cedo, apreciaria, não obstante, conhecer ideias e sobretudo o plano de recuperação do PSD, com uma análise e interpretação do último naufrágio como ponto de partida, preferivelmente não limitadas à fulanização em Rio, por muito que neste possa residir parte da explicação.

            Seria de aplaudir o surgimento de projectos empolgantes, mobilizadores e eficazmente comunicados, e não frases sobre os dias que faltam para decidir ou sobre as condições para avançar. Do que os militantes do PSD, em particular, e os eleitores, em geral, necessitam é de saber quem e a razão pela qual avança, sob pena de se eternizar o PS como o maior partido nacional e de continuarmos a ver a manta a encolher à direita.

terça-feira, 1 de março de 2022

Focinho de porco não é tomada

 No momento em que escrevo ainda decorrem conversações entre Ucrânia e Rússia. Contudo, o que digo, em meu entender, permanecerá válido.

Devo dizer que fui presidente do grupo parlamentar de amizade Portugal-Rússia e que aprecio muito este paíse o seu povo. Porém, há valores que são inegociáveis – entre eles, a autodeterminação e a democracia – e há coisas que, por firmes que sejam as justificações dadas(aproximação da NATO e alegada criação “administrativa”da Ucrânia), permanecem inaceitáveis; um focinho de porco pode ser parecido mas nunca será uma tomada…

Afirmo, portanto, que condeno veementemente a invasão russa, que vejo como um crime. Dito isto, sem embargo, apreciemos o outro lado da moeda: em primeiro lugar, noutro momento haverá que ver quem andou a estimular os bravos ucranianos com a adesão à NATO, para depois invocar a sua não integração como pretexto para não intervir.

Por outro lado, entendo que a política externa da União Europeia continua a ser obesa e flácida. Obesa porque se move com dificuldade: ante as ameaças de Putin à Suécia e à Finlândia, a única reacção de uma “senhora” respeitável era um repúdio mais veemente e mesmo uma mobilização militar fronteiriça imediata (quando há vontade, os caminhos jurídicos desenham-se) para mostrar a Putin que não faz farinha com uma Europa unida.Flácida porque pouco firme: Josep Borrell, chefe da diplomacia europeia, afirmou que as presentes sanções aos oligarcas russos que usam dinheiro sujo vão castigar a Rússia. Pois bem, se já se sabia, por que razão foi necessário esperar uma invasão para actuar? 

Por fim, algumas palavras sobre figuras tristes: o primeiro “limão” vai para a FIFA e a UEFA que, cada vez mais, se afirmam como comerciantes. A selecção russa pode jogar, mas sem hino e nome do país?! Mesmo que corrijam, a palhaçada está feita.

Por fim, vergonha nacional pela posição do PCP que, sendo um achado jurássico-estalinista no contexto europeu, beneficia de uma tolerância que não entendo, mesmo se olhado o 25 de Abril; se fosse pelos nossos camaradas tínhamos acabado como lacaios da União Soviética. Este é o mesmo partido que apoiou o golpe de Yanayev contra Gorbatchev, recebeu e lamentou a morte de Fidel Castro, defende as qualidades do regime norte-coreano e aplaude Maduro. A própria complacência com o comunismo só pode justificar-se com o facto de a URSS estar entre os vencedores da II Guerra Mundial. Seria bom que os nossos políticos dessem menos atenção aos desventurados que a não merecem e se concentrassem também nesta moralmente abjecta peça de museu.

Deixo, no entanto, um sublinhado final para os louváveis exemplos de solidariedade para com a Ucrânia por parte das democracias e dos povos ocidentais, de muitos astros da música e do desporto e mesmo de muitos cidadãos russos.

A Putin resta-lhe deixar de disfarçar e assumir-se como ditador puro e duro, dado que não creio que mesmo seu povo apoie esta criminosa conduta.

quinta-feira, 29 de março de 2018

O último parecer


          Depois dos estimados Victor Gaspar e José Alberto Pereira Coelho (o imparável Zé Beto), outro amigo me deixou cada vez mais só a olhar para a tristeza política actual; morreu o meu amigo e mestre João Calvão da Silva.
            Sem saber bem como prestar homenagem a uma figura muito mais relevante do que eu, preferi dar-vos uma série de “polaroides” da minha convivência com o Professor Doutor Calvão da Silva.
            Foto 1: corria o ano de 1992 e Paulo Pereira Coelho chama-me para me apresentar o candidato à liderança distrital do partido, liderava eu a JSD. Retenho um diálogo muito cordial e, algo que viria a ser constante, uma preocupação do Professor pela parte académica, perguntando como iam os estudos (viria a ser seu aluno nas cadeiras de Direito Processual Civil e Direito das Empresas).
            Foto 2: já na faculdade, faço uma colagem de fotografias. Lembro-me de estar à conversa com os colegas, quando para meu espanto e gáudio daqueles o Prof. Calvão me agarra pelo braço, dizendo “vamos fazer política”, algo a que se seguiram várias voltas pelos Gerais. Esta prática viria, respeituosa e bem-humoradamente, a ser designada por Nuno Freitas de “passeio peripatético à Calvão da Silva” (alusão ao método pedagógico da escola filosófica grega).
            O outro momento “escolar” teve a ver com uma oral de Processo Civil. Tratava-se de uma melhoria de nota e a ela fui “intimado” pelo zelo do Professor. No início da mesma e no seu decurso, mais uma prova da integridade e do empenho académico de meu Mestre, pedindo que a oral tivesse assistência, para afastar suspeitas de conluio laranja. Correu bem…
            Foto 3: se me não atraiçoa a memória, foi em 1993 que o meu léxico e a minha investigação seriam avaliados e impulsionados pelo Professor, num jantar partidário, em Poiares. O primeiro momento apareceu quando me contava a mim e ao Nuno Freitas que, noutra ocasião recente, fizera um “discurso trans-partidário”. Tudo isto ficaria sem registo não fora o facto de o Professor nos ter perguntado: “sabem o que quer dizer trans?”… A partir daí, perdi a conta às vezes em que o maçávamos chamando-lhe “trans-Professor” e perguntando pelos “trans-discursos”, algo que Calvão da Silva “encaixava” com britânico (ou coimbrão) “fair-play”… No mesmo jantar, uma frase do Professor sobre a relação dos media com a política, fez com que lhe dissesse que me tinha dado uma ideia. Anos mais tarde, tal daria uma tese de mestrado e um livro.
            Foto 4: por esses anos recordo uma miscelânea de momentos marcantes como o orgulho com que, na imposição de insígnias, sublinhou a sua mãe que das origens comuns saíra um professor de Coimbra, o encontro em Budapeste e o convite para ver o seu Benfica (aguardo visita policial), e a pergunta, em 95, sobre de devia contratar o “Bicho” (trata-se de Iran Costa e do seu sucesso do momento, tendo o meu conselho sido o de aceitar, resultando num êxito nos comícios de Coimbra e da Figueira da Foz).
            Foto 5: contudo, o momento mais marcante terá sido a frase que me revelou antes de a pronunciar numa Assembleia Distrital; “há ideiais do comunismo que permanecem válidos”. Calvão da Silva era um social-democrata de mão cheia.
            Este formato não visa caricaturar; quer, isso sim, demonstrar que João Calvão da Silva me marcou como mestre, como líder e como amigo. Esse será o parecer que sempre guardarei comigo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Cortejo dos condenados

Anda o nosso País a festejar o Carnaval (aqui no Brasil nem vos conto…) e tento perceber que imagem colhe alguém que o mira de fora.

Verdade seja dita, apesar de ser inquestionável e inegociável o meu patriotismo, fico com a sensação de que a história se vai repetindo, como se todo o ano estivéssemos condenados a manter-nos à tona de água, sem sair de um cortejo com mais toques de marcha de condenados do que de euforia carnavalesca.

Senão vejamos: a novela em torno da apresentação da declaração de rendimentos de António Domingues prolonga-se indefinidamente, chegando já ao correio electrónico e às mensagens telefónicas. Que não se iluda o leitor! Considero essencial o apuramento da verdade sobre o que disse o Ministro das Finanças e quem mais interessar ouvir, dada a importância da Caixa Geral de Depósitos e, mais do que isso, do valor ínsito da verdade. Porém, parece pouco para ser o assunto do dia de uma Nação velha de mais de oitocentos anos.

Em registo idêntico classifico a não divulgação da fuga de capitais para paraísos fiscais. É grave? Gravíssimo! Mas e o que temos para além disso? Offshores e Paulo Núncio são o novo capítulo dos manuais de História de Portugal, daqui a trinta anos? Oxalá que não…

Morbidamente divertido acaba por ser o facto de os partidos (vê-se bem no PSD) ainda não terem associado o nível rasteiro do quotidiano político à dificuldade de recrutar gente de nomeada para concorrer às autarquias (isto a mais de alguns dos actuais dirigentes locais e distritais terem ando divertidíssimos a decepar cabeças pensantes e, logo, pouco dadas a obediências acríticas).

Quem tenha uma carreira de sucesso e a liberdade de pensamento como pedra de toque do seu existir dificilmente quererá trocar a sua realização pessoal por salários que já pouco têm de principesco e sujeitar-se a gerir escândalos, sem a real sensação de que podemos dar saltos de qualidade.

Apesar de tudo, guardo boa dose de expectativa para o embate entre Manuel Machado e Jaime Ramos, sendo que este último me parece ser umas das excepções às dificuldades de recrutamento laranja que mencionei. Espero, todavia, que o debate fuja à banalidade e ao ajuste de contas. Li por estas páginas que o Presidente-recandidato resolveu problemas graves com o Convento de São Francisco, o que se torna num convite à oposição para recuperar o tema da Ponte Rainha Isabel… Creio que Coimbra precisa de ideias e não de contabilidade política.

Vendo ao longe, fica a ideia de que parecemos condenados a pagar a conta do leiteiro, da luz e da mercearia e a ver se os trocos do fim do mês chegam para ir à praia. Com franqueza, parece pouco para quem fez, como dizem, a primeira globalização…

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Donald não é pato

Com as evidentes e importantes distâncias, vejo os protestos madrugadores contra a posse de Donald Trump quase como vejo a resistência dos taxistas à Uber: a prazo, vale o mesmo que espetar o dedo numa fenda de uma barragem.

Diria mesmo que as proezas do Presidente norte-americano apenas foram espoletadas, já que, depois de telefonemas de Taiwan e para Moscovo, e de revogações de tudo e mais umas botas, conseguiu mesmo, segundo fontes lidas, fazer tremer uma certeza que tinha como bíblica, virando Maria Vieira contra Ana Bola.

Brincadeiras à parte, a verdade é que existe um ponto de vista analítico de que devemos partir: Trump ganhou as eleições, competindo a quem deseje demonstrar o contrário (estribado em interferências russas ou outras acusações). E nem vale a pena repetir as lamúrias sobre os (muitos) votos a mais que teve Hillary. O sistema eleitoral não pode ser um exemplo democrático quando ganham os favoritos dos artistas e jornalistas, e uma maquinação demoníaca quando vence o patinho feio (neste caso, o Donald).

Não quero, com o que já vai dito, que fique a ideia de que subestimo o que temos em mãos. Desamparar os mais desfavorecidos nos EUA pode gerar convulsão num país que necessitamos de ter estável e atento ao mundo. Por falar nele, “America first” significa que o nosso irmão maior vai deixar de nos defender nas bulhas que vêm por aí e que se antevêem cada vez mais perigosas. Por seu turno, impedir a circulação de muçulmanos em modo lato apenas lançará fermento de ódio em massas já inclinadas a acreditar em patranhas que incitam à violência contra o “outro”, só porque é outro. Um muro, qualquer que ele seja, divide e aumenta ressentimentos. E por aí fora…

Porém, voltamos à mesma: a constituição americana permite tudo isto? Parece que sim.

Este Donald, assim, é todo menos pato e, escorado por uma péssima escolha de opositor por parte do Partido Democrata, limitou-se a cavalgar os medos que assolam as sociedades contemporâneas, muitos dos quais causadas por predadores económicos como ele próprio, os quais, sem preocupação com uma redistribuição mais justa da riqueza, foram subjugando milhões aos vendedores de falsas esperanças.

Talvez resida neste momento o despertar de uma Europa balofa e frouxa que achou que a invasão da Ucrânia e o Brexit eram culpa exclusiva de, respectivamente, russos e ingleses (os britânicos mais ansiosos por sair da UE). Já era tempo de os franceses pararem de pensar que são a Luz, de os alemães entenderem que economias sãs hão-de resolver todos os problemas, de os portugueses se fiarem nos brandos costumes para passar entre os pingos da chuva, etc, etc… E, já agora, também vinha a calhar que os comissários, eurodeputados e milhares de burocratas que sustentamos a pão-de-ló acabassem com discursos redondos para justificar as sinecuras, passando a uma retórica substanciada, motivadora e que responda aos problemas reais; os mesmos para os quais buscaram respostas os eleitores de Trump…

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Há petróleo no Beato

Depois de um longo interregno, resolvi voltar a escrever umas linhas em prol da minha sanidade mental. Não é que tenha interrompido, suspendido ou até castrado o meu espirito crítico, mas espaços como o Facebook ou o twitter, não são propriamente espaços de reflexão mais profunda.

Hoje senti-me seduzido a escrever algumas linhas sobre o suposto memorando de entendimento relativo à passagem da gestão da Carris para a CML e para melhor enquadrar esta questão, recorri a algumas passagens que tenho lido por aí.

Em Novembro de 2014 Costa Presidente da Câmara de Lisboa dizia o seguinte:
"Entre as competências que a câmara se propõe assumir estão as de “planeamento e gestão das redes e frotas”, “fixação de tarifas e preços” e “definição de níveis de serviço e de objectivos de gestão operacional”. Quanto às indemnizações compensatórias, António Costa diz que “partilhará com o Estado os encargos anuais a pagar à Carris e ao Metro, de acordo com um critério de repartição financeiramente sustentável e adequado à partilha de riscos a estabelecer”. Esta visão contraria a visão do Governo, que pretende eliminar por completo estes subsídios, que são pagos pela prestação de serviço público. Aliás, na proposta do Orçamento do Estado para 2015 as indemnizações são reduzidas em 85 milhões de euros, restando apenas os apoios aos passes sociais +. "

e conluía:
"Como “pressupostos” para que a câmara fique com a gestão das operadoras de transportes, o seu presidente elenca a assunção pelo Estado da sua dívida histórica, “incluindo os encargos decorrentes do leasing do material circulante”, a definição de um acordo “sobre um plano de investimentos estruturais para o período da parceria” e de um outro “quanto a compensações sociais”, por exemplo “em matéria de passes sociais”.     

Volvidos 2 anos, agora Costa como Primeiro Ministro e Medina como Presidente da CML, somos surpreendidos com este memorando de entendimento. Mas, o mais estranho de toda esta história, é que ninguém conhece o conteúdo do tal documento e por isso ao melhor estilo da esquerda dita democrática, já se encarregaram de informar o que o Povo precisa de saber.

E esta semana, Costa Primeiro Ministro, presenteia-nos com as seguintes afirmações:
"Carris não é para produzir EBITDA. É para transportar pessoas"
"Desobrigamos os portugueses a financiarem os transportes dos lisboetas"

E Fernando Medina acrescenta:
"A partir do próximo ano, a gestão da Carris passa para a Câmara de Lisboa, mas a sua dívida permanece no Estado. A empresa será financiada com as verbas do estacionamento, multas de trânsito, IUC "e o que for necessário", como referiu Fernando Medina na cerimónia realizada esta segunda-feira."

Segundo estas mentes iluminadas, resolveram um problema com mais de 40 anos, o tema está esclarecido e não há mais explicações a dar.

O caricato disto tudo, é que Costa como Presidente da CML, exigia a Passos Coelho que o estado continuasse a pagar os leasings em vigor e demais custos financeiros, para além dos custos de um novo plano de investimentos e das compensações em matéria de passes sociais.

Agora na pele de Primeiro Ministro afirma, "Desobrigamos os portugueses a financiarem os transportes dos lisboetas"  e aqui reside a principal dúvida/mentira ou por outras palavras o principio de mais uma narrativa com um triste epílogo.

Antes com Passos Coelho ,os Portugueses tinham que continuar a financiar os transportes de Lisboa, agora já não vão contribuir mais para esse peditório e portanto emerge assim outra e não menos importante questão:

Segundo sabemos e é público, a CML continua deficitária ao ponto de ter cancelado algumas obras por falta de financiamento. Não foi por acaso, que pela primeira vez lançaram mão de novas taxas e impostos, sobre o turismo, resíduos, etc... e como é que de repente, tem folga em receitas como, multas de transito e IUC ? Todos sabemos que estas receitas são uma gota de água quando comparadas com o défice estrutural anual da Carris?

Depois de muito pensar, encontrei a explicação. Quando se trata de temas cobertos de uma enorme opacidade, o diabo está sempre nos pormenores e nas entrelinhas, senão vejamos:

Desde quando é que António Costa sabe o que é o EBITDA e esclareço: Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Ora bem, esta palavra não apareceu por acaso, foi com certeza usada por alguém, que explicou a António Costa, que a Carris depois das restruturações de que tinha sido alvo, tinha um EBITDA positivo ou próximo disso e só assim se explica que a CML consiga assumir a gestão corrente da Carris, ficando alguém com todas as outras parcelas, juros, impostos, depreciações e amortizações.

Esclarecido isto posso concluir que, António Costa mentiu aos Portugueses quando afirmou que deixavam de financiar os transportes dos Lisboetas e Medina omitiu o mais importante, quando afirmou que recorre "ao que for necessário" para viabilizar a solução.

A não ser nenhum destas hipóteses e como muito bem satirizava Raul Solnado "Há petróleo no Beato.

P.S.
Há Petróleo no Beato é um drama, comédia e revista à portuguesa de 1986. Foi protagonizado por Raul Solnado
Numa conjuntura de instabilidade mundial provocada pelas primeiras crises petrolíferas do século passado, uma modesta família portuguesa é surpreendida pela descoberta de que tem no quintal a solução dos seus problemas financeiros e até mesmo os do País. 





quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O pato e o Donald


Comprovando a importância capital dos EUA no Mundo, a vitória de Donald Trump, com a extraordinária explosão dos meios de comunicação, já foi alvo de opiniões por parte de todos e mais um. Em lugar de procurar ser diferente, deixo-me ir neste rio (palavra heterodoxa para os sociais-democratas. Quem diria?!) de palpites…

E a primeira cogitação tem precisamente a ver com a rotunda falha de quem se aventurou nas previsões, salvo honrosas excepões; o neófito tem nome de pato, mas foi a maioria dos analistas quem fez figura de pato, se não mesmo de urso.

Depois e como as primeiras declarações e omissões (por exemplo, o desaparecimento da menção à interdição de entrada de muçulmanos) parecem prenunciar, uma coisa é a retórica do candidato, outra é o pronunciamento futuro do presidente. E, aqui chegados, não vale a pena os cronistas pseudo-intelectuais rasgarem as vestes em sinal de indignação ante uma putativa hipocrisia: é precisamente a profusão incontinente de crónicas e a sede vampiresca de directos que obriga a que qualquer candidato que queira aparecer (e, logo, existir) tenha que percorrer a estreita linha de fronteira entre a declaração tribunícia e a demagogia populista.

Acresce que, como tantos outros nos últimos anos, este resultado é apenas mais um aviso dos eleitorados, em tom moderado, para uma classe política falida, putrefacta e, não raras vezes, corrompida. Embora veja as maleitas como bem suaves no nosso Portugal, comecei por identificar a tendência quando, há anos, Salazar foi eleito como o maior entre os “Grandes Portugueses”. Já então estava em crer que ninguém queria efectivamente o regresso do Professor; do que se tratava (quase nenhum analista ou deputado chamado a perorar o percebeu, diga-se) era de aspergir bílis sobre um conjunto de políticos e forças partidárias que, perpetuando-se, se revelavam incapazes de nos tirar do tradicional “um dia voltaremos a ser grandes”.

Mas, por todos os lados, há alertas que ainda (que eu tenha lido ou escutado) nenhum líder compilou e explicou de forma integrada: Chávez, Correa, Morales, Kirchner, Marine Le Pen, a extrema-direita alemã, Farage, Orbán, e outros que são farinha do mesmo saco, independentemente da percentagem de trigo (parte em que assumo que simplifico em demasia e misturo componentes locais para chegar a um corolário urbi et orbi, passo a heresia).

Votaram, assim, os esquecidos pela classe política e os isolados das urbes, mas votaram também os que legitimamente têm medo do terrorismo (em vez de aceitarem que continuemos a assobiar para o lado, esperando que, tendo que acontecer, só aconteça aos outros), os que temem pela perda do seu trabalho (com o conto da inevitabilidade, os políticos com lugar seguro vão precarizando mais e mais o trabalho dos outros) e, no fundo, todos aqueles a quem a globalização e a erosão do estado-nação assustam (nem ousem recrimina-los, pois imagino que 90% da nossa Assembleia da República seja incapaz de começar sequer a explicar o fenómeno aos seus concidadãos…).

Mais haveria a dizer, mas termino com uma ideia, citando Jorge Jesus (pensador com perfil adequado para o gabinete de Trump, aliás): “foi limpinho, limpinho”!

domingo, 13 de novembro de 2016

E se deixássemos de ser parolos?!



No mural de um amigo em determinada rede social leio acirrada defesa do Sport Lisboa e Benfica. O cidadão em causa é um indivíduo com actividade cívica conhecida e reconhecida, e a instituição que defende é prestigiada. No entanto, dou comigo a pensar: por que diabo não defende esta alma o clube da terra?! Faltam méritos ao braço futebolístico de uma Associação velhinha de 129 anos?!


Não representa a Associação Académica de Coimbra/OAF, a mais de um grupo dedicado ao pontapé na bola, uma forma de estar na vida corporizada pela casa mãe?!


Não é historial da Briosa honroso de um ponto de vista desportivo, mas também no que já fez por princípios tão importantes como a liberdade?!


E para quem ande a guerrear com base em cores (li que um jogador de um alegado “grande” foi impedido de estacionar junto dos colegas por ter um carro com a cor de um rival), haverá maior elegância do que um negro integral?


A resposta é simples: quem é de Coimbra ou por lá passou deveria amar a Briosa e tudo o que ela representa e, mais do que isso, habituar os filhos a entenderem que não temos que ser todos vermelhos, azuis ou verdes.


A mais disso, bem sei o quanto é bom ganhar. Todavia, as vitórias numéricas não são tudo na vida. O brio de defender uma cidade e uma universidade repletas de história e beleza, a honra de estar em campo em nome de uma maneira de ver o desporto como uma prática alicerçada em valores e os atletas como algo mais do que cavalos de corrida, o orgulho de pertencer a um grupo exclusivo dada a excelência de comportamento que se exige a um academista; tudo isto, dizia, representa um acervo de argumentos com o qual poderíamos exaltar o fervor coimbrão e a saudade daqueles que o viveram, embora sejam de outras paragens.


Todavia, é importante não embarcarmos nós próprios na histeria colectiva que parece tripartir os demais portugueses. É, por isso, imperioso meditar sobre o que nos falta para remar contra a maré.


Desde logo, tradição. O Portugal da bola é assim mesmo, e os media não vão deixar que seja de outro modo. Como se venderiam três diários desportivos de outra forma? Como se suportariam tantos e tão quezilentos programas televisivos de suposto debate (na realidade mais parecem documentários sobre boçalidade)?


Depois há um trabalho que compete aos dirigentes. Dei várias ideias no meu tempo, mas outros valores se ergueram com maior urgência e entusiasmo por parte dos meus pares…


Em terceiro lugar, com um estádio com capacidade para cerca de 20% da população residente, será sempre um pouco difícil operar milagres, embora defenda acerrimamente a localização do mesmo. Tirando o localizado fenómeno vimaranense (pese embora escorado em argumentos muito diferentes daqueles que julgo estarem na essência da Associação Académica de Coimbra), a indigência é a nota marcante das assistências da esmagadora maioria dos estádios portugueses.


Por fim, com a concorrência de azuis, vermelhos, verdes, e de todas as estupendas ligas que passam na televisão, é necessário um futebol vistoso e que entretenha.

E se deixássemos de ser parolos?!



No mural de um amigo em determinada rede social leio acirrada defesa do Sport Lisboa e Benfica. O cidadão em causa é um indivíduo com actividade cívica conhecida e reconhecida, e a instituição que defende é prestigiada. No entanto, dou comigo a pensar: por que diabo não defende esta alma o clube da terra?! Faltam méritos ao braço futebolístico de uma Associação velhinha de 129 anos?!


Não representa a Associação Académica de Coimbra/OAF, a mais de um grupo dedicado ao pontapé na bola, uma forma de estar na vida corporizada pela casa mãe?!


Não é historial da Briosa honroso de um ponto de vista desportivo, mas também no que já fez por princípios tão importantes como a liberdade?!


E para quem ande a guerrear com base em cores (li que um jogador de um alegado “grande” foi impedido de estacionar junto dos colegas por ter um carro com a cor de um rival), haverá maior elegância do que um negro integral?


A resposta é simples: quem é de Coimbra ou por lá passou deveria amar a Briosa e tudo o que ela representa e, mais do que isso, habituar os filhos a entenderem que não temos que ser todos vermelhos, azuis ou verdes.


A mais disso, bem sei o quanto é bom ganhar. Todavia, as vitórias numéricas não são tudo na vida. O brio de defender uma cidade e uma universidade repletas de história e beleza, a honra de estar em campo em nome de uma maneira de ver o desporto como uma prática alicerçada em valores e os atletas como algo mais do que cavalos de corrida, o orgulho de pertencer a um grupo exclusivo dada a excelência de comportamento que se exige a um academista; tudo isto, dizia, representa um acervo de argumentos com o qual poderíamos exaltar o fervor coimbrão e a saudade daqueles que o viveram, embora sejam de outras paragens.


Todavia, é importante não embarcarmos nós próprios na histeria colectiva que parece tripartir os demais portugueses. É, por isso, imperioso meditar sobre o que nos falta para remar contra a maré.


Desde logo, tradição. O Portugal da bola é assim mesmo, e os media não vão deixar que seja de outro modo. Como se venderiam três diários desportivos de outra forma? Como se suportariam tantos e tão quezilentos programas televisivos de suposto debate (na realidade mais parecem documentários sobre boçalidade)?


Depois há um trabalho que compete aos dirigentes. Dei várias ideias no meu tempo, mas outros valores se ergueram com maior urgência e entusiasmo por parte dos meus pares…


Em terceiro lugar, com um estádio com capacidade para cerca de 20% da população residente, será sempre um pouco difícil operar milagres, embora defenda acerrimamente a localização do mesmo. Tirando o localizado fenómeno vimaranense (pese embora escorado em argumentos muito diferentes daqueles que julgo estarem na essência da Associação Académica de Coimbra), a indigência é a nota marcante das assistências da esmagadora maioria dos estádios portugueses.


Por fim, com a concorrência de azuis, vermelhos, verdes, e de todas as estupendas ligas que passam na televisão, é necessário um futebol vistoso e que entretenha.

E se deixássemos de ser parolos?!



No mural de um amigo em determinada rede social leio acirrada defesa do Sport Lisboa e Benfica. O cidadão em causa é um indivíduo com actividade cívica conhecida e reconhecida, e a instituição que defende é prestigiada. No entanto, dou comigo a pensar: por que diabo não defende esta alma o clube da terra?! Faltam méritos ao braço futebolístico de uma Associação velhinha de 129 anos?!


Não representa a Associação Académica de Coimbra/OAF, a mais de um grupo dedicado ao pontapé na bola, uma forma de estar na vida corporizada pela casa mãe?!


Não é historial da Briosa honroso de um ponto de vista desportivo, mas também no que já fez por princípios tão importantes como a liberdade?!


E para quem ande a guerrear com base em cores (li que um jogador de um alegado “grande” foi impedido de estacionar junto dos colegas por ter um carro com a cor de um rival), haverá maior elegância do que um negro integral?


A resposta é simples: quem é de Coimbra ou por lá passou deveria amar a Briosa e tudo o que ela representa e, mais do que isso, habituar os filhos a entenderem que não temos que ser todos vermelhos, azuis ou verdes.


A mais disso, bem sei o quanto é bom ganhar. Todavia, as vitórias numéricas não são tudo na vida. O brio de defender uma cidade e uma universidade repletas de história e beleza, a honra de estar em campo em nome de uma maneira de ver o desporto como uma prática alicerçada em valores e os atletas como algo mais do que cavalos de corrida, o orgulho de pertencer a um grupo exclusivo dada a excelência de comportamento que se exige a um academista; tudo isto, dizia, representa um acervo de argumentos com o qual poderíamos exaltar o fervor coimbrão e a saudade daqueles que o viveram, embora sejam de outras paragens.


Todavia, é importante não embarcarmos nós próprios na histeria colectiva que parece tripartir os demais portugueses. É, por isso, imperioso meditar sobre o que nos falta para remar contra a maré.


Desde logo, tradição. O Portugal da bola é assim mesmo, e os media não vão deixar que seja de outro modo. Como se venderiam três diários desportivos de outra forma? Como se suportariam tantos e tão quezilentos programas televisivos de suposto debate (na realidade mais parecem documentários sobre boçalidade)?


Depois há um trabalho que compete aos dirigentes. Dei várias ideias no meu tempo, mas outros valores se ergueram com maior urgência e entusiasmo por parte dos meus pares…


Em terceiro lugar, com um estádio com capacidade para cerca de 20% da população residente, será sempre um pouco difícil operar milagres, embora defenda acerrimamente a localização do mesmo. Tirando o localizado fenómeno vimaranense (pese embora escorado em argumentos muito diferentes daqueles que julgo estarem na essência da Associação Académica de Coimbra), a indigência é a nota marcante das assistências da esmagadora maioria dos estádios portugueses.


Por fim, com a concorrência de azuis, vermelhos, verdes, e de todas as estupendas ligas que passam na televisão, é necessário um futebol vistoso e que entretenha.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

"Um Imenso Portugal?" - I

O início do processo de cassação do mandato da Presidente Dilma Rousseff (impeachment, seguindo a moda) paralisou o Brasil e chamou a atenção dos demais países, como não poderia deixar de ser, atendida a dimensão deste gigante quase continental.

 Dando por sobejamente explicado nos media o processo em si, partilho algumas reflexões pessoais. A primeira delas tem a ver com o facto de entender que, ante a já mencionada dimensão do país, o início da queda de Dilma é o fim da ilusão populista na América Latina, pelo menos nos actores de dimensão significativa. Sei mesmo que muitos venezuelanos rejubilaram com o resultado da votação domingueira, precisamente por sublinhar com tintas mais fortes o letreiro de “A Prazo” que já pairava sobre Miraflores (palácio presidencial).

 Primeiro veio a derrota fragorosa dos herdeiros de Cristina, na Argentina. Depois, a conversão de Correa (Equador) ao pragmatismo. A contrario, o desenvolvimento notório da Colômbia. Agora, o mais do que provável “despedimento” de Dilma… Tudo sinais de que o sonho (a encenação – riscar o que não interessa, como nos impressos antigos) bolivariano de Chávez entrou numa derrocada irreversível. Contudo, mais do que o episódico rolar de cabeças, a leitura que faço é a de que, efectivamente, caiu a máscara dos populismos de esquerda que prometiam um mirífico igualitarismo alternativo à economia de mercado vigente nos países ocidentais, e que vieram a revelar-se propostas económicas desastrosas, projectos sociais incentivadores de indolência e corrupção, e até, em certos casos, alfobres de protoditaduras. A Venezuela será uma questão de tempo, e a Bolívia um teste ao contorcionismo político de Morales.

 Já na Europa, provando que até nos dislates perdemos a liderança, Bloco de Esquerda, Podemos e Syriza estão para lavar e durar, embora sem a mesma perspectiva de triunfo dos congéneres latino-americanos.

 O segundo corolário que extraio do ocaso da presidente brasileira poderá ser polémico, mas é algo sobre que especulo com convicção: sendo a primeira mulher a assumir a presidência Brasileira e partindo da premissa, como parto, de que a principal causa da queda verdadeiramente inerente a Dilma Rousseff foi a sua incompetência, tal comprova que a competência e uma série de outras qualificações nada têm a ver com questões de género e não são passíveis de controlar por um sistema de quotas.

 Note-se que a Presidente em vias de “despedimento” não foi eleita por qualquer sistema de quotas, nem tão pouco quero encetar um libelo contra as mulheres. Nada disso! Quero apenas contrariar a ideia de alguns histéricos da extrema-esquerda de que pertencer a minorias supostamente discriminadas é uma graduação social… O raciocínio equilibrado seria, pura e simplesmente, combater as discriminações (sou totalmente favorável) e reconhecer que nem todos os homens são incompetentes (algo que creio, para ser intelectualmente honesto, nunca esteve em causa), como nem todas as mulheres são competentes, como Dilma prova à saciedade. Daí a minha descrença em sistemas quantitativos de indigitação.

 (a continuar)

quarta-feira, 23 de março de 2016

Falinhas mansas

E lá chora a Europa com mais um nojento atentado, desta vez na Bélgica…

A mais do evidente repúdio e da óbvia revolta, creio que é tempo de acabar com as falinhas mansas.

É bonito e eticamente gratificante falar de direitos humanos e do quão elevada é a alegada superioridade axiológica da civilização ocidental, em geral, e da construção europeia, em particular, mas o facto é que essa “conversa” começa a saber a pouco às cada vez mais numerosas famílias das vítimas de atentados, aos refugiados e populações de “desembarque”, aos inocentes cidadãos que se vêem confrontados com um crescente número de medidas restritivas da sua liberdade (designadamente, de circulação), e a todos quantos, directa ou indirectamente, associam a vida em sociedade ao respeito recíproco (que lirismo o nosso, ao que parece…).

Desde logo, importa que os líderes religiosos que pregam na Europa e, na medida do possível, os que ensinam a fé muçulmana nos países cujas populações observam essa respeitável e ancestral confissão, comecem a passar da mera condenação ao acto de denunciar quem suja o nome de Alá com actos que nada têm a ver com o verdadeiro Islão. Não basta continuar a dizer que quem o faz é inimigo da fé; é necessário punir ou entregar quem inquina de forma tão vil e cobarde a paz mundial.

Depois, seria relevante entender até quando estaremos dispostos a ser uma civilização castrada, na Europa. O facto é que, em nome da suposta e mencionada superioridade do nosso modo de ver o ser humano e a vida, com as honrosas excepções do Reino Unido (quase sempre) e da França (algumas vezes), em homenagem a restrições orçamentais, por causa de medo de baixas próprias e colaterais (as mesmas que os atentados desconsideram e de que os terroristas se riem) – por tudo isto, dizia – não debelamos este anátema, não cortamos o mal pela raiz, não destruímos estes canalhas… E quando o digo, digo-o dentro e fora de portas. No primeiro caso, havendo ninhos de víboras claramente identificados nas metrópoles europeias, é urgente acabar com a auto-restrição imposta pela esquerda radical (que agora assobia para o ar, como se o estado abúlico em que vivemos não fosse fruto de anos de desconstrução da lei e ordem, sob a acusação idiota de reminiscências fascistas) e permitir às polícias que, observados os direitos fundamentais de presumíveis inocentes, não se detenham por anacrónicos limites horários, impedimentos de rastreamento tecnológico ou medo de usar a força proporcional e necessária para o combate deste flagelo (a verdade é que, mesmo que o infractor seja brutal, aparece sempre um trotskista armado em moralista a falar de violência policial, mesmo quando esta, que é condenável, não existe).

Se continuarmos nesta “anarquia mansa”, os Trump deste mundo começarão a ganhar nos EUA, na Polónia, na Hungria, na Rússia e por aí fora…


Não reagir com mão firme, ao invés do que possa parecer, é precisamente a forma de caminharmos para um Estado securitário, para uma Europa fortaleza e para o fim de uma Era.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Vão chamar pai a outro


A propaganda do Bloco de Esquerda que diz que “Jesus também tinha dois pais” (comemorando a aprovação da adopção por casais do mesmo sexo) é, antes de mais, uma questão de mau gosto e de deliberada ofensa aos que não concordam com aquela organização intelectualmente totalitária.


E começo por aqui mesmo: o BE arvora-se em campeão das liberdades democráticas, mas é, provavelmente, a mais intolerante, discriminatória e agressiva força parlamentar. Quem não concorda com a mixórdia de marxistas-leninistas arrependidos, trotskistas psicadélicos, maoístas bafientos e anarquistas-chiques é apelidado de reaccionário, inimigo da democracia e outras coisas mais que, com apoio de grande parte da classe jornalística (que mistura a revolta contra o patronato com a função de megafone da extrema-esquerda), servem para menorizar e intimidar quem, legitimamente, defende ideia adversa.


Aliás, muitas das actividades de agitação e propaganda da nossa extrema-esquerda finória são “cool”, criativas e inovadoras porque são daquele lado da fronteira; se alguém do centro-direita ou mesmo do PS andasse em “topless” defendendo o direito ao corpo ou postergasse o nome de Cristo, imediatamente era derretido pelos escribas que cobrem o quotidiano bloquista.


Mas nada a fazer… Com colossal culpa dos “arcos da governabilidade” europeus, a bandalheira política entrou na moda, chame-se ela Syriza, Podemos ou Bloco de Esquerda (confesso mesmo que me enganei rotundamente ao prognosticar a erosão do BE; coisas de “emigrante”…).


Recentrando o assunto no enxovalho a Cristo, diria que a primeira coisa a desmistificar é a alegada propriedade de ideias como a adopção e o casamento de pessoas do mesmo sexo ou a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Nenhuma força política é dona dessas causas! Há milhares de cidadãos que, perfilhando ou não as orientações em debate, sempre se bateram pelo fim do que entendem como discriminações, sendo um insulto este aparecimento de um latifundiário intelectual das causas “justas”.


Depois, entendo que a Igreja Católica não poderia pedir mais. Ao mesmo tempo que “Spotlight” ganha um Oscar, relembrando o encobrimento de abusos sobre menores, o Bloco desperta uma onda de indignação entre católicos e outras pessoas de bem.


Por fim, não venha Marisa Matias demarcar-se da ideia, como se de um erro se tratasse. Foi deliberado e com intenção de enxovalhar.


Ou me engano muito, ou António Costa pagará um alto custo por esta bandeira de conveniência. Ele e todos nós…


Impedido de me expressar como Arnaldo Matos (MRPP) o fez recentemente, lamento e registo a ofensa.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

António Costa, eu nunca me vou esquecer de ti…

Lembras-te do colega de escola que se sentava sempre ao lado do professor para lhe dar graxa? Todas as pessoas sabiam que ele “não era grande espingarda” na matemática mas graças à lata que tinha e à argumentação que utilizava lá conseguia ter sempre um 3 + + para chegar ao 4 no final do ano letivo…
Lembras-te do colega de trabalho que se senta nas reuniões ao lado do chefe? Aquele que normalmente “não faz puto” mas lá consegue dar sempre a volta ao texto para justificar a sua incapacidade de trabalho e passar por entre as gotas da chuva sem se molhar…
Lembras-te do colega de brincadeira que só jogava futebol porque era o dono da bola? Não tinha jeito para a bola, mas era o que tinha o mote da brincadeira e por isso era uma obrigação acolhe-lo para que todos conseguisses jogar. Isto quando assim era, pois corríamos o risco de ele não querer jogar à bola o que significava que também não a partilhava com ninguém…
Pois, lembras-te não lembras???
Na vida política democrática de Portugal, por tudo isto, nunca te irás esquecer do António Costa!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O dia em que Houdini se afogou


Tentarei escrever esta prosa com o menor número de adjectivos e com a frieza possíveis em homenagem à moderação a que me sinto obrigado. Contudo, creio que o dr. António Costa poderá estar, politicamente falando, a meter-se numa numa camisa-de-onze-varas ou a criar, genialmente, o “auto-xeque-mate”.

Indo por partes, reafirmo que, a meu ver e usando noções sobre métodos eleitorais que espero não estejam desactualizadas, a coligação PSD-CDS, tendo mais votos e mais deputados eleitos, ganhou as eleições. Continuo a acreditar nisso, apesar de as últimas notícias me tenham feito ganhar esperanças de que a Briosa possa ir à Liga dos Campeões, aliando-se a clubes mais bem pontuados. E nem venham os puristas dizer que se não pode comparar política e futebol; em ambos os casos e salvaguardadas as evidentes diferenças regulamentares, é uma questão de pontos averbados...

Pode, por isso, soar a mau perder que as forças derrotadas queiram o que os portugueses não quiseram dar-lhe. Acredito que a mensagem eleitoral pode ser plasmada do seguinte modo: siga o Governo com o bom trabalho, mas com mais moderação e escutando propostas alternativas.

Pensar nem que seja num acordo de incidência parlamentar com PCP (dou por irrelevantes Os Verdes) e Bloco de Esquerda é suicídio a prestações: por um lado, porque estas duas formações radicais têm apenas dois caminhos possíveis: ou se “aburguesam” e desaparecem em próximas eleições por traição ao seu eleitorado, ou impõem os seus temas e arrastam o PS para fora da governabilidade europeia.

Por outro lado, porque esta originalidade aritmética pode custar a Costa a união do PS, tanto mais necessária quanto mais esotérico o acordo que fizer.

Ademais importa por os conceitos en su sitio: no caso do PCP, como podemos ver pelo quase estaticismo eleitoral, falamos de um partido parado no tempo e que espera que a lei da vida venha a erodir a sua base eleitoral, por muito que disfarce com a operação plástica que consiste em indigitar alguns deputados jovens. Trata-se do único partido comunista ocidental que apoiou o golpe contra Gorbatchev e que, mais recentemente, revelou dúvidas sobre o facto de a Coreia do Norte não ser uma democracia. Por fim, cumpre dizer que nem Mário Soares deu, alguma vez, tanto poder aos comunistas…

Já no caso do Bloco de Esquerda e como não sou apreciador de cocktails, não sei qual a sua composição actual, mas lembro-me de um tempo em que se descortinavam marxistas-leninistas, trotskistas, maoístas e até anarquistas na sua fórmula. É a propostas destas maravilhas ideológicas que podemos sujeitar-nos? E se já houve fracturas internas, como será quando tiverem que incensar a burguesia que, seguramente, vêem no PS?

Se for este o caminho, que não se iluda Costa: cedo ou tarde, a factura chegará e com IVA a 100%...

Já se escolher “tolerar” a coligação e derrubá-la um ou dois anos volvidos, provavelmente, arrisca nova maioria absoluta de PSD e CDS.

Há habilidades que podem sair caras. A ver vemos se sai da caixa de água em que se meteu.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

António Costa, acabou o recreio, larga o baloiço


Perante os resultados eleitorais, o Presidente da República fez uma declaração ao País em que colocou claramente quais as condições para dar posse a um novo governo, a saber:
- Uma maioria estável, acompanhada de um acordo relativamente ao cumprimento dos compromissos internacionais aos quais Portugal está vinculado. Com esta comunicação Cavaco Silva não poderia ter sido mais claro, União Europeia, Euro, Nato, tratado orçamental e metas quanto à dívida, só para citar alguns.

Ora, perante estas premissas em que apenas a coligação se revê, pelo menos a avaliar pelas posições assumidas durante a campanha eleitoral, Costa arriscou uma última cartada, formar uma coligação de esquerda com todos os rejeitados das eleições de 4 de Outubro, ignorando que o País não é Lisboa.

Acredito que neste momento, a maioria dos Portugueses andem apreensivos e preocupados, com a hipótese de termos um governo chefiado pelo grande derrotado destas eleições, acompanhado pelos igualmente derrotados BE e CDU. Nesta matéria estou calmo e pouco preocupado, por 3 razões:
1 – Cavaco Silva só dará posse a uma hipotética solução de governo à esquerda, se todos os partidos que compõem essa maioria integrarem o governo. Por outras palavras, nunca daria posse a um governo chefiado por António Costa, consubstanciado apenas e somente num acordo de incidência parlamentar, porque isso seria desvirtuar os resultados eleitorais e lançar o País numa instabilidade permanente. Instabilidade por instabilidade, daria posse a Paços Coelho, não só porque venceu as eleições, mas porque lhe daria mais garantias no caso de ter que optar por um governo de gestão.

2 – Mesmo que a suposta maioria de esquerda, conseguisse chegar a um acordo de incidência parlamentar, seria sempre vago e pouco detalhado nos compromissos que Cavaco enunciou e que considerou incontornáveis. Será crível acreditar, que Bloco e CDU assinassem um acordo em que ficasse preto no branco e cito apenas um, “cumprimento do tratado orçamental”? Nunca, porque isso significaria, a negação de tudo o que andaram a prometer aos seus eleitores. Aceitar tal compromisso, seria o mesmo que admitir e concordar que em matéria de pensões, salários da função pública, regras da segurança social na atribuição de subsídios e outras prestações sociais, continuasse tudo na mesma.

3 – Portanto resta uma 3 alternativa, Bloco e CDU integrarem um governo chefiado por António Costa, com um acordo assinado que contemple os compromissos considerados irrevogáveis por Cavaco Silva. Por muitas voltas que lhe desse ao estomago, Cavaco aceitaria, mas Bloco e CDU não, porque seria o mesmo que preencherem todos os requisitos para uma eutanásia. Ignorando o BE, porque tem uma base eleitoral que não ultrapassa os 5%, se a CDU integrasse um governo, para além de todos os constrangimentos já apresentados, qual passaria a ser o papel da CGTP? Portanto, qualquer que seja a solução à esquerda, ela será sempre pouco duradoura, porque a sobrevivência política sobrepor-se-á sempre, ao interesse do País.

Para estes partidos de protesto, a dicotomia entre, cumprir a principal promessa eleitoral, derrotar o governo de direita, derrotar Passos e Portas e definhar a curto prazo, há muito que a escolha está feita e só Costa é que não quer ver.
Entretanto, os sinais de desconforto de destacados militantes socialistas estão em crescendo, Sérgio Sousa Pinto da actual direcção bateu com a porta, Francisco Assis, Álvaro beleza, Jorge Coelho, Vera Jardim, Carlos Silva líder da UGT, António Vitorino e muitos outros já vieram a público dizer o que pensam da suposta coligação anti natura e não foram nada meigos para com o actual líder Socialista.

Posto isto, resta-nos aguardar serena e pacientemente, que o Presidente da República se farte e exija uma definição clara e inequívoca do género, António Costa acabou o recreio, larga o baloiço e diz o que pretendes.
Já todos percebemos também, que perante os resultados eleitorais, a esquerda sabe que qualquer que seja a solução encontrada nunca será duradoura, não só porque a historia lhes dá razão, mas porque o principal partido da oposição, nunca foi de fiar. Sendo assim, o tempo joga a favor deles, quanto mais tempo durar esta fase, mais Bloco e CDU capitalizam e só Costa ainda não percebeu que poderá ficar na história, como o líder que mais derrotas sofreu no mais curto espaço de tempo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um navio que não deu a(o) Costa

Por muito que se pinte de rosa o que é laranja e azul, só há uma leitura dos resultados eleitorais: PSD e CDS ganharam, e o PS perdeu; a leitura é simples e não é preciso estudar em Coimbra para a fazer. Interessante resultado, depois de medidas tão penalizadoras. Mais do que masoquismo, leio maturidade democrática, quiçá até no apoio condicionado por uma maioria relativa.

De um ponto de vista socialista, eu diria que o maior dilema é o julgamento moral que pode fazer-se em face da degola política de António José Seguro; apear um cidadão que ganha por pouco por outro que o apeia e perde… No entanto, como sabemos, a palavra “moral” é algo de alienígena para os aparelhos partidários, e nem dou por excluído que António Costa possa ser Primeiro-Ministro, no futuro. Note-se, porém, que creio que o não consegue (ou logra um “inconseguimento”, segundo a Dra. Assunção Esteves) se criar instabilidade a um Governo legitimado por uma maioria de votos e de lugares; antes pelo contrário… Fica a obra de ciência política que é perder algo que era seguro (que palavra ambígua!…).

Por fim, reconheço que festejei antecipada e erradamente um desaparecimento do Bloco de Esquerda que aproveitou a moda hispano-grega para continuar na passarela. Continuo a entender que se trata de uma modernidade pouco estimável, mas o facto é que “vende”.

A respeito de “modernices” vale a satisfação de Marinho, Joana e Cª não terem vendido as suas ilusões. Nem o tom grave de um, nem a gravidez de outra lograram transformar em consistente o que é coisa de megafone, assim estilo “Homens da Luta” ainda com menos graça (o que já me parecia impossível).

Já o PCP e o seu atrelado esperam tristemente que a lei da vida leve o grosso da coluna dos seus votantes. Um dia, inevitavelmente, a pauta eleitoral dirá “chega de saudade”.

Resta esperar que uns trabalhem, e que outros deixem trabalhar.

domingo, 27 de setembro de 2015

Carregar (n)a cruz


Ainda (voluntaria e profissionalmente) comedido, importuno o leitor com um pedido datado: a 4 de Outubro, vote!

Creio que poucas vezes a escolha de um caminho (creio que ainda falta a proposta de uma um destino, na política portuguesa) foi tão crucial, mormente a partir dos anos 80.

De facto, com a democracia e outras bases do Portugal contemporâneo consolidadas - designadamente, o “cartão de sócio” da União Europeia (cada dia mais um clube de negócios, e menos uma “casa” de debate) – não é comum poder decidir entre duas propostas eleitorais tão claramente distintas. Note-se, ademais, que falo em duas opções porque, em virtude do que já vai escrito e salvo o devido respeito, também em rara ocasiões valeu tão pouco a pena queimar cartuchos com os festivais de Outono da nossa política (Joanas, Marinhos e companhia), ou sequer com as orquestras do “vira o disco e toca o mesmo” (o nosso respeitável PCP e o seu atrelado esverdeado).

Assim, de um lado, a coligação de PSD e CDS-PP que propõe a manutenção de políticas disciplinadoras e causadoras de alguma contracção no modus vivendi colectivo, com ligeiro perfume a lembrar calvinismo, recuando o Estado e ganhando protagonismo o aspecto individual. Do outro lado, contudo, os resultados positivos e certificados: aumento das exportações, crescimento do PIB, diminuição do desemprego, saída de um programa de assistência draconiano (e em certos aspectos ridículo e acintoso, como a questão dos feriados). Importa perceber a partir de que ponto o aumento de riqueza pode reverter para os cidadãos e para quantos cidadãos, tido por adquirido que se assegurará um patamar mínimo de dignidade social abaixo do qual ninguém deve cair.

Do outro lado um PS, aparentemente sem poder coligativo (a avaliar pela mise-en-scène da extrema-esquerda; a do costume…) que propõe um caminho quase sem pedras, mas, alegadamente, com uma via que não ruirá: recuperação mais veloz de alguns dos privilégios perdidos, manutenção do lado assistencial da República sem cortes e com sustentabilidade, um sector público muito presente e com papel dinâmico. Se as ideias parecem agradáveis, o senão da bela surge com o panorama globalizado do mundo actual que parece contrariar as soluções mais garantísticas.
Seria importante ver ainda os pergaminhos de uns e de outros, mas eis precisamente o terreno minado que a diplomacia desaconselha…

A minha escolha não será para muitos a quarta parte do Segredo de Fátima; contudo, não deixo de repetir uma ideia que ouso converter em apelo: vote. São alguns momentos que vão decidir o modo como vai viver vários anos da sua vida.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A verdade nua e... grávida...


Comentei na página de Facebook de um amigo a recente paixão de Joana Amaral Dias pelo “strip-tease” para dizer que, embora a malta agradeça, a descascada postura já não tem o que quer que seja de política.

Postas as hormonas em sentido, há que ver que se a cidadã fosse de direita, no mínimo, era porca; sendo de extrema-esquerda é “cool”, ousada, vanguardista e defensora da autonomia da mulher.

Se calhar (margem de erro quase nula), JAD já criticou o uso da imagem das mulheres pelo imperialismo; pois bem, haja ou não tomado tal posição, a verdade é que, em campanha eleitoral, é disso que falamos. A candidata achou que despir-se (supostamente porque é um gesto bonito) lhe traz vantagens, e tudo o mais que se diga são efabulações.

Dito isto, é preciso ir a outro ponto crucial: trata-se de uma consequência clara da sociedade mediática e da interpretação que grande parte dos jornalistas faz da sua missão. Tenho escrito amiúde (com a clara sensação de que poderia falar directamente para a secção de congelados de um qualquer hipermercado; instalação do século XXI para o Sermão de Santo António aos peixes…) que, no que diz respeito ao primeiro ponto, as empresas de comunicação procuram o lucro e não a informação. Ora, a emoção sempre vendeu mais do que a razão.

Já parte dos jornalistas, pelo menos em Portugal, entende a sua missão como contra-poder, sendo o jornalismo de escola uma doce recordação de um passado que já não volta. Nessa perspectiva, qualquer atitude que vise perturbar a ordem tradicional goza de um favor desproporcionado nas suas peças. Nem outra, a meu ver, é a explicação da desmesurada projecção do Bloco de Esquerda, durante anos. É ademais a mesma ideia que me parece fundamentar o gosto de alguns jornalistas pela desconchavada aparência à BE.

Estes factores e um certo gostinho pela desforra que alimentamos pela desforra são os únicos temores que tenho de que os carros alegóricos que aparecerão no boletim de voto averbem resultados visíveis… Não será pela consistência das propostas que Marinho Pinto (repito, uma espécie de Mário Nogueira de gama alta), Joana Amaral Dias, Bloco de Esquerda, e outras variações em demagogia maior elegerão deputados.

Para que não se perca a pedra de toque configurada nestas linhas, recentro o tema: por muito que goste de mulheres nuas (peço desculpa pela falta de vanguardismo, mas sou de gostos clássicos), ainda tenho uma ideia da actividade cívica em que o que importa despir são as razões e os ideais.