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quarta-feira, 2 de março de 2016

Vão chamar pai a outro


A propaganda do Bloco de Esquerda que diz que “Jesus também tinha dois pais” (comemorando a aprovação da adopção por casais do mesmo sexo) é, antes de mais, uma questão de mau gosto e de deliberada ofensa aos que não concordam com aquela organização intelectualmente totalitária.


E começo por aqui mesmo: o BE arvora-se em campeão das liberdades democráticas, mas é, provavelmente, a mais intolerante, discriminatória e agressiva força parlamentar. Quem não concorda com a mixórdia de marxistas-leninistas arrependidos, trotskistas psicadélicos, maoístas bafientos e anarquistas-chiques é apelidado de reaccionário, inimigo da democracia e outras coisas mais que, com apoio de grande parte da classe jornalística (que mistura a revolta contra o patronato com a função de megafone da extrema-esquerda), servem para menorizar e intimidar quem, legitimamente, defende ideia adversa.


Aliás, muitas das actividades de agitação e propaganda da nossa extrema-esquerda finória são “cool”, criativas e inovadoras porque são daquele lado da fronteira; se alguém do centro-direita ou mesmo do PS andasse em “topless” defendendo o direito ao corpo ou postergasse o nome de Cristo, imediatamente era derretido pelos escribas que cobrem o quotidiano bloquista.


Mas nada a fazer… Com colossal culpa dos “arcos da governabilidade” europeus, a bandalheira política entrou na moda, chame-se ela Syriza, Podemos ou Bloco de Esquerda (confesso mesmo que me enganei rotundamente ao prognosticar a erosão do BE; coisas de “emigrante”…).


Recentrando o assunto no enxovalho a Cristo, diria que a primeira coisa a desmistificar é a alegada propriedade de ideias como a adopção e o casamento de pessoas do mesmo sexo ou a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Nenhuma força política é dona dessas causas! Há milhares de cidadãos que, perfilhando ou não as orientações em debate, sempre se bateram pelo fim do que entendem como discriminações, sendo um insulto este aparecimento de um latifundiário intelectual das causas “justas”.


Depois, entendo que a Igreja Católica não poderia pedir mais. Ao mesmo tempo que “Spotlight” ganha um Oscar, relembrando o encobrimento de abusos sobre menores, o Bloco desperta uma onda de indignação entre católicos e outras pessoas de bem.


Por fim, não venha Marisa Matias demarcar-se da ideia, como se de um erro se tratasse. Foi deliberado e com intenção de enxovalhar.


Ou me engano muito, ou António Costa pagará um alto custo por esta bandeira de conveniência. Ele e todos nós…


Impedido de me expressar como Arnaldo Matos (MRPP) o fez recentemente, lamento e registo a ofensa.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A sagrada distância entre o respeito e o medo

Os jornais sul-africanos podem ser uma leitura interessante por vários motivos, com uma nota de relevo: apesar de algumas polémicas políticas sobre a liberdade de informação, são órgãos de comunicação social livres.

Prova do que fica dito uma das últimas edições do Sunday Times que titulava na página 5: “’Light’ beating of wives condoned”. Trocado por miúdos e em português (sem Acordo) diz a notícia que a South African Human Rights Comission e a Comission for Gender Equality decidiram que uma interpretação do Corão em voga na África do Sul (a do autor indiano Abdulla Yusuf Ali, já falecido) que propugna o espancamento suave das mulheres não tem como resultado incitar ou desvalorizar a violência contra as mulheres.

Segundo Fayzal Mahamed, o activista dos direitos humanos que apresentou a queixa ora decidida, a versão daquele autor propõe (tradução minha) que em caso de deslealdade ou conduta inapropriada por parte da mulher, três medidas devem ser gradualmente aplicadas, começando na amoestação, continuando na recusa de partilhar o leito e, por fim, la pièce de résistance: bater, embora com moderação. Adverte ainda o autor que os castigos devem cessar se a mulher voltar a ser obediente…

A citada Comissão para os Direitos Humanos consultou académicos que lhe asseguraram que a interpretação em causa não deveria ser banida e que não decorria da mesma qualquer incitamento à violência contra as mulheres. Um deles, o Professor Farid Esack, Director do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Joanesburgo, saudou mesmo a decisão, dizendo que é absurdo dizer que essa passagem e respectiva interpretação estimularão o espancamento de mulheres, pois “a Bíblia diz ‘não roubarás’, mas esse texto não faz com que todos os Cristãos sejam automaticamente pessoas honestas”. Sendo que não procuro aflorar o difícil e sensível tema dos Livros Sagrados (ambos, diga-se), cito a passagem por me parecer particularmente capciosa… O Académico citado parece desconhecer a diferença entre uma ordem afirmativa (açoitar) e uma proibição (não roubar); o texto islâmico está na fase da punição de uma infracção, ao passo que o seu homólogo cristão ainda está na fase do postulado, ou seja, da norma cuja violação se não pretende (mal comparado, o “não roubarás” corresponde ao dever de obediência da mulher formulado pelos muçulmanos).

Se chamo o assunto à colação é, porém, por outro motivo: as sociedades ocidentais vivem um tempo de castração axiológica e de relativismo moral ante algumas interpretações do mundo islâmico que têm que ser condenadas. A prova disso está no mesmo artigo, que cita palavras do activista referido para dizer que a Comissão para os Direitos Humanos passou do entusiasmo revelado no momento da queixa ao desinteresse da altura em que se aperceberam que seriam a primeira entidade do género no Mundo a banir uma interpretação do Corão.

E o leitor bania-a?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Olha quem fala

Há poucos dias, vi na televisão que a Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, tecia considerandos sobre a defesa dos direitos humanos na Europa. Falava a Sra. Clinton a propósito da proibição suiça dos minaretes das mesquitas e do veto francês ao uso em público do véu islâmico, na sequência do relatório anual do Departamento de Estado sobre a liberdade religiosa.

É claro que os casos europeus não foram, nem de perto nem de longe, o prato forte do relatório e da intervenção, mas, já que “aqui estamos”, deitemos um olho sobre o assunto.

Pergunto-me, assim sendo, quem será o campeão mundial da “islamofobia”?... Ora… Não é que são os EUA??? Que outro país encerra turistas estrangeiros numa sala de aeroporto separada e os asperge com fumos, apenas por terem estado em países de que os americanos desconfiam?... Exacto: os EUA!...

Quem geria Abu Ghraib e ainda não encerrou Guantamo?!... Respondeu “EUA”?! Nem prémio leva, tal o cariz óbvio da resposta…

Nesta altura, peço ao Leitor que me não interprete mal: não sou do Bloco de Esquerda (cruzes!!!) e nem pertenço àqueles que acham que dizer mal dos Estados Unidos os guinda à condição de “intelectuais”. Adoro o país do Uncle Sam e acho que tem uma democracia e uma cultura vibrantes. Todavia, acho que apontar o dedo é uma má escolha, quando já nem vidro se tem no telhado…

Dir-me-ão os fanáticos: “os Estados Unidos têm razão para a cruzada actual”! Talvez, responderei… Contudo, não menos a terão os europeus, a começar pelos espanhóis e pelos ingleses. Mesmo os franceses, venho dizendo isto há algum tempo, estão, segundo alguns estudos, a braços com o dilema de, dados o conforto social que proporcionam e a progressão geométrica da população “não ocidental”, terem, em algumas décadas, uma maioria de votantes islâmicos nos seus cadernos eleitorais.

Se o fenómeno em si parece natural, o facto é que ocorre num centro nevrálgico da cultura europeia e sem que os “novos franceses” aceitem as regras daquela, preferindo impor aos “anfitriões” ditames de outra fé e de outro modo de ser e de estar. E a isto temos de assistir, dizendo-nos os que aplaudem a anarquia que se trata de diferença cultural… O irónico da coisa é que os nossos “esquerdistas” se esquecem da desconsideração que está ínsita em muitas das “diferenças culturais” impostas, designadamente, às mulheres islâmicas.

O mesmo tom categórico já não emprego na norma arquitectónica helvética. Apesar de se tratar de uma norma democraticamente adoptada, nem sempre os procedimentos referendários foram sinónimos de bom senso, da condenação de Cristo a Weimar.

Todavia, mesmo neste último caso, estou em crer que a intolerância se não equipara à vivida pelos ocidentais nos países muçulmanos, desde a proibição de visitar Meca à exigência de as mulheres visitantes usarem trajes muçulmanos ou de turistas serem alvos potenciais pelo facto de um jornal do seu país ter publicado caricaturas de Maomé.

Sorrio ironicamente, por isso, ao recordar as palavras da Madame Clinton.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Urbanismo helvético

Os eleitores suiços decidiram em referendo proibir os minaretes das mesquitas muçulmanas, embora não os templos em si.
Vamos aos dados do problema:
  1. 1 - As sondagens diziam o contrário (ou seja, que a proposta seria rejeitada).

2 - A decisão tem valor constitucional.

3 - Presume-se que por cautela e diplomacia, no mundo ocidental os minaretes não cumprem a sua função original, que é a de chamar os fiéis para a oração.

4 - Das 180 mesquitas suiças apenas 4 têm minaretes.

Perante isto confesso que estou num impasse analítico.

Por um lado, consegue entender-se alguma islamofobia em virtude das actividades criminosas de muitos extremistas contra ocidentais, por cá e nos seus países.

Por outro lado, convenhamos que alguma da comunidade islâmica que reside na Europa resiste à integração no modus vivendi de quem os abriga. E nem me venham com a ladaínha de esquerda das diferenças culturais... Se um de nós for, por exemplo, para o Irão, a Arábia Saudita ou o Iémen e não seguir o código de conduta local está, no mínimo, frito!

O reverso da medalha, porém, consiste no facto de esta conduta só exacerbar os extremistas e enfraquecer os moderados que lutam por uma convivência pacífica.

Depois, acresce que uma decisão destas faz recear pela segurança dos cidadãos (já nem falo dos templos) ocidentais no mundo islâmico, fazendo perigar qualquer tentativa de aproximação de base ecuménica.

Por fim, deve dizer-se que os suiços nunca foram conhecidos pela sua tolerância, excepto quanto a depósitos bancários, sobre os quais não consta que sejam muito esquisitos...

Nota: a fotografia foi tirado por mim e pertence à mesquita de Dushanbe, no Tajiquistão.