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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Desisto…


No domingo, para passar o tempo, decido ir ao cinema; já para matar o tédio, escolho o último filme com Stallone e todos os seus camaradas que preencheram a minha adolescência. E que genial é vê-los todos juntos, na fase da artrose, esfanicando tudo e mais umas botas, com a tecnologia de hoje.

Mas tudo isto vem a propósito da saída do dito entretenimento; estão as salas alinhadas ao longo de um corredor do piso superior de um centro comercial (Millenium) de Caracas, desembocando a saída (ao lado do ecrã) em frente a vedação em vidro. Como é meu hábito, deixo-me ficar para último, pois não apenas gosto de ver a ficha técnica, como detesto atropelos e tenho um tremendo medo de espalhar-me nas modernas e abruptas descidas das semi-obscurecidas salas.

Assim sendo, decide aqui o vosso amigo, sendo a penúltima pessoa a deixar o quarto escuro (salvo seja), ficar um pouco a contemplar o centro comercial que, a mais de estar absolutamente deserto, tem uma arquitectura interessante. Nisto, educadamente, o jovem funcionário que estava mais próximo da porta saiu para avisar-me de que era obrigatório continuar a circular (assim tipo Torre de Londres ou Mausoléu de Lenine…). Ante a minha estupefacção, a última pessoa (uma jovem), explicou-me que a advertência era para permitir o escoamento dos espectadores e não haver pressão contra o tal muro envidraçado.

Aqui chegados, eis o ponto: a regra faz todo o sentido para uma sala cheia e/ou num dia em que o centro comercial tenha as lojas abertas e pessoas circulando. No caso, não só o corredor (que teve ter uns bons dois metros de largura) é exclusivo para as salas de cinema, como – repito – era a penúltima pessoa (e já com alguma dilação temporal para o “pelotão”) e não havia nenhuma outra sessão terminando.

Não quero discutir a regra (que, aliás, me parece ajustada), mas a falta de flexibilidade intelectual posta por ambos os intérpretes, que vejo repetida em largas fatias das gerações mais jovens. O empregado aplicou uma regra boa de forma abstracta, sem revelar capacidade para perceber (garanto que o santo moço não suspeitou sequer do motivo do meu esgar de surpresa) que o enunciado ficava ridículo no caso sub judice.

Foi aqui que pensamento me devolveu aos saudosos tempos da minha tese de mestrado: a configuração mental das gerações que já nasceram com a televisão como companheira é mesmo diferente! Como avisava Sartori, surge um homo videns que perde a capacidade de abstrair, sendo dotado de um raciocínio menos ágil, já que as imagens sucessivas impossibilitam essa pausa reflexiva.

Não se julgue que entrei na idade do “no meu tempo é que era”! Reconheço que a rapaziada jovem tem acesso a muito mais conhecimento (mormente, via Internet) do que o disponível nesses dias de maior vigor por parte do meu esqueleto, e que quem sabe de algumas áreas pode saber muitíssimo. Porém, perde o enciclopedismo e a visão ampla do mundo e da humanidade.

São linguagens diferentes… Não vale a pena insistir…

domingo, 3 de março de 2013

Escassos vestígios de Ética encontrados na Indústria Alimentar


Oxalá a origem deste escândalo da carne de cavalo fosse assim tão simples e caricata, como sugere o cartoon acima. Porém, as proporções desta polémica são bem mais sérias e aumentam de dia para dia, não só quanto ao número de casos detectados, mas também quanto à área geográfica em causa. E se no início da investigação se apontava o dedo à Roménia, agora toda a Europa* parece mergulhada numa outra crise, de origem alimentar...

À parte da questão cultural, do ponto de vista da saúde pública não há qualquer problema em ingerir carne de cavalo - é saudável, mais magra, e ao que parece tem mais vitaminas que a carne de vaca. A questão é mesmo a de rotular carne de cavalo como se de vaca fosse. Trata-se da versão moderna do "comer gato por lebre" e configura, naturalmente, fraude. A carne de cavalo é mais barata e isso motivou a que algumas empresas recorressem a esta carne, sobretudo na elaboração de refeições congeladas. Note-se, contudo, que só se pode falar em fraude quando os valores de ADN detectados nas amostras superam uma certa percentagem, sendo que se for irrisória pode consubstanciar apenas um caso de contaminação acidental.  

A retirada de milhares de embalagens mal etiquetadas levanta, porém, uma outra questão, de foro moral. Numa Europa que atravessa uma crise económica, que recorre a políticas de austeridade sem apelo nem agravo e que se vê a braços com uma nova vaga de pobreza, fará sentido deitar ao lixo milhares de produtos alimentares que estão em bom estado, que não põem em causa a saúde pública e que estão apenas mal rotulados? 

O Ministro francês para o Consumo providenciou uma solução interessante, encaminhando essas refeições para associações que possam distribui-las e servi-las aos mais carenciados, desde que - naturalmente - informem os beneficiários do conteúdo das mesmas. A ver vamos se os demais países europeus têm a mesma iniciativa ou se o desleixo vai ditar-lhes outro destino.    

Para terminar, uma reflexão pessoal: mais do que comer cavalo por vaca, preocupa-me a falta de fiscalização da procedência alimentar que ainda se verifica neste século XXI e a possibilidade de diariamente ingerirmos alimentos processados que não são exactamente aquilo que esperamos. E claro, repugna-me esta ganância por lucros obtidos à conta de um consumidor que cada vez tem menos controlo na sua alimentação. E não é só à custa do consumidor - e da sua saúde, quando se recorrem a substâncias nocivas para aumentar a produção, por ex. -, mas também à custa de trabalho escravizado que ainda hoje existe, sobretudo em indústrias como a do café e chocolate. Ou seja, a rotulagem fraudulenta parece ser apenas a ponta do icebergue, num sector alimentar especialmente propício a actividades ilegais, tendência que se acentua num mundo globalizado, altamente competitivo e onde «vale tudo».**

*Na verdade, esta fraude não se restringe ao Velho Continente; na África do Sul, por exemplo, já foram encontrados vestígios de carne de burro, cavalo, girafa e até de canguru. Consta que mais de 80% dos produtos de carne sul africanos têm um rótulo que não corresponde ao conteúdo... 

**Se o leitor quiser aprofundar este tema recomendo a leitura de «No Happy Cows - Dispatches from the Frontlines of the Food Revolution», de John Robbins. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Gota amarga

Deliberadamente e correndo o risco de apanhar os Leitores pelos cabelos com o assunto, atrasei as minhas reflexões sobre a célebre promoção dos supermercados “Pingo Doce”.

Agora que já li e ouvi milhares de palavras de centenas de pessoas de dezenas de ofícios e inclinações, começo por aí mesmo: este assunto atesta, até mais do que a situação socio-económica de Portugal, o nível intelectual da nossa vida pública. Dias a fio, políticos, analistas, aspirantes a ambos, jornalistas, economistas e toda a gente de que nos possamos lembrar, mais não fizeram do que centrar a existência de uma Pátria de quase novecentos anos numa genial campanha (ninguém o negará, suponho) de uma cadeia de supermercados. Mais elucidativo ainda, mesmo aqueles comentadores com pretensões de elitismo intelectual – os que desprezaram a promoção em causa (algo que não ouso fazer) – prostituíram o seu excelso ego em minutos de exposição televisiva, em círculos mais ou menos quadrados, para nos explicarem a alegada barbárie do evento e a repulsa que a turba lhes causou…

Nos antípodas desta opção estão os que exultaram com a ideia e que a desdramatizam, dizendo que os apertos e confusões registados são comuns em muitas promoções, no estrangeiro. Aqui chegados, refreemos o entusiasmo; que as pessoas se esgadanhem para comprar roupa interior assinada por David Beckham ou Ipad com preços convidativos ainda vá… Não me choca que passem por incomodidades ou façam figuras tristes por bens sem os quais podem bem viver. Já quando toca a bens alimentares e outros essenciais ao quotidiano, preocupa-me constatar que a vida seja tão madrasta que obrigue pessoas a passarem cinco ou mais horas em filas, a descansarem em prateleiras, a saquearem (embora com pagamento a posteriori) os armazéns ou a comerem os alimentos in loco, dadas as provações sentidas.

E, diga-se, também não alinho na censura aos que, aparentemente, terão comprado centenas de euros de mercadoria. Quem aponta o dedo diz que era gente que não precisava; eu, bem ao invés, acho que quem teve “estômago” para tal dia fez bem em aproveitar os descontos imensos que se praticaram. Aprendi bem a lição de um destacado e abastado membro da Comunidade Portuguesa de Joanesburgo que, num dia de bastante frio (aqui também há disso…), saiu à rua para apanhar uma moeda de cinco cêntimos de Rand (cerca de meio cêntimo de Euro); quando por mim confrontado com a maçada inerente ao acto, com a sabedoria dos seus cabelos brancos, logo retorquiu: “sem cinco cêntimos não se faz um Rand!”…

Depois de uma jogada comercialmente brilhante e socialmente útil, fica uma declaração política deliciosa que deixou a extrema-esquerda em autêntica histeria, tal foi o protagonismo que roubou aos tradicionalmente irrazoáveis dizeres do 1 de Maio… Para o PCP e o BE, de certo, o pingo não foi doce, mas sim uma gota amarga…

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Reciclar, dar e receber

Neste últimos tempos tenho vindo a confirmar que, apesar de todos os defeitos a que não escapamos, o povo português é na sua generalidade um povo solidário, abnegado e atento às necessidades do seu próximo, mesmo em plena crise económica. Exemplo disso são as inúmeras plataformas que crescem na internet e nas redes sociais com vista à partilha ou doação de objectos reutilizáveis, permitindo que uns se desfaçam daquilo que já não precisam e outros façam uso desses bens. O impacto dá-se em muitas frentes: não só se ajuda quem mais precisa e tem lugar um novo ciclo de consumo, como se aumenta o período de duração dos bens, reduzindo o número daqueles que vão parar ao lixo, o que se reflecte também ao nível ambiental. Estas plataformas - de que são exemplo a Dou.pt e a Trocas de Amor - têm tido uma enorme adesão por parte de quem dá e de quem recebe. O sucesso mostra assim que mesmo em tempos difíceis os portugueses não esquecem essa elementar máxima de que «dar é receber» e fazem questão de não deitar fora ou desperdiçar aquilo que sabem poder ser reutilizado por outros. E numa altura em que tanta gente não tem como fugir às dificuldades económicas, estas iniciativas são ainda mais significativas, facilitando a vida a muitos portugueses.  

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Para Consumo Interno

Uma das inequívocas vantagens em sair do país durante uma vasta temporada é que no regresso temos tendência a ver as coisas com um olhar mais clínico. Mas nem foi preciso um olhar muito cuidado para, chegada a solo lusitano, dar conta de uma notória e imensa diferença nas cidades por onde passei: o comércio tradicional diminuiu drasticamente e muitas são as lojas de rua agora votadas a montras e prateleiras em branco, grades em baixo e avisos «fúnebres».

Pelo Oeste, o meu berço lusitano, o cenário é algo preocupante nalgumas das suas cidades. Em Alcobaça, uma passagem pelo percurso pedonal que conduz ao centro histórico leva-nos a concluir que são poucos os lojistas que subsistem ao contexto económico, sendo que nem os turistas lhes valem. Não muito longe, na cidade das Caldas da Rainha, outrora uma cidade orgulhosamente afamada pelo bom comércio tradicional – do famoso mercado diário na praça central à movimentada «Rua da Lojas» - o movimento em ambas já não é o que era. E disso é sintomático o encerramento de um emblemático estabelecimento local – a Livraria 107 – que infelizmente não resistiu às «fnacs» deste mundo.

Porém, o pequeno comércio não pode recorrer eternamente à concorrência das grandes catedrais de consumo como bode expiatório dos seus males. Veja-se o caso de Leiria, onde os centros comerciais coexistem pacificamente com o comércio de rua e, noticiava o Região de Leiria em Julho passado, é nas grandes superfícies – no caso, LeiriaShopping – que as vendas caíram a pique. A verdade é que o comércio local tem também que reconhecer mea culpa, já que muitas vezes resistiu a acompanhar os tempos e os novos consumos, refugiou-se em horários confortáveis e nem sempre soube agilizar os procedimentos com a clientela. 

Outra realidade que não vale a pena ignorar é a imbatível oferta das ditas ‘lojas dos chineses’. É legítima - esclareça-se desde já-, mas há que reconhecer que sufoca o comércio em seu redor, pois a oferta é vasta e os preços são tentadores nos tempos que correm. E se durante anos se convencionou que os benefícios do comércio com a China superavam os custos, um estudo recente levado a cabo por investigadores (alguns deles do MIT) concluiu que a velocidade a que a China cresceu como exportadora e a concorrência dos seus produtos estão a provocar danos na economia americana, verificando-se quebras generalizadas de emprego (industrial, mas não só) nos condados mais expostos às importações chinesas. Certo é que, no caso português e a este ritmo, não tardará muito para que se encontrem as ditas lojas «porta sim porta sim», o que, convenhamos, descaracteriza o nosso comércio. A propósito, não sei a razão, mas despertou-me curiosidade o facto de uma outra cidade do Oeste - Óbidos – não contabilizar uma única loja destas no seu centro histórico, mantendo o seu comércio pitoresco e com carimbo local.

Nos últimos anos são muitas as iniciativas de promoção do nosso comércio, mas isso não parece ser suficiente. Fazer renascer o comércio dito tradicional é de extrema importância, pois não só serve de motor de desenvolvimento das nossas cidades, como potencia o consumo de produtos locais, gerando emprego e riqueza. Pequenos passos que se reflectem na «economia cá de casa».

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O consumidor é quem mais ordena

À semelhança do que sucedeu com os Radiohead, o grupo português The Gift, que está prestes a lançar mais um álbum, entendeu deixar ao critério dos consumidores o preço a pagar pelo mesmo. Antes do lançamento oficial do álbum, e através do site do grupo, as onze músicas do novo disco estão disponíveis ao preço que achar justo (mesmo que seja zero...).
A estratégia tem implícita o combate ao download ilegal e aos riscos que este coloca à indústria musical. Muitos grupos musicais cada vez menos lucram com os discos, «sobrevivendo» com espectáculos e merchandising. Em Portugal, o consumo de música vê-se ainda prejudicado com o imposto de 21% que lhe confere estatuto de «produto de luxo». Para contornar isso, em 2008 o grupo nortenho apadrinhado por Rui Veloso, Os Azeitonas, lançou um cd revestido de livro, pois este último é fiscalmente mais leve. Não faltam razões para que os músicos comecem a pensar em alternativas ao modelo de negócio tradicional e alguns grupos portugueses já se vão dando conta disso, como é o caso dos The Gift, cuja audácia é de aplaudir.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Made in Portugal


Desconheço de quem partiu a parceria, mas tanto o MoMA como o nosso Ministério da Cultura estão de parabéns pela colecção de produtos representativos do nosso país que, por tempo limitado, se encontra à venda no museu nova iorquino (aqui).

É uma forma de promover o nosso país em solo estrangeiro e, simultaneamente, de dar visibilidade e potenciar o consumo dos mais característicos produtos feitos por cá: dos utilitários de cortiça à famosa louça, dos sabonetes ao galo de Barcelos, do pião aos utensílios de cozinha únicos (como o é o "Salazar"), do alumínio à filigrana entre outros objectos de design contemporâneo lançados por mão(s) portuguesa(s).

Ao percorrer o catálogo de portugalidades a adquirir ficamos, inevitavelmente, orgulhosos daquilo que por cá se faz. A criatividade e inovação mostram que somos capazes do melhor. Em tempo de crise, convém lembrarmo-nos disso.

sábado, 17 de abril de 2010

i: fim à vista


O jornal que ainda nem perfez um ano de vida parece ter o fim à vista. Em Maio de 2009 o "jornal i" surpreendeu no seio da imprensa nacional, num formato inovador e bastante apelativo. Goste-se mais, ou menos, dos conteúdos, certo é que foi até considerado o "jornal europeu do ano". Mas se até a imprensa com raízes já fixadas enfrenta a crise e a supremacia da informação em rede, não seria previsível este desfecho? À data da sua comercialização, eu mesma, por aqui havia vaticinado o futuro da publicação. Nem um anos depois, a "fraquissíma capacidade de gerar receitas" conduziu a uma espécie de ultimato ao director Martim Avillez Figueiredo que, por sua vez, se sentiu «defraudado» com as limitações ora impostas e decidiu-se pela demissão. Agora é esperar para ver se o projecto está mesmo condenado à morte ou se há fé que sustente este empecilho do Grupo Lena.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A infância está em vias de extinção


Não dá para acreditar, mas uma famosa cadeia irlandesa, a Primark, lembrou-se de lançar uma linha de bikinis com enchimento na zona do peito, dirigida a... crianças de 7 anos! Felizmente houve gente sensata que deu por isso e denunciou às autoridades, o que acabou por determinar a suspensão da comercialização de tais peças.

Mas se é de exigir o sentido de responsabilidade das empresas quanto a estas matérias, que dizer da responsabilidade dos pais? A pequena da foto acima, de seu nome, Suri, filha de Katie Holmes e Tom Cruise, apresenta-se frequentemente nestes trajes. Tem 3 anos e orgulha-se de ter um guarda roupa avaliado em dois milhões de euros. Não só é ridículo como, dada a fama dos progenitores, dá um péssimo exemplo de uma vivência prematura, extemporânea e artificial de uma miúda que é suposto viver como uma criança e não um como um adulto. Eu cá, muito temo os efeitos que estes comportamentos possam vir a ter nas crianças, hoje já votadas a prescindir da infância.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Excesso de simpatia

Há gente que carece de inteligência emocional... Nos centros de atendimento ao cliente (vulgo, call centres ou centers, valem as duas grafias, para os mais espertinhos...) está boa parte dessa nação...

Ligo para a EDP e tenho um diálogo de 5 minutos reais, em que o operador não consegue terminar uma frase sem dizer "Sr. Gonçalo Capitão". Percebe-se que o tenham "treinado" para mostrar respeito pelo cliente, mas também nada se perderia em explicar-lhe que tal deferência deve ser intercalada com frases que terminem com um vulgar ponto final....

O resto seria bom senso...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Pela boca morre o peixe (e o pescador...)

Nazaré, 1977

Este país já viveu da pesca e da agricultura e nesse tempo não havia assomos de vergonha por sermos grandes no sector primário, que se diz primário também porque é fundamental, porque é a base de qualquer economia. Contudo, nas últimas décadas viveu-se uma redução drástica da população nesse sector, com os portugueses a abandonarem as actividades primárias por um sem fim de motivos, sobretudo, a tosca ideia de que a modernização de um país se mede pela aposta nos investimentos em áreas ditas de ponta e não tanta na dedicação e fomento de ofícios ditos menores. Esta megalomania tem vindo a prejudicar-nos e os sucessivos governos pouco ou nada fazem para que se inverta a situação. Bem podem os pescadores fazer greve ou os agricultores juntarem-se em manifs, que o Ministério está-se bem nas tintas, conformados que estão com a ideia de que a pesca e a agricultura são os parentes pobres da economia nacional e nada por eles cumpre fazer.

No que respeita à pesca, numa recente reportagem televisiva pude ver como as gentes dela (sobre)vivem, tendo constatado um sector em declínio, onde os pescadores vendem o produto final de 36h de faina a preços miseráveis, sendo que a nós, consumidor, nos chega a preços exorbitantes. Enquanto na lota a sardinha se vendia a 80 cêntimos e, dividido o lucro, dava pouco mais que 5€ a cada um dos pescadores (alguns com 80 e muitos anos de vida), no mercado a sardinha vendia-se a 5€ e as famílias queixavam-se (e bem).

Regulação, fiscalização e reestruturação são coisas que não passam pela cabeça do Sr. Ministro que, nessa mesma reportagem surgia completamente a leste da realidade do país. Quando a jornalista o confrontou com o facto de 200 das 400 familias de pescadores da Caparica passarem fome nos dias de hoje, o Sr. Ministro insistiu em falar de fundos que por descuro nunca se chegam a ver - daí que lhe caia como uma luva a denominação de "Ministro da oportunidade perdida" que Paulo Portas lhe dedicou - e, inacreditável, teve a leviandade de sugerir que essas famílias recorressem a programas para apoio à abertura de negócios sazonais, estilo barracas de gelados e afins. Resumindo, o Sr. Ministro quer pôr gente que não tem que comer a investir..!

Igualmente chocante foi ver uma cadeia de hipermercados a reconhecer, sem qualquer pudor, que na altura dos Santos Populares comprou 150 toneladas de sardinhas a nuestros hermanos ao preço de 2 €/k porque, voilá, a Docapesca fechou nesses dias. É de facto surpreendente como estas coisas (não) funcionam neste país. Como um Ministro continua a mandar areia aos olhos dos portugueses, mostrando que desconhece por completo a situação que se vive no mar e nas lotas e menosprezando um sector que encontra neste país todas as condições naturais para poder ser uma referência a nível europeu. É vergonhoso que numa situação de crise se importem produtos de fora quando se poderia ser auto-sustentável em tanta coisa. E por fim, é ridículo que perante tamanha desgraça a única resposta eu um governo saiba dar passe por linhas de crédito.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Onde pára a ERC?

Uma tarde destas dei-me ao luxo de consumir lixo televisivo, sem dó nem piedade. Das tertúlias cor de rosa às madrugadoras televendas e dos talk shows deprimentes aos concursos fora de horas, em que umas moças curvílineas instam os noctívagos a telefonar para linhas de valor acrescentado, derretendo a mísera pensão em menos de nada... Porém, se pensam que isto é o pior que passa na televisão portuguesa, desenganem-se. Experimentem sintonizar na SIC às cinco da tarde. Vi um episódio da telenovela "Rebelde Way" e, neste preciso momento, ainda me encontro em estado de choque.

Para quem desconhece, faço o enquadramento: trata-se de uma novela juvenil que passa à hora do lanche, horário ideal (leia-se aqui ironia), já que a esta hora a criançada já chegou a casa e pode deliciar-se com a tv, enquanto os progenitores ainda não estão por perto. A trama desenrola-se num colégio interno que se vangloria de ter um enorme prestígio. No episódio que visionei, o número 181, a coisa começava com um adolescente imberbe a envolver-se sexualmente com a sua professora de Química numa bancada do laboratório, com direito a algemas e outros acessórios equiparados. Até um tipo com um coeficiente inferior a 20 percebeu o que se passou a seguir, mas os argumentistas não acharam suficiente. Mais tarde, o rapaz passeava-se feliz pelo colégio e, quando abordado pelos colegas, não teve papas na língua - "Dei uma queca na professora Irene" (ipsis verbis).

Entretanto, situação idêntica desenrolava-se entre um docente e uma aluna que conduziu aquele até ao seu quarto, onde dois colegas espreitavam e fotografavam o momento, com o expresso consentimento da menina. Se acham que a coisa ficou por aqui, atentem ao que se segue: numa outra cena, um grupo preparava-se para dar uma festa com álcool e tudo o mais a que julgam ter direito, até que chegam as atracções principais: duas strippers contratadas que, afinal, acabam por não actuar (deu-lhes - aos argumentistas - um repentino rasgo de bom senso!).

Mas se aqui não houve strip, o mesmo não pode dizer-se quanto a um outro quarto, onde uma aluna festejava a sua despedida de solteira com um stripper masculino, numa cena que só parou quando a tanga voou direitinha à sua face... Enfim, para terminar estes sessenta minutos de conteúdos pedagógicos, dois jovens do sexo masculino beijam-se e de seguida discutem entre si. Um deles sai do quarto e resolve (não alcançei a ligação...) fazer uma aluna refém, barricando-se numa sala de aula, onde lhe encosta uma navalha ao pescoço, ao mesmo tempo que recita mórbidas passagens biblícas. E pronto, amanhã há mais... Sendo que, entretanto, as criancinhas ainda podem deglutir os resumos dos episódios na página oficial dedicada à novela - aqui, onde podem confirmar o episódio que acima relatei.

Sim, já fui adolescente e sei como são os adolescente de hoje. Tenho noção de que, para muitos deles, alguns dos comportamentos acima descritos são encarados com relativa normalidade. Contudo, numa telenovela, tolero cenas de envolvimento entre jovens, desde que não explícitas e desde que o recurso às mesma tenha uma razão pedagógica - por exemplo, uma cena em que os intervenientes fomentem o uso de preservativo e de alguma forma passem a mensagem de incentivo a uma vida sexual saudável.

Sucede que, além da leviandade com recorrem a cenas de sexo (ou a circunstâncias que a elas se reportam, como o é a contratação de profissionais da área...), é incompreensível que em momento algum haja o mais leve sinal de pedagogia... No caso do envolvimento entre docentes e alunos, sabemos que haverá casos reais, mas o que ali é por demais reprovável é que não se tenha mostrado uma pontinha de sentimento de erro por parte dos personagens, passando-se assim uma mensagem de que este tipo de envolvimento é permissível e até natural.

A isto acresce a linguagem usada, o álcool sempre presente (ao menos punham os míudos a beber umas cervejas sem álcool, ou isso já não é cool?!), a referência a seitas religiosas, o fomento ao voyerismo, a violência como meio para atingir fins, as constantes cenas de índole sexual, enfim, tudo vale para tornar a série mais cativante ao olhar ingénuo das crianças e néscio dos adolescentes.

Pergunto-me onde raio pára a Entidade Reguladora para a Comunicação, a tal que "figura como um dos garantes do respeito e protecção do público, em particular o mais jovem e sensível, dos direitos, liberdades e garantias pessoais", como pomposamente anuncia na sua página de internet. Que se saiba, este mecanismo tem funções de fiscalização que não dependem de queixa apresentada pelo telespectador (embora este sempre o possa fazer e eu muito tentada me sinto a fazê-lo). Pelo menos da leitura aos Estatutos daquela entidade não vislumbrei que a sua actividade esteja circunscrita a esse ponto, i.e., que em face de conteúdos televisivos chocantes - mormente, para o público-alvo em apreço - e na ausência de queixa contra eles, a ERC não possa actuar...

Compreende-se que os trejeitos de Manuela Moura Guedes e o jornalismo a que nos habituou sejam alvo de crítica e levem à reprovação da ERC ao Jornal da Noite das sexta-feiras, mas convenhamos: aí, sempre podemos mudar de canal e "calar" a senhora. No presente caso, não só a maioria dos pais está (física ou mentalmente) ausente quando as crianças visionam estes programas - que os pais julgam vocacionados para aquele target - como muitos deles desconhecem os meios de que dispõem para alertar quem de direito.

Precisamente por isso e, sobretudo, porque não quero nem imaginar que a minha sobrinha algum dia possa vir a absorver conteúdos desta espécie, deixo aqui a minha indignação. A televisão está a passar dos limites e nós... nós continuamos a fingir que isso não é connosco.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Arriscar em tempo de Crise

Há dias ouvi Luís Filipe Reis, membro do Conselho Geral do Jornal Público, confirmar num programa de rádio que aquele diário ponderou, muito recentemente, pôr fim à sua edição impressa, subsistindo apenas a versão online.

Pois bem, hoje mesmo fiquei a saber que amanhã sai um novo jornal denominado tão só de «i», dirigido à classe alta (?) e a leitores exigentes - como se não os houvesse nos demais estratos sociais... Adiante. O que me faz uma certa confusão é o lançamento de mais um jornal impresso quando a tendência é particularmente negativa para os jornais em papel. Excepção aos gratuitos que proliferam..., a indústria dos jornais já não tem a procura que teve outrora, culpa das tecnologias e da crise económica.

No início do ano a consultora Deloitte dizia já que, a julgar pelas suas contas, "em 2009 cerca de uma em cada dez publicações impressas podem ser obrigadas a reduzir periocidade, terminá-la ou encerrar totalmente". E não tardou muito até que o francês Libération anunciasse um plano de corte de custos, e que o norte americano LA Times e o inglês Financial Times dessem conta de um número relevante de despedimentos.

Longe de mim estar a vaticinar o futuro da nova publicação. Louvo-lhes o arrojo, dado o contexto, mas parece-me que se tivessem concentrado energias e capital num modelo de comunicação mais inovador o sucesso seria mais certo. Ou talvez não.... Esperar para ver.

Louvável foi a medida de Monsieur Sarkozy, em França, onde o Estado concedeu apoios à imprensa escrita e digital através de publicação de publicidade institucional, cientes da necessidade que há em manter viva esta indústria, crucial que é o seu papel na formação da opinião pública nas sociedades democráticas.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Guerra ao Consumismo (em época natalícia!)



Para quem ainda está longe de terminar a lista de compras natalícias, fica aqui uma sugestão sui generis, que muito tem dado que falar(até chegou ao Telejornal!): uma tshirt com alarme, daqueles que por tudo e por nada ecoam pelos centros comerciais e tantas vezes nos fazem corar de vergonha quando o episódio sucede connosco..!

O própósito desta ideia é demover-nos de entrar em lojas, numa guerra aberta ao consumo compulsivo e ajudando ao equilíbrio do nosso orçamento...!

O que eu acho é que se a tshirt fosse feminina seria muito mais adequada... e muito mais comprada!! Eu, por exemplo, não estou a ver nenhum homem a quem esta tshirt faça falta. Já quanto a mulheres...