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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Que se lixe a hipocrisia

Ando pasmado com a hipócrita indignação da esquerda em torno da expressão do Primeiro-Ministro “que se lixem as eleições” (como sabeis, dita por contraposição à possibilidade de, com medidas impopulares, resgatar o País da situação actual)…

Antes de nos condoermos com o facto de os partidos da oposição perderem tempo com coisas secundaríssimas num tempo tão sombrio, vejamos, ab initio, que se trata de uma questão de estilo coloquial que o Pedro Passos Coelho sempre adoptou com visível sucesso comunicativo. Ninguém poderá esquecer que, na mesma altura e brincando com comentários preocupados, o nosso Premier disse que estava magro apenas porque fazia dieta. Sei bem o que são estas “falsas virgens pudicas” da nossa esquerda, pois o meu estilo de expressão sempre me deu algumas gostosas dores de cabeça, inclusive na defesa da minha tese de mestrado (“Telecomandos, ratos e votos”).

Ainda mais boquiaberto me quedo quando vejo acusações de populismo ou desrespeito pela democracia por parte do PCP e do Bloco de Esquerda! Estaremos a falar dos partidos que empurram sindicalistas para enxovalhar governantes em qualquer lugar onde estes se desloquem, pretendendo que os cidadãos comuns pensem tratar-se de genuínas erupções populares de indignação?! Tenham juízo e decoro!...

Deixem-me, aliás, dizer-vos que se a forma de expressão pagasse imposto de cada vez que a língua portuguesa é vilipendiada ou que a vontade de dormir ataca qualquer ouvinte que tenha acabado de beber um café ou um Red Bull, creio que a colecta fiscal de 80% dos nossos parlamentares (incluindo a esquerda) pagaria grande parte do défice.

Dito o isto, sublinho ainda que os nossos parlamentares vivem na era do Twitter, que subscreveram um lamentável Acordo Ortográfico que aponta no sentido de uma simplificação desbragada e que os costumes evoluem! Será que ainda se levantam quando a Presidente da Assembleia da República entra na sala? De onde vem tanto choque a não ser, aqui sim, de um populismo idiota?

Se a memória me não falha, foi Shimon Peres que disse que era preferível lutar por uma causa do que ganhar eleições. Eu continuo a concordar com essa ideia e fico tranquilo por saber (algo que não me surpreende) que Passos Coelho afina pelo mesmo diapasão.



Post-scriptum: o que deveria ter indignado esquerda, centro e direita foi o filme pornográfico que vi na RTP sobre os lucros da Galp, que parecem ter crescido 56,7% (cifrando-se em 178 milhões de euros), no primeiro semestre de 2012. Isto só mostra que, se fosse solidária com o esforço dos portugueses, a empresa poderia encurtar as suas margens, assumindo parte dos dantescos aumentos dos combustíveis. É uma vergonha que parece não seduzir tanto a esquerda como o folclore político…

sábado, 29 de janeiro de 2011

Leitura obrigatória

Esta crónica de Henrique Raposo, no Expresso. Uma excelente súmula "sobre a atmosfera esquerdista que se respira em Portugal. Aqui, a esquerda pode tudo, logo, quando a direita ganha, é preciso inventar desculpas para retirar legitimidade à dita direita. Ou seja, mesmo que ganhe na legalidade democrática, a direita nunca tem legitimidade moral para governar."

domingo, 2 de maio de 2010

Polémica à antiga portuguesa (sem comentários)

"Que imensa tristeza nos provoca a leitura das Quase Memórias do Dr. António de Almeida Santos (Volumes I-II, Lisboa, 2006), onde se critica a II República por não ter aceite o processo das independências coloniais. Um advogado de superior craveira põe-se a historiar o passado sem atributos para o fazer, e o resultado fica bem à vista. São lugares-comuns e juízos sem prova, até com o desplante de rebaixar um mestre da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, ousando revelar conversas privadas e o «diz-se» de versões deturpadas. Como é fraco o talento histórico de um abalizado causídico que, em vez de se quedar para sempre em Moçambique, onde lhe estaria reservada a presidência da nova República, voltou à metrópole com os proventos amealhados numa conspiração consentida. E que hoje recolhe as frustrações de quem não soube fazer uma carreira política nesta metrópole onde praticamente ninguém deu pelo seu regresso."


Serrão, Joaquim Veríssimo, in "História de Portugal ", vol. XVIII ["A Governação de Salazar: Grandeza e Declínio (1960 - 1968)"], pág. 9, Lisboa, Babel (Verbo), 2010. Itálicos no original.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Depois admirem-se...

Há um tema que me prende às malhas da dúvida, de algum tempo a esta parte.

Tudo começa com a leitura dos jornais do fim-de-semana e com a recuperação de um assunto que me é caro: o perigo de se desgastar o já puído prestígio da classe política. Noticiava um semanário que o Primeiro-Ministro, José Sócrates fora ilibado pela investigação do caso Freeport. Até aqui, nada mais do que a verificação da sapiência ínsita no princípio da inocência das pessoas até ao trânsito em julgado de sentença condenatória…

Contudo, fica por discernir qual a compensação que poderá obter o principal visado, tendo em conta que a imagem pública é um dos maiores trunfos de qualquer político contemporâneo, e que a de Sócrates foi o bombo da festa, durante todo este processo (no qual se preferiu sorver avidamente o voyeurismo informativo da TVI)? E o mesmo se diga em relação ao caso dos submarinos, que ainda agora está nos seus alvores.

Ao mesmo tempo que saúdo a decisão de Pedro Passos Coelho de não explorar o lado “barraqueiro” da política, preocupa-me, indiferentemente dos visados, o ataque a referências de conduta social (sim, os políticos…), por muito que os próprios actores se “ponham a jeito” para estes problemas que a cupidez dos media não perdoa, explorando os factos com a venda de exemplares ou a conquista de audiências (e, logo, de publicidade) como alvo.

Embora num plano diferente, é o mesmo estilo de navegação social anárquica que se induz ao abrir portas como as do “divórcio na hora” (denominação nossa) ou a da consagração festiva do casamento homossexual. Ao esbater o cariz fundacional da família enquanto pilar de referências da sociedade, o que se consegue é o desamparo e a vulnerabilidade do indivíduo em si mesmo, somando a isso a queda “em dominó” de tudo o que, hoje, temos por razoável.

Senão, vejamos: quem há umas décadas falasse em casamento homossexual seria tido por louco ou agitador. Hoje é tido por moderno e sofisticado. Até aqui, tudo bem, já que apenas me aborrece a teimosia taxonómica ou onomástica.

Porém, só por ingenuidade pode entender-se que as coisas ficam por aqui e que se não reivindicará com igual pundonor a adopção. E nem aqui eu coloco uma marca apocalíptica… O que pergunto é de coisas que, hoje, ainda temos por reserva de ética viremos a abdicar, sob a capa da modernidade… O que será “natural”, daqui a uns anos?

Tudo isto tem a ver com a perda de referências, com a contestação mediaticamente estimulada à noção de autoridade e com a perda dos conceitos de certo e de errado… Depois admirem-se…

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Marxistas à força

Sei que é um tema recorrente das minhas prosas, mas não consigo escapar a esta época de mal-estar.

Olho para o mundo empresarial português – que, para efeitos desta reflexão, não dista muito do ambiente planetário ocidental, genericamente falando – e vejo que, embora transvestido ou maquilhado com pós de modernidade (sejam as actividades lúdicas de reforço da coesão das equipas, as avaliações inter pares ou os jantares evocativos de presença semi-voluntária; no fundo actividades que mantêm vivas as chamadas empresas de eventos), o essencial não muda – altura para um parêntesis, no sentido de dizer que não me refiro a nenhuma empresa em concreto, seja explicita ou implicitamente.

Efectivamente, constato que, pagando melhor ou pior (é assustador ver o pouco que, em média, recebemos, quando vamos, por exemplo, à Alemanha ou aos EUA), o essencial é que se produza, mantendo os funcionários – hoje, eufemísticamente chamados de colaboradores – encafuados nas empresas (de preferência e cada vez mais nas sedes), durante nove ou mais horas por dia e sujeitos a prédicas sobre eficiência (seja lá o que isso for, quando aplicado a seres humanos) e contenção de custos (algo que sabemos manter a salvo a difusa categoria de “gestor”).

Prescindindo de analisar a questão sob a óptica (simplista, a meu ver) da apropriação das mais-valias, o que me apoquenta enormemente é a perda de espaço para algo que não se subsume na nomenclatura usual de colaborador, assessor, director ou afins; falo do ser humano, em toda a vastidão do conceito.

Que tempo sobra hoje para “saborear” a família, mormente quando se sai tarde e/ou se demora horas em filas de trânsito? Que formação pode dar-se a crianças exaustas e com quem se quer partilhar algum tempo sem contornos espartanos? Alarmam-se as almas com decréscimo da taxa de natalidade, sem curar de saber que, para além dos mais óbvios dos “porquês” (a penúria e o egoísmo), existe na mente dos casais um “para quê?”, enquanto interpelação sobre o estado do Mundo para o qual se conceberiam novos seres humanos.

O mesmo em relação ao lazer: que tempo útil e que vitalidade sobram durante 5 dias por semana? Mesmo nos dias supostamente consignados ao repouso há muito quem trabalhe e outro tanto que apenas pode entreter-se a recuperar energias dentro de quatro paredes…

Perde-se o espaço da imprevisibilidade e criatividade inerentes ao “existir”, conduzindo para o materialismo consumista a catarse da frustração quotidiana... Surgem as novas doenças derivadas do stress (coisa incógnita há não muitas gerações) e cercam-nos hordas de novos diabéticos e obesos…

E desta vez não chegará o dia do levantamento geral (não mais o cruzador Aurora disparará o seu canhão), pois seguimos aparvalhados e mansos em frente à televisão e dentro dos saldos.

Depois de mandarmos os marxistas para a forca, tornam-nos marxistas à força. Nada aprendemos…