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sexta-feira, 22 de abril de 2016

"Um Imenso Portugal?" - I

O início do processo de cassação do mandato da Presidente Dilma Rousseff (impeachment, seguindo a moda) paralisou o Brasil e chamou a atenção dos demais países, como não poderia deixar de ser, atendida a dimensão deste gigante quase continental.

 Dando por sobejamente explicado nos media o processo em si, partilho algumas reflexões pessoais. A primeira delas tem a ver com o facto de entender que, ante a já mencionada dimensão do país, o início da queda de Dilma é o fim da ilusão populista na América Latina, pelo menos nos actores de dimensão significativa. Sei mesmo que muitos venezuelanos rejubilaram com o resultado da votação domingueira, precisamente por sublinhar com tintas mais fortes o letreiro de “A Prazo” que já pairava sobre Miraflores (palácio presidencial).

 Primeiro veio a derrota fragorosa dos herdeiros de Cristina, na Argentina. Depois, a conversão de Correa (Equador) ao pragmatismo. A contrario, o desenvolvimento notório da Colômbia. Agora, o mais do que provável “despedimento” de Dilma… Tudo sinais de que o sonho (a encenação – riscar o que não interessa, como nos impressos antigos) bolivariano de Chávez entrou numa derrocada irreversível. Contudo, mais do que o episódico rolar de cabeças, a leitura que faço é a de que, efectivamente, caiu a máscara dos populismos de esquerda que prometiam um mirífico igualitarismo alternativo à economia de mercado vigente nos países ocidentais, e que vieram a revelar-se propostas económicas desastrosas, projectos sociais incentivadores de indolência e corrupção, e até, em certos casos, alfobres de protoditaduras. A Venezuela será uma questão de tempo, e a Bolívia um teste ao contorcionismo político de Morales.

 Já na Europa, provando que até nos dislates perdemos a liderança, Bloco de Esquerda, Podemos e Syriza estão para lavar e durar, embora sem a mesma perspectiva de triunfo dos congéneres latino-americanos.

 O segundo corolário que extraio do ocaso da presidente brasileira poderá ser polémico, mas é algo sobre que especulo com convicção: sendo a primeira mulher a assumir a presidência Brasileira e partindo da premissa, como parto, de que a principal causa da queda verdadeiramente inerente a Dilma Rousseff foi a sua incompetência, tal comprova que a competência e uma série de outras qualificações nada têm a ver com questões de género e não são passíveis de controlar por um sistema de quotas.

 Note-se que a Presidente em vias de “despedimento” não foi eleita por qualquer sistema de quotas, nem tão pouco quero encetar um libelo contra as mulheres. Nada disso! Quero apenas contrariar a ideia de alguns histéricos da extrema-esquerda de que pertencer a minorias supostamente discriminadas é uma graduação social… O raciocínio equilibrado seria, pura e simplesmente, combater as discriminações (sou totalmente favorável) e reconhecer que nem todos os homens são incompetentes (algo que creio, para ser intelectualmente honesto, nunca esteve em causa), como nem todas as mulheres são competentes, como Dilma prova à saciedade. Daí a minha descrença em sistemas quantitativos de indigitação.

 (a continuar)

terça-feira, 2 de julho de 2013

A minha audiência com o Don

Embora o título tenha uma insinuação de idiossincrasia mafiosa, o conteúdo visa desmistificar uma ideia pré-concebida e ratificar uma ideia que há muito nutro: a de que não podemos deixar-nos conquistar pelos medos.

Vem isto a propósito de mais uma experiência vivida na Venezuela e que continua a manter viva na minha cronologia uma certeza objectiva que mostra que, conhecido quase meio mundo, o único assalto de que fui alvo foi há 27 anos, em Lisboa, e o único furto em residência que sofri foi há 3, em Coimbra. Sorte?! Pois, com certeza. Nada se faz sem ela… Tarimba?! Quiçá… Porém, os anos e os quilómetros percorridos reforçam a minha determinação de, observadas as cautelas elementares, não “dar a rua aos criminosos” e não tomar o todo pela parte; nem mesmo as cidades ditas perigosas conseguem ter um malfeitor em cada esquina.

Dito isto, vamos à ordem do dia – isto lembra-me as batalhas parlamentares e as saudades que por vezes tenho dos tempos de combate político (ao mesmo tempo que me lembro, diga-se, da iniquidade que também vi) – começando pelo deslindar do mistério maior: no último sábado, contra todas as advertências dos amigos venezuelanos com quem ia falando, mas precatando-me razoavelmente, resolvi ir ao “Festival Movistar de Reggaeton”. Cumpre, então, dissecar o objecto de anunciado delito.


Em primeiro lugar, o evento decorreu no Poliedro de Caracas, local circundado por vários barrios (aquilo que chamamos favelas, no Brasil), e parece que muitos venezuelanos de outra condição passaram a evitar o local. A esse respeito, a primeira absolvição: a segurança abundava, as entradas e as tiendas de comida estavam muito bem organizadas, os sectores eram estanques e tudo prometia um meio-dia e uma meia noite de festa.

Depois cifravam-se os medos e pesadelos em torno do estilo musical que é muito conotado com escalões sociais de mais baixos rendimentos e mesmo com franjas marginais da sociedade. O reggaeton surgiu de uma mescla da chamada música latina com os sons do Caribe – com evidente destaque para o reggae – comportando ainda tonalidades do hip hop. Segundo a maioria das fontes, tem as suas origens em Porto Rico e no Panamá, espalhando-se por toda a América Latina (hoje, um dos bastiões é também a República Dominicana) e, mais tarde, por todo o Mundo, o que, a meu ver e como explicarei, teve o efeito de atenuar a causa de muitos dos medos alheios que fui destilando.

O caminho deste género musical foi sendo feito muito próximo das classes trabalhadoras e dos circuitos juvenis underground, aproveitando os mais jovens – quiçá como sempre sucedeu – a arte para contestar as convenções. Como era de esperar, o reggaeton foi rotulado de obsceno e marginal (falava de drogas, crime e outros problemas dos sectores mais desamparados das cidades), e, reconheça-se especialmente quanto ao primeiro epíteto, com alguma razão quer pelo erotismo a roçar a pornografia de algumas letras iniciais, quer pelo modo de dança que o acompanhava, que era, mais uma vez com predominância nos seus alvores, uma versão hardcore da lambada.

Tendo começado por uma amadora caracterização do género, deixo agora uma breve ideia do que foi o festival organizado pela Movistar, num Poliedro de Caracas (o recinto) que não encheu, ao invés do esperado, quer pela fama de insegurança – pelo menos neste caso, imerecida – quer pela crise que começa a afectar seriamente os venezuelanos (a moeda desvaloriza, os preços sobem, mas os salários não acompanham).

A tarde fez o seu caminho para noite com notas dos artistas locais. A seu tempo, passaram pelo enorme palco montado no estacionamento do Poliedro (onde está prevista a actuação dos norte-americanos Aerosmith, em Setembro – por cá, referirmo-nos aos cidadãos dos EUA como “americanos” ofende os locais, que também reclamam a filiação continental) Manu y Jota,



Oscarcito – o autor de um eloquente “Reggaeton con Gusto” –


e Los Cadillac’s, mais um duo do panorama “reggaetonesco” venezuelano, que decidiu aquecer o ambiente (de forma surpreendentemente eficaz) com temas como “bon bon”.



Contudo, ninguém tenha ilusões, todo este som era apenas a escadaria de pano vermelho por onde haveria de descer “El Rey”, Don Omar, que, aliás, parece ter encarnado o título ao aparecer impecavelmente trajado com fato e gravata (sublinho que não há nada menos usual no mundo do reggaeton, mais conhecido pelas fatiotas berrantes e pelo “desleixo” calculado tributário do Hip Hop e do Rap).



Ante o êxtase generalizado, começou o rol de êxitos do cantor porto-riquenho: “Dale Don Dale”, “Virtual Diva” (celebrizada pelo refrão de que consta o sonoro “Ooh, chequea como se menea”), “Taboo” (a versão “régia” da brasileira “Lambada”) e, entre outros, o apoteótico “Danza Kuduro” que chama a atenção pela participação (que não no concerto) de Lucenzo. Ora bem, sendo que o dito colaborador e autor da versão inicial da música canta coisas como “Mexe Kuduro/ Balança que é uma loucura/ Morena vem ao meu lado/ Ninguém vai ficar parado”, mesmo antes do festival, importava ver quem era o rapaz que tão bem se expressa na língua de Camões, ao lado de El Rey…


O nosso Lucenzo é, nada mais, nada menos, o cidadão Luís Filipe Oliveira, nascido em Bragança e que, ignorado por muitos compatriotas, gravou com nomes grandes da música dançável como Don Omar, Pitbull e Sean Paul. A música mais conhecida na versão gravada com El Rey liderou a prestigiada tabela Billboard Latin Songs. Ou seja, goste-se ou não do estilo, há portugueses capazes de fazer tão bem como os outros…

Retomando e finalizando a narrativa, haveria a minha passagem pelo género de terminar com o dominicano Arcángel (leia-se “La Maravilla”), culpado pelos ensurdecedores gritos das adolescentes. Percebe-se que estamos perante um Justin Bieber do reggaeton, quer pela excitação causada, quer pelas letras.




Em suma, pode dizer-se que se presenciou um mundo à parte, com música muito mais audível do que o esperado e, sobretudo, com uma influência positiva derivada da sua globalização: as letras e a encenação estão hoje muito despojados do seu conteúdo sexual inicial, tendo sido aligeirados para melhor.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Longe do fim do Mundo

Nos últimos dias, tenho recebido por várias vias a pergunta “está tudo bem por aí?”. Sensiblizado pelas inquirições, sigo frustrado por não poder escrever livremente sobre este e outros temas (voltaremos ao estilo antigo, quando as funções terminarem…)…

Porém, cumpre chancelar a primeira crónica enviada da terra de Bolívar, Chavez “y” outros, dizendo que as notícias sobre o país são manifestamente exageradas.

Convém, no entanto, encontrar o ponto de equilíbrio para que se não pense no paraíso quando falo na Venezuela. Assim sendo, cumpre começar por reconhecer que a sua capital é, efectivamente, uma das cidades mais violentas do Mundo; Maduro e Capriles – os candidatos que dividiram o eleitorado ao meio nas eleições presidenciais de 14 de Abril – reconheceram-no durante a campanha eleitoral, inclusive com marchas gigantescas em evocação do tema. O maior drama, a mais do número de mortes, é o dos sequestros, que nada têm de amador; falamos de uma “indústria” muito bem montada e organizada.

Dito isto, é também dever desdramatizar o assunto. É necessário viver numa redoma e nunca por o pé na rua?! De todo!... Sente-se até muito mais a vida de uma verdadeira cidade do que em paragens como, designadamente, Joanesburgo. É mais do que possível ir ao “temido” centro e visitar a Praça Bolívar, as casas onde nasceu e viveu o “Libertador”, a Catedral e, noutras zonas, os museus e parques de Caracas. Sublinho mesmo que, pelas descrições, nos últimos anos, abnegado tem sido o esforço das autoridades para tornar as áreas em causa transitáveis, ao menos durante o dia. Em abono da oposição se diga de igual modo – não subscreverei maniqueísmos – que o Estado que Henrique Capriles (o grande contendor de Chavez e Maduro) governou até há pouco (que inclui as zonas “nobres” de Caracas) está classificado como zona segura para se andar (literalmente falando), embora com o relativismo que o termo impõe nesta urbe.

Por outro lado, mesmo o período pré e pós-eleitoral não foi o “faroeste” que me pareceu retratado na terra de Camões (a minha, por sinal…). Claro que mortes e grupos armados “em campanha” não cabem num duelo entre PSD e PS… Todavia, também será impossível, hoje em dia, ver por aí marchas e comícios com centenas de milhares de pessoas, com o condimento extra de uma cortante e inconciliável fractura ideológica entre “socialismo do século XXI” e liberalismo (não sei se Capriles aceitaria a etiqueta, mas foi a que me pareceu mais adequada para o fato que usou…), e sem esquecer a elevada temperatura do sangue latino-americano.

Tudo isto, em suma, para dizer que este é um País que vale a pena para trabalhar e visitar, desde que o leitor tome consciência de que as suas “calles” são um “bocadinho” mais agitadas do que a nossa Rua Ferreira Borges ou qualquer avenida lisboeta e tome as providências adequadas, mormente no que toca à simplicidade na aparência e à renúncia a qualquer acto de heroísmo em caso de infortúnio.