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domingo, 5 de setembro de 2010

Porque a ignorância ainda não paga imposto...

Lê-se na Ipsilon (suplemento do Público), a propósito do lançamento do livro "Salazar" de Filipe Ribeiro de Meneses, que "até 2009 ninguém ousou biografar António de Oliveira Salazar".

Alguém diga à Sô Dona Maria José Oliveira (autora do artigo/entrevista) que use menos a Wikipédia como fonte de sabedoria e que estude um nadinha que seja, pois esse esforço aparentemente impensável para a senhora dir-lhe-ia que o Embaixador Franco Nogueira (homem de quem se diz nem ter sido um "salazarista", apesar de ter servido o Estado Novo) escreveu uma biografia com o mesmo título, em seis volumes publicados pela Atlântida Editora (Coimbra), entre 1977 e 1985.

E nem é preciso ter uma edição em casa, como eu... Bastava ver o catálogo da Biblioteca Nacional, na Internet...

O novo livro deve ser bestial, a pseudo-jornalista será uma...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

28 de Maio

"Na Véspera do dia 28 de Maio, o Doutor Salazar mandou comprar a expensas suas uma passagem no avião da carreira de Lisboa ao Porto. Era a primeira vez que utilizava a via aérea para as suas deslocações, e parece que o meio de transporte não foi do seu agrado" *.

Quando passam oitenta e quatro anos desde a marcha de Gomes da Costa sobre Lisboa, que haveria de culminar, com a Constituição de 1933, no início do Estado Novo, escolho esta citação de uma obra magnífica, pois, a meu ver, a mesma reflecte o essencial de António de Oliveira Salazar: honesto como já ninguém é, mas ensimesmado e conservador, tal qual como queria o País... Tivera saído no final da década de 40 e outros relatos se ouviriam...

*Serrão, Joaquim Veríssimo, in "História de Portugal", vol. XVIII ["A Governação de Salazar: Grandeza e Declínio (1960 - 1968)"], pág. 218, Lisboa, Babel (Verbo), 2010.

domingo, 2 de maio de 2010

Polémica à antiga portuguesa (sem comentários)

"Que imensa tristeza nos provoca a leitura das Quase Memórias do Dr. António de Almeida Santos (Volumes I-II, Lisboa, 2006), onde se critica a II República por não ter aceite o processo das independências coloniais. Um advogado de superior craveira põe-se a historiar o passado sem atributos para o fazer, e o resultado fica bem à vista. São lugares-comuns e juízos sem prova, até com o desplante de rebaixar um mestre da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, ousando revelar conversas privadas e o «diz-se» de versões deturpadas. Como é fraco o talento histórico de um abalizado causídico que, em vez de se quedar para sempre em Moçambique, onde lhe estaria reservada a presidência da nova República, voltou à metrópole com os proventos amealhados numa conspiração consentida. E que hoje recolhe as frustrações de quem não soube fazer uma carreira política nesta metrópole onde praticamente ninguém deu pelo seu regresso."


Serrão, Joaquim Veríssimo, in "História de Portugal ", vol. XVIII ["A Governação de Salazar: Grandeza e Declínio (1960 - 1968)"], pág. 9, Lisboa, Babel (Verbo), 2010. Itálicos no original.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ignorância «Sem Medo»

Monumento de Homenagem ao Gen. Humberto Delgado, Cela (Alcobaça)

Há dias, numa feira do livro, comprei um dos exemplares da Colecção "O País das Maravilhas", produto oficial do evento "Maravilhas de Portugal 07.07.2007" que com certeza ainda terão na memória, mercê da sua grande mediatização. O n.º 15 daquela colecção versa sobre o meu estimado Mosteiro de Alcobaça, monumento candidato que se veio a consagrar uma das sete maravilhas em solo luso.

O pequeno livro divide-se em três partes - a Maravilha (leia-se: o Mosteiro); 7 ícones ao seu redor (Chita, Doces conventuais, Maçã, Padeira de Aljubarrota, Pedro & Inês, Pop e Vidro) e, logo de seguida, "Outras 21 pequenas maravilhas". E é aqui que, para meu espanto, entre o destaque para outros monumentos locais, outras iguarias gastronómicas e algumas personalidades indelevelmente ligadas ao concelho, descubro que uma das figuras que ali consta é, voilá, o Marechal Gomes da Costa. Leio outra vez e sim, o que ali está é, preto no branco, "Marechal Gomes da Costa". E o pequeno texto, o que é que diz? Aqui se transcreve:

"Não nasceu em Alcobaça, mas sempre aí passou férias e fez amigos para mais que uma vida. Conhecido como General Sem Medo (1906-1965), procurou derrubar a ditadura através de eleições, tendo sido derrotado num processo eleitoral fraudulento que deu a vitória a Américo Thomaz. Foi assassinado pela PIDE, em Olivença, e encontra-se sepultado no panteão nacional. Foi-lhe erigido um monumento no lugar de Cela, em Alcobaça".

Por certo já se deram conta de que o texto refere-se não a um Marechal, mas a um General, de seu nome Humberto Delgado, este sim, intimamente ligado ao concelho. Um erro grosseiro que, dado o contexto - publicação oficial de um evento com o apoio institucional, imagine-se, do Ministério da Cultura, do IPPAR e do Turismo de Portugal - parece-me indesculpável. Além do mais, 3 anos volvidos e ninguém se deu ao trabalho de elaborar uma “Errata”.

Tenha-se em conta que é um livro que foi pensado para dar a conhecer um monumento, uma cidade e o que de mais marcante os rodeia e que se trata de um produto sujeito a uma revisão editorial que, no presente caso, parece ter corroborado da estapafúrdia ideia de que, entre a Ginja, a Louça de Alcobaça e a Maria de Lurdes Resende, o Marechal Gomes da Costa também ia bem com Terras de Cister.

Pois bem, recupere-se das lições de História de Portugal e relembre-se quem foi Marechal Gomes da Costa: destacado militar e líder da direita conservadora, encabeçou a Revolução de 28 de Maio de 1926 e, por golpe em Junho desse mesmo ano, alcança o Governo, sendo que este apenas dura 20 dias, uma vez derrubado por Óscar Carmona aos 9 dias de Julho seguinte. Carmona, assim que toma a posse, remete o seu precedente para o exílio nos Açores, não sem antes tê-lo feito Marechal.

É certo que, tal como Gomes da Costa, Humberto Delgado também fez carreira militar, tendo sido, já a título póstumo, também nomeado “Marechal” (da Força Aérea). Mas as semelhanças entre estas duas figuras históricas ficam-se, obviamente, por aqui. Opositor ao Estado Novo, o General Sem Medo sobressaiu naquela época pela sua coragem – daí o cognome -, coragem essa que, contudo, não lhe bastou para vencer as (fraudulentas) eleições de 58. Segue-se o exílio político, sem deixar de fazer oposição, até ao dia em cai numa cilada da PIDE e é assassinado em terras fronteiriças.

Muito mais fica aqui por dizer sobre este homem de exemplo, mas aos que desconhecem a sua apaixonante (embora trágica) história de vida, recomenda-se a biografia escrita por um dos seus netos, Frederico Delgado Rosa. A recomendação estende-se, naturalmente, à autora dos textos do livro aqui em apreço, para que não repita a proeza de confundir duas figuras históricas tão díspares.


* também publicado na edição de hoje do jornal “Região de Cister”;

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Mais 2.500,00 € para o TGV

Ando há diaspara escrever sobre mais uma das muitas provas da indigência cultural dos nossos governantes.

Falo de um episódio que mostra bem os complexos ideológicos que 34 anos depois ainda afectam a nossa esquerda.

De facto, o Estado Português decidiu não exercer o seu direito de preferência sobre um lote de cartas manuscritas pelo Professor Marcello Caetano, ex-Presidente do Conselho de Ministros e último governante do Estado Novo, já no exílio à data.

O Estado estava representado pela Biblioteca Nacional e pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo, mas deveria ter havido um decisor político que, mesmo não se tratando dos escritos mais relevantes para a compreensão daquele regime e para a reconstituição do percurso biográfico do Professor, percebesse que não só devemos lidar com a nossa História de forma descomplexada e pedagógica, como em cada linha se pode perceber um traço da emoção de uma figura que para ela tenha entrado.
Só quem tenha vistas curtas acha melhor que tenhas sido um respeitável empreiteiro (mais respeitável do que o Ministro da Cultura) a arrematar o lote, por... 2500,00€. Deve dar para um parafuso do TGV!...

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Sai Azar (VI) - O Espelho e o Espalho da Nação (Epílogo)

E chegamos ao fim da saga (“finalmente”, dirão alguns) sobre a vitória do Doutor Salazar em “Os Grandes Portugueses”, aproveitando eu para pedir desculpa aos colaboradores e leitores do "lodo" por ter ocupado tanto espaço. Confesso que, a propósito do concurso, não resisti a fazer o ponto de situação do meu pensamento sobre o Portugal de hoje (a culpa, porém, também foi de quem me desafiou).
Pegando na deixa do último texto, entendo que a mediocridade de muitos dos nossos políticos (algo que motivou um voto de protesto em Salazar) reproduz apenas, em edição revista e aumentada, a mesquinhez da nossa vivência enquanto povo.

Começando, comme il faut, pelo início, atribuo a vários excessos pós-revolucionários alguns dos males de que padecemos, embora não o faça de forma exclusiva. Diz-se que, ao tempo de Salazar, éramos um povo sem qualificações académicas e atrasado nos hábitos de sociais, mormente pela clausura a que o País se encontrava sujeito. Creio que é verdade.

Todavia, não deixo de afirmar que o 25 de Abril, com os excessos próprios dos períodos que se seguem a qualquer revolução, trouxe o erro de liquidar as elites, procurando, pela lamentável inspiração marxista que dominou muitos dos arautos dos novos tempos, instituir uma ordem em que fossemos todos iguais, no pior sentido do termo. Se é bom que o sejamos no plano dos direitos, liberdades e garantias, a verdade é que só por estupidez nos acharemos igualmente capacitados a desempenhar o mesmo papel na vida; nem num grupo de amigos, quanto mais num país…

Era a época dos saneamentos, das passagens administrativas nas universidades (estão tão caladinhos, muitos dos que se entretêm com a Universidade Independente…) e do Estado estilo “vaca leiteira” que, ainda hoje, dá de comer a muita gente, num paradigma que terá o seu corolário máximo na “tigela de ferro chinesa” (um emprego que vale para a vida e que sustenta uma família), sendo que mesmo essa já começou a “enferrujar”.

De caminho, com a perseguição às elites (as humilhações que sofreram, por exemplo, alguns professores da Universidade de Coimbra, se calhar, às mãos de muitos que, entretanto, se aburguesaram), destruíram-se referenciais de valores. Podemos discordar da pauta ética da vida cívica do Estado Novo, mas ainda havia gente com trato social elevado, inclusive entre as pessoas de baixa instrução e de magras posses. Ao invés, a lógica do “é proibido proibir” (a versão high tech desta atitude anarca é o Bloco de Esquerda) favoreceu o laxismo e a libertinagem, não sendo de espantar que se degradem até os mais banais padrões de cortesia e o próprio requinte na afectividade.

Contudo, baralhando e voltando a dar, há muitas explicações que devem buscar-se em tempos anteriores. Começo por algo que já li e com cuja essência concordo: gostamos muito de ser tutelados. Se, a um tempo, queremos ser livres para tudo e mais alguma coisa, não nos importamos de ter um “paizinho” que olhe por nós. Dito de outro modo, queremos que as coisas se vão fazendo, sem que tenhamos a maçada de fazermos a nossa parte na construção de uma sociedade melhor e mais próspera (assim, com empenho de cada um se explica, a meu ver, a vibrante vida cívica, entre outras nações, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha).

De um modo empírico, e num cenário indubitavelmente democrático, encontro paralelos nas maiorias absolutas de Cavaco Silva (1987 e 1991) e de José Sócrates (2005). Com as devidas distâncias entre eles, falamos de personalidades fortes e, concorde-se ou não com o rumo, de homens de reformas que preferem quebrar do que torcer, correndo, quando necessário, sozinhos e contra o vento. Sendo que os dois contrariaram a tendência do método de Hondt (que favorece mais a representatividade do que a governabilidade), parece-me que, nesses três momentos de aclamação sufragada, nos reencontrámos com a nossa idiossincrasia. Passámos procuração a cidadãos ilustres para que, mesmo a custo de alguma qualidade de vida (veja-se o caso actual), fizessem o que havia e há para fazer, sem que nos maçassem ou macem excessivamente com consultas frequentes.

A culpa é dos dois? Não.

Governaram mal? Até 1993, sei que não, no primeiro caso. Esperemos para ver, no segundo.

Vem mal ao mundo deste nosso gosto pelo “pau e cenoura”? Sim, pois poderíamos eleger os mesmos cidadãos, sendo mais informados e mais participativos.

No fundo creio que combinamos o pior do liberalismo continental europeu (a ideia de que somos mais espertos do que a Lei e de que a Ordem existe para se moldar) com a essência latina, que nos leva a esquecer a “conta da mercearia” sempre que há Sol, festa ou futebol…

Cumprimos com medo da punição! Se há mais receitas fiscais, tal não se deve a uma noção mais apurada do bem comum, mas sim à maior agressividade da administração fiscal. Se diminui a sinistralidade rodoviária, não podemos saudar o maior civismo dos condutores, mas sim aplaudir o endurecimento das contra-ordenações e penas. Se há menos mordomias associadas a certos lugares públicos, não podemos congratular o ascetismo dos titulares, mas sim felicitar a maior vigilância mediática (embora entenda que estejamos a cair no extremo oposto: o miserabilismo populista).

E sejamos francos, embora todos gostemos de ser portugueses e não tenhamos dúvidas (eu, pelo menos, não tenho) de que Portugal é melhor pátria que se pode ter, sabemos que, em conjunto, temos uma tentação para sermos mandriões, invejosos e corruptos.
Que longe estamos da cultura do mérito... Seja para uma consulta médica, para publicar um livro ou para obter um emprego, mesmo na iniciativa privada, conhece algum país desenvolvido onde dê mais jeito do cá “conhecer alguém”, no pior sentido da expressão?

Voltando a um dos textos anteriores, creio que a Educação e Cultura poderiam curar-nos dos nossos males, mas, com a sua degradação acentuada, não sei se estamos ainda em condições de começar por formar os curandeiros…

O pior é que, nestes domínios, temos pouco tempo, já que ninguém tem saudades do que nunca conheceu. Já noutros, a vitória de Salazar deixou-me a pensar…

domingo, 8 de abril de 2007

Sai Azar (V) - A (falta de) classe política

O problema em torno da eleição de Salazar não cessa, contudo, de aumentar…
Li, há poucos dias, que mais um conceituado sociólogo do Instituto de Ciências Sociais (escola de prestígio) veio desmerecer o juízo feito após o concurso por e sobre os políticos, e fiquei com a sensação de estar a observar uma cadeia alimentar intelectual: a seguir à vitória de Salazar, os políticos desvalorizaram a escolha popular e os politólogos desacreditaram a opinião dos eleitos, sem contudo se deixarem enlamear pelo plebeísmo de dar razão às massas; no fundo, excepção feita aos participantes na votação da RTP, todos procuraram – vício bem português, diga-se – justificar o seu lugar pela diferença, como se dar razão a outro seja um crime de lesa ordenado…

Precatando-me contra analistas, políticos e espécies naturais afins, sublinho que esta série de textos nada mais representa do que a minha opinião. É com essa base “orgulhosamente só” que entro na causa mais ilustrativa do voto maioritária no Professor: um misto de mesquinhez popular com um juízo francamente negativo sobre a classe política dominante, sobretudo desde meados da década de 90 (a altura em que se apagaram os últimos nomes grandes da nossa jovem democracia).

Guardo o juízo sobre a “ontologia” portuguesa para o último texto, retendo-me na avaliação dos vários matizes da mediocridade que afecta boa porção da nossa nomenklatura política.

Desde logo, parece-me que há fenómenos de notório ancilosamento e senilidade do nosso sistema partidário, mormente no que toca à ala esquerda do PS e, prima facie, ao PCP. Falamos, como já recordei, no mesmo partido que, ainda em 1991, apoiava (quase isolado no panorama dos partidos comunistas europeus) o golpe de Estado de Ianaev contra Gorbatchev e, pior ainda, o mais reaccionário dos partidos lusos no que toca a reformas na Educação e a democratização da Cultura.

É, no mínimo, hipócrita que as cabeças alegadamente pensantes da esquerda passem anos a encolher-se como Drácula defronte do crucifixo quando se propunha ensinar, na História de Portugal, uma visão desapaixonada das II e III Repúblicas e, agora, corem de pudor ao verem a consagração do Presidente do Conselho, em parte, pela deificação exclusiva das características benévolas, parte das quais romanceadas, do seu consulado.

Recupero exemplos como o do Museu Militar de Viena, o campo de concentração de Auschwitz e o Museu de Chernobyl (em Kiev) para lembrar como outros povos lideraram corajosamente com dramas bem mais sérios do que o Estado Novo. Por cá, provincianamente, continuamos a pensar se fazemos um museu em Santa Comba Dão (por mim devia fazer-se inclusive com documentos cedidos pela Torre do Tombo) e deixamos que a sede da PIDE se converta em condomínio de luxo, num acto impar de burrice autárquica.

Depois, há um outro juízo que, a meu ver, os portugueses fizeram de forma implícita: a rejeição da actual classe política. Bem sei que, chegados a este ponto, brilham os sociólogos dizendo que se trata de empirismo não cientifico, mas também podemos pensar que não faria mal aos nossos cientistas ouvirem os portugueses nos cafés e nos transportes públicos, sem lhes apontarem um lápis ou um gravador à cabeça, algo que pode tirar alguma espontaneidade às respostas de muitos estudos. Procedendo assim veriam que, nos dias que se seguiram ao triunfo de Salazar, o que a vox populi mais verberava era mesmo a mediocridade dos eleitos, por muito que haja alguma injustiça neste veredicto.

Creio que, de facto, vivemos um período nebuloso em matéria de “sumo” político, já que o nosso sistema partidário se encontra quase exclusivamente nas mãos de uma geração – que andará, mais ou menos, entre os quarenta e poucos e os cinquenta e cinco anos de idade – que floresceu no pós 25 de Abril, predominante mas não exclusivamente, por via das juventudes partidárias e que aproveitou a miríade de oportunidades de participação política que o período pós revolucionário abriu. Era a época em que se respirava política e na qual os partidos e o Estado eram fartos em sinecuras políticas, que nem sequer eram tratadas com o desfavor com que, hoje e de forma algo fundamentalista, se olha toda e qualquer nomeação.

Resultado prático: falamos de algumas pessoas (não todas, claro) que não tiveram, realmente, uma profissão (por muito que escrevam qualquer coisa do género nos currículos oficiais) e que, desse modo, “matam” para permanecer nos cargos partidários e públicos, chegando ao ridículo de conseguir apoiar sucessivamente lideranças partidárias absolutamente incompatíveis, sem sequer fazerem um período de nojo recomendável; é como se fosse natural acordar a dizer que é preto algo que se jurara ser azul, ainda na véspera.

O caso pode agravar-se mais se à “carreira” política somarmos negócios que, não sendo necessariamente ilegais, jamais seriam encetados ou mantidos sem que se ocupasse determinado cargo que potencia influências, traficadas ou não. Não caindo na leviandade de acusar sem provas, convido antes a um exercício: acha que todos os políticos que vivem a dolce vita conseguem explicar tudo o que têm à luz do seu ordenado ou de heranças?

E mais: permanecendo, por vezes, há cerca de vinte anos nos lugares, gera-se uma espécie de endogamia em pessoas que só vêem os seus pares e cujo mundo, para usar uma expressão de Rui Reininho, “termina às Portas de Benfica”. Faz ideia, por exemplo, de quantos deputados não vão a um teatro, a um concerto, a uma exposição ou a um cinema? Passa-lhe pela cabeça o número de entre eles que já não sabe como se compra um bilhete de autocarro ou que não lê um livro? Sim, há gente que, aparentemente, tem no assinar do livro de ponto o mais esforçado exercício cultural, e juro que o sentimento com que escrevo é o de preocupação e não despeito por já não integrar o “plantel”.

Mas a pergunta impõe-se: qual o problema de haver uma geração de jovens turcos sem Ataturk que se perpétua? Muito simplesmente o facto de não haver renovação (turnover, como dizem os manuais de ciência política) que é tanto mais necessária quanto o mundo actual muda a uma velocidade nunca antes vista. Ou seja, começa a faltar quem interprete os tempos que correm com uma linguagem adequada para comunicar com eleitores já submersos pela cultura televisiva, o que obriga a uma mensagem estruturada em termos mais emotivos e mais longe das tiradas palavrosas e hieroglificas que os nossos políticos ainda apreciam.

O problema parece-me, aliás, longe de uma solução, se virmos que as lideranças, mormente as que conheço melhor, optam por purgas parciais e por critérios de favor na elaboração de listas que mais parecem distribuição de comendas. Em vez de se pensar nos elencos que temos de ter à chegada, privilegiam-se as palmadinhas nas costas à partida.

Mas, como disse antes, há algo de injusto no ar, se ficarmos por estas linhas. A verdade é que os cidadãos não podem esquecer-se de que os nossos políticos são assim porque são um mero espelho do povo a partir do qual emergem.

Os defeitos da classe política apenas são uma ampliação dos traços dos representados, sendo que a sua vaidade só existe porque há aduladores e a eventual corrupção só grassa porque alguém se deixa comprar… A isso iremos a título de epílogo…

terça-feira, 3 de abril de 2007

Sai Azar (IV) - O Porquê da Coisa

E, não ignorando o dito fenómeno, tento buscar algumas das suas causas, começando pelas mais genéricas.

Antes, porém, confesso que acho alguma graça a quem o faz, desvalorizando a grandeza da amostra ao dizer que foram apenas 50.000 pessoas (números redondos) a votar no ditador, esquecendo-se de mencionar que as muy rigorosas sondagens convencionais têm amostragens, por vezes, cerca de 50 vezes menores (várias não chegam às mil entrevistas), com a agravante já mencionada de, sendo directas, a pergunta poder intimidar; é dos manuais, para quem estude sondagens, seja a pergunta sobre Salazar, aborto ou qualquer outro tema polémico e abrangido pelo “politicamente correcto”…

Voltando ao tema, entendo que não se trata de um surto de salazarismo. O corporativismo de Estado é um fenómeno datado e Salazar mais o é, por razões óbvias. Não me passa pela cabeça que 99,9% dos que votaram no cavalheiro de Santa Comba Dão pensem realmente que o podem trazer de volta ou sequer que saibam o mínimo olímpico sobre os ditames das políticas levadas a cabo no período histórico que vai de 1926 a 1974.

A contrario, diria que não vale a pena censurar os putativos apoiantes do Doutor Salazar, dizendo que muitos “só falam assim, porque não viveram naquele tempo”. Creio que não é preciso ter andado pelas estepes com Átila ou ter ido à escola com Mussolini para saber o que fizeram de mal; isto é, quem apoiou Salazar, independentemente das suas recônditas motivações, fê-lo, por certo, sabendo que, no Estado Novo, houve atropelos aos direitos humanos a par de realizações benéficas, por muito que não consiga detalhar qualquer um deles.

Destaco, em particular, uma estudante de Coimbra (ironia do destino, a Escola que formou Salazar e este vosso criado, salvas as devidas distâncias), cujo depoimento, que escutei num programa radiofónico do dia seguinte, era explícito: concordava com o resultado do concurso, entendia que o estudo da Eurosondagem visava branquear o mesmo, além de lamentar que Portugal fosse, hoje, gerido pela corrupção e pela cunha, que se fizessem fortunas na política e que se roubasse de uma forma que Salazar nunca permitiu, no seu tempo. Mais acrescentou que o problema não é do povo, já que o mesmo povo academicamente desqualificado projectou o Luxemburgo para altos padrões sociais, uma vez que a classe política local sabe dirigir; ou seja, queria a jovem coimbrã (pelo menos dos bancos da faculdade é-o) dizer que os políticos actuais não prestam.

Mas nem a política internacional lhe escapou, pois rematou com uma ilação sobre a hodierna subserviência a George W. Bush, por contraponto à recusa de António de Oliveira Salazar em vergar-se aos americanos.

Ora bem, retomando o fôlego, digo-vos que me vou escusar de comentar os pontos mais panfletários, concluindo que a nossa estudante está meia certa e meia errada. Fico-me pela primeira metade, concluindo-se sobre a outra pelo silêncio.

Entendo, desde logo, que diagnostica bem, embora não prescreva a terapêutica adequada, o mal do nosso povo: débil Educação e fraca Cultura.

Quanto à Educação, começamos a entrar num beco sem saída: à medida que se retiram os que ainda sabem ensinar, emerge uma nova geração de docentes (com excepções pela qualidade, claro) que já foi vítima da massificação selvagem do nosso ensino superior e da degenerescência ética do pós 25 de Abril, em que procurou contrariar-se o espartilho censório do regime deposto com uma lógica de “é proibido proibir” que, em muitos casos, transformou liberdade em libertinagem.

Culpas?! Se adiantar apurá-las, são do PSD e do PS que, em 30 anos, ainda não conseguiram impor uma metodologia de ensino exigente e de qualidade. No caso do PS, por preconceito ideológico da sua ala esquerda, a tendência é, bem ao invés, no sentido de um calamitoso facilitismo para não “traumatizar os meninos” e, algo que é comum ao PSD, para conseguir níveis de sucesso escolar que enganem os rankings da União Europeia (digo “enganem”, porque cada vez se sabe menos sobre tudo e mais alguma coisa…).

Já na Cultura o panorama não é melhor, aqui com menos culpas do PSD do que do PS e da esquerda, em geral, já que o primeiro partido, com o CDS, procurou, pelo menos, democratizar o acesso aos bens culturais.

O problema é que o nosso Orçamento de Estado, no capítulo cultural, é terceiro-mundista, nunca chegando a 1% (sim, disse bem: um por cento!) do total. E mais me preocupo quando, como sucedeu no último conselho nacional do PSD, um afamado deputado e conhecido santanista (ainda os há, é verdade…) disse, na sequência de uma intervenção do presidente do partido, que a Cultura não era um tema relevante. Ora, perante tamanha mostra de atavismo político, resta-me sublinhar que, no século XXI, em países como Portugal, só com uma fortíssima aposta na cultura poderemos preservar a nossa soberania.

Senão vejamos: as Forças Armadas e Policiais já não nos defendem em Vilar Formoso; hoje podemos ter militares e polícias a morrer pela nossa bandeira em Timor, no Afeganistão ou nos Balcãs. Acresce que a defesa da soberania é, para nós, integrada, já que não somos auto-suficientes (Espanha levaria horas a invadir-nos, se fosse o caso).

E mesmo o nosso tecido económico, como sabemos, está muito tomado por multinacionais estrangeiras, nem sendo preciso ir a qualquer parque industrial, já que qualquer centro comercial fala por si.

O que pode distinguir-nos, então, enquanto país pequeno e sem grandes recursos naturais, com excepção do mar? A mais da nossa idiossincrasia aventureira e criativa, recursos humanos muito qualificados e uma forte aposta no reforço da nossa identidade própria, que se consegue estimulando a conservação e invenção de cultura portuguesa.

E todo este sermão para quê? Para pedir que não se espantem, quando, à falta de tudo isto, os portugueses que, em 2007, se deram ao trabalho e ao encargo de participar no concurso votam em Salazar ora porque não estarão suficientemente formados e informados, ora porque entendem que estão mal servidos de políticos (algo que me parece certo, mas a que iremos mais adiante).

Para já, fico-me pela primeira parte da equação para sublinhar que acho delicioso que seja a esquerda a aspergir bílis sobre a ignorância dos que escolheram o político de Santa Comba Dão, quando é precisamente a esquerda – maxime a CGTP – o sector social mais reaccionário no que toca a mudanças na Educação. Seja o tema propinas, concursos de professores, disciplina dos alunos ou revisão curricular, o que se ouve do braço sindical do PCP é conservadorismo e nem uma só ideia nova.

E na Cultura, desgraçadamente, o cenário não é mais animador: responsabilidades assumidas no que concerne à direita, devo dizer-vos que a esquerda resume-se a propor aumentos acríticos, privilegiando o elitismo, já que pretende financiar peças com mais gente em palco do que na plateia e filmes para o realizador ver com amigos, em vez de procurar ver até que ponto é que as criações culturais pagas por todos estão realmente a aumentar o nível intelectual dos portugueses, em geral.

Resumindo e concluindo: se houvesse qualidade na Educação e na Cultura, provavelmente outro seria o “Grande Português”.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Sai Azar (III) - Salazar fashion

Deve sublinhar-se, a meu ver, que não foi o concurso que trouxe Salazar de volta ao nosso imaginário colectivo.

A mais da tradicional lamúria de povo pobre e mandrião – ao estilo “o que nós precisávamos era de outro Salazar” – a verdadeira moda em torno da evocação da sua memória está, de há muito a esta parte, bem patente em capas de revista, na profusão de livros sobre ou em torno da sua personagem (sendo que até as memórias de Marcello Caetano sobre o seu antecessor voltaram a aparecer nos escaparates) e até em debates públicos como o que se tem gerado em torno da eventual reposição da sua estátua, em Santa Comba Dão (mais concretamente, no Vimieiro) ou da criação de um museu alusivo á sua vida, na mesma localidade (este último assunto, diga-se, tem sido mal tratado pelo Edil local, que já possibilitou à cinzenta Ministra da Cultura fazer um brilharete na esquerda empedernida, dada a inconsistência do processo que lhe foi submetido).

Bem vistas as coisas que ocorreram no pós concurso, vejo-me forçado a concluir, todavia, que o grande impulso para o ressurgimento da figura maior do Estado Novo também vem das reacções histéricas de alguns sectores sócio-políticos.

Comportamentos histriónicos como o de Odete Santos não só criam rejeição pelo anti-salazarismo, como obnubilam o sofrimento daqueles, e sabemos que existiram, que, efectivamente, viram o lado nefasto da II República.

O mesmo pode dizer-se de gente que se acha dona da verdade e da liberdade (não, desta vez não falo de Louçã…), como Vasco Lourenço. O facto de ter contribuído activamente para o 25 de Abril não apaga a especulação sobre a nova Albânia que seríamos se o tivessem deixar levar a dele avante (salvo-seja, quando ao avante…), nem lhe dá o direito de pautar a melodia da vida social do século XXI. O seu tom troglodita ficou bem patente em declarações ao “Público” de 27 de Março, onde pode ler-se que o nosso Coronel entende que os alegados fascistas nunca deixaram de existir (ou seja, reconhece que o apreço por Salazar não é efeito do concurso) e, vendo bem, “nunca de cá saíram. Têm é estado debaixo das secretárias e pensam que neste momento têm condições para pôr as orelhas em pé”. Orelhas em pé?! E não é que o nosso Presidente da Associação 25 de Abril se habilita a conseguir o efeito contrário?!...

Mas entremos numa hipótese menos despeitada: seria bom se Cunhal tivesse governado (isto para pegar no segundo grande português, embora a 22% do primeiro classificado)?

No programa da Antena 1, que já mencionei, escutei um ouvinte dizer que Álvaro Cunhal lutara pela liberdade de expressão. Para não desatar a rir, visto que o Dr. Cunhal me merece respeito intelectual, resta-me concluir que deveremos estar a pensar em Álvaros diferentes, já que é mais provável que isso pudesse ter acontecido com o senhor Álvaro das farturas, que tinha, vai para muito tempo, uma barraquinha em Armação de Pêra, do que com Álvaro Cunhal que, se tivesse sido mandatado para tal, ter-nos-ia convertido num satélite da URSS, o regime que mais gente matou, a par do nacional-socialismo, no século XX. Já lembrei, noutra sede, o exemplo do PCP, que foi dos raros partidos comunistas do mundo que, em 1991, apoiou o golpe de Ianaev que depôs Gorbatchev.

Mesmo o actual PCP é de um anacronismo tamanho que me vem à memória o espanto dos deputados dos parlamentos de Estónia, Letónia e Lituânia que, há menos de 5 anos, durante uma visita oficial, se espantavam por Portugal ainda ter comunistas no Parlamento (apesar do representante do PCP ser um cidadão adorável e um democrata, atesto-o), eles que conheceram bem a força trituradora de Moscovo…

E mais se deve olhar com humildade a evocação pública do Ditador, se pensarmos que os “seus” 41% não se apoiam numa estrutura partidária organizada como se apoiaram os 19% “de” Cunhal, já que não há dúvida de que o Partido Comunista se mobilizou seriamente.

Em suma: estou em crer que não foram “Os Grandes Portugueses” que “acordaram” Salazar, da mesma maneira que acredito que a agressividade caceteira da nossa extrema-esquerda apenas serve para acirrar ressentimentos e não para esclarecer as pessoas sobre o tempo que não volta mais.

Como disse, penso ainda que ignorar o fenómeno torna pior a emenda do que o soneto…

quinta-feira, 29 de março de 2007

Sai Azar (II) - O Concurso e o Método

É opinião quase unânime que a eleição de Salazar como o maior dos "Grandes Portugueses" se tratou de um programa de entretenimento, sem preocupação de fornecer uma amostragem rigorosa. Era, contudo e concomitantemente, um acto de participação volitiva, pelo que não deve ser desprezado, como me parece que aconteceu por parte de conceituados sociólogos consultados pelo “Público”.

Entendo ainda que é capcioso procurar desautorizar o valor que possa haver em “Os Grandes Portugueses” com base, por exemplo, no estudo da opinião da Eurosondagem, que colocava Oliveira Salazar em sétimo lugar . A verdade é que, pelo que ouvi da ficha técnica (na Antena 1), as entrevistas foram pessoais e directas, não valendo a pena escamotear o facto de haver, dada a carga de cavalaria do politicamente correcto made in 25 de Abril, algum pudor em assumir qualquer espécie de apreço por qualquer reminiscência do Estado Novo, algo que mais se sentirá se falarmos do seu mentor.

Dito de outro modo, qualquer pessoa com preocupação de objectividade reconhecerá que não é com facilidade que se admite, mesmo que o entrevistador garanta confidencialidade, que se nutre simpatia pela figura de um ditador. Como exemplo prosaico posso contar uma experiência pessoal em torno da aquisição da magnífica fotobiografia do Professor, organizada por Fernando Dacosta, um homem insuspeito de ser salazarista, mas que nem por isso deixou de investigar com qualidade e rigor. A dita história conta-se a dois tempos: o primeiro prende-se com a aquisição da obra, na Feira do Livro de Lisboa, durante a qual, já nem sei a que propósito, a senhora que me vendeu o livro, sendo ainda jovem, não perdeu o ensejo para sublinhar a falta que, em seu entender, fazia alguém como Salazar, para nos governar.

O segundo andamento tem a ver com o comentário de um amigo e colega deputado (na altura eu também o era) que reconhecia com alguma inveja que também pensara em adquirir o livro, mas que o não fizera por ter vergonha. Ou seja, quando gente esclarecida (e não excessivamente conhecida, já que não era dos mais expostos aos holofotes) ainda nutre receios deste jaez, que esperar do cidadão que se vê apelidado de fascista quando, mesmo conservando as opiniões no seu íntimo, ouve a esquerda portuguesa, com destaque para o sítio arqueológico comunista e o circo bloquista, produzir, diariamente, o diktat do politicamente correcto?! É óbvio que Salazar já mais ganhará, nos tempos mais próximos, uma consulta pessoal e directa. Para o perceber não é preciso estudar em Coimbra…

Depois, há que enfrentar outra consideração metodológica: o resultado, segundo algumas opiniões, não merece crédito, porquanto existiu a possibilidade de a mesma pessoa votar várias vezes, bastando que usasse um telefone diferente.

Pois bem, eis algo bem dito. O problema é que o mesmo dogma vale para a votação de Cunhal, Afonso Henriques, Pessoa, e por aí fora…

Sabemos que este género de consultas televisivas se presta a resultados inauditos e a perguntas surrealistas, caindo mal pudores tardios. Durante as minhas investigações académicas deparei, aliás, com exemplos que o atestam, quase que folcloricamente: é o caso, designadamente, da consulta que o programa Saturday Night Live da cadeia norte-americana ABC promoveu, a 11 de Abril de 1982, no sentido de saber se a personagem ficcionada Larry, "The Lobster" devia sobreviver ou morrer. Veja-se, portanto, o assunto que, naquela ocasião, atraiu 240.215 tele-votantes…

Por sua vez, a mesma cadeia televisiva promoveria, dois anos volvidos, uma consulta para conhecer as preferências dos telespectadores para a nomeação do candidato democrata à Casa Branca. Em cerca de 90 minutos de programa, mais de 250.000 almas votaram, conferindo, durante grande parte do tempo, uma liderança ao Reverendo Jess Jackson, o que, à data, nem surpreendia. O problema é que o Reverendo foi ultrapassado por um contendor de última hora: o grupo rock ZZ Top!...

Aqui chegados, um pedido: resistam à tentação de achar que a década de oitenta foi particularmente psicadélica ou que os americanos são especialmente estúpidos. Nem uma nem outra são verdadeiras, a meu ver.

Ou seja, e em suma, havendo que dar a “Os Grandes Portugueses” a importância própria de um concurso televisivo, penso que é tão errado endeusar o resultado do mesmo como desvalorizá-lo por arrogância, ignorância ou ditadura de opinião (aquela que faz as delícias, nomeadamente, do PCP e do BE).

Sai Azar - Preâmbulo

Entrando na análise ao lugar cimeiro que o Presidente do Conselho obteve no pódio do mais falado concurso da RTP, com certeza por arrogância minha, entendo que pouca coisa acertada tem sido dita.

Todavia, e em jeito de prolegómenos, devo sublinhar que o que me anima não é qualquer apologia de António de Oliveira Salazar, mas sim a busca de algum distanciamento que penso faltar na análise da História Contemporânea de Portugal. Mais de trinta anos volvidos sobre o 25 de Abril, já tínhamos idade para ter juízo...

Penso, assim, que há que reconhecer que – e tenho escrito nesse sentido , em diversas ocasiões – há factos positivos na II República, como há consequências nefastas do 25 de Abril. Não tem sido essa a visão das sumidades que os media portugueses gostam de ouvir e que os portugueses se habituaram a eleger para cargos públicos. Olha-se para o rol de opiniões, estudos e soundbytes e parece que o Doutor Salazar é primo direito de Drácula, ao passo que a gente que saqueou e saneou a seguir à Revolução dos Cravos merece um lugar na varanda de um qualquer Kremlin celestial.

Entre falta de qualidade e parcialidade intelectual, poucos foram os analistas que, sob o meu modesto prisma, procuraram descortinar um veredicto ponderado sobre “Os Grandes Portugueses. Sem predicados próprios para textos de referência, cá deixo, em capítulos (este e mais cinco), a minha ideia sobre o assunto…