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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Arranjando os ovos para a omeleta


Depois de, na semana passada, ter expressado a minha tristeza pela reiterada intenção de alienação do acervo Miró constante do património do BPN a liquidar, volto à área cultural para relatar-vos uma experiência apaixonante que estamos a ter na Venezuela: o concerto “Algo Eléctrico”, que vai ter lugar no próximo domingo, no Centro Português de Caracas, e que partiu de uma base de financiamento público igual a zero.

Ao concebermos este concerto procurámos ilustrar uma relação entre dois países e dois povos que, a nosso ver, vai muito para além dos limites estritos da política e da economia, entrando mar adentro por oceanos de cultura em que os povos venezuelano e português são, há muito, companheiros de viagem.

Esta ideia é transmitida pelo cruzamento que se fará entre maestros e compositores. A mais de dar a conhecer à audiência maioritariamente portuguesa os compositores clássicos de Portugal e Venezuela, de uma forma pedagógica, simboliza-se a universalidade da cultura ao solicitar ao Maestro Osvaldo Ferreira (Portugal) que dirija as obras venezuelanas (de Evencio Castellanos e de António Lauro) e ao Maestro Régulo Stabilito que o faça em relação às composições portuguesas (de Joly Braga Santos e de Luís de Freitas Branco), bem assim como ao adoptar como executante comum a mundialmente prestigiada Orquestra Sinfónica da Venezuela.

À medida que a ideia tomava corpo, ficava a sensação de que faltava um traço final para acabar de pintar o quadro musical que queríamos oferecer ao público. Eis, então, que ele nos aparece com a inclusão do conhecido músico venezuelano Pedro Castillo (conquistou fama como vocalista da banda Aditus, nos anos 90), cujo tema “Algo Eléctrico” ilustra a relação harmoniosa e de perfeita integração dos portugueses que emigraram para a Venezuela e das gerações subsequentes (algo que nem sempre se passa com as nossas Comunidades da diáspora), na tal mescla de culturas que ultrapassa todas as fronteiras. Como diz a letra da canção que empresta o mote para a tarde cultural de domingo:

Pregunté a los grandes entendidos
Y ellos no entienden lo que trato de explicar
No razono ni escucho, tú me has cambiado mucho
esto tiene que ser electricidad

Hay algo eléctrico entre tú y yo
que no sabemos como aparecio
Es algo eléctrico entre tú y yo
tú y yo, tú y yo

 

Coroando desta forma um desafio que convida um venezuelano a explicar a herança clássica portuguesa e vice-versa, dá-se uma banda sonora a uma relação sentida que vai muito além do explicável por palavras, já que há, efectivamente, “algo eléctrico” entre os dois povos e suas culturas.

O que destaco é o facto de Centro Português de Caracas, Orquestra Sinfónica da Venezuela, EDP, CGD e BPI terem dado mãos a uma Embaixada cujo o investimento material foi muitíssimo residual, cabendo-nos o gozo e o orgulho de “inventar” o espectáculo. Dito de outra forma: há sempre corrente para dar energia à nossa Cultura, assim havendo determinação.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A surreal arte de decidir


Sempre fui um admirador das qualidades pessoais e políticas de Pedro Passos Coelho, desde os tempos em que me liderou na JSD. Creio mesmo que a sua determinação férrea (a roçar a obstinação, por vezes) já valeu de muito a Portugal, nestes tempos difíceis. Qualquer líder mais permeável a pressões partidárias internas ou com inclinação narcisista já teria vacilado e, consequente e matematicamente, deitado por terra o esforço heróico dos portugueses.

Porém, há um ponto em que teria seguido um trilho diferente: a venda da já célebre – embora pelos maus motivos – colecção Miró. Com passagem por vários estilos e artes, Joan Miró é comummente dito um surrealista e as suas obras são altamente apreciadas e fartamente cotadas nos circuitos artísticos internacionais. Penso, todavia, que o surrealismo é estimável na arte, mas não tanto na política cultural e, aqui, temos o cerne da minha respeitosa discordância.

Desde logo, se entendo a Cultura como algo essencial para o bem-estar individual de cada pessoa e para a auto-estima de um povo (ainda que se trate de um acervo de origem estrangeira, seria detido por nós, sendo, ademais, que a arte é universal), conservar esta colecção desencantada no fundo do abismo que o BPN abriu nas contas de todos nós seria uma homenagem a uma valorosa gente que tanto tem sofrido, entre outras coisas, para pagar tão obscuro negócio bancário.

Acresce que, bem anunciada, a decisão de criar um museu ou de repartir as obras pelos museus existentes seria uma bem acolhida e refrescante novidade no tétrico alinhamento dos noticiários actuais, que se fazem, predominantemente, de crises, guerras e temporais…

Vem depois a pedra de toque do Governo: os milhões a arrecadar. Muda, ab initio, a perspectiva se, como deve ser, se vir a Cultura como um investimento e não como um gasto, pelos motivos aduzidos. Contudo, nem é preciso pedir tanta “alma” aos decisores; mesmo economicamente, com as entradas a cobrar e com os empréstimos a museus estrangeiros (remunerados ou à troca de empréstimos que proporcionam exposições com entradas pagas), a colecção acabaria por se pagar a si própria com a indemnização à leiloeira e tudo o mais. Demoraria? Com certeza, mas uma decisão deste jaez deve considerar as gerações futuras.

Considero muito acertada, por isso, a decisão da Procuradora-Geral da República de combater judicialmente a venda daquilo que designou com acerto de “património nacional”. Numa decisão sábia, ou muito me engano ou já deteve a alienação por largo tempo (a incerteza é rainha nos próximos meses ou anos). Durante este tempo, a meu ver, recuar seria prova de força e não de fraqueza, politicamente falando.

Sinceramente, termino com uma nota de tristeza pelas palavras que escutei do meu amigo e Secretário de Estado, Jorge Barreto Xavier. Pelos vistos, ainda não será ele a dar um murro na mesa contra a ditadura da Economia sobre a Política e a Cultura…

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Tirar o chapéu a...

Sou daqueles que, de há uns anos a esta parte, nem caio nas boas graças de Miguel Relvas. Creio, por isso, poder dizer com isenção que lhe louvo a resistência e, mais recentemente, o nível elevado com que tem enfrentado alguns momentos que oscilam entre o burlesco e o anti-democrático.

Falo, em primeiro lugar, na elegância com que respondeu às palavras de Francisco José Viegas sobre as facturas e os fiscais. Peço apenas que pensemos todos na escandaleira que os media armariam se fossem declarações de Relvas comentadas por Viegas. Assim, como este é intelectual, tem tudo muita graça...

Depois, falo dos imbecis com pretensões anarquistas que interromperam Relvas, no Clube dos Pensadores, cantando "Grândola, Vila Morena". Se queriam ser eficazes podiam, pelo menos, disfarçar as suas preferências pelo PCP ou pelo BE e evitar insultos (chamaram "fascista" ao Ministro). É tétrico pensar no projecto de sociedade de uma gente que impede debates democráticos e que ignora até o significado daquilo que diz (se Relvas fosse fascista, estariam a cantar num calabouço). Ainda assim, Miguel Relvas fez declarações tolerantes e democráticas.

Chapéu tirado!

sábado, 19 de janeiro de 2013

As Idades do Mar ::: Gulbenkian



Antes mesmo que o IVA sobre a Cultura aumente - o relatório do FMI que saiu ontem dá indicações para que o imposto sobre eventos culturais seja de 23%, pois considera tratar-se de «bens que não satisfazem as necessidades básicas» -, ide ver, enquanto é tempo, a soberba exposição que está (até dia 27) na Galeria de Exposições Temporárias da Gulbenkian.

Intitulada «As Idades do Mar», esta exposição conta com mais de uma centena de obras de artistas como Monet, Manet, Turner, Paul Klee, Paul Signac, Gustave Courbet, e também de portugueses como José Malhoa, João Vaz, Vieira da Silva e Amadeo Souza-Cardozo. 


É uma espécie de viagem marítima pelos tempos, pois todas as obras que ali se reúnem têm o Mar como elemento fundamental. Estão expostas de acordo com um critério temporal/temático, dividas por isso em vários núcleos: «A Idade dos Mitos» é dedicada às maravilhas e aos demónios do mar, enquanto «A Idade do Poder» retrata o mar como palco de grandes batalhas económicas e políticas, com as potências marítimas europeias em destaque nas telas. Holanda, Inglaterra, França e Portugal à conquista do mar, levando mercadorias, ideias e modos de vida para outras terras.

Por sua vez, «A Idade do Trabalho» desvela-nos representações de cidades portuárias, locais onde a relação mar-homem/trabalho é inevitável.  Já a fúria do Mar e as perdas que encerra encontram-se retratadas nas obras reunidas sob o subtítulo de «A Idade das Tormentas». Por fim, «Da Idade Efémera à Idade Infinita» é composta por telas que se enchem de banhos, pores do sol, pescadores, viagens e todo um quotidiano em redor da paisagem marítima.

Em suma, por apenas 5€ - ou menos se aproveitarem o cupão que vem no jornal Público com a edição de quarta a sábado - podem ver uma das melhores exposições que se tem visto em solo português.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Diz que é uma espécie de despesa pública

No seguimento do post anterior, chega-nos hoje a notícia de que a contenção orçamental para a cultura obrigará a Cinemateca a suspender as legendas dos seus próximos ciclos. Fosse a medida exibir as legendas sem o filme e João César Monteiro seria um modelo para o ministro Vítor Gaspar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Cultura ao quilo

Nos últimos dias, aquela que suponho ser a maior cadeia de livrarias da África do Sul, a Exclusive Books, repetiu nos seus armazéns de Randburg uma curiosa iniciativa: livros ao quilo!

E se o leitor pensa que estamos a falar de livros com trinta anos ou em mau estado, muito se engana. Claro está que também não encontra os sucessos do momento, mas em dezenas de gigantescas mesas (por cima e por baixo das mesmas) podia encontrar excelentes álbuns (refiro-me, não sei se com propriedade terminológica, aos livros de capa dura, edição de qualidade e soberba ilustração fotográfica), romances (em inglês e africânder), boa banda desenhada, livros infantis e leitura “utilitária” (cozinha e afins).

Trago a iniciativa à colação para dizer que muito me impressionou uma acção de promoção cultural de cariz exclusivamente privado e que democratizou a Cultura de forma evidente. Basta dizer que, nas duas ocasiões em que ali me desloquei, constatei o jaez pluriétnico e interclassista da frequência.

Fica, por isso, uma anotação para a FNAC, a Bertrand e quem mais por aí opere em larga escala para que reparem que, independentemente de medidas fiscais e programas governamentais para o sector, as empresas podem lançar os seus próprios incentivos, sem necessidade de cartões de fidelização ou sem limitar os descontos a meia dúzia de produtos ou a percentagens irrisórias.

Com o que fica dito, não olvido (de modo algum!!!) aquela que, como já escrevi vezes sem conta, deveria ser uma aposta magna do Estado.

Sei bem que vivemos tempos de crise e que o raciocínio mais imediato será no sentido de dizer que há outras prioridades. Se não me é difícil concordar com a asserção prévia, também afirmo que será um erro subestimar a hierarquia da importância da Cultura, nesta mesma época.

Desde logo, falamos de uma área em que o elemento económico já é tudo menos despiciendo; ou seja, seria um bom motivo para estimular parte da economia, criando ou mantendo empregos.

Mais importante ainda, falamos de uma área que contribui de modo indiscutível para o bem-estar do ser humano, algo de que bem andamos carenciados.

Encurtando os argumentos, creio ainda que, quando a produção é de qualidade, qualquer associação estatal ou mecenática grava o nome de quem a apoia nas mentes de quem a vê, lê ou ouve.

Entendo, por isso, que privados e Estado deveriam, mesmo nos dias de hoje, apoiar a Cultura com veemência, dado que com gastos pequenos ou diminutos lucros cessantes conseguiriam aprovação, melhorias económicas e acréscimo da qualidade de vida dos cidadãos. Pensar de outra ver maneira é, salvo melhor opinião, “não ver bem o filme” ou “ler o livro errado”…

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma cidade que se quer única

Penso, em concreto, na Cultura, área em que não basta confiar no repouso que oferece a sombra de glórias passadas. 
Bem sei que ao abordar a temática não nos devemos cingir a grandes eventos, grandes assistências, artistas mediáticos, exposições de artes consagradas ou a peças teatrais aclamadas. Cultura não se limita a isso. 
Porém, o exercício que vos proponho implica centrarmo-nos na cultura mediática, aquela que atrai multidões, preenche páginas de jornais e aparece nos noticiários. Aquela que, para muitos, é a que recebe o que de melhor se faz em cada uma das áreas. 
O que será preciso para ter essa cultura? Vontade política? Seguramente. Investimento público? Naturalmente. Investimento privado? Convém. Mas não chega. É preciso ter capacidade instalada, designadamente estruturas físicas capazes de competir nesse segmento de mercado. 
E nesse domínio, o das infraestruturas culturais com dimensão para acolher eventos internacionais, há uma desigualdade tremenda em Portugal, que se reflete na distribuição de subsídios e consequentemente na oferta cultural. Sentemo-nos à mesa do Orçamento de Estado (via Fundo de Fomento Cultural) e verificamos uma centralização em Lisboa e no Porto dos apoios concedidos à atividade cultural. 
Para efeitos de enquadramento do leitor, em 2011 a Coleção Berardo recebeu 2.670M€; a Casa da Música 2.308.M€; o Centro Cultural de Belém 7.520M€; Serralves 2.384.M€. A estas, acrescentemos Orquestras, Associações, Teatros, Institutos e outras Fundações e percebemos uma realidade muito díspar. 
Não tenhamos ilusões. Coimbra, apesar de cidade que sempre se assumiu como um centro cultural de referência não tem capacidade para competir com Lisboa e Porto nestes segmentos, porque não tem a tal capacidade instalada que acima vos falei. 
Em Coimbra sempre houve carência de um lugar de excelência para a realização de grandes eventos, que ajude a combater a centralização da oferta, aproveitando assim as potencialidades oferecidas pela região, um espaço que possa disputar públicos. 
Por isso é que a obra que está a erguer-se em Santa Clara, o Convento de S. Francisco, é de mérito indiscutível para a cidade. 
Será um Centro Cultural que dará a possibilidade de acolher grandes eventos, espetáculos de teatro, ópera, orquestra, arte moderna, entre outros. Mas será também um Centro de Congressos (que poderá utilizar a matéria prima dos Hospitais ou da Universidade de Coimbra), com um auditório com capacidade para potenciar essa área do Turismo, o de Convenções. 
Apesar deste ser um estádio de fraco desenvolvimento resultado da crise económica que vivemos, Coimbra sairá a ganhar. E claro, quem gosta de Cultura agradece.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Joana Vasconcelos | Rainha em Versalhes

A tão aguardada exposição de Joana Vasconcelos no Palácio de Versalhes, em Paris, inaugurou ontem e está aberta ao público de hoje até 30 de Setembro. Note-se que a artista plástica portuguesa é a primeira mulher a expor naquele ilustre espaço que, de há uns tempos para cá, decidiu abraçar a arte contemporânea. As suas imponentes obras estão dispostas nos jardins e em espaços interiores como a bela sala de espelhos, convivendo harmoniosamente com o luxo daquele histórico palácio. 


É uma honra para a própria e para os portugueses, sendo que por estes dias a crítica francesa tem sido bastante positiva e a imprensa tem feito regular destaque à artista e à sua obra ímpar. Claro está que há sempre uma franja mais conservadora que contesta o uso do espaço para estes fins, e outra ainda que contesta o próprio trabalho de Joana Vasconcelos - cá em Portugal há quem ache que se resume a arte kistch. É tudo uma questão de gosto, ou de preconceito, digo eu, que muito gostava de poder rumar a Versalhes e ver com os meus próprios olhos a marca portuguesa que sobressai das obras da artista (da filigrana e da renda à louça de Bordallo Pinheiro, dos tachos Silampos às tapeçarias de Portalegre, etc). Quem não puder visitar in loco, pode sempre optar pela visita virtual, aqui


Uma nota final: a fabulosa obra A Noiva, um gigantesco lustre feito com tampões higiénicos que arrecadou inúmeros aplausos além fronteiras (sobretudo na Bienal de Veneza  em 2005) e conferiu a Joana uma enorme visibilidade internacional, não foi, estranhamente, aceite. Sabemos que em Versalhes não faltam lustres, mas este tem uma carga simbólica única e merecia um lugar de destaque. Porém, «A Noiva» acabou por ficar «solteira», como chegou mesmo a desabafar a artista





* todas as imagens daqui

terça-feira, 6 de março de 2012

O Irão e a história por trás de «Uma Separação»


Ainda na ressaca dos Óscares, cumpre lançar um olhar sobre o vencedor na categoria de melhor filme estrangeiro. «Uma Separação», do iraniano Asghar Farhadi, levou a melhor sobre os outros nomeados, entre os quais o filme israelita «Footnote». E até por isso, na noite da consagração, a televisão estatal iraniana descreveu o feito como um triunfo nacional sobre o regime sionista. Mas não se ficou por aí e descreveu-o também como uma vitória sobre o Ocidente. Mesmo considerando que Israel possa integrar o mundo ocidental, não deixa de ser um bocadinho irónico se pensarem que foi a crítica ocidental que os premiou, que não se deixou levar por separações e não se coíbiu em distinguir um filme iraniano, pela primeira vez na história dos Óscares. 

Igualmente irónico é que a televisão estatal congratulava-se por um prémio atribuído a um filme cuja produção chegou a estar suspensa depois do seu realizador ter defendido publicamente outros cineastas iranianos que são perseguidos pelo Governo. Pelo menos seis deles foram presos em Setembro passado, entre os quais Jafar Panahi, um brilhante realizador que foi proibido de realizar filmes nos próximos vinte anos e que está a cumprir pena de prisão domiciliária até ao ano de 2016. Jafar Panahi é conhecido pelos filmes O Círculo (que foca a opressão das mulheres no Irão), Offside/Fora de Jogo (que dá conta da proibição das mulheres iranianas em marcar presença em eventos desportivos, como os jogos de futebol, e a forma como tentam contornar essa imposição) e, o mais recente, Isto não é um Filme, um documentário que dá conta da sua vida em prisão domiciliária e que Panahi conseguiu fazer chegar ao último Festival de Cannes, alegadamente no interior de um bolo ou de uma fatia de pão.

Voltando a Farhadi, para além de um pedido de desculpas oficial por ter defendido os seus pares, abdicou dos subsídios do governo ao cinema e financiou-se junto da banca, evitando um maior controlo por parte dos censores do Estado. Tendo em conta estas dificuldades que o realizador enfrentou, não deixa de ser curioso que agora o Irão se congratule e se faça valer do prémio que o seu filme arrecadou. Aliás, o país só apoiou o filme depois deste ter arrebatado um Globo de Ouro e ainda o Urso de Ouro do Festival de Berlim. 

A forma ágil e subtil como Farhadi explora, nas entrelinhas, as questões da sociedade iraniana que suscitam mais polémica, evitando no entanto discursos panfletários, acaba por ser uma táctica que leva a melhor. Aliás, nas suas palavras ao arrecadar o Óscar, Asghar Farhadi mostra como a subtileza por vezes é mais certeira que os discursos inflamados.   

"At this time, many Iranians all over the world are watching us and I imagine them to be very happy. They are happy not just because of an important award of a film or filmmaker, but because at the time when talk of war, intimidation, and aggression is exchanged between politicians, the name of their country Iran is spoken here through her glorious culture, a rich and ancient culture that has been hidden under the heavy dust of politics. I proudly offer this award to the people of my country, a people who respect all cultures and civilizations and despise hostility and resentment."

Fica a certeza de que com este prémio se deu um passo para que o Mundo ponha os olhos no cinema (e na realidade) do Irão e a esperança de que o Irão ponha os olhos no Mundo...

domingo, 27 de novembro de 2011

Tragédia Lusa

(...) Em 37 anos não apareceu uma única obra decente de dramaturgia portuguesa. Apareceram romances em grande quantidade, apareceu poesia, apareceram livros de história ou memórias. Não apareceu uma única peça digna desse nome. Até o Teatro Nacional D.Maria II, na impossibilidade de se ficar eternamente no Frei Luís de Sousa, apresenta geralmente traduções. De resto, não lhe falta só dramaturgia portuguesa. Também lhe falta público. Uma noite no D.Maria é uma noite soturna. Francisco José Viegas cortou o orçamento (um milhão de euros) deste longo equívoco. Foi inteiramente justo. E, quando Diogo Infante resolveu recorrer à intimidação, não hesitou em o demitir. Chegou a altura de acabar com esta ridícula ilusão que em Portugal se chama "teatro".
Vasco Pulido Valente, no jornal Público, edição de 18 de Novembro de 2011


Custa acreditar no que acabo de ler, infelizmente com uns dias de atraso, mercê da qualidade de emigrante... Vasco Pulido Valente foi outrora Secretário de Estado da Cultura, mas nem parece. Na crónica em apreço, fala dessa arte milenar que é o Teatro com um desdém que arrepia. 

É certo que o Teatro tem sido, no cenário nacional, uma espécie de parente pobre da Cultura, dada a escassez de verbas, lucros e um número de espectadores naturalmente mais reduzido do que aquele que ruma a outras manifestações culturais. Porém, não faz sentido menosprezar e reduzir à insignificância as representações cénicas que ainda têm lugar em Portugal, com qualidade e um público meritório de consideração. Público esse que até tem aumentado - pelo menos no que toca ao Teatro Nacional -, e vem confirmar que aprecia e estima esta arte.

Acresce que não só temos bons actores, como temos boas companhias de Teatro e até excelentes festivais dedicados ao mundo cénico. Posto isto, até nos podia faltar dramaturgos (que não faltam...), mas motivos há de sobra para continuarmos a fazer Teatro. Mais: se as salas não enchem não é por não termos um Gil Vicente do séc. XXI, mas sim porque temos vindo a negligenciar o impacto que estas manifestações culturais têm na formação e desenvolvimento das novas gerações ao não lhes incutirmos hábitos de consumo cultural e ao não os sensibilizarmos para a importância deste género cultural.

Nos últimos anos foram muitas as peças de teatro que vi e apenas lamento o dinheiro gasto numa delas (lamentação essa que foi partilhada por aqui). Exceptuando esta, vi peças de qualidade nesse mesmo espaço, São Luiz, e ainda no D. Maria, no S. João, no Teatro da Trindade, no Teatro Aberto, no Maria Matos e em Cine-Teatros Municipais. Vi de tudo um pouco e, a propósito da frase de Pulido Valente na mesma crónica - “tirando antigamente a revista, e hoje o La Féria, não existe, nem nunca existiu um público de teatro em Portugal” -, confesso que nunca vi nada de La Feria. Nada tenho contra este género de representação teatral e reconheço valor às peças por ele levadas a palco, mas sou a prova de uma espectadora que vai ao teatro por gosto sem correr atrás das massas. Haverá mais gente como eu? Há, com certeza, que não tenho memória de ser a única na plateia.

Que me importa que sejam traduzidas, desde que bem traduzidas, adaptadas e representadas? Que me importa ver clássicos como o Rei Édipo ou outros textos de suma importância que não só me entretêm como têm sempre algo para ensinar?... O que realmente me importa - para terminar - é este preocupante caminho que as políticas culturais estão a trilhar e, mais grave, que haja cronistas de referência a aplaudir esta tragédia lusa... ...  

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Jogar Damão

Percorridas várias partes de Goa, convido o Leitor para um passeio por Damão e Diu.

Comecemos pela primeira localidade. A ela se acede por comboio, desde a estação central de Bombaim (Mumbai, nos dias que correm) até Vapi, localidade na qual terá que arranjar um táxi que o leve ao longo dos, pelo menos, dez quilómetros que faltam para pôr os pés em mais uma antiga terra “desse grande país que é Portugal”.


Outra nota preparatória tem a ver com a hotelaria que é genericamente fraca, mas que não compromete, se a estadia não for prolongada.

Na parte de Nani Daman pontifica o forte de São Jerónimo


e, no seu interior, a Igreja de Nossa Senhora do Mar. O primeiro está aberto; a segunda, o que não é raro por lá, abre a pedido, mas sem maçada alguma (se deixar algumas rupias à portadora da chave, o seu conforto não diminui e o agradecimento é sincero).


Já na parte de Moti Daman (a parte grande, portanto)


as atracções são em maior quantidade. Comecemos pela mais desconhecida pela generalidade dos portugueses: por lá encontrará, devidamente assinalada, a casa onde viveu Bocage! Um senão: está degradada por dentro (janelas arrombadas e o que parecem ser restos de trabalhos de construção civil) e pouco conservada por fora. Espera-se um diálogo luso-indiano na área da cultura (eu já tentei alertar quem de direito…).



Ainda no interior da muralha da fortaleza (que li ter trinta quilómetros quadrados!) a Igreja do Bom Jesus


e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário encantá-lo-ão pela riqueza da nossa presença na Índia. Se a primeira já prende, a segunda deslumbra, mercê da riqueza do trabalho de madeira esculpida que pode admirar no altar, no tecto e nas paredes.



Uma nota: a igreja está quase sempre fechada e não existe ao redor qualquer curador. Porém, se procurar pelo senhor Colaço, numa das casas do lado, poderá aumentar as suas possibilidades de ter sorte, se falar em português. Este cidadão, que por esta altura já estará reformado da administração local, faz gala em dizer que só abre a igreja (mandou alguém de mota buscar a chave a qualquer outro ponto da cidade) pelos portugueses (perguntar-lhe-á com emoção: “português de Portugal?”) e jamais por qualquer outra nacionalidade. Mais ainda: o nosso amigo Colaço faz questão de falar da saudade que tem dos tempos da presença portuguesa por comparação aos dias que correm… Entretanto, prepare-se para conhecer a família e a casa, para ter uma visita guiada às ruinas do Mosteiro Dominicano (séc. XVI)


e para ser “intimado” a um passeio à esplanada na praia de Jampore. Aí chegado, haja coração… Vendedores ambulantes, camelos, burros e asas deltas… Há de tudo como na farmácia…

Fora das muralhas de Moti Daman (para Sul), a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios (1607)


 e o Mercado Municipal Carlos Fernandes (1942) são duas explosões de cor (a primeira no interior e a segunda pela mescla de produtos e de vestes que por ali se avistam).



Mais uma vez, uma família, uma casa, bebidas e aperitivos…

Deixámos Damão com saudade…

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cultura [a quanto obrigas]

Se há área sacrificada em tempos de crise, é a Cultura. Porque temos essa tendência de achar que, do mal o menos, sem Cultura até podemos (sobre)viver. Esquecemo-nos que cultura traz desenvolvimento e que com ele se torna mais fácil escaparmos ao manto de crise. Com a nova governação sob orientação troikiana, confesso que a extinção do Ministério causou-me alguns arrepios, mas reconheço que não havia grande alternativa. E, afinal, nada impede que uma Secretaria de Estado possa fazer um bom trabalho na área, mesmo sem grandes recursos. Porém, a julgar pelas políticas culturais recentemente anunciadas por Francisco José Viegas, o trabalho passa essencialmente por extinguir organismos e acabar com a gratuitidade dos produtos e serviços culturais. É certo que não havendo dinheiro há que rever a gestão cultural e reduzi-la ao essencial. Mas quanto ao fim dos domingos com acesso gratuito aos museus, parece-me que o efeito económico da medida é irrisório quando comparado com o impacto que vai ter na (falta de) predisposição dos portugueses para o consumo cultural. Ou seja, se já não era muita, menos vai ser. A gratuitidade dos museus um dia por semana é, aliás, uma questão de princípio: afinal pagamos impostos também para custear os gastos públicos com a Cultura  e a contrapartida justa é poder usufruir dos espaços culturais com carácter gratuito pelo menos no descanso dominical. Dificilmente os museus em Portugal são auto-sustentáveis, mas não me parece que o caminho seja por aí e que medidas destas salvem a Nação. E assim somos levados a concluir que em solo luso a Cultura é, cada vez mais, um bem de luxo, o que não faz sentido. Negligenciar a Cultura é projectar-nos para o grau zero do desenvolvimento - do pessoal ao sócio-económico.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dezoito Anos de CCB

antes

durante

na inauguração

Já dizia o poeta que «Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce». No caso, alguns homens (Santana Lopes, Cavaco Silva, etc.) e mulheres (Teresa Patrício Gouveia) sonharam a construção de um equipamento arquitectónico digno de acolher a presidência portuguesa da União Europeia (1992) que, posto isso, se tornasse num pólo dinamizador de actividades culturais e de lazer. E o controverso projecto do Centro Cultural de Belém lá inaugurou para a sua finalidade primária em Janeiro de 1992, encerrando no final desse semestre para só reabrir aos 21 dias de Março de 1993.

Dezoito anos volvidos, é inegável que o CCB é um marco arquitectónico da cidade de Lisboa e um projecto cultural de sucesso. Para alguns talvez tenha sido um projecto megalómano e, nos primeiros tempos, terá sido entendido por muitos como o «elefante branco do regime». Nada de anormal: afinal, as grandes obras são sempre alvo de grandes críticas.

Apesar de, no seu arranque, ter caído num certo marasmo cultural, o que também não contribuiu para melhores opiniões... a verdade é que ao longo dos anos e na actualidade, o CCB assumiu-se como um pólo cultural dinâmico, contando com exposições, espectáculos, salas de congresso e um museu que cativam, não só os lisboetas, mas também os turistas, sobretudo o Museu Berardo, no qual se concentram interessantes obras do espólio de Joe Berardo.

Numa altura em que também se delineiam planos para grandes obras públicas (como o TGV ou o Aeroporto) dá que pensar se vale a pena sacrificar (ainda mais) as contas lusas para projectar estas obras e acrescentar valor ao país, ou se o caminho mais sensato não será refrear os ímpetos de desenvolvimento...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O consumidor é quem mais ordena

À semelhança do que sucedeu com os Radiohead, o grupo português The Gift, que está prestes a lançar mais um álbum, entendeu deixar ao critério dos consumidores o preço a pagar pelo mesmo. Antes do lançamento oficial do álbum, e através do site do grupo, as onze músicas do novo disco estão disponíveis ao preço que achar justo (mesmo que seja zero...).
A estratégia tem implícita o combate ao download ilegal e aos riscos que este coloca à indústria musical. Muitos grupos musicais cada vez menos lucram com os discos, «sobrevivendo» com espectáculos e merchandising. Em Portugal, o consumo de música vê-se ainda prejudicado com o imposto de 21% que lhe confere estatuto de «produto de luxo». Para contornar isso, em 2008 o grupo nortenho apadrinhado por Rui Veloso, Os Azeitonas, lançou um cd revestido de livro, pois este último é fiscalmente mais leve. Não faltam razões para que os músicos comecem a pensar em alternativas ao modelo de negócio tradicional e alguns grupos portugueses já se vão dando conta disso, como é o caso dos The Gift, cuja audácia é de aplaudir.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Portugueses em França

Longe vão os tempos em que, por terras de França, a imagem do português não seria a melhor. Mercê da grande emigração portuguesa para França na década de 50 do séc. XX, uma imagem esterotipada do nosso povo foi-se moldando aos olhos dos franceses. Não raras vezes, o que passava era a imagem do português boçal, de baixíssimo nível cultural, votado a profissões desqualificadas e muitas vezes humilhado e discriminado. E até mesmo Hollywood (ainda há bem pouco tempo) a isso deu uma ajudinha - quem não se lembra da família de portugueses (mal) retratada no sucesso de bilheteira que foi "O Amor Acontece"?

Felizmente essa imagem tende a desaparecer, não só porque actualmente os portugueses estão bem entrosados na sociedade francesa, na qual têm até uma crescente influência política, mas também porque França tem acolhido (e reconhecido) a cultura portuguesa como jamais sonharíamos. O sucesso que artistas e criadores portugueses têm alcançado em França nos últimos tempos é simplesmente notável.

No campo literário, Gonçalo M. Tavares recebeu no ano transacto o prémio de Melhor Romance Estrangeiro; JosItálicoé Luís Peixoto é indicado pelo Le Figaro como o "escritor que levanta bem alto a literatura do seu país"; António Lobo Antunes é, este ano, alvo de uma homenagem inédita que contará com mais de cinquenta espectáculos dedicados à sua obra.

No que toca à sétima arte, Mistérios de Lisboa é um filme baseado na obra de Camilo Castelo Branco muito aplaudido por aqueles lados no último ano. E ainda há dias, a actriz Leonor Silveira, musa de Manuel de Oliveira, foi condecorada pelo governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.

Por fim, a artista plástica Joana Vasconcelos vai ver as suas obras expostas na mais recente sala de exposições por terras de França - o Palácio de Versalhes. Não faltam dúvidas de que os artistas portugueses estão a ter um merecido destaque por aqueles lados. E, depois de tanta década de preconceito, dá que pensar, este reconhecimento da cultura portuguesa num país tão umbiguista, que tem, como dizia alguém, uma visão tão «etnocêntrica» do Mundo...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Finalmente, um adversário para Cavaco!

Sempre achei a contra-cultura de Vieira genial. Pelo absurdo põe-se em causa muito da nossa sociedade da crise contínua.
É ver para deixar de crer e passar a querer :)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Tão bom quanto difícil

Recomendo-o apenas para incondicionais do (de um dos) mestre (s) russo (s). A teia de valores, personalidades e pensamentos é magistral, mas exige concentração apurada. Definitivamente, não é leitura de café ou de praia e nem dá para fazer figura de intelectual, como gostam de fazer alguns leitores do também soberbo "Irmãos Karamázov"...

domingo, 5 de setembro de 2010

Porque a ignorância ainda não paga imposto...

Lê-se na Ipsilon (suplemento do Público), a propósito do lançamento do livro "Salazar" de Filipe Ribeiro de Meneses, que "até 2009 ninguém ousou biografar António de Oliveira Salazar".

Alguém diga à Sô Dona Maria José Oliveira (autora do artigo/entrevista) que use menos a Wikipédia como fonte de sabedoria e que estude um nadinha que seja, pois esse esforço aparentemente impensável para a senhora dir-lhe-ia que o Embaixador Franco Nogueira (homem de quem se diz nem ter sido um "salazarista", apesar de ter servido o Estado Novo) escreveu uma biografia com o mesmo título, em seis volumes publicados pela Atlântida Editora (Coimbra), entre 1977 e 1985.

E nem é preciso ter uma edição em casa, como eu... Bastava ver o catálogo da Biblioteca Nacional, na Internet...

O novo livro deve ser bestial, a pseudo-jornalista será uma...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

África clássica

No passado dia 2, tiver ocasião de assistir a um concerto pela Orquestra Filarmónica de Joanesburgo, no Linder Auditorium da Universidade de Wits, em Joanesburgo.

Do programa constavam:
  • Trittico Botticelliano, de Respighi - uma novidade para mim, tendo gostado pela harmonia dos sons, quase que ilustrando a melodia.
  • Concerto para piano n.º2 , de Saint-Saëns - arrebatadora interpretação do jovem (20 anos) solista convidado, Chung Wang, a merecer quatro (!!!) ovações de pé e obrigado a um encore.
  • e a famosíssima 5.ª Sinfonia, de Beethoven - momentos de puro regalo, com uma orquestra muito bem conduzida pelo maestro Bernhard Gueller.

Creio que ganharam um espectador regular!...