segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Transiberiano I

O Transiberiano visto da cama...

Depois de anos a puxar pela imaginação e de mais de 50 países “investigados” (entre os quais a própria “Mãe Rússia”), eis que se bateram os 9288 quilómetros do famoso comboio russo que liga a Europa ao Extremo Oriente e, ainda por cima, no seu trajecto “puro”, Moscovo – Vladivostok, cuja construção aconteceu entre 1891 a 1904 (ou 1916, se considerarmos o trajecto actual).

O impulso partiu do Czar Alexandre III, homem bem mais reaccionário que o seu reformista progenitor, que decidiu libertar as suas tendências imperialistas congeminando este meio de fixar mais vincadamente a presença russa na Sibéria e no Extremo Oriente, em possessões que já eram suas.



Czar Alexandre III - Irkutsk

A construção passou por fases de tal modo difíceis, que atravessa uma terra onde a própria rede de estradas acaba (apenas sendo retomada na fronteira com a última região: Amazar.


Comecemos, aliás, pela noção de Transiberiano: havendo um comboio (o n.º 1 ou 2, consoante a direcção) que liga Moscovo a Vladivostok, o que normalmente pode e deve fazer-se (a menos que queira fazer 7 dias consecutivos de comboio) é visitas no trajecto, o que levará a que, na realidade, acabe por tomar não um, mas sim diversos serviços ferroviários.


As primeiras indicações sobre o embarque nesta aventura sobre carris são as seguintes: por um lado, quanto mais baixo o número do comboio, maior a sua qualidade (o 41, entre Nizhny Novgorod e Kazan, fazia lembrar os antigos inter-regionais da CP). Por outro lado, dependendo do gosto, há primeira e segunda classe, sendo que aquela, custando muitíssimo mais, tem como diferença o facto de ter 2 e não 4 camas.


O comboio n.º 8 - Sibir ou Sibiriak (a dourina divide-se...)

Por fim, ler os bilhetes (hora de partida e de chegada, vagão, cama, etc…) tem que se lhe diga, desde logo porque as horas (mesmo no itinerário afixado em cada carruagem) são sempre as de Moscovo. De todo o modo, o único problema pode aparecer em Kaliningrado, já que, andando para Leste, o pior que pode acontecer é chegar adiantado para o seu compromisso com os surpreendentemente pontuais caminhos-de-ferro russos.


O início da aventura: Estação de Yaroslav, Moscovo


A escolha do tempo para agir foi outra questão magna, tendo a opção recaído pelo período compreendido entre 28 de Dezembro e 23 de Janeiro. Que diabo! A Rússia dos livros, dos filmes e dos grandes momentos da História é branca e não verde! E, depois, havia que provar que os portugueses “não são de capinar sentados”, sobrevivendo no Verão do Algarve ou no Inverno da Sibéria… Acresce que o charme é outro: os melhores casacos de peles saem à rua, os teatros, as óperas


Ópera de Ekaterinburgo


e os circos

Circo Estatal de Moscovo (vulgo, Circo Novo)


apresentam os seus melhores espectáculos e o clima de festa é generalizado, já que depois do Ano Novo,


"The midnight hour", na Praça Vermelha


segue-se o Natal Ortodoxo (7 de Janeiro),



"Palácio do Gelo", em Ekaterinburgo


permanecendo os enfeites citadinos e as exposições de esculturas de gelo até aos finais de Janeiro.



Voltaremos ao relato…

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Da cegueira social

A notícia que hoje é capa por toda a imprensa e que dá conta de uma idosa que morreu há nove anos e só agora foi encontrada na sua casa, é o reflexo da indiferença e irresponsabilidade social que se vive em Portugal. Como é possível que uma pessoa deixe de aparecer no seu círculo social e/ou familiar e só uma vizinha dê por isso? Não levanta a pensão vitalícia e a Segurança Social parece ignorar o assunto. Não paga as contas de casa e cortam a luz, água e afins. E como se isto já não bastasse, o imóvel vai a hasta pública sem que ninguém o visite e se dê conta do sucedido. Pior, o alerta de uma vizinha foi ridicularizado e ignorado pelas autoridades locais. Família, Segurança Social, Finanças, Autoridades e, por fim, a própria sociedade: eis os responsáveis pela situação.

A cegueira em que vivemos nestes tempos é preocupante, sobretudo, porque passámos a considerar que os idosos, uma vez sujeitos não activos e de diminuto peso social, não são dignos de um investimento político e social por parte da sociedade, instituições e do próprio Estado.

Longe vão os tempos em que um idoso era visto como um sábio, cujas número de rugas se traduzia no seu conhecimento e experiência de vida, atractivo aos olhos dos mais jovens. Mas na sociedade actual, que deifica a juventude, o idoso é agora dado como um inválido e um empecilho no seio familiar. A discriminação surge no círculo familiar e, não raras vezes, desemboca em violência doméstica. Noutros casos a família descarta-se do problema, ou seja, os idosos são votados ao esquecimento e vivem sós, amparados por uma irrisória pensão do Estado. Quando isto se passa nos grandes centros urbanos a situação ainda é mais preocupante, pois as relações de proximidade não são as mesmas que nas pequenas localidades.

Claro que o primeiro responsável pela situação é a família, que mesmo perante as adversidades do quotidiano não deve negligenciar um membro seu apenas porque já não tem as mesmas capacidades de outrora. Mas também as instituições e o próprio Estado têm a sua quota-parte de responsabilidade, cabendo-lhes, no mínimo, estarem atentas a sinais que indiquem maus tratos e/ou solidão. E se puderem elaborar programas de protecção, melhor. Como neste notável exemplo, em Alfândega da Fé. Começar por ajudar os jovens a desmascarar os preconceitos contra a chamada terceira idade é, sem dúvida, um grande passo. Oxalá venham outros...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Porca miséria!

A fotografia é de Janeiro de 2011 e mostra um mural com o rosto de Karl Marx, ao lado de uma caixa multibanco... Isso mesmo; no Metro de Moscovo, estação de Maiakovskaya, convivem proximamente dois ícones de mundos opostos. Eis uma legenda da Rússia moderna...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

CR7 na Sibéria


Em Irkustk, denominada de Paris da Sibéria, cruzámo-nos com esta publicidade a uma loja de desporto. Caso para dizer que até na Sibéria este moço dá cartas!! E o melhor de tudo, é que não se apresenta com o equipamento do clube madrileño, mas sim com o da nossa selecção.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Portugueses em França

Longe vão os tempos em que, por terras de França, a imagem do português não seria a melhor. Mercê da grande emigração portuguesa para França na década de 50 do séc. XX, uma imagem esterotipada do nosso povo foi-se moldando aos olhos dos franceses. Não raras vezes, o que passava era a imagem do português boçal, de baixíssimo nível cultural, votado a profissões desqualificadas e muitas vezes humilhado e discriminado. E até mesmo Hollywood (ainda há bem pouco tempo) a isso deu uma ajudinha - quem não se lembra da família de portugueses (mal) retratada no sucesso de bilheteira que foi "O Amor Acontece"?

Felizmente essa imagem tende a desaparecer, não só porque actualmente os portugueses estão bem entrosados na sociedade francesa, na qual têm até uma crescente influência política, mas também porque França tem acolhido (e reconhecido) a cultura portuguesa como jamais sonharíamos. O sucesso que artistas e criadores portugueses têm alcançado em França nos últimos tempos é simplesmente notável.

No campo literário, Gonçalo M. Tavares recebeu no ano transacto o prémio de Melhor Romance Estrangeiro; JosItálicoé Luís Peixoto é indicado pelo Le Figaro como o "escritor que levanta bem alto a literatura do seu país"; António Lobo Antunes é, este ano, alvo de uma homenagem inédita que contará com mais de cinquenta espectáculos dedicados à sua obra.

No que toca à sétima arte, Mistérios de Lisboa é um filme baseado na obra de Camilo Castelo Branco muito aplaudido por aqueles lados no último ano. E ainda há dias, a actriz Leonor Silveira, musa de Manuel de Oliveira, foi condecorada pelo governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.

Por fim, a artista plástica Joana Vasconcelos vai ver as suas obras expostas na mais recente sala de exposições por terras de França - o Palácio de Versalhes. Não faltam dúvidas de que os artistas portugueses estão a ter um merecido destaque por aqueles lados. E, depois de tanta década de preconceito, dá que pensar, este reconhecimento da cultura portuguesa num país tão umbiguista, que tem, como dizia alguém, uma visão tão «etnocêntrica» do Mundo...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Leitura obrigatória

Esta crónica de Henrique Raposo, no Expresso. Uma excelente súmula "sobre a atmosfera esquerdista que se respira em Portugal. Aqui, a esquerda pode tudo, logo, quando a direita ganha, é preciso inventar desculpas para retirar legitimidade à dita direita. Ou seja, mesmo que ganhe na legalidade democrática, a direita nunca tem legitimidade moral para governar."

A Taça de regresso a Casa

Se a Académica eliminar o Vitória de Guimarães, na manhã seguinte marco uma passagem de avião. A final do Jamor seria o jogo de uma vida...
Acresce que, tendo a Briosa vencido a primeira edição (1939), está na altura de a Taça voltar a casa, pois já anda há anos demais em vitrinas pouco recomendáveis...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Há quem não tenha sabido escrever mal

Bom tema, fraco desenvolvimento

Notável!!!

Alegremente encavacados

Quase sem pano para mangas, lá decorreram as eleições presidenciais…

Podemos, porém e tentando escapar ao comentário mais (de)batido, tentar rever a matéria dada, com cunho pessoal.

Assim e desde logo, parecem de mau perdedor as linhas que se escreveram e leram dizendo que Cavaco Silva ganhara bem, mas aquém das expectativas. Olvidam os “palpitadores” profissionais o facto de esta não ser a primeira, mas sim a segunda vez consecutiva que Cavaco ganha eleições presidenciais à primeira volta e, já agora, a segunda derrota que Manuel Alegre soma de igual forma.

Pode sempre dizer-se que, mesmo com um bom resultado, haveria melhores formas de discursar, no momento da consagração. Aqui chegados, divide-se-me a alma: por um lado, entendo que o Presidente reeleito deveria ter sido magnânimo e conciliador, mas, por outro lado, entendo bem a saturação com os enxovalhos e insinuações de que foi alvo (só quem passou por isso – eu senti na pele, em menor escala, o que é ter o trabalho sabotado pela própria equipa e enfrentar uma campanha difamatória quando, finda a tarefa, se bate com a porta – sabe o que custa).

Quanto ao Poeta de Águeda, eu bem avisei… O ataque violento e o discurso do “resistente”, do “antifascista” e do “republicano” cheiram a mofo e têm cada vez menos a ver com a política contemporânea, em que novas e velhas gerações não têm medo de fantasmas políticos que já não voltam, vivendo bem com a História de Portugal. Além disso, os ataques sucessivos ao seu (???) PS, haveriam de ter consequências…

Já quanto a ganhadores, sou dos que pensa que o Sr. Coelho ganhou na justa proporção em que perdeu a dignidade (se ainda a havia) da nossa política. A sua candidatura faz sorrir, mas é própria do Parque Mayer e não de um palco onde deveriam desfilar as mais nobres questões da nossa democracia constitucional. Bem mais inteligente e interessante é o aparecimento regular de Manuel João Vieira que, todavia, tem o bom senso de não passar de momentos de contracultura, quando facilmente arranjaria as assinaturas necessárias à formalização da candidatura.

Quem me parece que, secretamente, também deve ter cantado vitória é José Sócrates… Senão, vejamos: no primeiro mês em que os funcionários públicos vêem os salários e pensões reduzidos, quem paga a factura é um dos seus maiores incómodos dentro do PS que, ademais, fica definitivamente debilitado, pois sofre segunda “goleada” seguida e nem sequer tem o palco parlamentar para se perpetuar, como fez durante anos. Para além disso, creio que o nosso Premier terá na mente que Cavaco Silva apenas o demitirá se a sua permanência começar a prejudicar a imagem presidencial. Cavaco Silva nunca fez favores ao PSD (Fernando Nogueira sabe-o o bem) e sentiria menor margem de intervenção se o Governo adquirisse matizes alaranjados.

Pedro Passos Coelho, esse, passou com distinção mais um teste, não ficando a dever o que quer que seja a Cavaco Silva, como, suspeito, não quererá ficar a dever a quase certa chegada a São Bento.

De saída, registar que Mário Soares voltou a ficar em terceiro lugar. Ou ainda é daqueles que acredita que a candidatura de Fernando Nobre foi espontânea?!...

Não era preciso tanto...


Para celebrar a chegada de 2011 em grande, seis deputadas ao parlamento da República Checa decidiram fazer um calendário com fotos suas, numa produção ousada. A ideia é a de chamar à atenção para o facto de existirem mulheres envolvidas na política. Nada contra, mas eu diria que não era preciso tanto... a representação feminina nos parlamentos não é propriamente uma novidade. Desde 1907 que há registo de mulheres em países europeus a desempenhar cargos políticos, mais ou menos relevantes. E mesmo sem serem eleitas, o que não falta é mulheres a participar em decisões políticas importantes, por mais ou menos femininas que sejam, por mais ou menos atraentes que se mostrem. Cumpre acrescentar que na própria República Checa os números não são irrisórios, ao contrário do que nos leva a crer esta iniciativa. Nas últimas eleições, em Maio de 2010, foram eleitas 44 mulheres para a Câmara Baixa do Parlamento.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Cá vai disto


Se tudo correu como planeado (esta mensagem é gravada, ou julgavam que era só a mensagem de Natal do Obama?!!), hoje estaremos a embarcar à direita (km zero) e chegaremos à esquerda (km 9288) no dia 19.

Todavia, espera-se um cenário bem mais branco nesta viagem que, de 28 de Dezembro a 23 de Janeiro, levará os repórteres do LODO de Moscovo (local de entrada um 2011) a Vladivostok, passando por Nizhny Novgorod, Kazan, Yekaterinburg, Irkutsk, Listvianka, e Ulan Ude.

Se voltarmos com dedos (esperam-se cerca de -40º na Sibéria), haverá pano para mangas. Até lá e que 2011 seja um ano em grande, apesar dos horrores salariais e tributários esperados.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Fraquinho

Thunderstruck


Usa-se o título de um dos êxitos dos AC/DC para ilustrar o dia-a-dia do Verão de Joanesburgo. Tarde sim e noite sim, uma trovoada de respeito cai sobre a cidade que se diz ser a mais fustigada pela EDP celestial... A vista do no nosso cantinho é esta.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Festas felizes

Mais um ano e a Lodo, S.A.D. vem desejar a todos os colaboradores, fornecedores e amigos Festas Felizes e um 2011 com muita massa e pouca crise.

Desejos de Natal e certezas de Ano Novo

É comum, nesta altura, as revistas e os jornais trazerem reportagens de Natal e desejos e previsões de Ano Novo. Globalizado que estou, não fugirei à regra, no mês em que passam dezasseis anos desde que o Beiras cometeu o erro de publicar um artigo meu pela primeira vez…

Sem distinção entre desejos e verdades, cá vai disto: desde logo, nem preciso de copo de cristal (quanto mais da bola…) para antever uma vitória de Cavaco Silva à primeira volta (se calhar até bastava meia volta). Não só se reconhece o perfil de estadista, como se recomenda o economista para visar as ideias luminosas do Primeiro-Ministro (seja ele Sócrates ou Passos Coelho, ou mesmo qualquer outro). Acresce que Alegre tem feito uma campanha triste… Triste pelo tom agressivo, triste pela colagem ao Bloco de Esquerda, triste pelo desânimo das hostes. Resta a expectativa de ver os bodes expiatórios que o Poeta de Águeda arranjará na noite de 23 de Janeiro.

Outra coisa que é certinha é que 2011 será a doer e nem PS nem PSD (caso avance a moção de censura) terão grande margem para repor o que perderão os funcionários públicos. Tenho para mim, como é (bom e mau) hábito dos portugueses, que lá nos acomodaremos com a ideia de vivermos pior e de sermos, cada vez mais, os últimos da Europa (mesmo atrás de países que viveram décadas de ditadura comunista). Se assim não fosse, já haveria distúrbios públicos como há sempre que chega a mostarda ao nariz dos franceses, ingleses ou alemães. Por vezes, fico sem saber se somos cívicos ou mansos…

Na “Terrinha” (a minha Coimbra), fica para ver se o PS ainda existe. Com a saída de Carlos Encarnação e a entrada de Barbosa de Melo, independentemente dos méritos deste último, abre-se uma janela de oportunidade para os socialistas lançarem um candidato carismático para a presidência da Câmara Municipal. É sabido que sai uma personalidade forte e conhecida e que entra alguém com um perfil público menos exuberante e com menor reconhecimento por parte do eleitorado (louva-se a inteligência e a generosidade de Encarnação ao sair agora, por esta mesma razão), mas também não se ignora que maior divisão do que a que existe no PS de Coimbra só mesmo a que separa as duas Coreias.

Ainda por Coimbra, vamos ver no que dá a insólita situação em que se viu a nossa Académica. Depois de um início imperial, “dois vezes cinco são dez” e ficámos sem o Jorge Costa. Sendo os motivos pessoais, nada a dizer; caso contrário seria, a meu ver, um erro de palmatória, pois a Briosa vinha fazendo bons jogos e mesmo em Braga viu-se força e harmonia ofensivas, até que a coisa se tornou desastrosa. Resta esperar que a escolha dos dirigentes em funções seja inspirada pelos bons motivos e não por alguma voz que veja a Académica como qualquer outro clube (infelizmente, embora quase inexistentes, sempre há uma ou outra voz que pensa mais em lucros do que em identidade e resultados). A esse respeito o academismo do Presidente é uma garantia a que dou valor, mormente agora que o caminho para o Jamor (ou, pelo menos, para as meias-finais da Taça) parece bem possível.

Resta-me desejar a todos festas felizes e um 2011 com a coragem necessária para as agruras vindouras, já que este vosso amigo só voltará em finais de Janeiro, depois de enfrentar o Inverno siberiano (o original…).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fugas e Rupturas

Penso que ninguém no seu perfeito juízo questionará, no mundo democrático, as liberdades de informação e de expressão.

Acresce que ambas sempre foram servidas por processos tradicionais, mas também por investigações ocultas, violações de privacidade e outros meios mais “alternativos” (cujo limite da tolerância reside em alguns programas de TV, jornais e blogues que apenas servem para a coscuvilhice, a intriga e o postergar da reputação das pessoas). Mesmo assim, a democracia sempre acomodou eventuais excessos em homenagem ao bem maior: saber a verdade.

É por isso que alguns jornalistas de investigação receberam prémios internacionais (com destaque para o Pulitzer) e que sucessivos “piratas” da Internet (vulgo hackers) foram sendo olhados com condescendência – desde 1983, por exemplo, ano em que as salas de cinema enchiam para ver “War Games”, filme em que o protagonista, embora com fins lúdicos, invadia um computador militar, quase desencadeando uma guerra nuclear.

Aliás, compreendendo o ganho de ter cidadãos informados, já muito antes, Thomas Jefferson, Presidente dos EUA, declarara preferir imprensa sem governo a governo sem imprensa, se a questão se pusesse.

Vem este arrazoado a propósito do sensacional burburinho causado pelo sítio dedicado à publicação de fugas de informação, WikiLeaks. De facto, os governos ocidentais, mormente o norte-americano, têm vindo a procurar reagir a divulgações de informações confidenciais, que dizem pôr em perigo a segurança nacional e a dos seus aliados.

A meu ver, é bem possível que os governos tenham razão. Qualquer liberdade sem dever é libertinagem. Neste caso, será de pensar se não há um ponto em que a liberdade de informar deva ceder ante necessidades de segurança colectiva.

Muito mais importante: admitindo que ainda não chegámos ao paraíso dos Louçãs deste mundo (entenda-se, a anarquia), quem deve julgar os limites? Jornais, televisões e blogues ou instituições constitucionalmente consagradas e democraticamente e também judicialmente sindicáveis?

Importa, depois, olhar a natureza daquilo que se revela: uma coisa é maledicência ouvida na política ou escândalos sexuais (pode meter nojo, mas não mata), outra é informação sensível sobre instalações vitais em vários países (algo que o WikiLeaks revelou).

Mas não sejamos ingénuos: o que está em jogo não é a luta dos “maus” americanos & aliados contra os pobres cruzados da verdade do WikiLeaks, nem tampouco uma genuína luta pelo tal “saber a verdade”! Estamos perante libertários (libertinos, diria eu) que acham que apoucar a civilização ocidental os torna intelectuais, como prova a decisão do Bloco de Esquerda de alojar aquele sítio virtual. Como se viessem a ter liberdade para tamanha estupidez em qualquer outro regime, acaso destruíssem este… É Natal; perdoemos-lhes a ingenuidade…

sábado, 11 de dezembro de 2010

Uma notícia amarga

O tema do dia pode, apriori, parecer mais doce que o habitual, tratando-se de açúcar, mas o seu racionamento nos supermercados gera preocupação, sobretudo numa quadra que se quer doce. A notícia apanha desprevenidos os portugueses, que nalguns supermercados apenas poderão comprar dois pacotes, restrição que traz à memória outros tempos... Agora o motivo é diferente, sendo que a produção de cana de açúcar tem descido abruptamente, o que tem disparado o preço do produto nos mercados internacionais e, consequentemente, encarecido a respectiva exportação. Conclusão: não só a compra deste produto começa a ser racionada, como é inevitável que o seu preço dispare. Bem vistas as coisas, antes açúcar que outras espécies de bens essenciais. E depois, não se aflijam, que não é díficil encontrar substitutos de açúcar: mel, frutose, maple syrup (xarope de ácer) e agave nectar, por exemplo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Lodo, SAD ou os pioneiros da gulodice




Acabo de ler que as famosas Bolas de Berlim do Natário, incontestável talismã dos congressos do Lodo, foram agraciadas com o (justo, cumpre dizer) Prémio Mérito Comercial, pela tradição e qualidade com que há décadas brindam os vianenses e os turistas. A notícia dá também conta de que a pastelaria tem já um vasto grupo de fãs no Facebook, ao qual eu aderi. E não é que a foto de perfil é precisamente a nossa, tirada neste inesquecível convívio por terras de Aveiro?! Com tanta ajuda na publicidade à casa, bem podiam agraciar a Lodo, SAD com umas fornadas das melhores bolas de berlim do mundo...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alegrias e alergias

Na passada terça-feira, fui torpedeado com duas declarações do “Campeão da Liberdade” e “Primeiro Republicano à face da Terra”, Manuel Alegre: a primeira versava o facto de nunca ter feito parte do salazarismo, sendo desde sempre um resistente.

Ora, a estação televisiva que emitiu estas declarações (não me lembro de qual dos três canais noticiosos se tratava) imediatamente associou o remoque a Cavaco Silva. Duas coisas tenho por certas, todavia: por um lado, sei que o recandidato não enveredará por linguajar soez.

Por outro lado, creio que a declaração, a ser correcta a interpretação que dela fizeram os jornalistas, é desprestigiante para classe política, desqualificando quem a profere (no caso, o Poeta de Águeda). Imaginemos, por um instante, que um dos outros candidatos verbalizava insinuações sobre Manuel Alegre baseadas nas dezenas de mensagens de correio electrónico que ligam o mesmo a condutas alegadamente censuráveis (recebi algumas relativas ao período colonial); seria digno, quando não se junta prova? Contribuiria para o esclarecimento dos eleitores? Não! Aliás, devo dizer que apago de imediato essas mensagens, não as reencaminhando. Sou coerente e creio que as mesmas – repito, porque não provadas – revelam baixeza e cobardia.

Aliás, o candidato do distrito de Aveiro, ao afirmar-se pela ética republicana, está, a meu ver, a depreciar a qualidade da vida democrática e da própria República, quando deixa fantasmas não corporizados a pairar sobre o debate. Isto, mais uma vez o digo, se a emissora contextualizou adequadamente o que disse.

A segunda intervenção que não apreciei, teve a ver com o facto de, na opinião do candidato socialista-bloquista, Cavaco Silva ter sido complacente com a crise. Ora bem, basta lembrar que não foi o actual Presidente que foi deputado socialista durante anos, inclusive durante o primeiro mandato de José Sócrates. É que, na minha opinião, não basta quebrar a solidariedade de forma tribunícia (atitude de “gosto” político discutível, aliás); quando se conserva o lugar e se adere a um programa, parece estranho que, nem dois anos volvidos (o programa actual do PS continua o anterior), se possa demarcar de tudo, atribuindo a quem garantiu a estabilidade democrática (Cavaco) conivência na crise.

Prefiro pensar que este jeito inhenho de fazer política – lançar atoardas sobre o “camisola amarela” – não tem a ver com as franciscanas sondagens que são de modo a deixar Alegre triste… Fico-me por dizer que é um modo que me causa alergia, sabendo-se de antemão quem ficará alegre, já no dia 23 de Janeiro…

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Começamos mal...




Este fim de semana o XXI Congresso da JSD elegeu, em Coimbra, o seu novo líder. À distância, parece-me que a mudança de rostos não significa necessariamente uma mudança na estrutura, pelo menos no que ao Presidente toca, uma vez que foi vice da comissão política cessante. No mandato que ora tem início, espera-se (eu, pelo menos, espero...) que a dinâmica da jota não se cinja, como nos últimos anos, a outdoors e campanhas anti-sócrates, excepção feita ao notório trabalho - cumpre reconhecer - quanto ao Porta 65. Isto, porque a JSD tem gente com capacidade para muito mais, tem credibilidade junto da juventude portuguesa que não convém deitar por terra e tem uma imensidão de bandeiras para hastear, haja visão e sentido de oportunidade. Contudo, a julgar pela imprensa de hoje, dá ideia de que as batalhas que a jsd quer travar em defesa dos jovens portugueses escasseiam. É que no pós-congresso, o destaque vai sobretudo para o direito de voto aos 16 anos, uma bandeira cheia de remendos que, ainda para mais, aproxima a estrutura do... Bloco de Esquerda! É caso para dizer que... começamos mal.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Olha quem fala

Há poucos dias, vi na televisão que a Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, tecia considerandos sobre a defesa dos direitos humanos na Europa. Falava a Sra. Clinton a propósito da proibição suiça dos minaretes das mesquitas e do veto francês ao uso em público do véu islâmico, na sequência do relatório anual do Departamento de Estado sobre a liberdade religiosa.

É claro que os casos europeus não foram, nem de perto nem de longe, o prato forte do relatório e da intervenção, mas, já que “aqui estamos”, deitemos um olho sobre o assunto.

Pergunto-me, assim sendo, quem será o campeão mundial da “islamofobia”?... Ora… Não é que são os EUA??? Que outro país encerra turistas estrangeiros numa sala de aeroporto separada e os asperge com fumos, apenas por terem estado em países de que os americanos desconfiam?... Exacto: os EUA!...

Quem geria Abu Ghraib e ainda não encerrou Guantamo?!... Respondeu “EUA”?! Nem prémio leva, tal o cariz óbvio da resposta…

Nesta altura, peço ao Leitor que me não interprete mal: não sou do Bloco de Esquerda (cruzes!!!) e nem pertenço àqueles que acham que dizer mal dos Estados Unidos os guinda à condição de “intelectuais”. Adoro o país do Uncle Sam e acho que tem uma democracia e uma cultura vibrantes. Todavia, acho que apontar o dedo é uma má escolha, quando já nem vidro se tem no telhado…

Dir-me-ão os fanáticos: “os Estados Unidos têm razão para a cruzada actual”! Talvez, responderei… Contudo, não menos a terão os europeus, a começar pelos espanhóis e pelos ingleses. Mesmo os franceses, venho dizendo isto há algum tempo, estão, segundo alguns estudos, a braços com o dilema de, dados o conforto social que proporcionam e a progressão geométrica da população “não ocidental”, terem, em algumas décadas, uma maioria de votantes islâmicos nos seus cadernos eleitorais.

Se o fenómeno em si parece natural, o facto é que ocorre num centro nevrálgico da cultura europeia e sem que os “novos franceses” aceitem as regras daquela, preferindo impor aos “anfitriões” ditames de outra fé e de outro modo de ser e de estar. E a isto temos de assistir, dizendo-nos os que aplaudem a anarquia que se trata de diferença cultural… O irónico da coisa é que os nossos “esquerdistas” se esquecem da desconsideração que está ínsita em muitas das “diferenças culturais” impostas, designadamente, às mulheres islâmicas.

O mesmo tom categórico já não emprego na norma arquitectónica helvética. Apesar de se tratar de uma norma democraticamente adoptada, nem sempre os procedimentos referendários foram sinónimos de bom senso, da condenação de Cristo a Weimar.

Todavia, mesmo neste último caso, estou em crer que a intolerância se não equipara à vivida pelos ocidentais nos países muçulmanos, desde a proibição de visitar Meca à exigência de as mulheres visitantes usarem trajes muçulmanos ou de turistas serem alvos potenciais pelo facto de um jornal do seu país ter publicado caricaturas de Maomé.

Sorrio ironicamente, por isso, ao recordar as palavras da Madame Clinton.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Natal sem luz... e sem fome

Acabo de concluir que ainda há responsáveis políticos sensatos em Portugal. Pelo menos, lá para os lados de Sintra, nas freguesias de São Marcos, Rio de Mouro e Colares, cujos presidentes entenderam abdicar da iluminação natalícia nas ruas para iluminar o Natal dos moradores de uma outra forma. Os fundos que se destinavam à iluminação das localidades vão ser aplicados em centenas de cabazes de alimentos, bens essenciais que as famílias têm tido dificuldade em obter, pelo que o número de pedidos de ajuda aos responsáveis locais tem aumentado consideravelmente. A medida é, a meu ver, louvável. Um exemplo a seguir por todas as freguesias e concelhos em que os valores destinados à iluminação de Natal possam colidir com os valores atribuídos para a acção social. E para que se tenha noção dos balúrdios que todos os anos são gastos em iluminação natalícia, é espreitar aqui.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O prazer de votar

No âmbito das eleições ao parlamento da Catalunha, no próximo dia 28, há campanhas que têm dado que falar, mercê dos meios propaganda utilizados. Uma delas, lançada pelo Partido Popular, consiste num jogo de computador em que o jogador está encarregado de uma missão, a de eliminar imigantes; naturalmente, a brincadeira já deu muito que falar. A outra, que não fica atrás em popularidade e polémica, é de apoio ao candidato José Montilla, pelo Partit des Socialistes de Catalunya (PSC) e incita os jovens ao voto, comparando-o a um meio de obter prazer:

A ideia é da juventude do PSC, que teve a intenção de captar as atenções (não só dos jovens...) e usar um dos mais vulgares iscos de comunicação: o conteúdo sexual, ainda que não explícito. E quanto ao conteúdo político? Absolutamente nenhum. Tenho, por esse e por outros motivos, as maiores dúvidas quanto à eficácia deste vídeo. É primário e desvirtua aquilo que subjaz ao voto eleitoral. Votar é um sentido de cidadania que não toca a todos e a solução não passa, certamente, por incitar a que, qual rebanho, as multidões acorram às urnas. Votar «por votar» não nos leva a lado algum. O voto deve ser consciente, voluntário e lúcido. E para que o seja, o desejável é informar cabalmente os cidadãos das suas opções e não propriamente socorrer-nos de mensagens libidinosas.

A propósito, votar não tem nada que se assemelhe a prazer. Há uma imensidão de coisas que se podem fazer num domingo mais entusiasmantes que desencantar o cartão de eleitor no fundo de uma qualquer gaveta, locomovermo-nos até à escola primária do sítio, esperar sossegadinhos nas filas, reencontrar gente que não víamos há séculos e com quem não temos vontade de falar e, posto isto, despejar o voto na urna. Que entusiasmante.

Em Dia de Não Fumador (ou de não cumpridor?)



Hoje, 17 de Novembro, assinalou-se o Dia do Não Fumador. Neste dia todos se lembram de uma lei que entrou em vigor há quase 3 anos, mas todos os dias eu me lembro que estou num país em que as leis não se cumprem e tudo fica na mesma. Será assim tão difícil fazer cumprir uma lei que só traz benefícios à nossa saúde? Embora o tabaco tenha sido proibido em muitos locais, há ainda muitos cafés, bares e discotecas onde se continua a fumar sem restrições e sem que as devidas condições de extracção sejam cumpridas. Onde está a fiscalização? Ai Portugal Portugal...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pele e osso

Talvez a distância seja a causa da maior avidez com que pratico algo que sempre fora um hábito: assistir a noticiários e ler os jornais (embora sem o indizível prazer de folhear os mesmos).

Todavia, da terra onde Vasco da Gama “deu baile” ao resto do Mundo, fica a angústia acrescida de comparar a glória de outrora e a miséria actual, sentimento no qual sou acompanhado pelos membros da comunidade portuguesa, que olham com tristeza e espanto uma Pátria pré-falida.

Chovem as perguntas e escasseiam as respostas: como chegámos até aqui? Por que é que, mesmo com acordo sobre o Orçamento, os juros que Portugal paga pelo dinheiro que pede continuam a subir? Onde vêem os investidores o nosso risco de incumprimento? Por que não assumem os políticos o que o Estado pode ou não pode fazer, de uma vez por todas, em vez de andarem com cortes nos salários, na ADSE e outros paliativos a contado?

Já escrevi por estas páginas que não vale a pena procurar culpados. É uma tradição portuguesa achar que alguém tem a culpa das nossas asneiras… Ora, neste caso, penso que a nossa falta de exigência em relação a nós próprios – na produtividade, no mérito e até nos demais valores sociais – se traduz na incapacidade de exigir mais da classe política, pois a dura verdade é que não entendemos patavina do que é preciso fazer para acabar com a nossa histórica modorra (o pior é que, temo bem, muitos dos políticos também “não vêem boi” dos problemas)!

Embora me obrigue a dar o benefício da dúvida, ainda estou por me render à geração de políticos do Facebook e da folha de Excel (que é como quem diz, listagem de militantes “controlados” e com quotas a pagar)… Somos dos países com mais telemóveis por habitante, o que me faz pensar que temos a noção de cosmética típica do “pato-bravismo”, mas continuo à espera de alguém que não se limite à literacia tecnológica e ao sectarismo intra-partidário, percebendo o papel da emoção e de um desígnio nacional mobilizador.

Que Cavaco Silva representará um seguro de saúde nacional, não tenho dúvidas; os tempos não estão para poesias. Porém, agarro-me à esperança de, chegada a hora, Passos Coelho conseguir duas coisas: emocionar e mobilizar os portugueses e, por outro lado, moderar o apetite dos jovens turcos que se agarraram ao seu manto.

Até esse dia fica ainda o meu cepticismo em relação àqueles que julgam poder culpar o actual Governo por tudo e mais umas botas. O problema é mais fundo e pede respostas que durem várias décadas; de preferência, antes de morrermos à mingua…

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Gatos escaldados (e agora «calados»)

Se havia página d'A Bola que eu gostava de ler nas raras vezes que o jornal me vem parar às mãos, era a das crónicas dos gatos Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela, a torcer pelos seus clubes, SLB e SCP, respectivamente. Mas ao que parece, um destes dias o lápis (literalmente) azul falou mais alto e a última crónica do «gato verde» saiu com certos cortes, sem que o cronista fosse disso avisado. Os cortes recaíram sobre trechos em que Quintela «respondia» a Miguel Sousa Tavares a propósito de uma troca de palavras quanto ao célebre Apito Dourado. Pormenores à parte, é de concluir que, desta vez, até o diário comummente associado ao Benfica se prostou perante os papões do Norte. O resultado? Quintela abandonou a crónica e RAP fez, num gesto solidário para com o colega, o mesmo. Quem fica a perder? Todos. O humor intercalado com momentos de pura lucidez (que tanto escasseia no meio), viesse de quem viesse, tornava o desportivo numa leitura mais sadia. Agora MST pode respirar de alívio: tem o jornal por sua conta e ninguém à sua altura para lhe lembrar que um homem com a sua inteligência não pode fingir acreditar que o Apito Dourado é uma mera ilusão futebolística.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Agora é que tu disseste tudo!

“Como sempre, trabalho sem interrupção e se ocasionalmente vejo uma jovem bonita e a olho na cara, é melhor gostar de jovens bonitas do que ser gay”

Sílvio Berlusconi, citado pelo Público

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A razão pela qual nada aprenderemos com a crise – Parte II

Retomando a análise sobre a aquilo que julgo ser a explicação do facto de qualquer crise se sentir com mais profundidade em Portugal, repito o que já disse noutros textos: não havendo homens providenciais, acho comodista e algo hipócrita que se culpem apenas os políticos.

Se é certo que muitos deles são movidos pela sedução do poder, pela ambição ou pela perspectiva de “dinheiro fácil”, também é verdade que muitos não são desonestos (seja por serem íntegros ou por não terem “categoria” para roubar). O problema é que os políticos saem do meio do povo que os elege. Por muito desfasados que, por vezes, pareçam, não são extra-terrestres vindos de outro planeta… Reflectem as nossas virtudes, mas, igualmente, os nossos defeitos. Também eles têm um ar pesado e vivem num mundo que já não existe (começa pela retórica parlamentar, onde ainda ouvimos “vossa excelência” seguida de pontapés na gramática e de enxovalhos pouco dignificantes).

Acresce que também os políticos se tornam mais básicos e previsíveis à medida que os padrões de exigência do ensino se degradam e que as próprias mentes das novas gerações sofrem o empobrecimento ditado pelo progressivo abandono da cultura escrita, em detrimento da ruminação de conteúdos de televisivos e da exposição sem coordenadas éticas a tudo o que pode ver-se na Internet.

Colhe, por isso, sentido a frase de Maistre: “cada povo tem o governo que merece”!...
Dito isto, que fazer?

Com franqueza, esvai-se me a esperança. Para sairmos da crise permanente em que, com altinhos e fundões, vamos vivendo, era preciso que ganhássemos consciência colectiva, que abraçássemos o desígnio de sermos dos melhores países da Europa, que não buscássemos o suborno em lugar do cumprimento dos trâmites da lei, que não nos limitássemos a obedecer a esta por medo da punição, que tentássemos ser melhores em vez de invejarmos o sucesso alheio, que não favorecêssemos os graxistas e lacaios em vez dos críticos leais, que percebêssemos que o dinheiro deve advir do talento e da ética, que, em suma, fossemos decentes, trabalhadores e solidários…

Só se atingíssemos este “minus” da essência de uma nação, poderíamos ombrear com gente que se aplica, que tem orgulho na sua bandeira para além do futebol e que não aldraba ou que, quando o faz, tem a cadeia como destino certo.

Até lá merecemos alguns dos seguidores de Sócrates e Passos Coelho (ambos culpados menores de tudo isto). É uma pena justíssima!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Previsões do Lodo

Agora que as negociações com o Governo fracassaram, eis as previsões do blogue que nunca vos abandona:
  1. PSD "aprova" orçamento com uma abstenção, explicando que o faz em nome de Portugal.
  2. Em Março (quando o Presidente puder convocar eleições) apresenta moção de censura.

Classificados no Lodo: negócios

Em tempos de crise há sempre oportunidades.
Concretamente, o futuro sorri aos produtores de coletes reflectores, se a moda de uma localidade catalã pegar. Assim, parece que as prostitutas de rua serão obrigadas a utilizar mais este acessório de segurança para que o embate frontal envolva apenas o condutor e não o veículo...
Embora o mercado de trabalho português seja menor, fica o alerta aos munícipios, fabricantes e retalhistas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Um vintém é um vintém"

Tenho para mim que Jorge Jesus é dos melhores treinadores intuitivos do futebol português e é o homem certo para pôr em extâse 90% dos adeptos benfiquistas.
Porém, a modalidade evoluiu e, hoje em dia, muito se passa no plano táctico e nas metodologias de treino e observação de jogadores e adversários.
Ora, creio que o treinador do Benfica é pobre nestes aspectos. O jogo com o Lyon foi mais uma sucessão de equívocos e uma mostra de pouca bagagem teórica....

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Na semana passada...

Na semana passada, duas declarações mereceram a minha atenção. Partilho-as, agora:

a) Carlos Queiroz: ao culpar (novamente) Laurentino Dias pelo seu despedimento, Queiroz responsabilizou-o pela situação difícil em que se encontrava (está melhor, por estes dias) a Selecção. Disse mesmo que com ele no banco frente ao Chipre e à Noruega "nada disto aconteceria" (cito de cor). Haverá declaração mais assassina e ingrata para o companheiro e colaborador de há anos, Agostinho Oliveira? Isto só prova que, podendo ser bom teórico, Carlos Queiroz tem muito a aprender sobre a natureza humana.

b) Paulo Bento: dias mais tarde, o actual seleccionador deu uma prova de humildade notável. Confrontado com a sondagem a José Mourinho, antes da sua contratação, Bento disse que estava orgulhoso pelo facto de a Federação ter ponderado apenas duas hipóteses: " o melhor treinador do mundo e o Paulo Bento". Ao contrário do que previ, pode ser que tenha pé para a dança!...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Revendo a lição do Professor "Mamede"

Pioneiro que é, o nosso "Mamede" já tinha visto este filme, há algum tempo. Sucede que lhe conferiu uma nota sofrível, ponto em que, com a devida vénia, estamos em desacordo com este monstro sagrado do "ver cinema", capaz de tornar insignificante o parecer avisado de homens como "Lauro Dérmio"...

Aplaudido o humor insíto no título da crítica do Prof. "Mamede", atribui-se o nariz torcido à sua relativa juventude, pois, a nosso ver, o filme vale pelo desfile de notáveis da "porrada à antiga"!

Começa pelo maravilhoso regresso da dupla Stallone - Lundgren que entusiasmou a adolescência dos moços da minha idade, num dos mais tolos e ao mesmo tempo aclamados filmes de propaganda do tempo da guerra fria: "Rocky IV". Da morte de Apollo Creed ao improvável triunfo e propagandístico discurso de Rocky Balboa, após a vitória sobre Ivan Drago, em Moscovo, é um sem-fim de cenas irrepetíveis.

Depois, é ver o imenso Mickey Rourke, que precisou de bem mais do que "9 semanas e meia" para voltar a esta forma de "wrestler"...

Há espaço ainda para Bruce Willis, mesmo que não salte nem assalte um arranha-céus, e para a genial aparição do Governador da Califórnia, Schwarzenegger, que, em poucos minutos, revê a antiga rivalidade com Stallone, que ainda o acusa de ter ambições presidenciais!...

Por fim, mesmo a "II Liga" está em bom nível com nomes como Jet Li e Jason Statham.

É por tudo isto que temos que votar contra um cândido mas injusto parecer do mais famoso cinéfilo da Solum!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A razão pela qual nada aprenderemos com a crise – Parte I

À guisa de prelúdio, diria que as linhas que se seguem não devem ser vistas à luz de qualquer forma de autoflagelação; não considero que tenhamos que andar com a corda ao pescoço, qual Egas Moniz, ou de nos chicotearmos, enquanto gritamos kyrie eleison… Temos, isso sim, enquanto povo, de reflectir sobre a explicação profunda do estado de “crise permanente” em que vivemos, pois, mesmo antes desta marretada valente dos mercados internacionais, fica a sensação de que sempre viemos a afundar-nos alegremente.

Creio mesmo que o mais escandaloso neste luso atavismo e nesta nacional “choraminguice” é olharmos os países do antigo Bloco de Leste que, sujeitos a décadas de opressão soviética ou pró-soviética e muito mais recentes nas andanças da União Europeia, em menos de um fósforo, se colocaram ao nosso nível, quando não nos passaram mesmo nos números do desenvolvimento… Dou, assim, de barato exemplos repetidos à saciedade, como o caso da Finlândia que, mesmo sem os recursos naturais que nos queixamos de não ter (e até temos alguns que os finlandeses não têm, como sejam praias infindáveis e clima “para turistas” todo o ano), se guindou ao patamar cimeiro em que permanece, desde que me lembro.

Tudo isto para dizer algo simples: enquanto povo temos muita responsabilidade no estado de coisas a que chegámos, sendo os cortes nos vencimentos e pensões dos funcionários públicos, o aumento do IVA e todos os demais instrumentos de tortura que nos fustigarão a partir de 2011 consequências da insalubridade ética em que sempre apreciámos chafurdar. Em vez de produzirmos mais e melhor, sempre preferimos empurrar o destino para a frente com a barriga; em vez de contestarmos solidariamente o que está errado, calámo-nos, esperando que a régua não açoite a nossa mão e que a promoção chegue a nós, mesmo que outros se quedem na injustiça; em vez de acharmos que houve um colega que mereceu mais do que nós “aquele lugar ou aumento”, logo congeminamos as razões do favoritismo (amizade, partido ou caso amoroso) e, o que é pior, por vezes, com razão…

Somos, por isso, tendencialmente invejosos, em vez de cultores de uma lógica de mérito. Mesmo muitos dos que nas autarquias, gabinetes de estudos e assessorias procuram mascarar a coisa com o uso de Powerpoint, ecrãs de LED com produções bonitas e, em suma, embalagens tecnologicamente atractivas e uma imagem de suposta competência desprovida de emoção (um subtil renascimento da propaganda totalitária), na verdade, continuam a alimentar “o grupo”, a dar oportunidades de negócios aos amigos e a executar sumariamente qualquer tolinho que sonhe com independência de espírito. Somos, também, fracos de alma…


Post- Scriptum
(não é altura de escrever P.S…): Interrompo a prosa (a continuar) para garantir que Pedro Passos Coelho é um líder genuíno. Espero, consequentemente, que não se deixe levar pelos jovens profissionais da política que, sob o escudo de muitos PDF e slideshows, tentam disfarçar a sede de poder instantâneo, colocando entraves à passagem do Orçamento, no PSD. Podem até regurgitar sobre o documento, em directo, mas não é à toa nem pode ser conspiração o facto de três antigos Presidentes da República e de três ex-líderes do partido (Marcelo, Ferreira Leite e Mendes) recomendarem, a bem de Portugal, a viabilização do documento. Creio que Passos Coelho levará a indignação até à última, fechando os olhos ao horror orçamental, à última da hora. Só pode ser assim…