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quarta-feira, 22 de julho de 2015

“Nunca subestimar a estupidez humana”…

… Foi essa a primeira e sábia lição de mestrado do Prof. João César das Neves, pese embora a propósito da Economia Política.

Lembro-me de tão sábias palavras por ter lido a polémica gerada em torno da aparição da mulher de Pedro Passos Coelho, sabendo-se que se encontra calva mercê de agressivos tratamentos contra um dos flagelos da nossa era.

Na generalidade, estou de acordo com as reacções de repúdio perante quem viu na dita aparição um sinal passível de aproveitamento político e, logo, de beneficiar o Primeiro-Ministro. Creio até que as pessoas que reagiram usaram de uma polidez de que eu, contestando “a quente”, não me sentiria capaz.

Se abordo o tema é por não poder deixar de juntar ao que li e escutei o meu mais sentido “vómito”. Creio que é meu dever de cidadania!

Desde logo porque considerar que Passos Coelho aproveitaria a grave doença da mulher para ganhar votos, é presumir que falamos de um monstro. Quem conhece a história prévia do nosso “Premier” sabe bem que falamos de um homem com elevado grau de humanidade. Mas nem deveria ser preciso ter tido o privilégio de ter conhecido PPC em privado, ou sequer de pensar que poderia estar a enriquecer numa boa sinecura, em vez de suportar o ónus pessoal e político de lutar por uma visão que tem para o nosso País (goste-se ou não do conteúdo desta); deveria ser mandamento da boa educação e do bom senso que se não repare e menos se comentem estes detalhes, ainda mais quando falamos de alguém que tem a coragem de enfrentar um desafio tão grande, em lugar de ficar em casa vivendo uma depressão. No caso de Passos Coelho, salienta-se o acto de amor, sem mais comentários.

Mais espanta que sobretudo uma mulher (Estrela Serrano) diminua outra de forma tão vil. E se do “politicamente correcto” falarmos, alguém que teoriza o tema, bem podia perceber o desajuste do reparo, numa época em que designações como “negro”, “deficiente” ou até “contínuo” caíram em desuso. Explicando melhor o aparente ridículo do encadeamento, o que quero dizer é que a “polis” mediática convencionou suavizar todos os termos e referências que menorizem cidadãos em alegada situação de inferioridade ou subordinação. Logo, insinuar aproveitamento de uma doença em que se joga a própria vida passa por cima de tudo isto e chega ao cume da nojeira…

Ademais, mesmo no mundo académico, há “fórmulas que não se formulam”. Num Portugal universitário e político que ainda teme ver os (raríssimos) méritos do Estado Novo, “brincar” com doenças graves ou fatalidades é demasiado “vanguardista”… O respeito que houve (e bem) para com António Guterres e Mário Soares, deveria ser tributado a qualquer personalidade pública, independentemente do seu quadrante político.

Oxalá quem tão triste figura fez não tenha que reagir a algo de similar. Em todo o caso, se tal dia chegar, prometo decoro e continuarei pensando sobre o eterno dilema de saber se deve ou não haver limites à liberdade de expressão em democracia.

sábado, 6 de julho de 2013

Ficamos assim...

Embora com a devida moderação, não havia como não romper o silêncio sobre a vida política portuguesa.
Estando ainda “a bola a correr”, o que aqui se diga pode ficar desactualizado ao minuto. Todavia, algumas observações (repito, não tão acutilantes como desejaria) posso já fazer:
1 – À distância, fico com a impressão de que nunca se criou uma relação de confiança pessoal ou sequer de empatia entre Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Se é certo, como dizia um rival que tive na JSD, que “não precisamos de ser amigos para trabalharmos juntos”, a verdade é que, em não raras ocasiões, um bom entendimento ajuda.
Na minha modesta opinião, havia que ter posto em lugares charneira pessoas que pudessem fazer pontes e limar arestas entre os dois partidos. Fico, ao invés, com a sensação de que cada uma das forças coligadas nomeou os seus como se de uma sociedade por acções se tratasse.
Talvez Mourinho pudesse, melhor que eu, falar sobre a importância do espírito de equipa, mesmo pelo lado negativo da sua ausência, se pensarmos na experiência em Madrid…
Em todo o caso, a ser verdade o que se ouve, mais vale tarde do que nunca.
2 – Dizem as “últimas” que o CDS poderá negociar a manutenção na coligação, com alterações no elenco. A esse respeito, admitamos que o seu líder podia ter razão ao desejar maior grau de informação sobre as nomeações para a equipa. Todavia, voltamos ao mesmo ponto: será que o mesmo grau de consulta existiu nas nomeações dos titulares das pastas que cabiam àquele partido (para além da necessária e constitucional informação ao Primeiro-Ministro)?
O que foi mal calculado – beneficio da dúvida concedido, sem o que as palavras teriam que ser mais amargas – foi o efeito de uma decisão que, ainda que eventualmente profícua na defesa da auto-estima pessoal e colectiva (CDS), teve uma série de efeitos imediatos devastadores, com consequências que chegaram ao plano internacional.
“Que farias tu?” – perguntariam alguns leitores. Nestas coisas da política, creio que o País está sempre primeiro. Por muitas eventuais tropelias com que nos dificultem a vida, os objectivos do mandato conferido têm que estar primeiro (a uma escala ínfima, sei o que é ter um grupo interno a sabotar – e estou certo que nem por sombras se passou algo assim na coligação – e não desmobilizar até completar a missão). Por outras palavras, mesmo que admitamos que Portas tinha razões de queixa, creio que, inquestionável patriota que é e sempre foi, deveria ter sopesado melhor os resultados da sua consternação e, talvez, aumentado a sua capacidade de sofrimento ou, em alternativa, lograr os mesmos resultados através de uma negociação discreta.
Em suma e em matéria de cenários, creio que a manutenção renegociada da coligação é o cenário preferível (tacticamente, até para António José Seguro), seguindo-se nas opções defensáveis um eventual elenco resultante de esforços presidenciais (os governos de iniciativa presidencial estão fora do seu alcance), embora não acredite que tal encaixe no perfil do nosso Presidente. Os custos de um acto eleitoral iriam muito além da organização do escrutínio.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um problema de timings


A vida é mesmo assim, e quando este problema surge nas nossas vidas pessoais, com  austúcia, com imaginação ou até com algum poder de persuasão conseguimos os nossos objectivos.

Pois é, e volto aqui ao meu tema preferido, o que vai fazer o líder do principal partido da oposição, António José Seguro perante os mais recentes factos.

De um lado temos um governo reciclado, regenerado e com novos objectivos e do outro um partido no verdadeiro sentido da palavra, que se tenta também reinventar, reciclar e regenerar, os próximos tempos vão ser interessantes, vamos ver ganha este novo desafio.

Do ponto de vista político, Pedro Passos Coelho livrou-se de um peso morto, retirando assim espaço de manobra aos adversários, na medida em que Relvas deixou de ser arma de arremesso. Remodelou inteligentemente, pois como se diz na gíria Portuguesa, conseguiu fazer o dois em um, ao substituir Relvas por alguém com peso político, Marques Guedes e por outro lado reforçar a equipa governativa, com alguém insuspeito, competente e conhecedor dos dossiers Europeus, Poiares Maduro.

Contudo nem tudo correu bem, estas remodelações a conta-gotas dos secretários de Estado, ameaçam minar um pouco este processo, não só pelas razões que estiveram na sua base, mas essencialmente porque ainda não sabemos qual a factura a pagar por erros passados destes Senhores. Não quero ser mais papista que o Papa, mas esta factura será paga novamente pelos contribuintes Portugueses, resta saber quanto…

Do ponto de vista económico, tudo indica que melhores tempos virão. Segundo os últimos dados, a execução orçamental está no bom caminho, tanto do lado das receitas como do lado das despesas, a negociação sobre as maturidades dos empréstimos foram bem sucedidas, e finalmente, temos uma estratégia para o crescimento. Desenganem-se os vendedores de ilusões, quando afirmam que já vem tarde e que escusávamos de ter sofrido tanto. Quem anda nestas lides e for sério, sabe perfeitamente que qualquer estratégia tem sempre várias fases e tratando-se de um monstro como é a máquina do Estado, mais lento é o processo. Contrariar em dois anos uma cultura de despesismo instalada e promovida durante dez, é obra.

Analisemos agora o que se passa no principal partido da oposição.
António José Seguro ainda não se conseguiu afirmar como líder da oposição, não só porque não tem envergadura para isso, mas essencialmente, porque sofre de um síndroma cada vez mais em voga no nosso burgo e que afecta os partidos do arco do poder, "O síndroma do líder efémero". Se até agora havia um inimigo comum que os unia aparentemente, que passava  pela renegociação do memorando, nas metas do défice e no reembolso do empréstimos e na ausência de uma estratégia de crescimento, agora as coisas estão mais difíceis.

A acrescer a isto, José Socrates está de volta, Jorge Coelho regressou à vida política e António Costa que tarda em mostrar qualidades de Presidente de Câmara, acha que chegou a sua altura. Como se isto não bastasse, surgiu agora um documento promovido pelo ex-secretário de estado da presidência de José Sócrates, a solicitar que o futuro líder do PS seja eleito também pelos simpatizantes e não só pelos militantes.

De uma coisa AJS está seguro, só um deles quererá disputar a liderança do PS, António Costa, porque os outros dois, têm uma agenda muito mais pessoal e mais economicista, não só porque já deram para esse peditório, mas essencialmente porque preferem continuar a viver bem e de preferência à custa do orçamento de estado.

Como tudo isto já não bastasse, Pedro Passos Coelho ensaiou mais uma jogada de mestre, convidando AJS para reunião. Ao dar-lhe a mão nesta fase difícil, faz agora o três em um, dá-lhe o protagonismo de que ele tanto precisa, segura um líder da oposição fraco, oco e sem ideias e finalmente porque coloca o PS entre a espada e a parede. Agora AJS ou é parte da solução ou é um problema e isto porquê? Porque depois de quase todas as reivindicações terem sido atendidas, a saber, uma estratégia para o crescimento económico, renegociação do memorando nas metas, prazos e maturidades, fica a faltar muito pouco.
Os próximos tempos vão ser interessantes.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A honestidade não vende jornais

Leio no "Correio da Manhã" de hoje (terça-feira) o seguinte: "Ao que o CM apurou, as escutas em causa mostram que, apesar das pressões de Ricciardi, o primeiro-ministro recusou interceder a favor dos concorrentes assessorados pelo BESI, remetendo a decisão para o conselho de ministros".
O facto não me espanta, pois conheço o nosso "Premier" e sei que, errando como todos os humanos, é de uma honestidade inquestionável. Podem detectar declarações menos felizes ou estados de alma menos simpáticos e, mesmo aí, nem me parece que tenhamos muita razão de queixa; todavia, sou capaz de apostar os meus magros recursos em como não detectarão qualquer ilegalidade em que Passos Coelho se tenha envolvido voluntária e conscientemente. Os mais de vinte anos de conhecimento e de amizade dão-me essa satisfação, como amigo, e essa tranquilidade, como cidadão.
O que me irrita e indigna é que a transcrição que fiz não seja o título da primeira página, já que, à menor suspeita, os jornais são lestos a usar a capa para pôr em causa a dignidade dos políticos.
Com isto não se pense que sou contra denúncias fundamentadas, algo que até defendo à luz do papel que os media deveriam ter como guardiões da democracia. O problema é outro e tem via dúplice: por um lado, muitas das notícias supostamente incriminatórias são baseadas em rumores e, por outro lado, o seu desmentido, nos casos em que se justifica, é tardio e tem um milésimo do destaque conferido ao enxovalho.,
Este é o mesmo problema que tenho trazido às nossas “conversas” semanais: a conversão dos media em empresas que visam o lucro e procuram o produto mais vendável, que é, sem volta a dar-lhe, a emoção e não a razão.
Neste caso, não seria possível ao diário citado enaltecer o lado bom do nosso chefe de governo? Não seria bom animar as hostes, dizendo que o rosto dos sacrifícios cumpre escrupulosamente com a ética que deve exigir-se a um representante da Nação?!
Bem podem discordar com base no facto de Passos Coelho não ter feito mais do que a sua obrigação; contudo, não é essa a desculpa dos media (a obrigação) sempre que querem publicar algo que põe os político em xeque?!...
A este respeito, não saio daquilo que costumo dizer: tal conduta só degrada o prestígio dos políticos, o que, por seu turno, pode vir a ter duas consequências. A primeira é a de que a destruição do que temos só pressagia demagogias extremistas ou messianismos mediáticos. A segunda augura que só mesmo “partisans” que escolham a carreira política como modo de vida é que aceitarão servir os portugueses, pois se muitos, hoje, o aceitam por patriotismo, visto que gente honesta não enriquece com o vencimento de político, temo que, no futuro, a auto-estima dessas pessoas tenha limite, se o apoucamento for a regra.
O que se passará com os nossos media?! A honestidade não vende?!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Passado, Presente e Futuro

Esta coligação está ferida desde o primeiro dia quando aceitou coligar-se com o CDS sem a presença do PS. O CDS é predominantemente um partido populista, tal como o BE ou o PCP, se bem que em campos opostos e defendendo políticas diametralmente opostas, mas sua base de apoio é muito frágil e volátil e por isso muita adverso a medidas impopulares.
 
Com este ponto de partida, o governo até começou bem, apresentando um plano de reformas ambicioso, um caminho para ultrapassar as dificuldades existentes, um compromisso forte relativamente ao cumprimento do memorando da Troika e uma estratégia para reganhar a credibilidade externa, o que o fez, com muito sucesso.
 
Com mais ou menos percalços, o governo foi cumprindo, não seria o facto das primeiras reformas serem da responsabilidade de um Ministro com telhados de vidro, refiro-me a Miguel Relvas e a reformas como o fim dos Governos civis, a fusão/extinção de municipios e freguesias e a reestruturação do sector público de comunicação social, com especial destaque para a “vaca sagrada RTP”.
 
Este para mim foi o segundo erro do governo, a opção Miguel Relvas. Com dossiers tão importantes, esta pasta pedia alguém como Paulo Macedo, intocável, com créditos firmados, e com uma estratégia clara como temos visto na pasta da Saúde.
 
No verão do ano passado, num artigo que escrevi para este blog e a propósito deste tema, terminava a desejar que o período de férias fosse bom conselheiro e que na rentrée, Miguel Relvas já não fizesse parte do governo. Mais um vez o governo confundiu, autoridade, perseverança e linha de rumo, com fragilidade. Demitir Miguel Relvas nunca seria entendido como um sinal de fraqueza , mas sim uma correcção de trajectória, o reforço da autoridade e da coesão do governo e finalmente um sinal importante para Portugueses, mostrando uma forma diferente de fazer política.
 
Como sabemos não foi nada disto que aconteceu, a grande reforma autárquica ficou-se pelo elo mais fraco, as freguesias e no caso da RTP, tudo indica que a montanha pariu um rato.
 
Terceiro erro ou inabilidade, a comunicação. Sabíamos à partida, que a tarefa seria difícil, que a corrida contra o tempo seria um dos factores chave e que qualquer reforma contra-cíclica seria ostracizada e destruída pelos interesses instalados, pelas corporações e finalmente pelas lógicas partidárias.
 
Para o sucesso do programa de ajustamento e consequente reforma das funções do Estado, teria sido importante contar com um PS forte, seguro e cooperante. Convém neste caso, perceber porque é que o PS e António José Seguro, aparentemente fizeram tudo ao contrário. Recordemo-nos, que quando António José Seguro ganha as eleições internas, encontra um partido completamente fragmentado, Soaristas, Alegres, Socratistas e finalmente alguns Seguristas que na falta de uma alternativa melhor, lhe deram a vitória. Ora, é sabido também, que António José Seguro e Pedro Passos Coelho para além de serem da mesma geração, partilham convicções idênticas, tinham um boa relação pessoal e por isso tudo indicava que um ciclo de cooperação entre os dois mais importantes partidos da democracia Portuguesa pudesse ter sido uma realidade.
 
O que é que aconteceu então? Nada fora do habitual, apenas a velha forma de fazer política e porquê?
 
Desta vez a culpa não foi de Pedro Passos Coelho nem do PSD, foi da lógica partidária, que mais uma vez imperou sobre o interesse Nacional. Recordemo-nos que AJS ganhou as eleições não porque fosse o líder desejado, mas porque foi o único que se mostrou disponível e dadas as circunstâncias de partida, qual poderia ser a estratégia para unir o PS e afirmar a liderança ? Vem nos livros, encontrar um denominador comum, um inimigo contra quem todos se identifiquem, elaborar um discurso e uma retórica de ataque por forma a branquear o passado, reciclando assim, muitos dos responsáveis que levaram o País à bancarrota.
 
Perante esta estratégia irresponsável do ponto de vista do interesse Nacional, mas lógica do ponto de vista partidário, quem poderia substituir o PS nesta cooperação tão desejada? Apenas o Presidente da República, mas como também já escrevi, de Cavaco Silva pouco ou nada podemos esperar, pois a interpretação que faz dos poderes que na realidade tem, é minimalista, pequena e confinada à magistratura de influência. O silêncio tem sido o “modus operandis” e a verdadeira função, que era a de obrigar os partidos do arco da governação a um entendimento e à consensualização de um documento estratégico Nacional para a próxima década, tarda e nunca será uma realidade.
 
Com mais ou menos sucesso, passámos com nota positiva a 6ª avaliação da Troika, mas mais do que nunca, chegou o momento crucial para demonstrar aos nossos credores e parceiros internacionais, que Portugal cumpriu, com sangue suor e lágrimas, mas que os resultados estão muito aquém do esperado. Porquê? Porque as condições de partida estavam viciadas, o défice não era de 6% mas de quase 10%, porque a desorçamentação em quase todos os Ministérios era uma prática que uma vez reconhecida representaria grosso modo mais 1% do défice, que o BPN, RTP e Empresas públicas de transportes agravariam o défice, que a previsão quanto ao ambiente macro-económico falhou nomeadamente nos países da Zona Euro, afectando assim as exportações Portuguesas, etc, etc...
 
Portanto e perante estes factos, volto à questão do Presidente da República como um dos pilares da democracia Portuguesa.
 
Não tenho dúvida, de que ficaria na historia e prestaria um enorme serviço ao País e aos Portugueses, se conseguisse obrigar PSD, PS, CDS, UGT, CPP, etc..., a um entendimento, vertendo num documento estratégico para a próxima década, questões como, a revisão do memorando de entendimento, uma política de crescimento económico e emprego, a competitividade, a justiça, a revisão constitucional e finalmente a definição do estado social que o País tem capacidade para suportar.
 
Se bem que esta discussão deveria ser alargada à sociedade Portuguesa, pois trata-se de contratualizar um política para o futuro, a descrição e a reserva durante o processo negocial deveria ser mandatória e só no fim e depois de assinado por todos, deveria ser convocado um referendo, para o legitimar.
 
Só depois deste processo é que os partidos estavam autorizados a voltar à lógica partidária, à demagogia, à mentira e ao ilusionismo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Falou e disse

Assisti com particular atenção à entrevista do Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, à televisão pública e, sincera e objectivamente, gostei.

Desde logo, apreciei a coragem em relação ao problema da ocultação do défice na Madeira. Sou daqueles que sempre tiveram estima por Alberto João Jardim e que reconhecem a magnífica e notória obra que fez na região autónoma. Contudo, numa altura em que carregamos a maior cruz financeira de que tenho memória, não há gastos à tripa-forra ou falta de cuidado orçamental que possa admitir-se, por muito que simpatizemos com o gastador em causa.

Restava, por isso, perceber como iriam ser os passos de Coelho numa matéria em que os presidentes do PSD sempre tiveram o maior recato opinativo. Ora, numa atitude que só surpreende quem não teve o prazer de o conhecer, Passos Coelho não teve problemas em reputar a atitude de inadmissível e irrepetível, anunciando que não se associaria à campanha madeirense. Que fez a oposição que tanto criticara anteriores presidentes por alegada complacência??? Criticou outra vez, mostrando o que as pessoas menos apreciam: o lado cénico e táctico da política (aquele que pode até destruir reputações porque “convém ao grupo”).

Gostei ainda da entrevista do Premier pela honestidade. Seria fácil especular, designadamente sobre a taxa social única e sobre o IVA, mas não o fez, reconhecendo humildemente que não estava em condições de quantificar as medidas, para já.

E no que respeita àquela taxa, sublinho ainda o patriotismo ínsito nas respostas de Passos Coelho, quando confrontado com as “exigências” do FMI no sentido de um corte de oito pontos percentuais. Explicando as razões económicas pelas quais não seguiria a amável sugestão dos burocratas, Passos afirmou-se como político ao dizer que Portugal não seria um laboratório do FMI.

Em igual medida revelou sentido de Estado, infirmando as notícias que davam como certo o avanço do TGV por pressões espanholas e europeias.

Em terceiro lugar, a mesma sensibilidade política e social lhe vislumbrei ao dizer que havia que graduar os cortes na Saúde, Segurança Social e Educação, razão pela qual a despesa está a baixar mais lentamente. O que gostaria de ter ouvido era uma opinião daquela esquerda que se diz campeã do social e que nunca explica como manteria o sistema actual, pedindo, ao mesmo passo, um corte abrupto na despesa do Estado (sendo que só nos sectores mencionados os cortes farão real diferença orçamental, por muito que todos os sectores devam emagrecer).

A terminar, uma palavra para a serenidade e educação que revelou ao longo de toda a entrevista, não crispando o semblante nem nas questões mais “atrevidas”. Eis as razões por que gostei do primeiro exame, numa televisão que o próprio entrevistado disse que vai ter que mudar de vida.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Passos seguros

Entrando no tema, tem o título não a ver com o próximo Secretário-Geral do PS (parece-me seguro que seja Seguro), mas sim com os primeiros passos de Passos (Coelho) no Governo e com as suas opções políticas.

Desde logo, louva-se o recato com que se construí a aliança com o CDS e com que foi elencado o novo executivo, sempre comunicado em primeira mão ao Presidente da República.

Louvo ainda a escolha de Assunção Esteves para Presidente da Assembleia da República, embora não pelo simples facto de se tratar de uma mulher; quando me opus ao sistema de quotas, de cujo mérito ainda duvido, foi por entender que a competência deve ser premiada sem olhar a raça, sexo ou credo. Elogio a sua eleição por se tratar de uma política séria e de uma jurista brilhante.

Em terceiro lugar, creio que Passos Coelho soube combinar a inclusão de membros partidários com independentes, numa mistura de sensibilidade política com mais-valia técnica. Designadamente, entendo que “posicionou bem no terreno” os elementos mais políticos, com destaque para o papel coordenador de Miguel Relvas, alma da máquina que levou Passos Coelho à presidência do PSD, primeiro, e do Governo, depois.

Dito isto, paro a marcha da prosa para uma ressalva: pode ser perigoso o elogio exacerbado dos independentes. Certo que é bom ter gente consciente da “vida real”, mas políticos foram, são e serão precisos para uma orientação estratégica e ideológica. Nefasto, como alertam vários estudiosos, seria o “governo dos técnicos”. Espero, por isso, que se não cavalgue a onda da demagogia tanto neste aspecto, como em atoardas menores como a de um alegado excesso de secretários de Estado. A dimensão das reivindicações a um Estado (ainda) Providência obrigam a cobrir vários pelouros, sendo que a diminuição do número de ministros teria sempre que ser compensada.

Verei com atenção particular o que ocorre em duas secretarias de estado: em primeiro lugar, a da Cultura, que deixando de ser ministério ficou, e bem, sobre orientação do Primeiro-Ministro, tal como sucedeu com Santana Lopes e Cavaco Silva. Como a Cultura (erradamente, a meu ver) é alvo fácil de cortes em tempos de crise, espero que a independência de Francisco José Viegas não se traduza em menor poder reivindicativo. Dada a sensibilidade de Passos Coelho creio que tal não acontecerá.

Depois, vejo com entusiasmo a nomeação de Paulo Júlio para Secretário de Estado da Administração Local. Como dirigente partidário e autarca sempre foi um político de mão cheia, pelo que tenho poucas dúvidas sobre o seu sucesso futuro. A ver vamos…

terça-feira, 14 de junho de 2011

Balanço e contas

Não era preciso ser mago para prever, como fiz, o que iria acontecer no dia 5 de Junho.



Começo por observações laterais para dizer, em primeiro lugar, que a jornalista da Rádio Renascença que fez a pergunta sobre o eventual (res)surgimento de processos judiciais contra Sócrates deveria ser internamente castigada, para defender o bom nome da emissora! As razões?! Ou impreparação (leia-se ignorância) ou calúnia.



Das duas, uma: ou afirmava claramente que os processos (Face Oculta, Freeport, etc...) tinham sido encobertos pelo desempenho cargo de Primeiro-Ministro (que ficaria rico com a indemnização que iria receber, presume-se) ou percebia que não pode insinuar coisas destas (a tal incompetência).



E escusam as boas gentes laranjas de ficarem contentes, pois este tipo de coisas vindas da comunicação social recai sobre qualquer figura pública, independentemente da "cor". O problema é deontológico e tem a ver com o fim do jornalismo de “escola” (e mais não digo…) e com a dessacralização excessiva da política. O poder ainda não caiu na rua, mas já foi prensado nas rotativas, depreciado nas ondas hertzianas e caricaturado nos noticiários.



Depois, registo o tremendo trambolhão que o Bloco de Esquerda deu, ficando com metade dos deputados que tinha (ao perder o Prof. Pureza perdeu, talvez, o mais sensato) e, sobretudo, com metade dos deputados do PCP, o que representa uma goleada nesta “liga dos últimos”. A lanterna vermelha mudou de mãos…



Finalmente, numa opinião pessoal, as pessoas perceberam o embuste e penalizaram o trotskismo aburguesado em desfavor do marxismo genuíno, embora anacrónico. E Louçã deixou cair a máscara na noite eleitoral, ao anunciar que não se demite. Até Daniel Oliveira entendia, na SIC N, que tal era inevitável...



Em terceiro lugar, não sendo de prever dramas de maior nas negociações entre PSD e CDS, o problema é fixar a altura da fasquia do sucesso governativo. A meu ver, tal pode medir-se situando a aprovação no cumprimento atempado e bem sucedido das metas da troika, fixando-se o louvor e distinção na eventualidade de se anteciparem essas metas.



Convenhamos que, sendo a situação grave e incómoda, vale a favor de quem governa a possibilidade de transferir parte do odioso para instituições estrangeiras (abertura que, todavia, penso que Passos Coelho não usará, dada a sua integridade rígida). Creio até que o mesmo acordo, que menciono implicitamente, será um obstáculo a qualquer laivo de acutilância por parte do PS que, ademais de tudo o resto, assinou o documento.



Por falar em PS e a fechar, creio que Assis é mais consistente, mas que Seguro é mais “vendável” eleitoralmente. Inteligente foi, mais uma vez, António Costa que, ao abrigo de um compromisso real e sério com a Câmara de Lisboa, percebeu que o próximo líder socialista dificilmente virá a governar.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Vaticínio

Se tivesse que apostar, diria que o PSD vai mesmo ganhar as eleições no próximo domingo. As razões são, a meu ver, as mais diversas:


1. Pedro Passos Coelho fez uma campanha serena, recusando estilos que não eram o seu e para os quais, aposto também, tentaram empurrá-lo. Conhecendo-o há mais de vinte anos, posso crer que a sua “teimosia” terá vindo em seu auxílio. Passos Coelho trouxe uma brisa de boas ideias e de sinceridade, num furacão de crises, acusações recíprocas entre os partidos maiores e de insanas candidaturas de partidos marginais, cujos candidatos melhor fariam em ir trabalhar.


2. José Sócrates não fez tudo errado, como alguns querem dizer. Porém, seis anos de governação num Estado de viabilidade dúbia e numa crise global só não destroem completamente pessoas com uma auto-estima férrea como o nosso Premier. O PS que se convença que só mesmo Sócrates daria tanta luta, num contexto tão difícil… Guterres, por exemplo, teria fugido há muito, e Seguro nem sequer teria sido reeleito.


3. A alternância (em certos casos parece mais alterne…) tem ciclos cada vez mais curtos. Não só a voragem mediática faz com que tudo (mesmo governos) “passe de moda” mais depressa, como os problemas criados pelo excesso de poder do aspecto financeiro empurram para a rendição políticos (todos) incapazes de tornarem uma pequena economia num grande maná financeiro (ou vice-versa), visto que as regras do jogo estão feitas à medida dos grandes.


4. Como escreveu Marcelo Rebelo de Sousa em 1991, “o CDS é um partido pequeno porque não tem votos e não tem votos porque é um partido pequeno” (cito de cor). Por muito que, merecidamente, Portas (é mesmo ele, não se iludam os militantes do PP) eleve o partido para patamares perdidos na história, só a implosão do PSD os elevaria à condição de challangers. A mim já me basta o facto de, final e aparentemente, o eleitorado ter percebido o que (não vale) o Bloco de Esquerda… Tudo isto, mais uma vez, aponta para uma vitória social-democrata.


5. Mais perigoso é o facto de essa mesma vitória ser marginalmente ditada por eleitorado que vota “apenas” porque está cansado do actual inquilino de São Bento… Há os militantes que votam com entusiasmo, mas creio que a nossa política se rege em fatia demasiadamente larga pela ideia de que há que mudar só para ir rodando os protagonistas da desgraça anunciada. Tirando Passos Coelho e mais meia-dúzia de nomes (re)conhecidos (a era dos barões morre a 5 de Junho, note-se), ficam jovens turcos; “doutores” que sabem recitar normativo europeu e interpretar as bolsas de valores e “engenheiros” que conhecem as “Conferências TED” e que sabem aplicar a inovação às campanhas, mas a quem “ideal social” diz tanto como farinha “Pensal” e a quem o livre pensamento causa urticária e dá direito ao ostracismo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nobre no PSD


Continua a causar polémica a candidatura de Fernando Nobre à Assembleia da República, como cabeça de lista do PSD no Círculo de Lisboa. Ao contrário do que muitos possam pensar, a aceitação do ex-candidato presidencial não é assim tão surpreendente. Em mais que um acto eleitoral anterior, Nobre demonstrou que, sob o rótulo moralista de independente, é possível apoiar partidos da esquerda à direita (entenda-se o BE, o PS e o PSD).

Com isto, Pedro Passos Coelho contraria as críticas que pairam sobre a sua direcção, alegadamente escrava do aparelho - Nobre não participou no processo de angariação de votos interno, nem acompanhou o actual líder do PSD no roteiro da carne assada; além disso é um homem dedicado à causa da ajuda humanitária e este espírito aberto do PSD só lhe fica bem.

Vejamos: não haveria mal nenhum em que o ex-candidato presidencial aceitasse integrar a lista, mas fazê-lo depois de ter jurado que nunca aceitaria um ingresso partidário (ao mesmo tempo que protagonizava violentas críticas à partidocracia portuguesa) e sem consultar nenhum dos seus apoiantes mais próximos a Belém, revela uma lamentável falta de carácter.

Dito isto, o anúncio de que Nobre será investido na segunda figura da Nação, caso o PSD tenha a maioria, também significa correr um risco. O ex-candidato a Belém poderá aprender com facilidade as figuras regimentais de que dispõe o Presidente da Assembleia da República, mesmo sem nunca ter sido Deputado; pelo contrário, dificilmente limpará a nódoa do seu contorcionismo político.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Alegremente encavacados

Quase sem pano para mangas, lá decorreram as eleições presidenciais…

Podemos, porém e tentando escapar ao comentário mais (de)batido, tentar rever a matéria dada, com cunho pessoal.

Assim e desde logo, parecem de mau perdedor as linhas que se escreveram e leram dizendo que Cavaco Silva ganhara bem, mas aquém das expectativas. Olvidam os “palpitadores” profissionais o facto de esta não ser a primeira, mas sim a segunda vez consecutiva que Cavaco ganha eleições presidenciais à primeira volta e, já agora, a segunda derrota que Manuel Alegre soma de igual forma.

Pode sempre dizer-se que, mesmo com um bom resultado, haveria melhores formas de discursar, no momento da consagração. Aqui chegados, divide-se-me a alma: por um lado, entendo que o Presidente reeleito deveria ter sido magnânimo e conciliador, mas, por outro lado, entendo bem a saturação com os enxovalhos e insinuações de que foi alvo (só quem passou por isso – eu senti na pele, em menor escala, o que é ter o trabalho sabotado pela própria equipa e enfrentar uma campanha difamatória quando, finda a tarefa, se bate com a porta – sabe o que custa).

Quanto ao Poeta de Águeda, eu bem avisei… O ataque violento e o discurso do “resistente”, do “antifascista” e do “republicano” cheiram a mofo e têm cada vez menos a ver com a política contemporânea, em que novas e velhas gerações não têm medo de fantasmas políticos que já não voltam, vivendo bem com a História de Portugal. Além disso, os ataques sucessivos ao seu (???) PS, haveriam de ter consequências…

Já quanto a ganhadores, sou dos que pensa que o Sr. Coelho ganhou na justa proporção em que perdeu a dignidade (se ainda a havia) da nossa política. A sua candidatura faz sorrir, mas é própria do Parque Mayer e não de um palco onde deveriam desfilar as mais nobres questões da nossa democracia constitucional. Bem mais inteligente e interessante é o aparecimento regular de Manuel João Vieira que, todavia, tem o bom senso de não passar de momentos de contracultura, quando facilmente arranjaria as assinaturas necessárias à formalização da candidatura.

Quem me parece que, secretamente, também deve ter cantado vitória é José Sócrates… Senão, vejamos: no primeiro mês em que os funcionários públicos vêem os salários e pensões reduzidos, quem paga a factura é um dos seus maiores incómodos dentro do PS que, ademais, fica definitivamente debilitado, pois sofre segunda “goleada” seguida e nem sequer tem o palco parlamentar para se perpetuar, como fez durante anos. Para além disso, creio que o nosso Premier terá na mente que Cavaco Silva apenas o demitirá se a sua permanência começar a prejudicar a imagem presidencial. Cavaco Silva nunca fez favores ao PSD (Fernando Nogueira sabe-o o bem) e sentiria menor margem de intervenção se o Governo adquirisse matizes alaranjados.

Pedro Passos Coelho, esse, passou com distinção mais um teste, não ficando a dever o que quer que seja a Cavaco Silva, como, suspeito, não quererá ficar a dever a quase certa chegada a São Bento.

De saída, registar que Mário Soares voltou a ficar em terceiro lugar. Ou ainda é daqueles que acredita que a candidatura de Fernando Nobre foi espontânea?!...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A pouco e pouco

Acabo de ver a declaração conjunta de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho, em São Bento, a propósito da crise provocada pela descida do rating de Portugal, efectuada por uma dessas absurdas e vampiras empresas de notação financeira (a Standard and Poor's) - como se não fossem estes palhaços os responsáveis pelos belíssimos ratings que tinham algumas das empresas que estiveram na génese da crise mundial que ainda vivemos...

Voltando ao tema, se do primeiro digo que acredito estar a fazer o melhor que sabe, ao segundo louvo a responsabilidade, a serenidade, o sentido de Estado e a seguríssima caminhada para o cargo de Primeiro-Ministro (como Durão Barroso outrora, poderá dizer que "só não sabe é quando"). Esta ida a São Bento poderá ter sido também uma daquelas visitas das imobiliárias, para tirar as medidas ao "apartamento".

Fica por perceber é se vão ou não tomar-se as medidas drásticas de que carecemos; e não falo de cortes no décimo terceiro mês (como já ouvi), mas sim de algumas obras que, não deixando de ser necessárias, terão que esperar.

Oxalá Passos Coelho consiga persuadir Sócrates a faze-lo, mas para isso terá que dar-lhe margem para recuar com honra.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Os doze passos de Coelho - parte II

Volto ao tema dos doze passos/trabalhos de Pedro Passos Coelho, já depois do congresso da sua consagração, que, a meu ver, mostrou já sinais bem positivos, designadamente naqueles que baptizei como 5º e 6º passos: o novo líder laranja soube constituir uma equipa equilibrada e rejuvenescida e foi conciliatório.

No meu modesto modo de ver, falta ainda:

7º Definir claramente prioridades políticas que passem por tornar a nação portuguesa instruída, culta e, logo, qualificada. Tal consegue-se com uma afinação de prioridades na Educação, com o fim da sub-orçamentação do ensino superior, com um investimento permanente na Ciência e, sobretudo, com uma aposta muito mais relevante na Cultura e na definição da sua essencialidade para a completa formação dos seres humanos.

8º - Programar com cuidado a aplicação do modelo de Estado defendido. Se é certo que o Estado Providência, que a tudo e a todos procura acudir, está relativamente esgotado, a mudança brusca para um paradigma liberal pode ser desastrosa. Digo-o não apenas por entender que é preciso um relevante lapso de tempo para vencer o costume assistencialista de cuja obrigatoriedade se convenceram as pessoas singulares e colectivas, mas também porque falta ao povo português a cultura cívica que é sine qua non para essa mudança.

9º - Cumpre, de uma vez por todas, estudar o sistema político e tomar decisões. Por exemplo: é ou não conveniente um sistema eleitoral que combine as vertentes maioritárias com as proporcionais (círculos uninominais com uma lista nacional, por outras palavras)? É que se, por um lado, a representatividade era o fito do pós-25 de Abril, por outro lado, a governabilidade (típica dos sistemas maioritários) já foi alcançada por três vezes, sem alterar o sistema. Acrescem os perigos de se entronizarem campeões do populismo, ainda que a possibilidade de responsabilizar os eleitos seja atractiva em teoria.

10º - Passos Coelho deve procurar recuperar a ideia de políticos que dêem exemplos de boas práticas. Prestigiar a política é essencial para desenvolver o País com o envolvimento de todos. O conselho de escrutínio de nomeações que propôs em sede de futura revisão constitucional parece uma boa ideia.

11º - Se as eleições presidenciais parecem ganhas, estancar o recuo autárquico do PSD é urgente, pois esse sempre foi o tabuleiro que proporcionou ao partido a sua mais fidedigna forma de contacto com os eleitores.

12º - Creio, por fim, que Passos Coelho deve almejar a maioria absoluta, não apenas em face do desgaste do Governo actual, mas sobretudo porque as mudanças que propõe dificilmente terão vencimento se o PSD, com ou sem o CDS, não tiver maioria. Ademais, esse é o remédio para a crónica instabilidade política e mediática de Portugal.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Os doze passos de Coelho

Depois da sua categórica vitória e usando a deixa de Asterix, creio que Pedro Passos Coelho tem que encontrar a sua poção para tornar o PSD numa alternativa credível e em que também o imenso eleitorado flutuante possa rever-se. Por simpatia de arrumação lógica, eis os seus doze trabalhos ou passos:

1.º - Persuadir o eleitorado de que, agora sim, alguém tem um projecto que resolve (e não remedeia apenas) os problemas de Portugal. É uma sensação que já não percorre os eleitores desde a primeira eleição de José Sócrates, em 2005. A diferença cifra-se em conquistar o poder e a disponibilidade da sociedade para a mudança ou esperar que o PS perca as eleições, recebendo o poder por “K.O. técnico” do adversário, sem entusiasmo do eleitorado.

2.º - Definir um modelo ideológico e, logo, um ideal social. Temos que explicar às pessoas o que queremos fazer com o seu voto, antes de lho pedirmos; esta foi uma máxima que escutei a Passos Coelho, em 1991, e que creio fazer todo o sentido, mormente quando a falta de clarificação ideológica do PSD tem dado margem de crescimento a um CDS que, não descurando alguns traços conservadores, se assenhoreou do espaço liberal clássico.

3.º - Para isso, entendo que deve repensar o Instituto Sá Carneiro, convertendo-o num gabinete de estudos que, mais do que ser chique e mediático, elabore doutrina e planos de acção para o partido, mas sem se metamorfosear num feudo de jovens “cientologistas” (uso o termo deliberadamente) da política, que o transformem numa célula de propaganda e de emprego para os amigos ou num Cavalo de Tróia, onde se acoitam reservistas para um domínio perpétuo do PSD. Deve tratar-se de uma estrutura com método, mas aberta ao caos próprio do pensamento criador, e aberta a todos sem excepção (quem avisa… ).

4.º - Olhar criteriosamente para os estatutos do partido, clarificando sem margem para dúvida quais as suas opções em matérias cruciais como a eleição directa do presidente e a disciplina, entre outras.

5.º Constituir uma equipa dirigente que faça o equilíbrio entre os capatazes e os arquitectos; ou seja, premiando quem arregimentou votos, mas não desprezando os que gostam de pensar a política sem que tenham, por razões variadas, militantes a toque de caixa (vale a pena fingir que os não há?!).

6.º Concomitantemente, terá Passos Coelho que domar os ímpetos pós-revolucionários. Quero eu dizer que não será fácil conter alguns generais e coronéis do seu exército, que terão vontade de fazer rolar cabeças. Há gente importante para o PSD e para Portugal no terço de militantes que não votou novo premier laranja, havendo que resistir à medíocre tentação do tiro à elite, que alguma rapaziada distrital (não, que saiba e felizmente, em Coimbra) nutre. O tempo é de conciliar, mesmo que, no mandato anterior, os ditos barões (também em Coimbra) tenham visto o PSD como uma coutada pessoal.

Para a semana, terminaremos a saga.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A hora do Coelho

Na próxima sexta-feira, os militantes do PSD com quotas pagas (no meu caso, orgulhosamente, por mim próprio) poderão (deverão?) escolher o presidente do partido, levando em linha de conta não os rancores idiotas que introduziram um cisma do tipo claque (cá estou eu a sonhar acordado…), mas sim o perfil que consideram desejável para levar o PSD a uma vitória muito possível, se não mesmo provável.

Desta vez, mesmo engolindo sapos (com ele está o PSD da “folha de Excel” – ou seja, o aparelho puro e duro) os meus passos vão, de novo, para o Coelho que parece poder saltar da cartola social-democrata.

Desde logo, trata-se de um candidato que, sem alardear rupturas (resta saber com que passado rompe um neófito como Rangel, mas isso deve ser um preciosismo lógico da minha parte…), não espera que o PS perca eleições (coisa que o seu Líder não concede de barato, como pôde constatar Manuela Ferreira Leite), propondo-se ganhá-las de modo afirmativa e com um projecto que, corajosamente, publicou em livro, assim selando o seu compromisso político.

Depois, quando há opinião unânime dizendo que José Sócrates é um mestre da comunicação política, seria errado não acautelar esse aspecto. Todavia, o resultado, a curto e médio prazo não se alcança com uma saturante retórica ao estilo da I República, nem espetando o indicador a troco de tudo e de nada, antes se recomendando um discurso claro e uma postura imaculada, como tem Passos Coelho.

Em terceiro lugar, gosto da frontalidade de Pedro Passos Coelho. Não sei se concordo com ele na sua posição sobre a Lei das Finanças Regionais (creio que não), mas sublinho-lhe a coragem de contrariar um senador do PSD, como é Alberto João Jardim. Aliás, o “caminho das pedras” não lhe é estranho, pois já nos seus tempos de JSD dizia a Cavaco Silva o que outros não ousavam sequer pensar (lembro que a “sua” JSD teve um projecto de revisão constitucional autónomo).

Realço ainda que a maturidade das suas posições é notória; lembro o pedido de demissão do Procurador-Geral da República, que acho excessivo, mas ainda assim mais inócuo do que denegrir o País numa instância europeia (de novo, Paulo Rangel). Trago, por fim, à colação a categoria com que foi apoiar Manuela Ferreira Leite no comício de Vila Real, depois de esta o ter excluído da lista de candidatos do distrito.

Claro que, como disse, há um “mas”. Com excepções como a do concelho de Coimbra (onde conta com o apoio de gente prestigiada), a necessidade de angariar votos levou-o a incorporar muita gente de “listagem no bolso” e computador portátil nas reuniões e alguns jovens turcos ávidos de poder e parcos em tolerância; assim a sua mestria os venha a domar, depois de vencer…

Em todo o caso, é a escolha mais interessante.